chacrinha

Sábado assisti pouco mais de uma hora de uma reprise de um programa do Cassino do Chacrinha. Foi uma experiência muito interessante em vários níveis, e provocou uma epifania um tanto incômoda em minha cuca, cuja trajetória se resume da seguinte forma: a) num primeiro impacto pensei “tu vê só, um dia o Brasil já foi assim”; b) alguns minutos depois pensei “as pessoas pareciam mais felizes, será que era mesmo melhor?” muito embora o programa fizesse propaganda do Governo José Sarney e eu me lembre muito bem desse governo, com racionamento de carne e inflação de mais de MIL por cento ao ano; c) por fim me dei conta de que “o Brasil ainda é 100% assim, a diferença é que no final dos anos 80 a Globo ainda estava conectada ao povo brasileiro, e hoje em dia (e há anos) não está mais.”

De repente fez sentido o IBOPE da Globo estar cada vez menor enquanto o de redes que ainda buscam um contato com a massa brasileira, como a Record e o SBT, estarem cada vez maiores.

(…)

Fora isso, fiquei bastante impactado com o programa de modo geral. A dança das Chacretes (todas batizadas com nomes de guerra intensos como “Sandrinha Toda Pura”, “Gracinha Copacabana” e “Gleice”), focadas de baixo pra cima, com closes escancarados em suas bundas e virilhas; o desfile interminável de artistas de grande vulto como Biafra, Sylvinho, Benito di Paula, Sandra Sá, Almir Guineto, Sarah Jane e Luís Caldas, todo mundo mandando ver num playback extremo; as mensagens de apoio ao governo José Sarney na voz do Chacrinha, no texto de algumas placas levantadas pela produção e na fala de alguns de seus jurados (que incluíam Elke Maravilha, João Kléber e Sônia Abraão); as roupas, cortes de cabelo e formato do corpo das pessoas, entre artistas e populacho, equilibrando-se num espaço esquisito entre o final dos anos 70 (costeletas, camisa aberta, calça boca de sino) e o auge dos 80 (ombreira, mullet, calça de jeans nevada); o arremesso de jacas, abóboras, melancias, quilos de arroz, feijão e farinha à plateia, geralmente acompanhados de anúncios pró-governo federal (cujo slogan na época era “Tudo pelo social”).

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Não tenho a menor dúvida de que esta aura segue intacta em qualquer boteco com mesa de sinuca que vende pinga, qualquer puteiro de beira de estrada frequentado por caminhoneiros, qualquer município com menos de 50 mil habitantes que ainda conserva o mais puro suco do brasileiro – e ainda não sei muito bem o que fazer com essa constatação.

Vamos deixar assentar mais uns dias.

rapidinhas da madruga

Outro dia criei uma senha fácil de lembrar, porém difícil de escrever, posto que é uma frase comprida cujas palavras são compostas de letras posicionadas de formas esquisitas, obrigando o vivente a demonstrar uma certa destreza digital na hora de completar o formulário. Agora: que merda se o cara se bobeia por um décimo de segundo e erra uma letra na digitância: tem que apagar tudo e começar de novo.

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Pior vida atualmente: a desse maluco que era pra ser o apresentador do Troca de Passes, no SporTV, mas deu o azar​ de terem colocado o Roger no programa com ele – que aí não tem muito jeito, Roger é muita manha, lábia e carisma, ele rouba a cena 100% das vezes, come o cara com farinha, e quando botam na bancada junto com ele o Ricardo Rocha chega a ser covardia, dá pra ouvir os ossinhos do cara estalando enquanto os dois boleiros mastigam.

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Tive um sonho meio confuso e claustrofóbico de uma festa – como são todos os meus sonhos que se passam em ou contém uma festa – e aí no semifinal (o ato penúltimo) rolava uma bad, as luzes se acendiam e eu perdia meu celular, aquela sensação de merda de quando tu acaba de constatar que perdeu uma coisa, especialmente quando é uma coisa que tava contigo até um segundo atrás, que tu cuida bastante, enfim, que merda, só que aí um segundo antes de acordar eu encontrava o celular debaixo de uma mesa de madeira escura, tinha uma toalha em cima, e portanto quando acordei eu tinha um sentimento de satisfação ou completude me inundando a cuca, diferente da frustração com a qual eu costumo acordar quando me acontece o contrário e eu não consigo encontrar uma pessoa, um lugar, uma coisa que se perde de mim no meio do sonho. Mas ruim mesmo é quando tu acorda sem lembrar do teu sonho e passa o dia inteiro com esse sentimento xarope no fundo, sem saber nem poder contra-atacar. Aí it’s a fuck.

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Fui num vascular essa semana ver se estava mesmo desenvolvendo varizes e não é que as veias resolveram diminuir grotescamente de calibre bem no dia da consulta? A favor do acaso vamos levar em conta que fez frio pra caralho (9 graus com sensação térmica que arranhou o 1), os vasos se contraíram e, quem sabe, andei exagerando.

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Também tem mais uma coisa: no fim das contas funcionou pra caralho aquele lance de meter 10 apoio e 10 abdominais pra cada hora trabalhada. Aconteceu uma coisa maravilhosa: o fato de estabelecer uma janela de tempo determinada de trabalho entre uma sessão de exercício e outra aumentou MUITO o meu foco, fazendo com que minha produtividade simplesmente TRIPLICASSE. Na verdade, em termos de volume ela continua exatamente igual, mas reduzi de 15 para 6 horas diárias meus turnos de trabalho – o que é um resultado bastante significativo tanto em termos mentais quanto físicos: como fico menos tempo sentado, exerço menos pressão nas pernocas do Dideira e posso avaliar com mais segurança se as veias inchadas e a sensação de peso nas pernas foram algo transitório ou uma condição crônica incurável (embora perfeitamente tratável). A ver.

física?

Talvez o salto de compreensão mais importante do universo que tive nos últimos anos foi o de perceber, de forma definitiva e inescapável, que o que existe entre o seu nariz e o nariz da gata que logo mais irá beijar, este mesmo espaço por onde se deslocam os pássaros e os aviões, não é, de fato, um espaço, e sim um FLUIDO, onde estamos todos nós imersos, o tempo todo, desde sempre.

