SPFW

Passei anos brincando, mas acho que no fundo eu sempre tive a mais absoluta certeza de que eu jamais desfilaria de verdade numa São Paulo Fashion Week, nem em nenhuma outra semana de moda em qualquer outro lugar do mundo, pret-à-porter ou alta costura, entretanto, no fim das contas, foi exatamente isso o que aconteceu, no último dia de agosto desse ano, contrariando todas as previsões e estatísticas, quando marchei de cabelo tingido de azul com giz, tatuagem de ideograma nsibidi na cara, vestindo um camisetão e uma bermuda meio saia da marca ideologica e esteticamente afrocentrada Cem Freio, como parte da potente e apoteótica performance de encerramento do evento, carregada de luzes e sons e discursos extremos, ocupando grande parte da área interna do Pavilhão da Bienal no Ibirapuera numa mistura de voadora com martelada na face.

Procurando informações sobre o nsibidi, o sistema de símbolos oriundo da região que hoje é o sudeste da Nigéria, utilizado nas peças da coleção e na maquiagem do rosto da rapeize, descobri que acabaram escrevendo no meu rosto, de modo totalmente espontâneo e aleatório, os ideogramas que representam os conceitos de “guerra” e “dois homens conversando”.

Não sei vocês, mas eu achei isso: trimmmassa.

maromba lateral

Hoje faz dois meses que aderi à prática de executar uma série de dez apoios (também chamados de flexões de braço) e outra de dez abdominais para cada hora trabalhando sentado. Os resultados permanecem extremos: minha produtividade segue em alta e a musculatura do meu torso, ombros e braços continua o seu processo de tonificação.

Procuro fazer os apoios sempre da mesma forma: lentamente, chegando o mais perto possível do chão, sem tomar impulso pra subir nem soltar o corpo pra descer, prestando o máximo de atenção possível na postura e no movimento. Os abdominais são sempre feitos com as pernas levantadas a 90 graus, mas eu vario a flexão do core. Às vezes meto uns oblíquos, às vezes estico as pernas intercaladamente (bicicleta), às vezes faço uns curtinhos pra arregaçar. Depende do dia.

Tenho trabalhado entre 5 e 6 horas por dia, o que se converte em 50 a 60 repetições de apoios e abdominais diários de segunda a sexta. Nos fins de semana eu costumo relaxar e, a menos que esteja trabalhando sentado, vou fazer no máximo umas três séries, geralmente só de apoio – mas ainda assim vou fazer.

Recentemente as rotinas de exercício entraram também na programação dos meus madrugames, tragos e longas sessões televisivas, mas aí as regras são bem mais frouxas. Hoje, por exemplo, meti uma prancha de mão de um minuto, zero apoios e zero abdominais. Todavia mais cedo teve: uma hora de pilates de solo potencialmente catastrófico para o amador, de modo que: tá valendo.

VEREDITO: RECOMENDO

two dreams

No primeiro eu chegava a pé em casa, mas não era mais a minha casa – quer dizer, um dia foi. O apartamento em que eu morava em Porto Alegre, no Bom Fim, em cima do Mariu’s, na última quadra da Osvaldo Aranha, depois da curva que leva pro túnel (o único da cidade), uma das ruas mais perigosas e difíceis de atravessar em toda a cidade.

Estava nublado, e era meio de noite. Eu chamava o elevador e, enquanto ele não chegava, dava uma espiada num vão que desembocava na garagem, um espaço que não existia no prédio real. Não havia muitos carros estacionados, e meu amigo EGS promovia um churrasco dançante com uma galera da FABICO por ali.

O elevador chegava. Tinha uma daquelas portas pantográficas (outro detalhe incompatível com o verdadeiro prédio). Por algum motivo absurdo, eu havia pedido um Uber que não era um Uber, e sim um Cabify ou 99pop (posto que não uso mais os serviços do Uber há meses, embora siga chamando o ato de pedir um desses carros de aplicativo de “chamar um Uber”). O elevador ia até em cima e, quando ele chegava, eu apertava o botão para descer novamente.

