vicissitudes da tecnologia contemporânea

Estava há meses com um problema intermitente e razoavelmente incômodo no meu iPhone 5: a câmera não conseguia fazer foco de jeito nenhum.

Normalmente tudo que é preciso fazer para que isso aconteça é tocar na tela após aproximar ou distanciar a câmera do objeto, mas comigo não estava dando certo.

Hoje, pela primeira vez, resolvi jogar a dúvida no Google. Caí num post de 2015 num fórum qualquer. Li o que o reclamante escreveu e era exatamente o problema que eu tinha. Curiosamente não encontrei a resposta, só um monte de respostas à resposta dizendo “não acredito que algo tão simples resolveu o problema.”

Uns vinte posts depois, finalmente encontrei alguém citando a resposta original, que dizia tratar-se de um problema físico de desalinhamento das lentes do aparelho. A solução troglodita: dar um tapão nas costas do celular.

Foi exatamente o que fiz.

WORKED LIKE A CHARM.

Que alegria.

UPDATE: Como sempre me disseram, desde pequeno, alegria de pobre dura pouco, de modo que o truque funcionou apenas DUAS vezes, e agora não importa a pancada que eu dê, segue tudo borrado no visor. Quatro anos com o mesmo celular, tá chegando mesmo na hora de pensar em trocar de modelo.

we be vaping

No Natal de 2015, após alguns anos de dúvida e muitos meses de pesquisa, comprei de presente pra mim mesmo um vaporizador portátil chamado Arizer Solo. Não era o mais bonito (provavelmente é o Pax), o mais renomado (talvez seja o Crafty) nem o mais barato (certamente alguma ‘caneta’ chinesa), mas, segundo centenas de depoimentos que li em blogs e fóruns em inglês, espanhol e português, era o mais confiável, resistente e eficiente – e estava disponível para pronta entrega.

Mas vamos dar um passo para trás aqui.

Minha primeira experiência com vaporizadores foi ali por 2013, quando um amigo retornou dos Estados Unidos com um Pax na bagagem. O aparelho tinha acabado de ser lançado, causando grande furor por conta do seu design (muito zé bronha por aí se emocionou e saiu comparando com produto Apple): um cilindro fosco, ou todo preto ou todo prata, com uma discreta e agradável luzinha em forma de X com o miolinho cortado brilhando na frente. O cara abria uma portinha lá embaixo, recheava de fumo, fechava a portinha, virava o troço pro outro lado, tirava o bocal, apertava um botão um certo número de vezes para obter uma determinada temperatura (eram apenas 3, pré-definidas), botava o bocal de volta, esperava até que o X cortado ficasse verde e mandava brasa. Era um objeto extremamente sedutor, não apenas pelo visual SLICK AS FUCK, mas também pela sua funcionalidade – que se prometia excepcional.

Tristemente, na hora de usar, o bagulho não se mostrou à altura das expectativas. O cara puxava aquela merda um tempão, tinha que fazer uma força do caralho, não vinha nada de fumaça, não dava nada de efeito, e a bateria ainda por cima não durava porra nenhuma. Que decepção.

Corta para 2015. Estou em Amsterdam. Por intermédio de uma amiga que é a madrinha da Alice (a menina fantabulosa de quem sou padrinho) e que hoje aparentemente está morando na Tailândia (faz um tempo que não nos falamos direito), estou na casa de um nativo que vive num curioso apartamento de uns 15 metros quadrados bem no meio do Red Light District, experimentando do mais profundo ceticismo enquanto observo um dos famosos balões do Volcano se enchendo com o vapor que emana de uma pipoquita generosa de um fumo chamado Lemon Skunk. O Volcano talvez seja o vaporizador mais conhecido do mundo. Parece a base de um liquidificador, só que em vez de ter uma hélice giratória altamente afiada na ponta tem uma peça de cerâmica coberta de aço que esquenta; e em vez de acoplar um copo em cima, o cara coloca uns balões de algum tipo de plástico supostamente seguro, que vão se enchendo lentamente com o vapor produzido pelo material que estiver suando grosso no forno ali embaixo (em quase 100% dos casos, maconha).

Ali a coisa mudou definitivamente pra mim, porque aquele vapor do Lemon Skunk que recheava o balãozão do Volcano me deixou completamente plastificado. Que sabor, que odor, e que paulada no melão que trouxe. Saí dali reconsiderando, pensando “opa”. No fim das contas dá pra ficar bem doidaço inalando vapor.

Vamos dar um novo um passo para trás nesse ponto para falar um pouquinho sobre o processo de vaporização.

Vaporizar, naturalmente, é converter algo em vapor. Os vaporizadores de ganja fazem isso usando câmaras aquecidas por um elemento (geralmente de cerâmica ou alumínio) para “assar” a erva até que ela libere seus terpenos (agentes de cheiro e sabor) e alcaloides (substâncias psicoativas) por meio da evaporação, sem jamais provocar a combustão do material.

O princípio é o seguinte: combustão produz fumaça. Fumaça faz mal para os pulmões. Uma vez que os principais canabinoides da planta estão dissolutos em água e evaporam muito antes do seu ponto de combustão, é totalmente possível extraí-los da planta sem precisar incendiá-la, um processo que não apenas é mais saudável como muito mais saboroso e eficiente.

Fumar um baseado, na verdade, é basicamente a mesma coisa: há uma fonte de calor esquentando um material vegetal e alguém inalando através da outra ponta de um canudo. O primeiro problema com isso é a fumaça, que contém benzeno, gás carbônico e diversas outras substâncias cancerígenas. O segundo é que a fonte de calor é parte do próprio material em brasa, o que gera um desperdício muito grande. O cara fumando um beck consegue absorver, com muita sorte, algo perto de 25% de todas as suas substâncias. Já usando um vaporizador pode extrair até 70% (embora na média fique mais perto da faixa dos 50%).

Prestes a completar dois anos de uso do Solo, posso assinar embaixo de todas essas alegações. O troço é realmente potente. Com aproximadamente 1/3 do fumo necessário pra fechar um beckzinho médio (nem perna de grilo nem dedo de gorila) dá pra ficar BEM CHAPADO, e de 2 a 3 vezes – o que ainda se traduz em mais uma faceta do sucesso da vaporização, que é a economia brutal que ela representa para o bolso surrado do maconheiro.

Mas na real eu escrevi TUDO ISSO só pra dizer o seguinte: essa semana eu desenvolvi um método muito bom para limpar o tubo curvo do Arizer Solo.

O Solo vem com dois tubos de vidro pra acoplar diretamente em cima do seu forno (com cinco temperaturas pré-programadas): um reto e um curvo. Nunca usei o reto. Gosto demais do curvo. Mas enfim.

A grande questão aqui é que alguns meses de uso produzem um acúmulo considerável de resina neste tubo, e é um verdadeiro inferno limpar dentro do cotovelo dele.

A química básica diz o seguinte: mergulha o tubo em álcool, deixa descansar um dia e, no dia seguinte, ferve uma água e toca por cima que deve sair tudo. Na prática, não funciona bem assim. Ao longo do tempo, pequenos e médios pedaços de ganja acabam sugados tubo adentro e se grudam em suas paredes. Cobertos com novas camadas de resina endurecida, muitos se recusam a sair de barbada. Então o cara tem que dar uma esfregada.

Tentei várias coisas: aqueles ferrinhos cobertos com barbante pra limpar cachimbo (bons por serem flexíveis, ruins por serem muito finos), algodão (tem a tendência a se fragmentar, e aí é outro inferno remover nacos presos em cantos remotos), papel higiênico (problema similar ao do algodão) e papel toalha (um pouco mais robusto que os anteriores, não é perfeito, mas costuma causar menos problemas). Também usei o truque de misturar sal grosso ao álcool e chacoalhar o tubo para que o atrito ajude a soltar os detritos – o que funcionou em algumas situações, mas não em todas.