Fora isso, acho um ótimo exercício mental tentar compreender isso – e também a forma como o tempo e a velocidade se apresentam de formas radicalmente diferentes em diferentes escalas (uma formiga correndo freneticamente ainda chegará muito depois de um elefante arrastando-se morosamente pela mesma superfície).

mens sana in corpore sano

Como muitos devem ter percebido, após um começo de ano promissor, a empreitada de intensificação do Projeto Zé Roberto deu uma certa estacionada nos últimos tempos. Embora siga no pilates duas vezes por semana (que hoje, por sinal, faltarei por motivos de trabalho atrasado), abandonei de forma inclemente o meu próprio programa de Bombardeio, Castigo e Surra do Core e não busquei nenhuma alternativa à capoeira como exercício aeróbico complementar.

Como presente, desenvolvi o que provavelmente são o princípio de um quadro de varizes (veias que pulsam e se dilatam na panturrilha e nas canelas acompanhadas por uma sensação de peso e cansaço) e, mais recentemente, um incômodo na metade das costas que deve ser algum músculo distendido. Preciso ver essas coisas aí.

Enquanto isso, ainda tenho duas semanas de trabalho muito intenso para cumprir meus prazos na tradução da biografia do Leonardo da Vinci escrita pelo Walter Isaacson. Serão mais de 50 páginas por semana, o que se traduzem em muitas e muitas horas de bunda gastas numa cadeira.

Para compensar a violência que impingirei à minha carcaça, desenvolvi o seguinte plano emergencial para os próximos 15 dias que, caso se mostre viável, pode ser adaptado para um uso mais prolongado.

Para cada hora de trabalho sentado, uma série de 10 flexões de braço + 10 abdominais com as pernas suspensas a 90 graus + alongamentos. Levando em conta que tenho trabalhado uma média de 12 a 15 horas por dia, tendo a ficar bombado. Posso aumentar ou diminuir os valores de acordo com a performance, mas é importante sempre intercalar cada hora de trabalho com alguns minutos de exercício.

A ver se tem algum efeito.

Como hoje vou furar o pilates, fiz breve teste agora e achei bem churros esta novidade. Dez minutos depois, meu corpo está quentinho e satisfeito, se pá vai até me ajudar na concentração.

De todo modo, começando: amanhã.

carpe diem

Num gesto automático de quem trabalha em casa, está gripado em casa, está no fim de semana em casa, ou está passando qualquer quatro horinhas direto em casa, fui até a cozinha e abri a porta do meu armário suspenso. Tinha um pacote de massa integral, um pacote de pão integral e uma caixa de Bis Oreo.

Contemplando a escassez fiquei pensando que muitas pessoas observando este cenário poderiam rapidamente concluir que o boneco tá mal. “Bah, coitado do cara, tá caído, a crise pegou forte, que merda,” coisa e tal.

Todavia, não é que eu tô mal. Pelo contrário.

A real é que morando num bairro coalhado de feiras, supermercados e restaurantes, tenho comido fora com certa frequência e, quando como em casa, tendo a comer coisas compradas no dia (ou há poucos dias).

A campanha, na real, da Petite – todavia, tamo junto -, de consumir menos alimentos industrializados vem de longa data, de forma gradual e sensível. Hoje acabamos indo muito mais à feira que ao supermercado, comprando quantidades menores de comida, em geral consumidas no mesmo dia em que são adquiridas. Em outras palavras: não estamos mais fazendo estoque.

Sem radicalismos, também: a caixa de Bis Oreo é prova cabal disso. Mesmo assim, a real é que já faz um tempo que tem menos pacote de bolacha e salgadinho no armário e mais castanha e fruta na geladeira.

(…)

Comemos bastante fora, também, em geral num buffet à quilo perto aqui de casa que batizamos carinhosamente de GAUCHÃO pois é de propriedade de dois gaúchos (um de Erechim e outro de Sarandi) – porém, antes de conhecê-los e saber disso, o pico já havia conquistado a alcunha por possuir uma churrasqueira, com boas carnes e gente que sabia assá-las.

Mesmo assim, hoje comemos menos carne do que no começo: vamos mesmo é pela salada. Por incrível que pareça. É sempre fresca, variada e farta, mas, melhor de tudo: está pronta. Convenhamos: a pior parte de alimentar-se de forma saudável é a PRODUÇÃO. Tem que escolher a verdura, negociar o preço, lavar, cortar/preparar, temperar, limpar tudo. No Gauchão tu chega com quinze minutos, te serve de pepino, cenoura, beterraba, alface, agrião, tomate, berinjela, abóbora (se quiser sempre tem fruta também), senta, come, paga e segue o dia. Vai fazer isso em casa: uma operação de, no mínimo, duas horas (sendo muito otimista).

(…)

Também me ocorreu que o cara escrever um texto dizendo “não tô mal” é uma das formas mais ululantes do cara dizer “tô mal”, todavia não é mesmo o caso, eu tô bem, sério, quer dizer, mais ou menos, quem é que tá 100% bem, não é mesmo, meus kids? A coisa tá meio feia sob todos os aspectos que se encara. Talvez um dos ângulos mais confortáveis de encarar a coisa seja ponderar que: pelo menos não vai durar muito. Logo mais vai acabar. De um jeito ou de outro.

discografia afetiva II

Disclaimer aqui.

Amandla – Miles Davis (1989). Estranho como o Flavito tinha esse gosto amplo no tocante ao jazz: na discoteca dele tinha dixieland, tinha standard, mas, principalmente, tinha essas loucuradas fusion dos anos 80 que eram, em grande parte, vamos admitir, meio chatonas. É tudo uns stabs, uns cowbell, aquele baixo do Seinfeld (nesse caso é do Marcus Miller, but still) e umas corneta meio desconcertante por cima de uns efeitos de robô passando mal. Não conversa muito comigo. Apesar disso tudo, sempre gostei muito de uma faixa grandona chamada Big Time, e foi bem bom ouvi-la de novo.