Lá embaixo, na rua, o carro que me esperava não era o que eu esperava, e sim um dos clássicos táxis laranja tijolo (alguns dizem vermelho) de Porto Alegre. No banco do carona, ao lado do motorista, ia um velho, calvo, de cabelo branco. De alguma forma eu sabia que ele carregava uma grande quantia de cigarros consigo. Acho que cheguei a vê-los dentro de um maço curiosamente cilíndrico. O motorista alegou que o velho era seu pai, e disse que o deixaria em sua casa, que ficava pelo caminho, caso eu não me importasse. Eu não me importei.

Todavia, obviamente, logo ficou claro que alguma coisa estava errada.

O caminho não se parecia em nada com o que eu estava acostumado. Na verdade, eu nunca tinha visto nenhuma daquelas ruas, não conhecia aquelas casas, aquela paisagem. Experimentei um forte arrependimento por haver entrado naquele carro. Comecei a me perguntar por que fiz isso? Notei que o celular do motorista, visível, pendurado no painel, não estava com o GPS ativado, e pedi que ele inserisse o endereço do meu destino ali. Ele desconversou. A paisagem não era particularmente assustadora. De certo modo era até bonita: uns bairros bucólicos, arborizados. Montanhas cobertas de grama e um imenso corpo d’água que não entendi se era um lago ou mesmo o mar. Mesmo assim, eu estava cada vez mais desconfortável com a situação. Quando tentei abrir a porta do carro e a encontrei trancada, bateu o pavor.

Mas aí acordei.

(…)

No segundo eu ia passar por uma cirurgia no coração, aparentemente simples e rápida, sem maiores cortes, que me permitiria voltar para casa no mesmo dia. Eu aceitava tudo com muita facilidade e até alguma alegria (que estranho), mas, alguns momentos antes de começar a anestesia me ocorreu uma pergunta deveras importante: por que estou fazendo isso? Quer dizer, que problema estou buscando tratar com este procedimento? Resolvi questionar os médicos que, a exemplo do motorista mental do outro sonho, mergulharam fundo nas evasivas. Quando comecei a me desesperar e tentei levantar da cama, fui impedido.

E aí, novamente, acordei.

japan house

Confesso a seguinte ignorância aos amigos: não tenho a mais remota ideia do que seja a tal Japan House que abriu na Avenida Paulista há questão de alguns meses. Para manter a veracidade deste sentimento fumegando firme neste post, me omiti de visitar o site da instituição atrás de maiores informações. Tudo que eu sabia até então vinha dos depoimentos de amigos afirmando ser um lugar incrível, belíssimo e interessante. Nesta quinta-feira chuvosa e fria, aproveitando a presença de amigos do peito hospedados em meu lar, fomos conhecer o lugar e confirmar as impressões.

Possui, de fato, uma arquitetura e estrutura lindas, típicas de museu europeu. Tudo é muito branco, cheio de aço e madeira. O lugar é limpíssimo e silencioso, beirando o sacro. Instalações artísticas e exposições delicadas e minimalistas espalhadas pelos andares. Um bom restaurante (assinado pelo Jun Sakamoto), um gift shop com produtos japoneses impressionantes a preços impossíveis (entre os quais um braço robótico, garrafas de saquê de 2 mil reais e um conjunto de algo definido como “copo muito fino”, que supostamente causa a impressão de se estar segurando o líquido com as próprias mãos, embora pra mim eles pareçam mais grossos do que qualquer copo de cristal alemão disponível na cristaleira das vós mais tradicionais do sul do país) e um café honesto, ladeado por uma linda estante repleta de volumes japoneses ou sobre o Japão que podem ser consultados à vontade, embora não estejam à venda.

Todavia, o que realmente me deixou FLABBERGASTED, como dizem os bretões, foi o banheiro.

