vegetariANO

Já faz alguns anos que venho cuidando muito melhor da minha alimentação, reduzindo dramaticamente o consumo de produtos industrializados e focando em alimentos integrais, naturais e frescos. Recentemente, todavia, venho repensando também a minha relação com a carne. Eu como muita carne. Ainda é muito menos do que um brasileiro médio come, não tenho a menor dúvida disso, mas, mesmo assim, me ocorreu que talvez seja interessante dar uma guinada rasta extrema em 2018 e tentar brincar um ano de comer só planta pra ver o que me acontece.

Sempre fui muito cético em relação a isso, em algumas fases da vida até mesmo já me postei radicalmente contra o vegetarianismo (sobretudo como ideologia).

Mas sei lá.

Ouvi um argumento muito bom outro dia que me fez pensar.

Embora o consumo de carne e de outros alimentos cozidos tenha sido um dos principais responsáveis pelo nosso salto evolutivo, supostamente, seres humanos não são carnívoros – nem sequer onívoros. A evidência estaria no nosso sistema digestivo. Intestinos de animais que consomem carne tendem a ser muito mais curtos do que os que se alimentam de plantas – e o nosso sistema digestivo está muito mais próximo do de um gorila do que de um tigre.

Como sofro há anos com refluxo ácido e alguns outros distúrbios estomacais e intestinais de menor relevância (pra não falar nos níveis elevados de colesterol herdados supostamente dos ancestrais do leste europeu), me pareceu uma aposta interessante me alimentar como um orangotango em 2018 e registrar a experiência de alguma maneira.

Ainda não estou 100% convicto disso e, sendo bem sincero, considero enorme a possibilidade de não fazer nada e seguir comendo carne o ano que vem.

Mas vai que.

Enfim.

Pensando.

malucaites devaneions

Hoje fiz o seguinte: um acompanhamento hora a hora da minha performance traduzindo.

Primeira hora: 4,5 mil toques (16h-17h)
Segunda hora: 5 mil toques (17h30-18h30)
Terceira hora: 7 mil toques (19h-20h)
Quarta hora: 4,5 mil toques (20h30-21h15)

Nos intervalos, realizei:

a) 3 séries de 10 apoios muuuuuito lentos, até bem lá embaixo, sem impulso, só na calistenia grossa + 3 pranchas de 30s a partir do final do último apoio;

b) o plantio de uma planta de folha dura e roxa, dessas que parecem de cera, após deixar quase um mês dentro de um pote com água pra ver se criava raiz (criou pra caralho);

c) supermercado, onde comprei três heineken, duas das quais bebi durante a quarta hora de trabalho do dia, motivo pelo qual provavelmente cometi ampla gama de erros de digitação, lógica e português nas últimas várias frases (não vou editar).

bob

Naturalmente, o meu primeiro contato real com o reggae, de saber que aquilo que eu estava ouvindo era reggae, foi, como é o caso de quase todo mundo que habita o planeta terra e não teve a ventura de brotar na curiosa ilha da Jamaica, com Bob Marley.

Talvez eu tenha ouvido Gilberto Gil antes, eu ouvia o Gil desde criança, mas aí era aquele negócio travestido de pop, encharcado de dendê, brasileirão, outra vibe.

And don’t get me wrong on that: Gil a natty.

Todavia, não era the original.

Enfim.

De toda forma, lembro das minhas primeiras audições do Bob terem rolado no começo da adolescência, ali pelos 12 ou 13 anos, muito provavelmente sendo Redemption Song ou Is This Love? a minha iniciação oficial. Lembro também de não ter batido automaticamente ali, e só ter feito mais sentido um pouco mais tarde, quando tinha uns 16 ou 17 anos e conheci o álbum Kaya, com uns petardos como Satisfy My Soul e Running Away (além da faixa título) fervendo constantemente os meus ouvidos e pensamentos. Até hoje, por sinal, toda vez que começa a chover eu sinto vontade de blaze up the chalwa graças à frase got to have kaya now/ for the rain is failing.

Embora eu tenha tido alguns grandes momentos herbalistas relacionados a esse disco – como a vez em que me senti derretendo de verdade dentro de um Gol bolinha andando a 3 km por hora na Interpraias (uma via de chão de pedra cheia de grama no meio que liga diversos balneários do litoral norte do Rio Grande do Sul), sentado na carona, suando brutalmente no calor e ouvindo Sun is shining, ou quando acreditei ter descoberto uma “guitarrinha secreta” num ponto muito específico de Crisis – a verdade é que depois que comecei a me aprofundar mais no tesouro musical inesgotável que é a música jamaicana, acabei deixando o Bob meio de canto.