Mas aí outro dia, enfrentando as mesmas dificuldades de sempre para limpar ali aquela desgraçada daquela voltinha do tubo, me deu um estalo. Além do álcool, em que outra substância os canabinoides se dissolvem? Gordura. Mas é claro. Eu já tinha lido sobre a famosa técnica de ferver o tubo sujo no leite – e, posteriormente, acrescentar chocolate a este leite e beber na esperança de atingir um efeito que eu, particularmente, não sou muito fã.

Eu não tinha leite. Considerei usar azeite, mas me pareceu que precisaria usar muito – e azeite é muito caro. Acabei apelando para a manteiga. Cortei um naquinho e fui empurrando para dentro do bocal, modelando com o dedo até que o preenchesse por inteiro. Deixei uma meia hora quieto, até que a manteiga começasse a amolecer, então chupei o ar pela outra ponta, fazendo com que ela atravessasse os buracos e adentrasse o tubo. Deixei quieto mais uns 5 minutos enquanto fervia uma água, derramei tudo pelo lado amanteigado e: voilá. Soltou TUDO.

Pra finalizar, um toque de mestre: em vez de usar algodão ou papel para dar aquela esfregada final, cortei um pedaço de um cordão de tecido usado para prender um avental que eu tenho há 8 anos e nunca usei. Caso eu mude de ideia agora e queira usá-lo, o avental ainda poderá ser fechado (era um cordão ridiculamente grande, tirei apenas um pedaço). Enquanto não me decido, o tubo curvo do meu Solo fica formidavelmente limpo. That’s what I call a win-win situation, my dammies.

lisboa: ficha técnica

Ali pelo terceiro ou quarto dia em Portugal fiquei sabendo (e de uma maneira fortuita, lendo a minha timeline do Twitter) que naquelas terras a expressão “dar o peido mestre” significava “bater as botas”. A partir daquele instante me corroeu fundo a vontade de usá-la no mundo real. No dia seguinte, quando pagava as passagens do ônibus que nos levaria a Óbidos, deu um problema no sistema de cobrança e eu cheguei a ensaiar mentalmente umas três vezes dizer isso pro motorista-cobrador, mas, infelizmente, faltou coragem. Jamais o fiz.

*

geografia: Lisboa se apresentou pra mim como uma cidade muito limpa, clara e tranquila. A tradicional folha outonal da Europa cobria o chão das ruas mais arborizadas, mas havia um nível muito baixo de lixo mesmo nos aglomerados de juventude. O destaque vai para a instituição lisboeta por excelência que é a LOMBA. Ficamos sabendo que a cidade foi construída em cima de sete colinas só quando já estávamos lá, verdade que se torna muito evidente toda vez que tu traça no Google Maps uma caminhada de 850 metros e se vê levando o triplo do tempo esperado por conta das subidas e descidas extremas, em sequências improváveis, ângulos impossíveis, e todas pavimentadas com aquelas pedrinhas altamente escorregadias (que bom que não choveu, por sinal). De todo modo: cidade linda, aprazível e saborosa. Dá muita vontade de voltar.

*

clima: Contrariando minhas expectativas, fez sol e calor todos os dias, com picos de quase 30 e vales não muito abaixo dos 16. Frio mesmo só no Cabo da Roca, uma falésia formidável localizada no ponto mais ocidental do continente, onde uma ventorreia louca trazia um perfume de mar até lá em cima. Sempre viajei para a Europa entre setembro e outubro e, geralmente, isso significa um certo grau de frio (embora às vezes faça um calorzinho de leve também). Em Portugal ele não se apresentou. Um céu muito azul, um sol estalado que me provocou um senhor torrão (pescoço púrpura) em poucas horas andando desprevenido por Belém, um ar seco provocador incessante de tatu. Segundo o taxista que nos levou ao aeroporto ao final daquela semana, não chovia na cidade desde MAIO, o que considerei meio CASCA caso seja verdade.

*

airbnb: Ficava na Rua da Caridade, num bairro pacato aparentemente chamado São José, não muito longe da estação Avenida do metrô, coisa de uns 15 minutos a pé da beira do Tejo ali na banda da Praça do Comércio. Vindo do nível do mar tinha que subir uma lomba média, uma escadaria de uns 50 degraus e mais outra lomba, maior e mais inclinada que a primeira, atingindo praticamente o cume do monte. Aí tu chegava num prédio, com cheiro de esgoto no corredor e três lances de escada estreita pra subir. Quando tu abria a porta, todavia: outro mundo. Era um duplex bem baixado, com dois quartos bem decentes (um deles com um pitoresco lavabo com janela pra rua, do qual seria totalmente possível cagar observando os vizinhos caso se quisesse) no piso por onde se entrava. Subindo uma escada meio íngreme chegava-se ao segundo andar, com uma enorme sala multifuncional, equipada com sofás e poltronas ultra-confortáveis, uma boa televisão repleta de canais (incluindo uma espécie de Globo do Passado, que reproduzia vários programas dos anos 80 e 90 misturados com a novela das oito atual com um delay de poucas semanas) e uma ótima mesa de jantar ladeada por cadeiras. Banheiro muito bom, com chuveiro quente fixo na parede e o tradicional secador de toalhas, que usamos, na verdade, para secar cuecas e calcinhas (além das toalhas). Cozinha funcional em excelente estado, máquina de lavar roupa (bom item para viagens de média e longa duração). Fechavam o combo duas mini varandinhas no fim da sala com uma mesa e uma cadeira, totalmente apertadinhas naquele espaço exíguo –  todavia muito afudê curtir sentadinho ali o dia indo embora, nuvem laranja, luz cor de rosa, céu azul cada vez mais escuro.

*

anfitrião: Era uma mina chamada Alexandra, mas como tinha sido meu irmão o responsável pelas reservas, demos oi para a pessoa errada, eu e Sandrinha, ao chegar. Uma velhota parruda, abrutalhada, com expressão de poucos amigos, que estava lá numa manhã de sábado pra fazer uma faxina pegada. Eu também estaria meio assim. Em seguida já pintou a verdadeira Alexandra, uma portuga que falava rápido e muito e nos explicou muita coisa sobre a cidade em poucos minutos. Boa pessoa divertida, simpática e gente fina.

*

internet: Quando chegamos, numa tarde de sábado,  sofremos o penal de estar sem TV ou internet. O motivo era uma obra que estava sendo feita para reforçar um muro que basicamente segurava uma considerável quantidade de terra no topo do morro, poucos metros acima. Alguém tinha rompido algum cabo, a operadora já estava trabalhando para resolver a situação, mas tudo parecia meio imprevisível àquela altura. No domingo, Alexandra deu um pulo lá em casa e largou um modem 4G ou algo assim pra quebrar um galho. No dia seguinte o problema se resolveu e regressou tanto o sinal da TV quanto o (excelente) sinal da internet.

*

obra do local: Nós ainda não sabíamos naquela hora, mas o elemento que uniria todos os airbnbs em que ficaríamos ao longo dessa viagem seria o fato de sempre haver uma obra a um alcance menos de 20 metros dos nossos ouvidos. Em Lisboa era essa obra nesse muro que sustentava o topo do morro, onde havia umas betoneiras elaborando concreto e uns pedreiros portugueses gritando uns troços muito engraçados em português de Portugal. Não chegou a incomodar. Na real incomodou tão pouco que nem lembro se ficou rolando até o final da nossa estadia ou não.