Não é mais preciso viajar até o Japão para ter a experiência complexa de cagar num daqueles vasos tecnológicos que a gente vê os artistas se impressionando nos filmes. Este do qual usufruí oferecia duas opções de jato de água (frontal e traseiro), com controle de intensidade e frequência (pulso ou constante). Já fiquei impressionado de cara com a MIRA do bagulho: me acertou em cheio no cu. Primeira coisa que me veio à cabeça foi o clássico do jungle Super sharp shooter, do DJ Zinc, que ouvi este fim-de-semana, no b2b do Marky e do Andy, perto das oito da manhã, após noite fortíssima envolvendo Dillinja e Bryan Gee.

Dei uma brincada com os controles e obtive imensa alegria anal. Quando julguei que já tinha tido o suficiente, apertei o botão de SECAGEM, o que promoveu uma sensação bastante curiosa nas entrefelfas do Didão. Parecia que o vaso havia sido tomado por uma porção gentil de água morna e turbulenta e, por cerca de um segundo, julguei ter feito alguma coisa errada (ou estar sentado desgraçadamente num vaso com defeito). Ao constatar, todavia, que meu saco não estava molhado, abri um sorriso satisfeito e deixei que o ar quente terminasse seu serviço em paz.

Pode até não ter sido a cagada da minha vida – muito longe disso -, mas que experiência cultural forte foi essa. Recomendo a todos que façam o mesmo.

Em tempo: se quiserem antes disso comer no Junji Sakamoto, que fica no mesmo piso, deixo o conselho de não pedirem o sushi. Não que seja ruim: pelo contrário. A questão é que é muito caro pra caralho. São 129 reais por 12 peças (embora tenha rolado um chorinho com 4 uramakis), e apenas 2 estavam realmente excepcionais. As outras peças (de peixes como beijupirá e olho de boi) estavam ok, na média dos bons restaurantes de sushi da cidade.

Bom mesmo são os pratos quentes. Não provei o tonkatsu karê, mas a merluza estava espetacular (periga ter sido o melhor peixe que já experimentei na vida) e o sukiyaki assoberbante. Embora não sejam exatamente baratos (entre 72-95 reais), compensam muito mais pelo volume e sabor dos alimentos. Se voltar algum dia, certamente optarei por um prato quente.

De todo modo, que boa experiência é a Japan House. Em visita à São Paulo, considere conhecê-la. Além de tudo é grátis.

marlon’s meals

Fui jantar uma vez – e almoçar duas – com o Marlon James em sua breve passagem por São Paulo.

Também o acompanhei numa peregrinação por lojas de discos atrás de reedições de clássicos obscuros da MPB (Ronnie Von, Tom Zé, Otto), mas isso não vem exatamente ao caso neste momento (todavia ele comprou um Azymuth, um Krig-ha Bandolo e dois Secos e Molhados, além de uns Tom Zé, uns Ronnie Von, e o primeiro do Mundo Livre S/A).

Nossos encontros alimentares se desenrolaram da seguinte forma:

JANTAR DE DOMINGO: Le Jazz da Melo Alves. Ainda não havia frequentado este espaço, e nele experimentei a estranheza de achá-lo exageradamente parecido – em absolutamente todos os sentidos – com o restaurante que há no endereço original, na Rua dos Pinheiros. Lamentavelmente, isso meio que quebrou a sua aura de bistrô charmosinho, substituindo-a por uma vibe violentíssima de Outback e McDonald’s. Dito isto, também se manteve constante a qualidade do bar e da cozinha: alta para o meu bico e para o meu bolso. Old Fashioned gostoso, boas beterrabas assadas com bom queijo de cabra, bom steak tartare com boas fritas. Bem ao lado desta unidade há uma segunda (quiçá terceira) unidade de um outro pico chamado Adega Santiago, que também me pareceu um pouco similar demais ao original quando olhei pra ele, de relance, antes de ir embora.