Até pouquíssimo tempo atrás eu mantinha um preconceito bobo com Marley, dizendo pra mim mesmo (e pra qualquer um que me perguntasse) que achava suas músicas pop demais, que aquilo não era reggae de verdade, que era muito diluído, muito mastigado. Coisa de branco.

Sério.

Todavia os últimos dois anos me jogaram no colo duas traduções enormes totalizando por volta de 1200 páginas sobre a história – real e ficcionalizada – de Robert Nesta Marley (A Brief History of Seven Killings, do Marlon James; e So Much Things To Say, do Roger Steffens). Nesse processo de contextualização e ressignificação, acabei reouvindo muita coisa que eu já conhecia, e descobri muita coisa que pra mim era nova. Prestando uma atenção diferente, ouvindo com outros ouvidos, outra cabeça, outro coração, só tenho uma coisa a dizer: que arrombado que eu fui.

Como é bom, o Bob.

Não era desse mundo, esse cara. E nem esse pessoal todo que gravou essas músicas com ele. Como eu disse uns minutos atrás ali no Twitter: se o cara bota Concrete Jungle pra rolar, fecha os olhos, escuta, no mínimo, um minuto e NÃO SENTE NADA, pode ter certeza de que este cidadão não possui ALMA.

 

whistleblower

Ao longo de pouco mais de vinte anos consumindo em formato de cigarros (becks, finos, chauras, bauras, toras, bombas, catroncas)* a chamada ganja (maconha, fumo, coisa, erva, massa), nunca havia me acontecido o que me aconteceu hoje.

Acendi uma ponta e, quando puxei o primeiro pega, ouviu-se um apito.

Pequenino, magro, mas ainda assim presente. Dei mais uns dois pegas de desconfiança, na leveza e brevidade, só pra ver se era a droga mesmo quem estava fazendo aquele barulho. Satisfeito com a resposta, dei então um pegão comprido, que os antigos conhecerão como “pulmão” ou “pulmas” (grafia alternativa: “pulma”), aquela puxada longa e caprichada, muito comum na prática da “paula”, aka “paulistinha”, que consistia de dar uma tragada (tapa, pega, bola)  e imediatamente passar o negócio para o amigo ao lado. O que teria feito o paulista seminal para que seus atos fossem imortalizados no jargão no submundo canabista porto-alegrense dessa época eu nunca soube. Sei que o bicho hoje resolveu cantar na boca do Dido. Que negócio esquisito. Nem foi bem um apito, era mais um guincho, um som parecido com o que acontece quando se faz um pequeno rasgo ali no pescoço de um balão semi murcho e se deixa sair o ar meio se peidando, meio se assoviando todo.

Lá pelas tantas parou, me deixando defumado (aura estalando de quente) e intrigado com a seguinte questão: como este fenômeno foi possível? Um furo milagroso, num ângulo certo, começando na cabeça e se esticando até a bunda da ponta com a missão única de acrescentar musicalidade a este meu ato controverso? Provavelmente.

*nunca chamo de “baseado”, por algum motivo

roma: scheda tecnica

Eu sabia muito pouca coisa sobre Roma e a Itália e, pra falar a verdade, não tive muito tempo nem pilha de pesquisar antes de viajar pra lá, de modo que chegamos meio no cagaço numa tarde de sábado e fomos aprendendo sobre a cidade à medida em que íamos existindo e nos movimentando nela. No fim das contas: bom método, achei. De lembranças mais fortes, a presença constante de moscas em absolutamente todos os restaurantes, bares e demais lugares com comida; e o trânsito estranhíssimo, onde atravessar a rua no começo parece uma grande aventura, mas depois de alguns dias tu te acostuma a simplesmente sair caminhando no meio dos carros até que eles (ou pelo menos a maioria) parem pra tu passar.