Airport Love Theme – Vincent Bell (1970). Um dos clássicos absolutos da minha infância. Eu tinha um pouco de medo, um pouco de fascinação por ele – e o Flavito escutava bastante. Aquela guitarrinha psicodélica que parece líquida é uma das lembranças sensoriais mais fortes que tenho. Lembrava com mais força da faixa-tema, mas o disco inteiro é muito bom e, aparentemente, bastante raro também. Ouvi-lo é uma boa forma de evocar a imagem da masculinidade adulta idealizada que eu tinha quando criança: cigarros finos tirados de um maço dourado, um apartamento esfumaçado com sofá de couro liso, quadrado, caramelo, janelas noturnas bem servidas, uísque com gelo num copo baixinho, uma mulher enfiada num penhoir mastigando uma piteira. Que criança eu era!

Luz – Djavan (1982). Neste ponto sou obrigado a fazer um mea culpa. Quando alguém taxa Djavan de chato na minha frente, tendo a defendê-lo com forte convicção. Pois essa convicção foi severamente abalada após ouvir este álbum que, de bom mesmo, só tem a espetacular Sina e a maravilhosa Samurai – ambas tão extremas que quase compensam o fato de todas as demais músicas serem absolutamente tenebrosas. Nem consigo lembrar direito das letras ou das melodias. Quase não deu pra escutar até o fim. Eu tinha uma memória afetiva muito mais favorável ao bardo das Alagoas. Veja só como são as coisas.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – Beatles (1967). Outro dia o disco fez 50 anos, lembrei que tinha trazido um exemplar surradão nessa leva de vinis da casa dos meus pais e fui sacar da embalagem pra botar na vitrola quando tive duas surpresas. A primeira: aquela página com uns desenhos para recortar – incluindo um bigode pra pendurar debaixo do nariz – que não lembro de ter visto quando era criança. A segunda: no selo do disco, uma assinatura do Henrique Schucman, o famoso tapeceiro do Pouso do Tapeceiro, da praia da Gamboa/SC. Enquanto ouvia o vinilzão pesado e grosso de 1967 (edição nacional) ficava me perguntando: “será que Flavito pegou emprestado o disco do Henrique e nunca mais devolveu?” Gosto muito do disco e acho todo ele bom, mas o ponto alto foi ouvir a “reprise” da faixa título e perceber que foi justamente ali que desenvolvi meu gosto pela música eletrônica (por conta do beat absolutamente fatal). Thanks, Ringo.

Portrait in Music – Burt Bacharach (1971). Sempre curti demais o easy listening do Burt, que é, disparado, o cara que fez as músicas mais fáceis de ouvir que eu conheço. Não lembro de uma que eu não goste. Esse disco em particular, todavia, não havia me tocado muito, posto que esperava que fosse todo instrumental, e estava repleto de uma cantoria sem muita graça. Todavia, escondido no finzinho do lado B havia um grande presente para o Dido: a faixa Any day now. Alguns anos atrás, acordei com a melodia do saxofone (ou clarinete) que sola no comecinho dessa música, sem saber que era dela. Procurei alguns dias na internet, assobiei pro SoundHound, tudo sem sucesso. Então liguei pro Flavito e cantarolei a melodia pra ele. Ele não reconheceu de imediato, mas achou familiar e foi procurar. Durante semanas, toda vez que eu ia almoçar na casa dos meus pais, ele me mostrava algum disco do Fausto Papetti, do Stanley Jordan, ou do Santana, crente que tinha encontrado aqueles acordes. Nunca era ela. Depois de algum tempo, paramos de procurar. Hoje, quando finalmente a encontrei, deu uma vontade enorme de ligar pro Flavito (que não usava Facebook e nem WhatsApp por princípio e teimosia) e, deixando a música rolar de fundo, declarar: “encontrei.” Mas isso não dá mais pra fazer.

South of the Border – Herb Alpert’s Tijuana Brass (1964). Não lembro do Flavito ouvindo esse disco sequer uma vez – bem como não lembro dele ter jamais posto pra tocar os compactos do TRINY LOPEZ, que ele também tinha. Mas lembro bem da capa, do impacto que me causou a logotipia e a essência latina que parecia estar ali contida. Mais velho, ouvi muito remix do Tijuana Brass, de modo que quando vi esse disco na discoteca do Flavito resolvi trazer, mesmo sem jamais ter ouvido. Foi uma escolha meio ruim. É um disco xarope, com versões meio pau mole de grandes sucessos, como Garota de Ipanema e Hello Dolly. Faltou uma pimenta, uma pólvora, um sangue correndo forte ali naquelas veias. Que pena.

Mais – Marisa Monte (1991). Sempre gostei muito de Marisa Monte, e esse disco é quase perfeito. A voz dela está muito bonita, as letras são ótimas (que grande canção é Diariamente). Tenho a vaga impressão de que o Flavito já tinha esse álbum em CD quando alguém lhe deu o vinil de presente. Faria sentido: foi por volta de 91 que ele deu pra mim e pro meu irmão nossos primeiros CDs (Ten, do Pearl Jam e Nevermind, do Nirvana). Acho que ouvimos muito poucas vezes esse disco, portanto – sobretudo ele.

Meus Caros Amigos – Chico Buarque (1976). Não transo um Chico Buarque, como é do conhecimento de muitos. Todavia hoje já aprendi a respeitar como o enorme compositor que é. De qualquer modo, esse era um disco dele que o Flavito ouvia muito. Lembro particularmente de Mulheres de Atenas, música que me enchia de pavor (junto com a música do Cálice e uma que não sei se era o Chico que cantava com a Mercedes Sosa). Por algum motivo associo essa música a um blusão de lã branco que o Flavito teve em algum momento. Não sei explicar o porquê.

Tim Maia – Tim Maia (1970). Mais um disco com história oculta, uma vez que: a) não lembro de ouvir o Flavito tocando jamais em toda sua vida; b) no selo está escrito o nome Ana Maria Czarobai, minha tia, irmã dele. Independentemente disso, trata-se de disco muito formidável, o primeiro do Tim. Tem alguns momentos meio dispensáveis, mas na média é uma sonzeira de altíssima qualidade, sobretudo Eu amo você. Que bom que está em estado perfeito de conservação, sem um mísero arranhão, com os graves totalmente preservados. Que joia extrema.