*

vizinhos: Era uma galera discreta, em geral. A gente quase não via e mal ouvia. Um dia, dentro do nosso prédio, uma mulher brigou com a filha, ameaçando chamar a polícia se ela não abrisse a porta. Todavia o conflito se desenvolveu de forma muito serena e tristonha, sobretudo para os padrões latinos aos que um brasileiro está acostumado, e acabou murchando se resolvendo sozinho. Ao descer e subir a escadaria entre uma lomba e outra, avistamos diversas velhotas extremas. Chegamos a interagir com algumas. Invariavelmente tinham idade muito avançada (turminha dos 80) e pareciam ter uns 20 a menos. Boa parte da explicação talvez esteja no fato de que, aos 80 anos, ainda estão subindo e descendo escadas todo santo dia. Ou talvez não. Nem sempre as coisas são o que parecem.

*

ganja: Nos ofereceram muito haxixe e maconha na chamada Baixa, o centrão, supostamente o bairro mais turístico da cidade, basicamente um enorme calçadão de piso branco intercalando lojas e restaurantes que se estende até a Praça do Comércio. Literalmente a cada 10 segundos alguém se aproximava do Dido e do Nes falando “hash” ou “marijuana”, certamente nos tirando pra gringo por conta da nossa latinha branca e style muito avançado. A maioria tinha pinta de indiano. Tu olhava pra mão dos caras e tava sempre lá a bolinha preta que obviamente não era haxixe. E mesmo que fosse: não faz muito a minha cabeça. Eu gosto mesmo é da planta. Até teve uma noite que a gente passou por um maluco fumando um beck muito cheiroso, ele ofereceu pra gente, acho que até perigava ser quente, mas: ah. Pra quê? Tinha Amsterdam logo ali adiante. Deixa quieto, my youth.

*

música: Um troço que eu sempre curto fazer quando viajo pra gringa é escutar os sons que eles estão curtindo e assistir as coisas que eles estão assistindo na TV. Nesse quesito Portugal trouxe uma grata surpresa, fundindo esses dois universos de uma maneira formidável no canal Trace Toca. Podemos resumi-lo como uma surra incessante de música afro-portuguesa, uma mistura louca de rap, trap e funk com kuduro e diversos outros beats e dialetos africanos muito brutais. Vinte e quatro horas ininterruptas dedicadas exclusivamente a videoclipes de artistas de Cabo Verde, Moçambique e Angola, além dos talentos oriundos de várias bocadas locais. Chegava lá na baia era só Elji Beatzkilla (meio o MC Guimê deles), Piruka, Dillaz, Costuleta, Agir e o hitmaker absurdo Plutônio, que contaminou minha mente por semanas com o r’n’b Tu não vales nada.

*

supermercado: Se tenho um arrependimento na passagem por Portugal foi o subaproveitamento de suas redes de supermercado. Fomos poucas vezes, não fizemos nenhuma compra digna de nota – tanto que não consigo lembrar de nenhum pão, nenhum queijo, nenhum frio especial que tenha comido para dar algum destaque. Acho que só compramos mesmo café, uns sucos, chocolate e uma bolacha meio ruim que até ficou de brinde pro próximo hóspede. Em parte isso também aconteceu por conta do preço da comida em tascas, cervejarias (que é como eles chamam os restaurantes), botecos e lanchonetes. Comer fora em Lisboa é muito barato, em geral muito bom e, sabendo procurar, muito farto. Aí o cara se anima.

*

transporte público: Bem bom o esquema deles: tu compra uns cartões de papel verde chamado VIVA VIAGEM, carrega eles com uma quantia em dinheiro e vai gastando conforme usa nas diversas linhas e meios de transporte. Usamos em metrô e trem, mas acho que também vale pra bus e algumas balsas, se bobear. O metrô é simples, não vai muito longe, tem poucas linhas e não muitas estações. Na hora do rush pode ficar meio cheio pra caralho e complicado (bem como o trânsito), mas na maior parte do tempo é bem sweet. Pegamos trem duas vezes, uma para Belém (um bairro afastado do centro), outra para Sintra (uma cidade próxima de Lisboa). Em Sintra foi muito barbada, em Belém o cara fica um pouco mais longe das atrações e meio perdido numa primeira vez, mas também rola. Problema maior é carregar o cartão nas malditas máquinas de auto-atendimento: se o maluco não tem dinheiro em moeda nem cartão europeu, aí tem que encarar fila de guichê, o que nem sempre é tranquilo. Eu mesmo morri nuns 40 minutos nessa brincadeira um dia.

*

táxi/uber: Não pegamos Uber em Lisboa. Os táxis eram muito abundantes e baratos, e os motoras em geral eram gente finíssima. Dois deles vieram dando lições de história (falando sobre monumentos e personagens), outros dois deram reais sobre Lisboa e Portugal nos dias de hoje (ótima cidade segura e moderna, ótimas perspectivas com o aumento do turismo, todavia gentrificação de bairros tradicionais). Só um dia a gente tava atrasadaço prum fado, tentado pegar táxi há 15 minutos sem sucesso, começamos a caminhar meio no desespero na direção do nosso destino e acabamos entrando no carro desse tiozão totalmente fora de controle, que dirigiu a milhão pelo meio daquelas vielas escorregadias, buzinando e xingando muito todo mundo pelo caminho porque queria se livrar logo pra assistir um jogo do Benfica na Champions. O bom foi que a gente chegou lá uns 5 minutos antes do começo do show (o que parecia totalmente impossível) e, na pressa, o malucão acabou nos cobrando só 3 euros (a corrida tinha dado 4 no taxímetro).

*

trago: Ceva não é muito o forte dos tuga. O que o cara encontrava sempre lá era a Sagres – a lager de briga deles – e a Super Bock – que além de não ser bock não é lá muito diferente da Sagres. Garrafa ou chopp: não fazia muita diferença. Cevinha padrão, amarelita, leve, meio docinha, gostosa de beber. Teve um dia num pico muito bom (chamado Taberna Anti-Dantas) que a gente tomou uma artesanal chamada Born in the IPA, produzida pela cervejaria local Musa. Essa sim: bem boa, dando chinelada na boca da cachorrada sem limites. Teve também uma escura (não lembro se Super Bock, Sagres ou até Estella Galicia – já que era bar de tapas espanhol) que a Sandrinha pediu um dia que era bem delícia. Na noite do fado mamamos um vinhozinho verde (chamava Alvarinho, da Deu la Deu), na Taberna Anti-Dantas foi um vinho do porto, no restaurante russo duas vodkas ucranianas (e uma ceva rusky chamada Baltika) e em Óbidos metemo uma ginjinha no melão. E era isso.