*

geografia: Na sala de espera do aeroporto de Lisboa, não sei se na Wikipedia ou no Wiktravel eu li que, assim como a capital portuguesa e várias outras cidades europeias, Roma havia sido construída em cima de sete colinas (que mania), de modo que sobrevoei o belíssimo terreno montanhoso espanhol e um naco generoso do Mar Mediterrâneo esperando uma surra de lomba do mesmo grau providenciado pelo nosso último destino assim que aterrizasse. Todavia, por algum motivo, isso não aconteceu. Fora o Gianicolo, em Trastevere, morrão brutal que escalei com meu irmão para ter uma vista acachapante da cidade como recompensa, não tive nenhuma grande aventura vertical por lá. Cidade bem estranhona, Roma, aliás – num bom sentido. Umas partes medievais, com chãozinho de pedrinha lisa, sem calçada, dividindo o espaço estreito com os carros por entre caminhos repletos de arcos, fontes, vielas, escadas e pracinhas. Outras partes com aquela cara mais urbana semi soviética de Berlim Oriental, embora com linhas mais arredondadas, mais com cara de decoração de bolo que presídio sofisticado. E aí, no meio disso tudo, a velharia. Igreja pra caralho, todas sensacionais. Uns restos de palácios, umas colunas carcomidas de 2 mil anos, estátua pra tudo quanto é lado, uns monumentos gigantescos que te deixam esmagado, humilhado e metralhado como ser humano. O cara pega um tramzinho despretensioso qualquer e de repente BIM: aparece o Coliseu na janela. É um teto.

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clima: Vacinado por Lisboa e alertado por amigos, já me preparei prum morninho mais quentucho em Roma, que foi precisamente o que experimentei. Se usei moletom algum dia foi mais pelo fiasco e pelo estilo do que pela necessidade real. No fim, meio parecido com Lisboa: uns 30 graus na tarde, uns 17 na noite. Se tinha sol – e nem todo dia teve – ficava um pouco mais casca. Na sombra e com o céu encoberto era mais tranquilo. No nosso segundo dia lá, um domingo, chegou a chover por uns 15 minutos, fazendo brotar de forma muito imediata vendedores indianos de guarda-chuva. Sério, isso foi bem impressionante: os caras, que até então vendiam umas coisas aleatórias tipo uns panos ou água e refri, no instante em que começou a chover apareceram cheios de sombrinha de bolso pra empurrar pra rapaziada. Mas foi isso. O ar em Roma ainda estava bem seco, produzindo aquele tatu firme, embora em alguns momentos tenha estado um pouquinho mais úmido do que em Portugal (até porque rolou essa garoinha).

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airbnb: Ficava na Via Amiterno, numa hood bem residencial pertinho da Porta San Giovani e da Basilica di San Giovani in Laterano, além da estação de metrô San Giovani, o que me faz suspeitar fortemente que o nome do bairro provavelmente deva ser San Giovani também. O apartamento ficava no último bloco de um condomínio com três prédios, bem no fundão. Tu abria um portão que também servia para os carros, passava por dentro de uma entrada que levava para o primeiro prédio e atravessava o pátio repleto de carros, gatos e plantas que levava para o segundo e para o terceiro. Lá tu abria outra porta menor para ganhar acesso às escadas (frias e escuras embora largas, de pedra clara polida e corrimão de granito) ou ao elevador (apertadinho, com porta pantográfica, pitoresco). O apartamento em si era bem espaçoso, com dois grandes quartos equipados com camas de casal – e mais uma segunda cama de armar para o terceiro (ou quinto) hóspede – uma cozinha de bom tamanho com uma mesa redonda num canto e um banheiro legal, equipado com um chuveiro um tanto quanto traiçoeiro (escorregava do poste e saía metralhando pra todo lado, e ainda tinha uma cortina de plástico que, não importava o que se fizesse, sempre molhava a porra toda) e uma máquina de lavar (que, todavia, tinha sido arrebentada pelos chineses que ficaram ali antes de nós e portanto não estava funcionando). O bizarro desse apê é que ele não tinha uma sala de estar, um espaço comum, e talvez por isso carecesse de uma TV – o que não chegou a estragar a experiência, lógico, embora tenha nos privado de mais essa camada de acesso à cultura italiana. Também tinha uma mini varandinha para cada um dos quartos, com a mesma configuração lisboeta de mesinha com cadeiras espremidíssimas num espaço magro. Dava vista pros fundos de um outro prédio e para o pátio desse prédio, com uma dúzia de janelas protegidas por venezianas e cortinas. Não era especialmente feio nem bonito, mas tinha lá o seu charme.