 

três do flavito

Lembrei de três histórias mágicas e emblemáticas do Flavito, que ajudam a resumir bem quem ele foi pra quem não teve a sorte imensa de o conhecer:

a) Quando éramos crianças, sempre que tinha festa de aniversário lá em casa, quando a festa acabava, o Flavito pegava eu e meu irmão, a comida que tinha sobrado e, junto com a gente, saía pela cidade num Fusca até encontrar um mendigo, um morador de rua, uma família embaixo de uma ponte e, juntos, doávamos a comida. Não lembro de ter nenhuma lição de moral aí, nenhum discurso. Não tinha um “ó, é isso que vocês tem que fazer.” A gente fazia e só. Passei anos sem lembrar disso. Décadas. Veio uns dois dias depois da morte dele, do nada, enquanto eu tomava um banho. Lembrando disso, eu chorei – mas não de tristeza, e sim de algum tipo de gratidão profunda que não sei nem explicar.

b) Já doente, no hospital, Flavito um dia esperou um enfermeiro muito gente fina que tinha lá sair do quarto, chamou a Sandrinha de canto e disse: “O fulano tá com dificuldades pra pagar a faculdade de medicina, que ele quer terminar pra mudar de vida. Quando eu sair daqui, quero ajudar ele a pagar a faculdade.” Não chegamos a fazer isso e é uma coisa que às vezes me incomoda. Me pergunto se não deveríamos ir atrás desse cara e fazer mesmo isso por ele.

c) Quando o quadro já era irreversível, mas Flavito ainda conseguia falar, beber e comer, ele insistia em fazer a festa de 40 anos de casado no Chez Phillipe, um restaurante francês que ele só foi descobrir mais velho, quando finalmente teve condições financeiras de frequentá-lo. Todos sabíamos que aquilo não aconteceria, mas, para que ele tivesse direito a uma última refeição, inventamos uma pantomima que dizia que o chef enviaria um dos pratos do cardápio para sua aprovação. Acontece que demos o imenso azar do Chez Phillipe estar fechando as portas definitivamente naquela semana. A família retornaria para a França, estava vendendo os móveis e equipamentos, provavelmente imersa em burocracia e dor de cabeça (sem contar a frustração). Mesmo assim, quando Petite ligou para lá e explicou a situação, o chef – que não nos conhecia, não tinha a menor intimidade com nenhum de nós – parou tudo que estava fazendo para cozinhar um filé espetacular com purê e legumes e um creme brulée para o Flavito. Nunca pude agradecê-lo por isso, mas que ser humano maiúsculo foi Phillipe Remondeau. Fiquei com ainda mais pena da cidade perder alguém como ele. Quando chegou o prato e o levamos até Flavito, a primeira coisa que ele fez foi: cortar um pedaço da carne e oferecer a TODOS que estavam ali antes de dar ele a primeira garfada.

Acho que isso resume bem.

morte

Hoje eu tenho uma relação bastante tranquila com a morte.

Nem sempre foi assim.

Durante a infância e, pelo menos, os primeiros vinte anos de nossas vidas (isso numa existência livre de tragédias e miséria, naturalmente), estamos imersos numa ilusão estranha que nos sugere que tudo é eterno, e que somos imortais. A partir daí, por uma série de fatores – acidentes de carro, overdoses, violência urbana, reta final da vida para os nossos avós e parentes mais velhos e uma maior consciência do mundo e da realidade – o assunto começa a entrar em pauta.

A minha teoria, bastante simples, é a seguinte: mesmo a partir desse choque de realidade, a esmagadora maioria das pessoas prefere continuar vivendo essa ilusão em vez de se preparar, lenta e gradualmente, para o fim inevitável – e é justamente por isso que a morte choca tanto quando se apresenta.

Eu procuro fazer diferente.

(…)

Tive a sorte imensa de ter conhecido os meus quatro avós. Convivi intensamente com os maternos (morávamos juntos), e de forma um pouco mais distante com os paternos (visitávamos minha avó aos fins-de-semana; meu avô só fui conhecer já adulto). Assisti todos morrendo. Os pais do meu pai, mais de longe. Os pais da minha mãe, muito de perto.

Minha vó paterna, Rosa de Toni, desenvolveu uma leucemia, mas, como ela morava em outro bairro e, que eu me lembre, jamais a visitei no hospital, apenas experimentei a sua morte como uma notícia amarga e esquisita dada pelo meu pai numa manhã de fim-de-semana. A minha reação, inesperada principalmente pra mim, foi um ataque de riso, algo que foi prontamente reprovado pelo meu irmão, mais novo, e mais sensível, mas, curiosa e maravilhosamente, compreendido e elaborado da seguinte maneira pelo meu pai, uma pessoa claramente de outro mundo: “Isso é normal. Cada um reage de um jeito.”

Fiquei com aquilo na cabeça. Aprendi (ou acreditei) que em situações extremas, tendo mais a rir que a chorar. Ou, talvez, em situações de morte, apenas. Tanto é que não consegui ir ao enterro da minha vó Elfrida Rosumek, ou do meu vô Pedro Pontes.

Se com a doença da vó Rosa eu tinha aprendido que alguns tipos de câncer tem uma melhora súbita e ilusória perto do fim só para depois despencar a toda velocidade no abismo, com a da vó Frida eu conheci o sofrimento que é manter uma pessoa entrevada numa cama por meses (talvez anos). Não lembro bem como tudo começou. Sei que ela teve um derrame e quando voltou para casa ficou acamada, sem falar ou se mover, dependendo de todos para tudo. Na verdade também não lembro muito bem desse período, ou quanto tempo durou. Eu ainda era uma criança. Lembro de vê-la algumas vezes no seu quarto, os olhos vazios, o corpo ainda muito presente, forte, quente. Com medo de ter ataques de riso no cemitério, não fui ao seu enterro.