ALMOÇO DE GRÃ-FINO: Amadeus, protegido por um muro coberto de grama num cantinho estratégico ali nos Jardins. Supostamente é um dos melhores – senão o melhor – restaurante de frutos do mar da cidade. Chegamos faltando quinze minutos para a cozinha fechar e, para dar uma descomplicada geral na vida da rapaziada, fomos direto no menu executivo de almoço. Bastante excelente. O couvert existia em dois níveis: o primeiro, composto de pães, manteiga e azeite; em seguida, uma sequência de bocaditos: ceviche de peixe branco, salmão com creme de ervas, martelinho de caldo de legumes e um bolinho de bacalhau absolutamente inacreditável. Depois, salada de folhas com carpaccio de haddock defumado (todavia o garçom tentou meter que era anchova). Prato principal: massa fresca com lula, camarão e vôngole servida num prato de cerâmica em forma de chapéu de bruxa de cabeça pra baixo e com a ponta cortada. Chique pra caralho. E que sabor extremo, tudo. De sobremesa, pra arrebentar de vez: manjar de coco com calda de caju. Nas mesas vizinhas, eu via Joões Dórias: homens brancos de cabelo penteado e suéter sobre os ombros.

ALMOÇO MEIO PUBLICITÁRIO: Ici Brasserie dos Jardins. Também não conhecia. Jantei uma vez no Ici Bistrô, em Higienópolis, e lembro das ostras serem frescas, e não muito caras. Essa versão um pouco mais rápida nos Jardins não tinha ostras em seu cardápio, e servia quantidades nababescas de comida em seus menus executivos de almoço – o que pode ser uma reclamação ou elogio dependendo de que ângulo você examina a questão. Eu achei rango demais – mas também posso apenas ter ficado empapuçado pelas duas cervejas grossas que mamei durante a refeição (ambas excelentes, em versão ‘chops’). Sei que na salada de aspirações orientais com molho doce e picante, amendoim e broto já vinha tanto frango que quando chegou o steak frites (churros) eu já tava bem gordão. Mesmo assim, dei algum trabalho ao bife alto, vermelho e suculento. Mordi bem, o bicho. Masquei. Besuntei com a béarnaise que o acompanhou. Acabei nem comendo a sobremesa, no fim (mas lembro que era uma mousse de chocolate extrema que, confesso, está fazendo alguma falta às três e cinco da manhã dessa terça-feira).

reinaldo, de salto

Quando me mudei para São Paulo, cinco anos atrás, não aderi instantaneamente a uma linha local de telefone. Minha conta era, então, de R$ 63, e os planos mais suaves equivalentes na capital paulista naquela época me exigiam o dobro. Portanto: posterguei. Só adquiri número de celular com DDD 011 depois da Copa de 2014, se não estou enganado. Fui até procurar e tru dat: só o fiz no final de janeiro de 2015. Enfim.

O número novo tinha um passado, de forma que herdou alguns penduricalhos interessantes, como o fantasminha de uma ex-cliente da Vivo chamada Silvana. Recebo de 3 a 5 spams via SMS destinados a ela toda semana. Eventualmente alguém me liga oferecendo Nextel ou cobrando carnê da Casas Bahia, mas fica nisso.

Todavia o novo número também me trouxe o Seu Reinaldo.

Poucos dias após ativar o telefone, recebi a primeira ligação. Acho que devo ter sido bem seco, quem sabe até meio grosso, quando vi o DDD 012, ouvi o sotaque do interior (o erre de borracha do Nhô) e disse que aquele número não era do fulano (cujo nome agora me escapa). Ele ligou uma segunda vez, na sequência, e eu o frustrei novamente. Na terceira cogitei simplesmente não atender, mas fiz exatamente o contrário. Já tinha ficado muito evidente que era apenas um senhorzinho humilde num cafundó rural deste Brasilzão tentando entrar em contato com alguém. Devia ser alguém importante pra ele, já que estava ligando pela TERCEIRA vez para o número errado, apesar de ter sido informado disso desde a primeira. Resolvi ajudar.