*

rangos: Portugal é sacanagem. Os caras tem arroz de lampreia (que é tipo um peixe-cobra com uma boca extremamente sinistra), percebes (um marisco) e toucinho do céu (um doce de amêndoa). Não comi nenhum dos três. Mas comi coisa boa pra caralho em Portugal. A mais portuguesa de todas foi num restaurante pitorescamente batizado de Caseiro, em Belém: açorda de camarão. Pelo que li a receita (oriunda do Alentejo) varia muito, mas basicamente é uma sopa que vai sendo engrossada com pão e vira meio que um mingauzão de sabores. No meu caso era apimentado e atolado de coentro, muito espetacular. Outro destaque foi o restaurante Incomum, em Sintra, onde comi o melhor e mais farto polvo da minha vida, com espinafre e uns nacos de abóbora castigados na brasa fatais. A melhor tasca só abria à noite e chamava-se Taberna Anti-Dantas. Lá comemos bolinhos de bacalhau fora de série, uma salada de agrião e figos estalando e um atum selado muito brutal. Também cantamos “New York, New York” e “Garota de Ipanema” com o restaurante inteiro (umas 4 mesas, no máximo 20 pessoas) por causa de um quarteto de irlandeses que chegou em chamas (e se recusou a acreditar que eu era brasileiro). Ainda no quesito frutos do mar – pelo qual a culinária do país é famosa – comi um arroz de polvo, um bacalhau às natas e outro com legumes e camarões que estavam apenas ok; uma dourada muito saborosa num lugar chamado O Chiado e bolinhos de bacalhau (que eles chamam de pastéis) bem gostosos em todos os lugares. Da culinária local que eu tive acesso, me arrependo um pouco de não ter provado um tal “bife de peru”, que parecia um schnitzel, um bife à milanesa, e aparecia no menu e no balcão de várias tascas pelas quais passamos. No mais, aproveitamos a gastronomia internacional de Lisboa comendo queijos e frios espanhóis num lugar de tapas muito bom (embora meio fancy e jovem) chamado Rubro, croquetes de queijo de cabra e chouriço extremos num pub igualmente espanhol chamado Taberna Ibérica, peito de pato ao molho de amora (utka chekov) no russo Stanislav e um ótimo gua bao (sanduichinho de pão chiclé chinês) de barriga de porco no asiático Boa Bao. Ainda deu tempo de meter dois burgers, um na chegada, outro na saída. O da entrada chamava Gutsy, era um lugar todo modernoso e meio asséptico, mas barato e bem servido (embora não particularmente delicioso). O da saída botava mais banca já no nome: Cultura do Hambúrguer. De fato, superior ao Gutsy, embora o grande destaque tenha sido o PREGO (que é como eles chamam um tipo de sanduíche) da Sandrinha, e não os burgers que comemos (que estavam bons, mas nada de espetacular). Por fim, um destaque inusitado: a conserva de NABO que acompanhava o pote de azeitonas que nos serviram no Mascote da Atalaia, tasquinha escura onde assistimos um excelente show de fado. Das melhores coisas que já comi na vida. Voltaria lá só para comer de novo.

*

doces: Por incrível que pareça, apesar da imensa variedade, fama e popularidade da doçaria portuguesa, comemos pouco doce em Portugal. Pastéis de nata e de Belém, check. Os dois são rigorosamente o mesmo doce, mas Pastéis de Belém, para os portugueses, só podem ser chamados dessa forma se forem comprados no bairro que leva o mesmo nome. Tanto estes quanto outros, comprados em vários outros bairros, possuem a seguinte característica em comum: o mesmo sabor excelente. Fomos até Sintra e pedimos o doce local, chamado travesseiro, no famoso café que os prepara e serve, mas: havia acabado de acabar. Sobremesa mesmo comemos só no Stanislav (um troço delicioso chamado shapka gugutse, panquecas de frutas vermelhas cobertas com chantili e temperadas com chocolate) e no Anti-Dantas (uns copinhos de chocolate cheios de vinho do porto – mais tarde descobriríamos que essa é a maneira folclórica de consumir a notória ginjinha, mas enfim). Merece menção honrosa um troço chamado Rebuçados Peitorais do Dr. Bayard, que são umas balinhas de mel contendo algum extrato vegetal, supostamente medicinais. Comemos como se fosse um Hall’s (embora não fosse refrescante como Hall’s e tivesse, na verdade, o sabor da bala de velho – bastante condizente com a propaganda e apresentação visual, o que me deixou muito satisfeito).

*

tourist trap: Uma noite já eram quase dez, tudo tava começando a fechar, nós ficamos meio perdidos dando volta na Baixa depois de voltar de Óbidos e acabamos sentando num restaurante totalmente cagado, com potencial tremendo de nos enfiar a faca na alma por dinheiro – que foi mais ou menos o que aconteceu. Cardápio plastificado com foto da comida é sempre furada. Os caras eram uns indianos que não falavam nem português nem inglês direito. O chefão ficava pressionando os garçons pra eles nos empurrarem mais coisas, mas a gente é brasileiro e sabe dizer não pra gringo malandro, de modo que tomou apenas duas cevas (cada um dos Czarnobrothers), um suco (Sandrinha) e comeu três porções de bolinho de bacalhau (aka ‘pastel de bacalhau’). A conta foi uns 50 euros – cara pra caralho, mas a comida não chegou a ser horrível. Fiquei com pena mesmo foi dos dois casais de gringos extremos english speakers que sentaram lá (e pediram o prato máximo, com camarão, peixe, costeleta de porco, batata frita, linguiça, a porra toda) e principalmente do malucão que chegou com duas putas, baixou champanhe e uísque e uns SEIS pratos bombados. Esse deve ter chorado. Vá gostar de buceta assim lá em Lisboa.

*

programas turísticos: Após enfrentar uma fila tremenda para recarregar nossos cartões VIVA VIAGEM, fomos até Belém de trem sem maiores problemas, exceto pelo fato da estação ficar meio distante de tudo que há de interessante no bairro (quase 2 km da torre, por exemplo). A primeira atração é o Mosteiro dos Jerônimos que, todavia, sofria reforma, de modo que parte importante de sua bela fachada estava coberta por um tecidão enorme com uma foto em tamanho real representando como o lugar ficaria debaixo daquele pano. Há um jardim muito bonito logo à frente, com fontes e estátuas boas pra se tirar retratos com forte carga dramática. Atravessando a rua e dando uma pernada considerável vemos o gigantesco Padrão dos Descobrimentos, um monumento realmente enorme e impressionante, retratando um monte de malandro barbudo tudo subido numa rampinha olhando prum pedaço do rio que desemboca no mar. É bem bonito. Olhando pra esquerda tu ainda vê a tal Ponte 25 de Abril, que é uma réplica da Golden Gate Bridge, de San Francisco. Achei meio sem sentido, mas ok. Dali é possível partir em caminhada semi heroica pela beira do rio até a icônica Torre de Belém – e uso aqui este predicado por haver percorrido os 900 e poucos metros debaixo de um sol retinto das três da tarde que me deixou com um senhor torrão (por sorte não ardeu muito e nem produziu insolação, mas pelo resto da viagem exibi um pescoço morenaço). Não vi vantagem em ficar horas fritando no sol na fila para subir escada medieval dentro da torre, mas é um bagulho bem bonito de ficar olhando. Sentamos num banco e fizemos exatamente isso. Depois chegamos mais perto, na beira do mar, aspirando aquele ar salgado, pra curtir a vista e tirar umas fotos. Na sombra tava até meio frio. Gostoso.

*

Um dia fomos ao Castelo de São Jorge. Sabiamente, pegamos um táxi. Foi barato e conveniente: são lombas muito pegadas até lá em cima, numa inclinação muito extrema, tudo feito daquela pedrinha sabonetosa e escorregadia. A pé deve ser a morte. Tem umas partes que o carro embica tanto que parece que ele está escalando o morro. O castelo em si é bem massa, em ótimo estado de conservação e com uma farta área de sombra produzida pelas árvores para acalmar a pele do cidadão. Logo que tu entra, debaixo desse toldinho de folha, já dá de cara com um mirante fudido, com uma vista nada menos que espetacular da cidade. Também dá pra subir umas escadas pra ter uma visão um pouco mais do alto e caminhar pelos muros originais do bicho, tudo muito insalubre, sem corrimão nem qualquer outro tipo de proteção. Imagino que seja raro que aconteça, mas se o cara escorrega pro lado errado ali em cima certamente dá merda. Mas esse dia ninguém escorregou. Tem restaurante, lanchonete e uns quiosques vendendo água, vinho e sorvete, e tem uns pavão meio solto no meio dos pombos disputando farelo de Cheetos e naco de pão (o que achei meio deprê). Mas só pela vista já vale a visita. Sair do Castelo e descer se perdendo pelas ruazinhas do bairro também é massa. Os restaurantes da região, na média, são excessivamente turísticos: caros e malandrinhos (cobrando dissimuladamente altos preços por itens como azeitonas ou queijo Serra da Estrela), mas nem por isso desprezíveis (quer dizer, pelo menos tem queijo Serra da Estrela).