O vô Claudio Czarnobai, marido da vó Rosa, a abandonou com quatro filhos para criar e foi embora de casa muito antes de eu nascer, de modo que eu só fui conhecê-lo efetivamente quando estava morrendo de um câncer no fígado e foi acolhido pelo meu pai, num episódio extremamente doloroso de sua vida, que também me deu as maiores lições sobre amor, compaixão e perdão que já tive. Nunca vou me esquecer da visita que fiz a ele no hospital. Parecia comigo. Parecia demais comigo. Comigo velho, grisalho, abatido, mas, ainda assim, eu me vi ali. Era um cara muito interessante, cativante, carismático. Falava gesticulando, era um homem bonito. Vi ali um vislumbre do meu futuro e senti, pela primeira vez, o grande vazio que ele deixou por não ter me encantado a vida inteira como fez naqueles cinco ou dez minutos. Lembro do meu pai encostado na porta do quarto, fascinado, com um sorriso largo no rosto e um brilho inconfundível no olhar. Na volta para casa, no carro, a conversa descontraída e leve de repente teve uma virada brusca: Flavito parou o carro, começou a chorar e disse “Eu já tinha matado o teu avô. Na minha cabeça, ele estava morto.” Não lembro de ter visto meu pai chorar outra vez. Uns dois dias depois, o vô Cláudio, de fato, morreu. Também não fui ao seu enterro, ou não lembro de nada. Eu já era mais velho, aqui, até na faculdade já andava. Mas ainda tinha mais coisas a aprender.

(…)

Meu vô Pedro, pai da minha mãe, foi quem definhou mais tempo, vítima do terrível Mal de Alzheimer. A doença foi ainda mais filha da puta por consumir sua mente enquanto o corpo seguia funcionando de forma perfeita. O vô Pedro era do exército. Membro da cavalaria, era também atleta, com recordes no atletismo que perigam ainda não terem sido batidos. Um negrão forte pra caralho. Aos sessenta e vários, certa feita, segurou com os braços um OPALA sem freio descendo desgarrado uma lomba para evitar que colidisse com o portão de nossa casa. Atravessou a maior parte da doença – que levou, na sua fase mais aguda, uns bons cinco anos – com o físico em dia, todos os parâmetros excelentes. Só derretia, mesmo, a sua cabeça.

Com a doença do vô Pedro, em dado momento, adoeceu a família inteira. Era muito, muito pesado. Meus pais tentaram poupar a mim e ao meu irmão o máximo que deu, mas já éramos adultos ali, ambos com mais de vinte anos, isso nem era tão necessário. Acabamos pegando junto na reta final, o que basicamente significava passar longas horas ouvindo as mesmas histórias enquanto fazíamos companhia (algo que se aproxima muito de uma tortura psicológica, sob certos aspectos). Mas também significava dar banho, ajudá-lo a comer e fazer suas necessidades fisiológicas. Pode até soar cômico, mas depois que tu limpa a bunda ou balança o pinto de um homem de 70 anos que tu sempre teve como referência de fortaleza e simbolo máximo de masculinidade, acontece alguma coisa na tua cabeça que muda pra sempre a forma como tu encara a existência e, sobretudo, o tempo que tu passa nesse planeta.

No enterro do vô Pedro eu fui, e não tive acessos de riso.

Bem como não ri nada no enterro do meu pai.

Algumas pessoas me questionaram por não ter chorado em nenhum desses dois. Imagino que podem ter me visto como frio, ou insensível, ou ainda terem suposto que eu estava sufocando sentimentos. Mas, como anteviu Flavito, de forma muito certeira, como sempre: “Cada um reage de um jeito.”

(…)

Quando Flavito morreu, após uma breve, porém intensa agonia de quinze dias no hospital (e cerca de quatro meses em casa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo e tratando um monte de coisa paralela até finalmente descobrirem o que estava causando todos aqueles sintomas), o primeiro impulso da minha mãe foi o de não fazer velório. Talvez tivesse sido o meu primeiro impulso também, se não fosse por um fator: Flavito era um cara muito amado. Mas muito. E muita gente nem sonhava que ele estava doente. Achei que uma coisa que a gente devia ao Flavito era justamente essa despedida. Achei que talvez fosse positivo pra minha mãe ver que, naquele momento de tristeza imensa, havia muita coisa bonita pra acontecer: e, de fato, aconteceu.

Se tem algo que meu pai soube fazer foi deixar uma marca em todos que o conheceram. Isso se viu claramente no seu velório. Quase duzentas pessoas apareceram pra lhe dar adeus. Pessoas que não o viam há mais de dez anos. Pessoas que eu não via há mais de dez anos. Pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Em comum, todas trouxeram o seguinte: uma história maravilhosa vivida com meu pai, rica, viva, positiva. Houve choro? Claro. Tristeza também. Mas ouve risos, alegria, alto astral. Conhecendo meu pai como conhecia, tenho certeza de que era assim que ele gostaria de ter posto esse ponto final na existência.

Talvez eu tenha lidado tão bem com a morte dele por ter tido, mais uma vez, a sorte de ter falado muito sobre o assunto com ele, especialmente depois do primeiro susto que ele nos deu, em 2009, quando sofreu um ataque cardíaco. As conversas enormes e profundas que tivemos nos meses subsequentes me forneceram uma espécie de conclusão mágica a todas as experiências de morte que tinha vivido com todos os meus avós, e desencadearam uma espécie de ruído de fundo contínuo, que fica me lembrando sempre que a gente tem que estar sempre preparado pra morte se quer viver a nossa vida ao máximo e da melhor maneira possível.

Tenho pensado muito no meu pai ultimamente. Sem motivo claro. Em dezembro acaba de fazer um ano que ele morreu, mas parece que faz uns cinco. Talvez essa seja a maior prova de que eu esteja no caminho certo, botando em prática a minha teoria. Talvez eu esteja preenchendo meus dias com tanta coisa, com tanta vida, que eu não vá me arrepender de absolutamente nada quando a cortina se fechar, logo mais. Espero que o logo mais demore muito, mas se demorar pouco, eu sempre que me deito à noite penso, e sinceramente que, até aqui, não tenho arrependimentos. Sei que ainda não vivi toda a minha vida, mas a que vivi até aqui foi maravilhosa e excelente. Tendo isso sempre em mente, tudo fica mais fácil, me parece. Mas também não sei direito porque.