Tivemos uma longa conversa. Tratava-se de um sujeito chamado Reinaldo, que habita a cidade de Salto/SP. Até que não é uma cidade tão pequena (130 mil habitantes). “Fica aqui na região de Itu”, ele sempre reforça. Estava tentando falar com o filho. Que não mora em São Paulo, mas sim em alguma outra cidade do interior paulistano – que eu também não lembro qual é. O lance inesperado é que o número do telefone do seu filho era exatamente igual ao meu – exceto pelo DDD. Que coisa.

Foi legal ter feito isso. Digo, ter tido a chance de fazê-lo. O cara podia simplesmente não ter mais ligado, ou descoberto de alguma outra forma como entrar em contato com o filho (não era nada grave, aliás). Lembro que depois de descobrir que o filho morava em outra cidade, procurar no Google o DDD equivalente a ela e ensinar pra ele como fazer a ligação, Reinaldo ficou transbordando de felicidade. O cara dava gargalhadas de alegria, estava mesmo muito grato que um completo estranho tivesse parado tudo que estava fazendo para ensinar um outro completo estranho a ligar para o seu filho. Ficou me agradecendo uns 2 minutos, me disse que quando eu estivesse pros lados de Salto era só falar com ele que, aquela coisa toda. Nos despedimos, desligamos, beleza.

Só que a história não termina assim.

It LINGERS.

Volta e meia, Reinaldo ainda se atrapalha e liga por engano. E, embora eu ainda não tenha me ligado de acrescentar o nome dele aos meus contatos, quando ele começa a rir depois que eu digo que é o André eu também já sei que é ele quem tá falando. Sempre trocamos uma ideiazinha. Agora ele já sabe o que fazer pra ligar pro filho dele, mas, mesmo assim ainda gasta uns segundinhos de conversa pra perguntar de mim e da minha família, dizer que com ele tá tudo bem, e reforçar o convite pra visitá-lo em Salto algum dia. Um desses anos aí, não sei qual foi, ele chegou a me ligar no Natal ou Ano Novo, também. Última vez que ele ligou faz uns três dias. Depois de falarmos por uns 3 minutos pensei o seguinte: nunca tinha feito um amigo por TELEFONE na vida. Que coisa inesgotável que é.

leonardo da vinci

Mais uma tradução volumosa, com prazo curto e regressivo pra conta.

Estou ficando bom nisso.

Dessa vez foram cerca de 600 páginas em pouco menos de 3 meses, dessa última (e supostamente definitiva) biografia do Leonardo da Vinci escrita pelo Walter Isaacson – o jornalista yankee que ficou famoso com a biografia do Steve Jobs alguns anos atrás. O livro vai sair aqui no Brasa exatamente ao mesmo tempo que lá na Gringa, o que é sempre churros.

Já tinha feito correrias similares algumas outras vezes com livros da série Só perguntas erradas, do Lemony Snicket, mas nunca havia lidado com este volume, complexidade e grau rococó de texto. Sério: que amigão enrolão, este. Tudo bem que a pesquisa é realmente exemplar e tem algumas novidades bem importantes sobre a obra e a vida de Leonardo aí, mas achei o texto meio carregado na firula acrobática. Suspeito que seja tique de jornalista: depois de tantos anos escrevendo dentro de fórmulas, quando o cara quer pisar fora da risca acaba se embanando na grandiloquência. Acontece.

De qualquer forma, boa jornada traduzir este livro. Me ensinou e lembrou algumas coisas sobre a Itália, pintura, desenho, arquitetura, hidráulica, anatomia, medicina, matemática, física, química, geologia, geografia e história – isso sem falar em inglês e português (e um que outro toquezinho de italiano e francês). E que filho da puta genial mesmo era esse Leonardo. E que filho da puta também (se bem que o pai também não era grandes coisas). Se bem que: bah. Que feio, eu, aqui, quinhentos anos depois difamando a memória do gênio defunto que não pode mais se defender. Deixemos quieto, enfim.