*

Outra coisa fortemente turística que fizemos foi: assistir a uma apresentação de fado. Passamos uns dias pesquisando e descobrimos que existem duas opções possíveis: a) o fado tradicional, semi-caricato para inglês ver; b) o fado vadio. O semi-caricato, com aquela figura inconfundível da tiazona portuguesa de vestido escuro e um Nuno aleatório qualquer de terno, bigode e gel no cabelo moendo uma viola até não seria um grande problema não fosse o preço, na casa dos 30 euros por pessoa (com jantar e bebida inclusa). No vadio gastamos pouco mais que isso numa conta para três, comendo azeitonas, bolinhos de bacalhau e bebendo vinho. Fado vadio é como eles chamam quando rola um microfone aberto no pico. Uma banda de músicos profissionais toca 3 ou 4 músicas e daí qualquer um da plateia pode se oferecer pra cantar ou tocar algumas também. É mais autêntico, mais cru. Acabamos indo a esse lugar chamado Mascote da Atalaia, no Bairro Alto. Absolutamente pequeno. Algo como trinta pessoas sentadas – a maioria em mesas compartilhadas para seis pessoas. Como fomos os primeiros a chegar, ficamos na única mesa para quatro, a mais próxima dos músicos. Eu estava sentado exatamente ao lado da porta do banheiro. Quando o show começou, meteram uma cadeira ali interditando os esfíncteres da rapaziada e botaram um magrinho de cabelo molinha pra tocar guitarra portuguesa (tem fortes vibes de alaúde) bem do meu lado, cotovelo às vezes futucando o meu. Foi experiência bastante possante em termos estéticos e emocionais. Os músicos – além do magrinho molinha, uma mulher de cabelo preso e um tiozão retaco de barba cerrada – eram bons pra caralho. Primeiro cantou uma mina baixotinha de uns vinte e poucos anos, de tênis, camiseta e rabo de cavalo, e essa nanica arrebentou tudo. Confesso que pensei que esse lance de show de fado seria uma presepada do caralho, mas acabou sendo muito, muito bonito. A voz dessa mina era um troço absurdo, e como ela cantou ali, no chão, a pouco mais de 1 metro de distância, ficando na ponta dos pés e se apoiando na nossa mesa quando rolava uns ápices: deu pra sentir muito mais. Impactante mesmo. Emocionante pra caralho, o cara fica até com vontade de chorar de tanta tristeza que essa música contém. Que loucura. Depois dessa mina cantou um véio meio magro, suadão e bronzeado, com o cabelo encaracolado, compridinho e branco. Era bom esse véio também, todavia achei mais engraçado do que triste. De toda forma, compensou demais esse esquema. Recomendo.

*

Praticamos, ainda, a viagenzinha curta nesses dias em Lisboa. A primeira foi pra Sintra, pegando um trem que, em vinte minutos, te larga na boca da city. Uma vez lá compramos passagens de 24h praquele ônibus turístico vermelho que os gringos chamam de hop on hop off. Acabou sendo uma mão na roda porque nos poupou muita subida extrema, nos desovando igualmente na boca do tal Palácio da Pena, um bagulho altamente surreal e inacreditável. É uma porra dum castelo enorme com umas torres pintadas de azul, outras de vermelho, uns pedaços de amarelo, sentado no topo dum morrão maravilhoso, cercado de um mato esperto às suas voltas e dotado de uma vista nada menos que maravilhosa. Além de curtir o panorama humilhante do mundo que se tem lá de cima, ainda dá pra explorar os corredores e diversos aposentos ricamente mobiliados e decorados do lugar que, sabe-se lá como, tinha até uma sala de telefone (pra quem esse pessoal ligava? quem ligava pra lá?). É um negócio realmente fustigante. Já que estávamos por lá mesmo, aproveitamos pra dar uma banda mais caprichada nesse mesmo hop on hop off que nos levou até o Cabo da Roca, um passeio que nos permitiu conhecer um pouco das cidades pequenas do interior do país e também algumas praias. Nunca vou me esquecer do dia acabando no ponto mais ocidental do continente: o vento frio, o cheiro do mar, as ondas metralhando as pedras lá em baixo, a copa das árvores balançando lá em cima, o amarelo das folhas avermelhado por aquela última luz do crepúsculo. Parecia que tava tudo pegando fogo.

*

Andamos por Óbidos uns dias depois. Dava pra chegar de trem, mas a estação ficava supostamente longe da cidade. Ir de ônibus envolvia uma certa mão em deslocamentos de metrô por dentro Lisboa e algum labirintismo atrás da parada correta na estação Mato Grosso, mas o bus tinha a vantagem de nos largar na cara do gol. Se não me engano esse bus ia pra Caldas da Rainha e o cara tinha que descer no meio do caminho, mas era barbada fazer isso (na pior das hipóteses era só seguir os outros turistas, mas é bem fácil de perceber onde tu está chegando quando vê os muros de pedra medieval). A cidade em si é meio igual a Paraty, no Rio de Janeiro, então não me comoveu profundamente. Valeu mesmo pela ginjinha (o licor da ginja, fruta local similar à cereja) e pelo vinho do porto branco Offley – cujas garrafas comprei nesta visita e transportei por mais de 20 dias, 5 aeroportos e países dentro de uma mala, tendo chegado ao seu destino: intactas. Um salve para todas as companhias aéreas e ferroviárias que tornaram isso possível. Óbidos quase virou óbitos quando inventei de subir nos muros da cidade. À primeira vista parece uma excelente ideia dar a volta na cidade a vários metros de altura, observando o casario e a paisagem lá embaixo. Na prática, todavia, o sonho foi brutalmente mastigado pelos dentes duros da realidade. O que acontece é que, assim como no Castelo de São Jorge, não há nenhuma proteção para quem se aventura nessa brincadeira. Num dos lados temos efetivamente o muro do castelo, que dá para um precipício de uns 100 metros de altura – mas pelo menos te oferece uma tremenda proteção contra este tombo. Do outro lado não tem nada. Claro que aqui o tombo é bem menor, podendo ser de uns 5 metros se o cara der a sorte de cair no telhado de uma casa; mas tem uns trechos que é uma queda livre de mais de 30 metros. Até aí, ok, vá lá: tá na conta da habilidade do caminhante. O problema é que tu tem um espaço de um metro pra caminhar e na contramão tá sempre vindo um casal de velhos de bengala, uma família de gordão americano, todo mundo se jogando pros lados e precisando se apoiar em alguma coisa pra não cair. E aí tu, garotão juvenil, saudável, brioso, pra fazer a parceria pros gordo e pros véio o que que tu faz? Tu deixa eles se escorarem no muro e fica de costas pro vazio, torcendo pra que eles não se pendurem em ti caso alguma coisa dê errado. O pior é que uns desses veios eram muito filha da puta e passavam dizendo coisas do tipo “você é muito jovem, a vida vale a pena, não se atire daí” em tom de brincadeirinha desgraçada quando a gente dava o lado pra eles. Aguentei uns 200 metros assim (o percurso completo tem, salvo engano, uns 2 km) e pedi arrego quando um véio EFETIVAMENTE resvalou numa pedra lá e eu meio que me grudei nele antes dele se grudar em mim. Naquela hora pensei que tava tudo errado, que se alguém merecia ser poupado de morrer escorregando de forma estúpida dos muros de Óbidos era um alemão de 80 anos, não um filho da Medianeira de 38, mas achei melhor simplesmente desistir e descer. Afinal de contas, pensei, aquela porra não foi projetada pra ter um fluxo constante de gente nas duas direções. Certo que uma hora vai dar merda (se é que já não deu, acho impossível que não tenha dado). Pior de tudo foi que quando decidi voltar, eu mesmo sofri um breve escorregão, joguei o peso do corpo pro lado errado e tive que usar todo o conhecimento, flexibilidade e tônus adquirido em anos de pilates sério e caprichado pra me puxar de volta, recobrar o equilíbrio e evitar uma morte extremamente ridícula logo no começo da viagem. Ou seja, legal Óbidos e tudo, mas não recomendo subir no muro (e nem ir até lá se tu já foi a Paraty).