30h em porto alegre

Acabo de passar 30 horas em Porto Alegre.

Cheguei às 10h30 de quinta, parti às 16h30 de sexta.

Fiz toda essa mão só pra tirar a segunda via do meu RG. A foto do primeiro, feito em 1994, derrete lentamente ao longo dos anos sob o efeito das substâncias contidas na espuma do Ibiza, cabaré megalomaníaco que ficava na praia gaúcha de Atlântida nos anos 90. Não fiz uma nova carteira de identidade em São Paulo porque ela teria um número diferente da original – e isso não me servia.

Sim, imagino que você saiba que ainda não mudou esse esquema totalmente maluco no Brasil que possibilita que qualquer pessoa tenha até 26 números de RG diferentes, um por estado.

Mas enfim, eu não podia.

Então comprei uma passagem pra Porto Alegre cedo na quinta e fui direto até o Instituto Geral de Perícias, onde tinha marcado o horário das 11h30 para encaminhar a segunda via. Cheguei uns quarenta minutos mais cedo e fui atendido logo em seguida. O atendimento todo não me tomou dez minutos: a atendente copiou os dados da certidão de nascimento, perguntou meu endereço, a minha altura, se eu tinha tatuagens (e, caso tivesse, onde ficavam), tirou uma foto, escaneou os dez dedos. Eu assinei duas vezes numa mesa digitalizadora, ela me perguntou se eu queria receber a carteira em 10 dias por 60 e poucos reais ou em até 3 horas por 83,20. Eu não tinha dez dias, mas os vinte pila eu tinha.

Paguei a taxa numa tabacaria parceira do IGP e do Banrisul a 200 metros dali e chamei um Cabify de 4 reais até a casa da minha mãe. O amigão me passou um código maluco que dava 100% de desconto em até R$ 3 mil em corridas até o dia 25 de junho, porém não funcionou. Cheguei em casa às 11h27, três minutos antes do momento em que deveria estar sendo atendido. A jornada se iniciava com uma enorme vitória.

(…)

Na Medianeira, encontrei Sandrinha de chambre e trocamos longa ideia sentados no pátio. Fazia sol, não muito calor. Também não fazia frio. Havia ramos de erva cidreira secos empilhados perto dos nossos pés, e o cheiro que eles exalavam era muito bom. Sandrinha plantou muita coisa no pátio. Matou outras coisas também. A cebola que ela enfiou na terra brotou lindona. O alho também – e que coisa aromaticamente deliciosa é a folha do alho, aliás. Tomate, salsinha, limão, manjericão, malva: tudo firme na paçoca. Teve um alho poró (ela fala porró, que nem Flavito) que um passarinho (ou gato, talvez até rato) desenterrou do chão e levou embora. Isso ela diz.

(…)

Almoçamos num lugar chamado ABRACCIO, que abriu faz pouco no Praia de Belas. Italiano de rede, caro para o que serve, mas não é de todo ruim. O pão com azeite com ervas que servem de entrada (que basicamente é a versão italiana do pão preto com mel e manteiga do Outback) tem o seu mascability, porém carnes, massas e sobremesas são apenas decentes. No pavor ou na pressa quebra um galho, porém não manda uma brasa tremenda.

Na minha opinião.

(…)

Saímos do shopping levemente queimados, pouco depois das três e meia. Meu plano era estar de volta ao IGP antes das três, para dali rumar para um cartório, onde deveria executar a segunda parte da minha missão: obter uma cópia autenticada.

Essa odisseia toda começou porque eu precisava anexar uma cópia autenticada de um documento de identidade a uma papelada destinada a certos fins. Tentei usar minha carteira de motorista, mas dois tabeliães se recusaram a autenticar uma cópia do documento porque o número ‘1’ da data ’13/08/2017′ estava praticamente apagado no original, e simplesmente não aparecia no xerox.

Eu poderia – e deveria – renovar a carteira de motorista? Lógico que sim. Todavia, DETRAN/SP não realiza a renovação de CNH de outro estado, de modo que teria as seguintes opções: a) solicitar uma transferência de CNH e, levando em conta que vence em menos de dois meses, logo em seguida renová-la; b) tirar uma primeira via, provavelmente tendo que fazer aulas, cursos, pagar exames e coisas do tipo; c) ir até Porto Alegre só para renová-la: que foi a primeira coisa em que eu pensei.

Todavia também me ocorreu que esse processo, independente de ser realizado em Porto Alegre ou São Paulo, demoraria pelo menos uma semana – e eu precisava do documento meio que JÁ.

Then came the RG solution.

(…)

Chegamos no IGP umas vinte, quinze pras quatro. Não notei de primeira, mas aos poucos foi ficando mais claro que havia algo de estranho no ar. A sala parecia mais vazia, menos viva, embora houvesse agora muito mais gente do que quando havia passado por ali de manhã.

Tinha duas pessoas na minha frente na fila para retirar o documento pronto. No guichê ao lado, onde se iniciava o processo, uma família vestida toda de Grêmio recebia instruções e reprimendas sobre o registro de um bebê. Reparei que o marido parecia indignado com a impossibilidade de fazer o RG da criança e, a princípio, pensei que fosse por conta da sua idade por demais tenra. Mas aí eu percebi: o silêncio esquisito na sala vinha dos monitores, computadores e luminárias desligados. O IGP estava sem luz.

Tinha uma pessoa na minha frente na fila pra retirar o documento pronto. Eu ouvia os funcionários justificando para os seus colegas e para os clientes que não havia previsão de volta de luz então não dava pra garantir mais o atendimento naquele dia. Algumas pessoas começavam a ir embora, outras permaneciam imóveis e resolutas. Mais gente ia chegando. Uma funcionária disse algo como “tá, mas o que é que a gente vai fazer com esse pessoal que tá aqui e que não quer ir embora?” e um guardinha resolveu impedir que novas pessoas entrassem tentando puxar uma pantográfica de ferro pra bloquear a entrada.