A exemplo de Marlonzeira, eis aqui alguns números para o deleite da rapaziada numismática:

  • Como traduzi a partir de 3 arquivos diferentes, que contam, inclusive, com manchas gráficas diferentes, implicando em números diferentes de páginas para um eventual mesmo volume de texto: não há como dizer precisamente quantas páginas havia no original. No primeiro PDF, sem imagens, são 577. No segundo, 574. No derradeiro: 597. Somando apenas as páginas que eu traduzi de acordo com os meus registros: 544.
  • Detalhe importante: em todas as versões há um anexo de, pelo menos, 30 páginas contendo apenas as NOTAS da pesquisa – trecho espinhoso que não precisarei traduzir, posto que outra pessoa o está fazendo.
  • O que eu sei é que o arquivo do Word com o texto em português ficou com 389 páginas, 170.331 palavras e 1.038.116 toques.
  • Como o prazo dessa vez era MUITO apertado, o processo todo levou pouco menos de 3 meses: comecei no dia 9 de maio e terminei no dia 27 de julho. É um período de 78 dias, nos quais trabalhei efetivamente 58, ao longo de 11 semanas e meia.

Pra finalizar, eis o Quadrinho Tradutivo do Dido, uma tradição feliz since 2017 – todavia dessa vez com uma organização diferente da informação, obedecendo à seguinte lógica:

toques produzidos – página final – total acumulado de toques

SEMANA 1

Day 1 – 20 148 – 15pg – pg 15 – 20 148
Day 2 – 20 374 – 10pg – pg 25 – 40 522
Day 3 – 20 013 – 10pg – pg 35 – 60 535
Day 4 – 20 843 – 10pg – pg 45 – 81 378

SEMANA 2 – 35 pg (mudou o PDF, mudou tudo, páginas duplas)

Dia 1 – 11 796 – ? – ? – 93 174
Dia 2 – 13 944 – pg 31 – 107 118
Dia 3 – 16 435 – pg 35 – 123 553
Dia 4 – 18 314 – pg 40 – 141 867

SEMANA 3 – 46 pg

Dia 1 – 26 570 – pg 47 – 168 437
Dia 2 – 11 639 – pg 50 – 180 076
Dia 3 – 13 335 – pg 53 – 193 411
Dia 4 – 20 578 – pg 58 – 213 989
Dia 5 – 10 241 – pg 61 – 224 230
Dia 6 – 10 486 – pg 63 – 234 716

SEMANA 4 – 54pg

Dia 1 – 19 843 – pg 67 – 254 559
Dia 2 – 29 236 – pg 74 – 283 795
Dia 3 – 18 690 – pg 80 – 302 485
Dia 4 – 09 297 – pg 83 – 311 782
Dia 5 – 24 143 – pg 90 – 335 925

SEMANA 5 (gripe) – 20pg

Dia 1 – 17 898 – pg 95 – 353 823
Dia 2 – 24 640 – pg 100 – 378 463

SEMANA 6 – 50pg

Dia 1 – 18 406 – pg 105 – 396 869
Dia 2 – 15 673 – pg 110 – 412 542
Dia 3 – 22 533 – pg 115 – 435 075
Dia 4 – 19 201 – pg 120 – 454 276
Dia 5 – 17 859 – pg 125 – 472 135

SEMANA 7 – 40pg

Dia 1 – 20 483 – pg 131 – 492 618
Dia 2 – 16 395 – pg 135 – 509 013
Dia 3 – 18 201 – pg 140 – 527 214
Dia 4 – 22 936 – pg 145 – 550 150

SEMANA 8 – 54pg

Dia 1 – 18 059 – pg 150 – 568 209
Dia 2 – 23 159 – pg 155 – 591 368
Dia 3 – 18 520 – pg 160 – 609 888
Dia 4  -10 681 – pg 162 – 620 569
Dia 5 – 21 539 – pg 167 – 642 108
Dia 6 – 17 698 – pg 172 – 659 806

SEMANA 9 – 54pg

Dia 1 – 24 259 – pg 178 – 684 065
Dia 2 – 20 155 – pg 183 – 704 220
Dia 3 – 18 771 – pg 188 – 722 991
Dia 4 – 19 783 – pg 193 – 742 774
Dia 5 – 22 533 – pg 199 – 765 307