*

maloqueiragem: Andávamos por uma ruelinha solitária depois do almoço em Óbidos quando reparei que as paredes obscenamente brancas das casas estavam repletas de nomes azulados escritos nelas. Comentei em tom de semi troça que “bah, se eu tivesse trazido uma caneta certamente ia meter uma tag aí”, e Sandrinha prontamente produziu uma sharpie preta, com a qual todos assinamos nossos nomes no patrimônio histórico português. Só quando estávamos indo embora vimos a placa que pedia aos turistas que não fizessem aquela chinelagem em sua cidade, mas aí já era tarde demais.

*

dificuldades de língua: Baixíssima, afinal de contas, o país todo fala português (e, cada vez mais, inglês, a julgar pelo grande número de vezes que fomos interpelados nesta língua graças à tonalidade de nossas faces, peles e cabelos). Dito isto, todavia, apesar dos caras falarem e escreverem em português por lá, o uso da língua é bastante diferente. Há muitas palavras novas e construções estranhas nas placas, avisos e cardápios e se algum maluco destrambelha a falar muito rápido não dá pra entender quase nada. Mas claro que rapidinho o cara aprende as novidades, se acostuma às nuances e quando vê tá achando suave e macio tomar um comboio pra comer uma sapateira numa tasca muito engraçada perto do Rossio.

*

odores: Perfumes pouco pronunciados em Lisboa, mesmo com a cidade extremamente seca. Talvez o mais marcante seja mesmo o cheiro dos peixes, moluscos e mariscos cozinhando com cebola e azeite escapando pelas janelas e portas das cozinhas espalhadas pela cidade. Teve o olor salgado do mar trazido pelo vento no Cabo da Roca, evidente, mas fora isso aromas neutros, pouco memoráveis, por todas as cidades que passamos.

*

segurança: Vários nativos se orgulhavam em afirmar repetidas vezes que Portugal era o país mais seguro da Europa, o que pareceu ser, de fato, o caso. Andamos pra cima e pra baixo, dia e noite, e mal vimos pedintes e moradores de rua. Havia alguma presença policial e militar, mas era muito discreta em comparação aos demais destinos. Não lembro de nenhum golpe que tenham tentado nos aplicar, exceto os tradicionais africanos que amarram uma fitinha colorida no teu pulso e depois exigem 10 ou 20 euros que, todavia, ao descobrir que éramos brasileiros (e não deixávamos que pegassem nossos pulsos) sempre riam, faziam elogios genéricos e logo nos abandonavam, concentrando seus esforços em algum outro turista mais endinheirado, moscão e inocente.

*

volume de turistas: Bastante modesto em Lisboa, chegando a moderado nos monumentos, cidades turísticas e algumas estações de transporte público. Os próprios portugueses reconhecem que seu país sempre foi destino pouco requisitado, mas que ganhou força nos últimos anos por conta do medo de atentados terroristas nos destinos mais populares (França, Itália, Inglaterra, Alemanha e Espanha). Mesmo assim, cidade tranquila, Lisboa. Muito frequentável.

*

aeroporto: Confuso e lotado, sobretudo no setor de imigração, mas não especialmente ruim.

*

presença ilustre: Num dos primeiros dias da viagem, caminhando pelo calçadão da Baixa, Sandrinha alegou ter avistado John Malkovich. Imediatamente duvidamos dela. Alguns dias depois, contudo, ficamos sabendo que o ator havia, de fato, comprado uma casa em Lisboa há pouco tempo, e que, aparentemente, estava na cidade naquele mesmo período, o que fez com que seu relato ganhasse força e verossimilhança. O que é certo, todavia, é que em nossa última noite avistamos o ator Thiago Lacerda emergindo da estação de metrô Restauradores, todo gordão e empolgado, berrando para o amigo que o acompanhava “cara, eu vou te levar pra comer o melhor bife de Lisboa” e apontando, segundo meu irmão, para a Cervejaria Pinóquio, que, saberíamos mais tarde, trata-se do restaurante preferido do Zeca Pagodinho na cidade. Fui pesquisar e descobri que o lugar, apesar de ser especializado em frutos do mar, possui, realmente, um filé famoso em sua ementa (que é como eles chamam o cardápio). Quem poderia imaginar? O gordão do Thiago Lacerda, é claro.

guia czarnobrothers para uma eurotrip (2017)

Não cresci com a perspectiva de viajar para o exterior. Simplesmente não estava no meu radar de possibilidades.

Na minha família, viajar era de carro. Flavito dirigindo, Sandrinha no carona, Nes e eu no banco de trás. E basicamente só pra Serra Gaúcha (fim de semana nos chalés dos funcionários da Caixa em São Francisco de Paula, um almoço de domingo em Nova Petrópolis, um passeio em Canela ou Gramado) ou pra Santa Catarina (veraneios irregulares em Itapema). Teve um ano que a gente foi muito aventureiro, subiu até Curitiba e andou na litorina de Paranaguá. Mas, de forma geral, meu alcance era meio limitado.

A primeira vez que viajei de avião foi pra Belo Horizonte, em 1990. Eu tinha 11 anos de idade. Voei nuns aviõezinhos espremidos sentado só com o Flavito (e o Nes com a Sandrinha) e também com toda a crew no together numa fileira de quatro assentos no meio dum Jumbo, ainda com cinzeiro funcional, talher de metal e jantar quente servido no trecho noturno. Foi muito afudê.

Depois disso só fui voar de novo por volta dos vinte e poucos, já na era de ouro da aviação brasileira, naquela primeira onda de passagens baratas da Gol, quando os Organizers tocavam drum’n’bass no Rio de Janeiro. No ano anterior lembro que eu e o Nes ainda tínhamos ido de BUS pra lá, levando um tupperware contendo 28 pastéis e  quatro sanduíches de presunto e queijo no pão de forma a título de lanchinho (afinal de contas seriam 30 horas de estrada). Lembro também que a gente entrou numa pilha de fumar um por estado visitado (acho que fizemos isso), e lembro que um dos pastéis passou batido na viagem, morou uma semana inteira no Rio de Janeiro e voltou incólume com a gente pra Porto Alegre.

Mas depois ninguém comeu.

(…)

Graças à popularização dos preços de passagens aéreas a partir dos anos 2000, voei bastante entre os 25 e os 35 anos de idade – especialmente por dentro do Brasil. A certa altura eu vinha tanto para São Paulo que a cidade começou a ocupar no meu mapa mental de territórios uma posição equivalente a um bairro afastado de Porto Alegre. Surfando bons momentos econômicos do Dido (trabalho forte, remuneração caprichada, poupança seríssima), do país (real forte) e do mundo (dólar e euro fracos), consegui acumular o capital necessário para viajar algumas vezes para o exterior nesse mesmo período.

Nunca escrevi nada a respeito.

Dessa vez deu vontade.

A primeira vez fui pra Paris, em 2008. Entrei por Amsterdam, tomei umas cevas, fumei uns bagulhos, comi uns queijos, peguei um trem. Primeira vez é aquela estranheza, tudo é novo, rola o choque. É muito diferente. Na segunda já não é mais tanto. Na terceira tu já meio que te acostumou, na quarta a maciez está quase concluída, e na quinta a coisa periga normalizar (embora ainda não banalize totalmente, graças ao bom Jah).