A funcionária que atendia o meu guichê ficou uns 10 segundos conversando com outra funcionária antes de olhar pra mim e, sem dizer uma palavra, pegar o comprovante de pagamento das minhas mãos e ir até o escaninho das identidades. Letra A. Ela puxa um bolo, dobra se fosse como um maço, e vai olhando as fotos como se contasse notas, até chegar na minha lata. Ela me alcança o documento, não me olha, e grita para o guardinha que não vai mais dar documento nenhum pra ninguém, que hoje acabou.

Nisso já brotou pequena confusão lá fora. Dez ou quinze pessoas gritando “é brincadeira” e fazendo piadas de tiozão agressivo. Eu fui a última pessoa a retirar seu documento aquele dia. Saí fincado e fiquei pensando: e se eu tivesse demorado dez minutos a mais no almoço? Teria pago a taxa de “até 3 horas” para retirar quase em 24. Isso não teria sido de todo mau, porém teria ferrado com os meus planos.

Mas nem precisou: quem ferrou com meus planos fui eu mesmo.

Em vez de procurar um cartório, voltei pra casa com Sandrinha, fiquei de papo até meu irmão chegar e, juntos, fomos jantar sushi no Bom Fim.

(…)

Bom mesmo o tal Sambô: peixe fresco e farto, e pratos quentes igualmente excelentes. Iscas de lula empanadas no panko, bolinhos de arroz com salmão, polvo com cebola e ervilha torta: barbarica, my youth. Polvo, atum, salmão, peixe branco: nada de extravagante, tudo muito gostoso. Arroz (sushi) ótimo, alga crocante, quase nada de cream cheese em 30 e vários makis. Incomoda um pouco o atendimento surfista amigão (acho meio palha forçar intimidade), mas também não chega a estragar. Tá valendo pela função. Até porque foram muito churros e meteram o jogo do Grêmio no telão totalmente na parceria telepática, posto que nem deu tempo de sugerir essa preza em tom de troça pra ver se colava.

Na volta pra baia, vimos os últimos 20 minutos da Máquina Tricolor ganhando de 2 x 0 do Coritiba com o clássico “gol do Fernandinho” (até onde eu me lembro, todos os gols do Fernandinho são exatamente iguais: um pombo sem asa na diagonal pra cima). Sentamos com a Sandrinha e fumamos uns buds e tomamos umas cevas na sala da nossa infância, que não é mais a sala da nossa infância, só fica no mesmo lugar.

(…)

No dia seguinte acordei cedo pra autenticar o documento que estalava de tão novo. Fui até aquele cartório ali perto do HPS, quase na esquina da Venâncio com a Osvaldo, paguei 13 reais por uma fotocópia, dois selos, duas assinaturas – e não entendi muito bem porque o amigão fez duas em vez de apenas uma, mas vamo que vamo. Em dado momento adentrou o recinto Ibsen Pinheiro. As pessoas o cumprimentaram e celebraram. “Esse é um cara bom,” disseram. “Mas foi sacaneado.”

Tinha ido de Cabify até o cartório, resolvi voltar de Cabify até em casa. Mas aí o sacaneado fui eu. E pelo Cabify. “Cartão negado” era o que a mensagem dizia. “Entre em contato”. Tentei reiniciar o aplicativo. Deletei e baixei de novo. Cadastrei o cartão mais uma vez. Ainda negado. Cogitei chamar um 99pop, mas: o serviço ainda não opera em Porto Alegre. Uber eu não pego mais. Táxi por táxi, pensei, não vou chamar no aplicativo, vou caminhando até um ponto que tem uns quatro ou cinco por aqui – e foi bem o que eu fiz.

Taxista gigantesco com sotaque mastigado tinha cursado história e veio debatendo política de um ponto de vista profundamente Gravataí – no bom sentido. Foi uma das grandes conversas que tive na vida. Deu vontade de filmar, mas também deu vontade de não desperdiçar aquele momento desse jeito. Melhor fervendo na lembrança, e só.

Sei que nisso tudo eu ainda escrevi pro suporte do Cabify (nota: 14h depois, ainda sem resposta) e a batera do celula foi comendo: solta.

Fiquei um tempo em casa de bobeira trocando uma ideia com a Sandrinha até que deu uma e meia e resolvemos sair pra almoçar. Na saída reparei que persistia um movimento de guindastes e caminhões e cones e operários de capacete na nossa rua que tinha notado quando saí mais cedo, mas não prestei muita atenção. Foi a Sandrinha quem apontou o que estavam fazendo: trocando os postes da rua. Que negócio maluco uma máquina com um braço arrancando um POSTE do chão e colocando outro novo no lugar. Nunca tinha visto algo assim.

(…)

É um dos meus restaurantes afetivos, o Tirol. Fomos inúmeras vezes jantar em família, e até a recepção da minha formatura foi lá. Mas não sei. Nos últimos anos tudo foi ficando mais triste pra mim. Hoje a salada estava murcha e cansada, e quase todas as carnes (entrecot, lombinho de porco, filé) meio esturricadas e horríveis, com a honrosa exceção do contrafilé, que estava churros. Todavia que conceito o “rodízio de grelhados”. Acho que um dia até já foi, mas atualmente não é mais pra mim esse lance de encher a cara de carne nesse nível. Não chega nem a fazer sentido, no fim das contas. Estava meio vazio, o salão, e Sandra Annenberg gritava com força as notícias, produzindo algum eco. Meio escuro, também me pareceu. Mas enfim: valeu pelo contrafilé.

(…)

Pegamos um táxi pra voltar pra casa. Motivo: ciclofaixa. O Cabify que nos trouxe na vinda (chamado por Sandrinha) parou bem em cima dela, bem quando vinha um ciclista, e nenhum de nós gostou da ideia de repetir a situação. Então atravessamos a rua e caminhamos alguns metros até uma esquina onde a ciclofaixa não chegava. Esperamos ali até aparecer um carro, fizemos sinal, entramos.

Chegando em casa, minha primeira providência foi procurar uma tomada para carregar o celular, que estava com 7% de bateria àquela altura.

Encaixei os pinos e: nada. Despluguei e repluguei as duas pontas, duas vezes, e então troquei de tomada. Ao obter os mesmos resultados, me ocorreu acionar um interruptor. Nada aconteceu. O motivo? Como estavam trocando os postes da rua, estávamos temporariamente sem luz. Era bastante óbvio, né? Estávamos sem telefone também. Sem internet. E, por algum motivo, sem 3G.