SEMANA 10 – 52pg

Dia 1 – 22 165 – pg 204 – 787 472
Dia 2 – 20 407 – pg 209 – 807 879
Dia 3 – 12 558 – pg 214 – 820 437
Dia 4 – 21 026 – pg 220 – 841 463
Dia 5 – 22 244 – pg 225 – 863 707

SEMANA 11 – 55pg (mudou de novo o PDF, agora é uma versão de 1,5GB ns com imagens em alta resolução e duas contagens diferentes de números de página; pelo menos é página simples – que, todavia, deu uma bagunçada na minha contagem aqui, mas tudo bem)

DIA 1 – 22 944 – pg 443/466 – 886 651 (12)
DIA 2 – 15 422 – pg 454/476 – 902 073 (11)
DIA 3 – 20 440 – pg 465/487 – 922 513 (11)
​DIA 4 – 13 950 – pg 476/498 – 936 463 (11)
DIA 5 – 25 598 – pg 486/508 – 962 061 (10)

SEMANA 12 – 39pg

DIA 1 – 25 563- pg 500/522 – 987 624 (14)
DIA 2 – 21 356 – pg 510/532 – 1 008 980 (10)
DIA 3 – 28 882 – pg 525/547 1 038 116 (15)

chacrinha

Sábado assisti pouco mais de uma hora de uma reprise de um programa do Cassino do Chacrinha. Foi uma experiência muito interessante em vários níveis, e provocou uma epifania um tanto incômoda em minha cuca, cuja trajetória se resume da seguinte forma: a) num primeiro impacto pensei “tu vê só, um dia o Brasil já foi assim”; b) alguns minutos depois pensei “as pessoas pareciam mais felizes, será que era mesmo melhor?” muito embora o programa fizesse propaganda do Governo José Sarney e eu me lembre muito bem desse governo, com racionamento de carne e inflação de mais de MIL por cento ao ano; c) por fim me dei conta de que “o Brasil ainda é 100% assim, a diferença é que no final dos anos 80 a Globo ainda estava conectada ao povo brasileiro, e hoje em dia (e há anos) não está mais.”

De repente fez sentido o IBOPE da Globo estar cada vez menor enquanto o de redes que ainda buscam um contato com a massa brasileira, como a Record e o SBT, estarem cada vez maiores.

(…)

Fora isso, fiquei bastante impactado com o programa de modo geral. A dança das Chacretes (todas batizadas com nomes de guerra intensos como “Sandrinha Toda Pura”, “Gracinha Copacabana” e “Gleice”), focadas de baixo pra cima, com closes escancarados em suas bundas e virilhas; o desfile interminável de artistas de grande vulto como Biafra, Sylvinho, Benito di Paula, Sandra Sá, Almir Guineto, Sarah Jane e Luís Caldas, todo mundo mandando ver num playback extremo; as mensagens de apoio ao governo José Sarney na voz do Chacrinha, no texto de algumas placas levantadas pela produção e na fala de alguns de seus jurados (que incluíam Elke Maravilha, João Kléber e Sônia Abraão); as roupas, cortes de cabelo e formato do corpo das pessoas, entre artistas e populacho, equilibrando-se num espaço esquisito entre o final dos anos 70 (costeletas, camisa aberta, calça boca de sino) e o auge dos 80 (ombreira, mullet, calça de jeans nevada); o arremesso de jacas, abóboras, melancias, quilos de arroz, feijão e farinha à plateia, geralmente acompanhados de anúncios pró-governo federal (cujo slogan na época era “Tudo pelo social”).

(…)

Não tenho a menor dúvida de que esta aura segue intacta em qualquer boteco com mesa de sinuca que vende pinga, qualquer puteiro de beira de estrada frequentado por caminhoneiros, qualquer município com menos de 50 mil habitantes que ainda conserva o mais puro suco do brasileiro – e ainda não sei muito bem o que fazer com essa constatação.