A quinta foi essa, agora, menos de um mês atrás.

Eu e Nes fomos levar a Sandrinha pra conhecer umas coisas que ela queria conhecer. Lugares que veria pela primeira vez aos 67 anos de idade. Dois deles a gente mesmo não conhecia: Lisboa e Roma. Dois deles sim: Paris e Amsterdam.

Foi uma jornada muito doida, 27 dias que tenciono condensar numa série de relatos picoteados que devo publicar ao longo dos próximos dias ou semanas ou meses (só pra deixar uma data aberta e, portanto, não jogar pressão nem regar com o adubinho do fracasso) neste nobre espaço.

Stay tuned.

pausita

Passei 27 dias viajando com a minha mãe e o meu irmão entre Portugal, Itália, França e Holanda entre o final de setembro e a primeira quinzena de outubro deste ano. Regressei nem fez uma semana ainda, estou retomando aos poucos meus ritmos físicos e mentais. Muito bom viajar, né? Mas muito bom regressar também. Estar aqui. Apesar de estar mau lugar, é muito bom lugar, o Brasil. Podia ser tão melhor. Enfim. Pretendo recomeçar a escrever aqui logo mais. Vou só organizar melhor uns pensamentos ali e depois volto pra despejar por aí. Já vai.

SPFW

Passei anos brincando, mas acho que no fundo eu sempre tive a mais absoluta certeza de que eu jamais desfilaria de verdade numa São Paulo Fashion Week, nem em nenhuma outra semana de moda em qualquer outro lugar do mundo, pret-à-porter ou alta costura, entretanto, no fim das contas, foi exatamente isso o que aconteceu, no último dia de agosto desse ano, contrariando todas as previsões e estatísticas, quando marchei de cabelo tingido de azul com giz, tatuagem de ideograma nsibidi na cara, vestindo um camisetão e uma bermuda meio saia da marca ideologica e esteticamente afrocentrada Cem Freio, como parte da potente e apoteótica performance de encerramento do evento, carregada de luzes e sons e discursos extremos, ocupando grande parte da área interna do Pavilhão da Bienal no Ibirapuera numa mistura de voadora com martelada na face.

Procurando informações sobre o nsibidi, o sistema de símbolos oriundo da região que hoje é o sudeste da Nigéria, utilizado nas peças da coleção e na maquiagem do rosto da rapeize, descobri que acabaram escrevendo no meu rosto, de modo totalmente espontâneo e aleatório, os ideogramas que representam os conceitos de “guerra” e “dois homens conversando”.

Não sei vocês, mas eu achei isso: trimmmassa.

maromba lateral

Hoje faz dois meses que aderi à prática de executar uma série de dez apoios (também chamados de flexões de braço) e outra de dez abdominais para cada hora trabalhando sentado. Os resultados permanecem extremos: minha produtividade segue em alta e a musculatura do meu torso, ombros e braços continua o seu processo de tonificação.

Procuro fazer os apoios sempre da mesma forma: lentamente, chegando o mais perto possível do chão, sem tomar impulso pra subir nem soltar o corpo pra descer, prestando o máximo de atenção possível na postura e no movimento. Os abdominais são sempre feitos com as pernas levantadas a 90 graus, mas eu vario a flexão do core. Às vezes meto uns oblíquos, às vezes estico as pernas intercaladamente (bicicleta), às vezes faço uns curtinhos pra arregaçar. Depende do dia.

Tenho trabalhado entre 5 e 6 horas por dia, o que se converte em 50 a 60 repetições de apoios e abdominais diários de segunda a sexta. Nos fins de semana eu costumo relaxar e, a menos que esteja trabalhando sentado, vou fazer no máximo umas três séries, geralmente só de apoio – mas ainda assim vou fazer.

Recentemente as rotinas de exercício entraram também na programação dos meus madrugames, tragos e longas sessões televisivas, mas aí as regras são bem mais frouxas. Hoje, por exemplo, meti uma prancha de mão de um minuto, zero apoios e zero abdominais. Todavia mais cedo teve: uma hora de pilates de solo potencialmente catastrófico para o amador, de modo que: tá valendo.

VEREDITO: RECOMENDO

two dreams

No primeiro eu chegava a pé em casa, mas não era mais a minha casa – quer dizer, um dia foi. O apartamento em que eu morava em Porto Alegre, no Bom Fim, em cima do Mariu’s, na última quadra da Osvaldo Aranha, depois da curva que leva pro túnel (o único da cidade), uma das ruas mais perigosas e difíceis de atravessar em toda a cidade.

Estava nublado, e era meio de noite. Eu chamava o elevador e, enquanto ele não chegava, dava uma espiada num vão que desembocava na garagem, um espaço que não existia no prédio real. Não havia muitos carros estacionados, e meu amigo EGS promovia um churrasco dançante com uma galera da FABICO por ali.

O elevador chegava. Tinha uma daquelas portas pantográficas (outro detalhe incompatível com o verdadeiro prédio). Por algum motivo absurdo, eu havia pedido um Uber que não era um Uber, e sim um Cabify ou 99pop (posto que não uso mais os serviços do Uber há meses, embora siga chamando o ato de pedir um desses carros de aplicativo de “chamar um Uber”). O elevador ia até em cima e, quando ele chegava, eu apertava o botão para descer novamente.

Lá embaixo, na rua, o carro que me esperava não era o que eu esperava, e sim um dos clássicos táxis laranja tijolo (alguns dizem vermelho) de Porto Alegre. No banco do carona, ao lado do motorista, ia um velho, calvo, de cabelo branco. De alguma forma eu sabia que ele carregava uma grande quantia de cigarros consigo. Acho que cheguei a vê-los dentro de um maço curiosamente cilíndrico. O motorista alegou que o velho era seu pai, e disse que o deixaria em sua casa, que ficava pelo caminho, caso eu não me importasse. Eu não me importei.

Todavia, obviamente, logo ficou claro que alguma coisa estava errada.

O caminho não se parecia em nada com o que eu estava acostumado. Na verdade, eu nunca tinha visto nenhuma daquelas ruas, não conhecia aquelas casas, aquela paisagem. Experimentei um forte arrependimento por haver entrado naquele carro. Comecei a me perguntar por que fiz isso? Notei que o celular do motorista, visível, pendurado no painel, não estava com o GPS ativado, e pedi que ele inserisse o endereço do meu destino ali. Ele desconversou. A paisagem não era particularmente assustadora. De certo modo era até bonita: uns bairros bucólicos, arborizados. Montanhas cobertas de grama e um imenso corpo d’água que não entendi se era um lago ou mesmo o mar. Mesmo assim, eu estava cada vez mais desconfortável com a situação. Quando tentei abrir a porta do carro e a encontrei trancada, bateu o pavor.

Mas aí acordei.

(…)

No segundo eu ia passar por uma cirurgia no coração, aparentemente simples e rápida, sem maiores cortes, que me permitiria voltar para casa no mesmo dia. Eu aceitava tudo com muita facilidade e até alguma alegria (que estranho), mas, alguns momentos antes de começar a anestesia me ocorreu uma pergunta deveras importante: por que estou fazendo isso? Quer dizer, que problema estou buscando tratar com este procedimento? Resolvi questionar os médicos que, a exemplo do motorista mental do outro sonho, mergulharam fundo nas evasivas. Quando comecei a me desesperar e tentei levantar da cama, fui impedido.