Por uns dois segundos pensei: não acredito que não vou conseguir chegar no aeroporto.

Todavia Sandrinha, por sorte, possuía tanto 57% de bateria no celular dela quanto um sinal 4G que, se não era dos mais robustos, pelo menos existia.

Ordenamos a vinda de um Cabify, em pouco mais de meia hora eu estava pisando no terminal antigo do Salgado Filho e Sandrinha recebia o aviso de uma cobrança de 20 e poucos pilas no seu celular. Procurei o balcão para imprimir a passagem só para poder entrar na sala de embarque e, uma vez dentro, encontrei uma torre de tomadas, conectei meu celular e: não aconteceu nada.

Entre todas as torres disponíveis, eu consegui escolher justamente a que não funcionava.

Cerca de oito segundos depois estava sentado em outro lugar, com o celular plugado em outra tomada, sendo lentamente alimentado pela energia elétrica – que também havia acabado de ser restabelecida na Medianeira, me avisava Sandrinha.

(…)

O voo estava totalmente lotado. Sentado ao meu lado veio um otário que, não satisfeito em não desligar um celular quando as portas da aeronave se fecharam, não desligou DOIS, e veio, até o avião LITERALMENTE decolar, trocando ideia com umas três minas e conversando com alguém que tinha feito alguma merda no trabalho com potencial de lhe foder muito feio, pelo que deu pra entender.

Assim que o avião se aproximou da pista em Guarulhos ele já ligou os dois celulares. Num deles pipocaram uns vinte avisos sonoros e, em seguida, o outro tocou. Ele atendeu, de pé, abrindo o compartimento de bagagem enquanto uma aeromoça pedia para que todos permaneçam sentados até que o avião pare – alerta que ele ignorou solenemente.

Todavia, o amigão tinha um bom motivo para estar daquele jeito; pelo que deu pra entender, um mandado de prisão contra ele havia sido expedido, e provavelmente ele sairia dali dentro de um camburão.

“Eu não tô acreditando que vou sair daqui dentro de um camburão”, foi a última coisa que ouvi ele dizer antes de descer pela porta traseira.

(…)

Eram quase 19h, e pensei que talvez fosse bem mais sensato matar um tempo comendo algo no aeroporto do que enfrentar o trânsito de volta pra casa bem na hora do rush. Ouvi alguém falando no telefone enquanto mijava dizendo que ainda demoraria entre 1h30 e 2h para chegar em casa. Resolvi consultar o site da CET em busca de informações e não me pareceu que o trânsito estivesse especialmente terrível – principalmente levando em conta que era uma sexta, à noite, e eu viajava no contrafluxo, querendo chegar em São Paulo.

A taxista era mulher, e me contou história extrema sobre como seu filho, que hoje estuda numa universidade americana graças a uma bolsa de estudos que ganhou pela sua habilidade com o futebol, quase se tornou vítima de uma quadrilha internacional de tráfico de pessoas aos 18 anos de idade. Também me falou sobre o caso de uma menina que foi levada por uma estranha para um banheiro no aeroporto, onde teve seu cabelo cortado e a roupa trocada e depois sumiu sem deixar rastros.

Pegamos bastante trânsito nos primeiros dois quilômetros, se tanto. Depois aliviou e veio macio. Em menos de uma hora eu estava em: casa.

(…)

Fiquei feliz de chegar em casa.

Meio triste de não ter conseguido cumprir a terceira e última fase da Missão Porto Alegre, que era: entregar a cópia autenticada da identidade e todo o resto da papelada ao meu contador. Fiquei triste porque a tarefa agora terá de ser cumprida pelo meu irmão que, no momento, está se estourando pra consertar o telhado da sua casa, e já está se fudendo bastante por conta disso.

Mas enfim.

Acontece.

minha teoria sobre o lhc

O Large Hadron Collider (LHC) é o maior acelerador de partículas do mundo.

Trata-se de um túnel de 27 km de circunferência, enterrado a 175 m de profundidade, na fronteira entre a França e a Suíça. Foi construído basicamente pra por à prova várias teorias muito extremas da física jogando uma partícula muito pequena em alta velocidade contra outra partícula muito pequena pra que elas colidam e se quebrem em pedaços ainda menores. Uma rapaziada científica da pesada detecta a presença desses pedaços menores e das energias produzidas no impacto e, a partir disso, tira conclusões.

Mais ou menos é isso.

Eu, todavia, sempre me liguei na possibilidade (pelo menos dentro da física teórica forte) de que a fissão de partículas tão pequenas pudesse gerar energias tão sutis que seriam capazes de atravessar não apenas as paredes do túnel como também a crosta terrestre, nossa atmosfera inteira, e se projetar no espaço, infinitamente, afetando de forma profunda toda a estrutura do universo. Ninguém sabe as consequências disso. Talvez sejam inócuas. Talvez sejam capazes de promover algum tipo de ruptura no tecido tempo-espaço capaz de extinguir a existência. Ninguém sabe.

Eu tenho a seguinte teoria: desde que ligaram o LHC, e ele começou a funcionar, no final de 2009, essas microvibes muito profundas estão avacalhando de forma sutil porém intensa o tecido tempo-espaço sem, contudo, destruí-lo. Pelo menos por enquanto. O resultado é aquela imagem da ponte sendo destruída pela ressonância: balançando primeiro de leve, depois mais forte, até que se esfarela completamente.

Isso se traduz no nosso dia-a-dia da seguinte forma: com a ocorrência de saltos aleatórios na realidade. Ao chacoalhar as menores sub-partículas que formam a matéria, os eventos aleatórios vão aumentando de forma exponencial no micro-mundo da matéria. Isso, naturalmente, tem reverberações no nosso mundo e no macro-mundo da matéria, o universo. Tudo sacode. O universo é uno, e vibra junto.

Em outras palavras, nada mais é impossível. Tudo pode acontecer. Prestem atenção. Em muitos níveis, prestem atenção. Tem acontecido cada coisa improvável, vocês não acham? Eu acho. Vocês acham que isso é de graça? Eu não acho.