Vamos deixar assentar mais uns dias.

rapidinhas da madruga

Outro dia criei uma senha fácil de lembrar, porém difícil de escrever, posto que é uma frase comprida cujas palavras são compostas de letras posicionadas de formas esquisitas, obrigando o vivente a demonstrar uma certa destreza digital na hora de completar o formulário. Agora: que merda se o cara se bobeia por um décimo de segundo e erra uma letra na digitância: tem que apagar tudo e começar de novo.

(…)

Pior vida atualmente: a desse maluco que era pra ser o apresentador do Troca de Passes, no SporTV, mas deu o azar​ de terem colocado o Roger no programa com ele – que aí não tem muito jeito, Roger é muita manha, lábia e carisma, ele rouba a cena 100% das vezes, come o cara com farinha, e quando botam na bancada junto com ele o Ricardo Rocha chega a ser covardia, dá pra ouvir os ossinhos do cara estalando enquanto os dois boleiros mastigam.

(…)

Tive um sonho meio confuso e claustrofóbico de uma festa – como são todos os meus sonhos que se passam em ou contém uma festa – e aí no semifinal (o ato penúltimo) rolava uma bad, as luzes se acendiam e eu perdia meu celular, aquela sensação de merda de quando tu acaba de constatar que perdeu uma coisa, especialmente quando é uma coisa que tava contigo até um segundo atrás, que tu cuida bastante, enfim, que merda, só que aí um segundo antes de acordar eu encontrava o celular debaixo de uma mesa de madeira escura, tinha uma toalha em cima, e portanto quando acordei eu tinha um sentimento de satisfação ou completude me inundando a cuca, diferente da frustração com a qual eu costumo acordar quando me acontece o contrário e eu não consigo encontrar uma pessoa, um lugar, uma coisa que se perde de mim no meio do sonho. Mas ruim mesmo é quando tu acorda sem lembrar do teu sonho e passa o dia inteiro com esse sentimento xarope no fundo, sem saber nem poder contra-atacar. Aí it’s a fuck.

(…)

Fui num vascular essa semana ver se estava mesmo desenvolvendo varizes e não é que as veias resolveram diminuir grotescamente de calibre bem no dia da consulta? A favor do acaso vamos levar em conta que fez frio pra caralho (9 graus com sensação térmica que arranhou o 1), os vasos se contraíram e, quem sabe, andei exagerando.

(…)

Também tem mais uma coisa: no fim das contas funcionou pra caralho aquele lance de meter 10 apoio e 10 abdominais pra cada hora trabalhada. Aconteceu uma coisa maravilhosa: o fato de estabelecer uma janela de tempo determinada de trabalho entre uma sessão de exercício e outra aumentou MUITO o meu foco, fazendo com que minha produtividade simplesmente TRIPLICASSE. Na verdade, em termos de volume ela continua exatamente igual, mas reduzi de 15 para 6 horas diárias meus turnos de trabalho – o que é um resultado bastante significativo tanto em termos mentais quanto físicos: como fico menos tempo sentado, exerço menos pressão nas pernocas do Dideira e posso avaliar com mais segurança se as veias inchadas e a sensação de peso nas pernas foram algo transitório ou uma condição crônica incurável (embora perfeitamente tratável). A ver.

física?

Talvez o salto de compreensão mais importante do universo que tive nos últimos anos foi o de perceber, de forma definitiva e inescapável, que o que existe entre o seu nariz e o nariz da gata que logo mais irá beijar, este mesmo espaço por onde se deslocam os pássaros e os aviões, não é, de fato, um espaço, e sim um FLUIDO, onde estamos todos nós imersos, o tempo todo, desde sempre.

Fora isso, acho um ótimo exercício mental tentar compreender isso – e também a forma como o tempo e a velocidade se apresentam de formas radicalmente diferentes em diferentes escalas (uma formiga correndo freneticamente ainda chegará muito depois de um elefante arrastando-se morosamente pela mesma superfície).