E aí, novamente, acordei.

japan house

Confesso a seguinte ignorância aos amigos: não tenho a mais remota ideia do que seja a tal Japan House que abriu na Avenida Paulista há questão de alguns meses. Para manter a veracidade deste sentimento fumegando firme neste post, me omiti de visitar o site da instituição atrás de maiores informações. Tudo que eu sabia até então vinha dos depoimentos de amigos afirmando ser um lugar incrível, belíssimo e interessante. Nesta quinta-feira chuvosa e fria, aproveitando a presença de amigos do peito hospedados em meu lar, fomos conhecer o lugar e confirmar as impressões.

Possui, de fato, uma arquitetura e estrutura lindas, típicas de museu europeu. Tudo é muito branco, cheio de aço e madeira. O lugar é limpíssimo e silencioso, beirando o sacro. Instalações artísticas e exposições delicadas e minimalistas espalhadas pelos andares. Um bom restaurante (assinado pelo Jun Sakamoto), um gift shop com produtos japoneses impressionantes a preços impossíveis (entre os quais um braço robótico, garrafas de saquê de 2 mil reais e um conjunto de algo definido como “copo muito fino”, que supostamente causa a impressão de se estar segurando o líquido com as próprias mãos, embora pra mim eles pareçam mais grossos do que qualquer copo de cristal alemão disponível na cristaleira das vós mais tradicionais do sul do país) e um café honesto, ladeado por uma linda estante repleta de volumes japoneses ou sobre o Japão que podem ser consultados à vontade, embora não estejam à venda.

Todavia, o que realmente me deixou FLABBERGASTED, como dizem os bretões, foi o banheiro.

Não é mais preciso viajar até o Japão para ter a experiência complexa de cagar num daqueles vasos tecnológicos que a gente vê os artistas se impressionando nos filmes. Este do qual usufruí oferecia duas opções de jato de água (frontal e traseiro), com controle de intensidade e frequência (pulso ou constante). Já fiquei impressionado de cara com a MIRA do bagulho: me acertou em cheio no cu. Primeira coisa que me veio à cabeça foi o clássico do jungle Super sharp shooter, do DJ Zinc, que ouvi este fim-de-semana, no b2b do Marky e do Andy, perto das oito da manhã, após noite fortíssima envolvendo Dillinja e Bryan Gee.

Dei uma brincada com os controles e obtive imensa alegria anal. Quando julguei que já tinha tido o suficiente, apertei o botão de SECAGEM, o que promoveu uma sensação bastante curiosa nas entrefelfas do Didão. Parecia que o vaso havia sido tomado por uma porção gentil de água morna e turbulenta e, por cerca de um segundo, julguei ter feito alguma coisa errada (ou estar sentado desgraçadamente num vaso com defeito). Ao constatar, todavia, que meu saco não estava molhado, abri um sorriso satisfeito e deixei que o ar quente terminasse seu serviço em paz.

Pode até não ter sido a cagada da minha vida – muito longe disso -, mas que experiência cultural forte foi essa. Recomendo a todos que façam o mesmo.

Em tempo: se quiserem antes disso comer no Junji Sakamoto, que fica no mesmo piso, deixo o conselho de não pedirem o sushi. Não que seja ruim: pelo contrário. A questão é que é muito caro pra caralho. São 129 reais por 12 peças (embora tenha rolado um chorinho com 4 uramakis), e apenas 2 estavam realmente excepcionais. As outras peças (de peixes como beijupirá e olho de boi) estavam ok, na média dos bons restaurantes de sushi da cidade.

Bom mesmo são os pratos quentes. Não provei o tonkatsu karê, mas a merluza estava espetacular (periga ter sido o melhor peixe que já experimentei na vida) e o sukiyaki assoberbante. Embora não sejam exatamente baratos (entre 72-95 reais), compensam muito mais pelo volume e sabor dos alimentos. Se voltar algum dia, certamente optarei por um prato quente.

De todo modo, que boa experiência é a Japan House. Em visita à São Paulo, considere conhecê-la. Além de tudo é grátis.

marlon’s meals

Fui jantar uma vez – e almoçar duas – com o Marlon James em sua breve passagem por São Paulo.

Também o acompanhei numa peregrinação por lojas de discos atrás de reedições de clássicos obscuros da MPB (Ronnie Von, Tom Zé, Otto), mas isso não vem exatamente ao caso neste momento (todavia ele comprou um Azymuth, um Krig-ha Bandolo e dois Secos e Molhados, além de uns Tom Zé, uns Ronnie Von, e o primeiro do Mundo Livre S/A).

Nossos encontros alimentares se desenrolaram da seguinte forma:

JANTAR DE DOMINGO: Le Jazz da Melo Alves. Ainda não havia frequentado este espaço, e nele experimentei a estranheza de achá-lo exageradamente parecido – em absolutamente todos os sentidos – com o restaurante que há no endereço original, na Rua dos Pinheiros. Lamentavelmente, isso meio que quebrou a sua aura de bistrô charmosinho, substituindo-a por uma vibe violentíssima de Outback e McDonald’s. Dito isto, também se manteve constante a qualidade do bar e da cozinha: alta para o meu bico e para o meu bolso. Old Fashioned gostoso, boas beterrabas assadas com bom queijo de cabra, bom steak tartare com boas fritas. Bem ao lado desta unidade há uma segunda (quiçá terceira) unidade de um outro pico chamado Adega Santiago, que também me pareceu um pouco similar demais ao original quando olhei pra ele, de relance, antes de ir embora.

ALMOÇO DE GRÃ-FINO: Amadeus, protegido por um muro coberto de grama num cantinho estratégico ali nos Jardins. Supostamente é um dos melhores – senão o melhor – restaurante de frutos do mar da cidade. Chegamos faltando quinze minutos para a cozinha fechar e, para dar uma descomplicada geral na vida da rapaziada, fomos direto no menu executivo de almoço. Bastante excelente. O couvert existia em dois níveis: o primeiro, composto de pães, manteiga e azeite; em seguida, uma sequência de bocaditos: ceviche de peixe branco, salmão com creme de ervas, martelinho de caldo de legumes e um bolinho de bacalhau absolutamente inacreditável. Depois, salada de folhas com carpaccio de haddock defumado (todavia o garçom tentou meter que era anchova). Prato principal: massa fresca com lula, camarão e vôngole servida num prato de cerâmica em forma de chapéu de bruxa de cabeça pra baixo e com a ponta cortada. Chique pra caralho. E que sabor extremo, tudo. De sobremesa, pra arrebentar de vez: manjar de coco com calda de caju. Nas mesas vizinhas, eu via Joões Dórias: homens brancos de cabelo penteado e suéter sobre os ombros.

ALMOÇO MEIO PUBLICITÁRIO: Ici Brasserie dos Jardins. Também não conhecia. Jantei uma vez no Ici Bistrô, em Higienópolis, e lembro das ostras serem frescas, e não muito caras. Essa versão um pouco mais rápida nos Jardins não tinha ostras em seu cardápio, e servia quantidades nababescas de comida em seus menus executivos de almoço – o que pode ser uma reclamação ou elogio dependendo de que ângulo você examina a questão. Eu achei rango demais – mas também posso apenas ter ficado empapuçado pelas duas cervejas grossas que mamei durante a refeição (ambas excelentes, em versão ‘chops’). Sei que na salada de aspirações orientais com molho doce e picante, amendoim e broto já vinha tanto frango que quando chegou o steak frites (churros) eu já tava bem gordão. Mesmo assim, dei algum trabalho ao bife alto, vermelho e suculento. Mordi bem, o bicho. Masquei. Besuntei com a béarnaise que o acompanhou. Acabei nem comendo a sobremesa, no fim (mas lembro que era uma mousse de chocolate extrema que, confesso, está fazendo alguma falta às três e cinco da manhã dessa terça-feira).