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anfitrião: Era uma mina chamada Annalisa, com fortes vibrações do leste europeu embora falasse italiano belíssimo e perfeito e provavelmente fosse apenas uma italiana loirinha de cabelo liso preso e olho claro e não uma tcheca búlgara moldava curtindo um bronze adriático. Não tinha um inglês muito bom, mas foi solícita e gente fina desde o começo, agilizando carro pra nos buscar e levar no aeroporto e se habilitando a solucionar o problema da máquina de lavar assim que ele se apresentou (inclusive tendo trocado mensagens por mais de uma hora com meu irmão no chat do aplicativo do Airbnb num domingo de noite para tentar resolver a bronca à distância). Boa pessoa.

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internet: Logo que chegamos, fluiu macio. Annalisa até esperou que um de nós tivesse conseguido se conectar à rede antes de ir embora. Domingo à noite, todavia, absolutamente do nada, a internet peidou. Caiu e não voltou. Ligamos e desligamos o wi-fi dos celulares, reiniciamos o modem várias e várias vezes. Nada. Tinha uma luzinha lá debaixo do ícone de mundo que simplesmente não acendia. Tudo indicava ser uma daquelas panes eventuais que dá num serviço desses, seja porque rompe um cabo ou porque alguma outra coisa dá um pau, ou só porque tinha uma manutenção programada naquela madrugada de domingo pra segunda. Só que a gente não tinha como saber, e ficamos ali meio perdidões tentando entender, buscando informação em italiano no site da TIM ou da TRE e não encontrando coisa nenhuma. Sensação meio estranha. De repente, lá pelas três da manhã, voltou. Do nada. Nunca soubemos o que foi, mas também nunca mais deu problema.

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obra do local: O mais engraçado é que nas resenhas desse AirBnb tinha um pessoal reclamando do barulho de uma obra acontecendo no apartamento de cima ali por junho. Meu irmão até tinha visto, mas pensou “vamos no começo de outubro, já deve ter acabado.” Eu teria pensado o mesmo. Todavia, como ele, teria pensado errado. Como chegamos num sábado, nos primeiros dois dias não pareceu que haveria uma obra de qualquer tipo ali – e porque haveria de haver? Não faria mesmo o menor sentido. Acontece que havia. Na segunda ficou claro, quando, por volta de oito e meia da manhã, começamos a ouvir pancadas surdas e cadenciadas penetrando o teto grosso e escorrendo até os nossos ouvidos. Por sorte, aparentemente eram apenas retoques: as batidas foram ouvidas apenas por um ou dois dias, embora de forma muito brutal.

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vizinhos: Não eram muito perceptíveis esses vizinhos. Achei os italianos que conhecemos muito menos barulhentos do que o estereótipo gosta de sugerir. Supostamente este era um bairro mais residencial de Roma, com ruas tomadas pelo pequeno comércio, carros absolutamente arrebentados e uma italianada braba caminhando pra cima e pra baixo. Não captei nenhuma grande chinelagem ou gritaria nesta área (nem em qualquer outra, pra falar a verdade). O pessoal parecia apreciar o bom silêncio. Ao mesmo tempo, uma marca registrada eram as roupas, penduradas nas janelas de forma ostensiva (se bem que isso também era flagrante em absolutamente toda a cidade).

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ganja: Não lembro de ter sequer sentido o cheiro da ganja em Roma, mesmo quando nos metemos nas ruelinhas fervilhando de jovens na noite de Trastevere. Será que os caras não curtem muito a erva lá? Se curtem, de onde será que vem o grosso do bicho? Norte da África? Se for, deve ter mais hash que ganja lá. Mas também não sei. Não faço ideia.

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música: Como não tinha TV em casa acabamos não consumindo nada de música por tabela. Considero uma das grandes lacunas dessa viagem à Itália, embora eu já saiba de antemão que, na média, a música italiana é uma merda.

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supermercado: Aqui a coisa começou a melhorar. Bem perto do nosso apartamento havia um bom supermercado local da marca PAM, que nos abasteceu quase que diariamente com pães, frios, queijos, biscoitos, cerveja e chá gelado. Nesse super tinha um negócio muito bom chamado pizza bianca que, na real, era um pão quadradão, chato e fofo, nadando em óleo, excelente para a confecção do: sanduíche. Adquirimos ao longo da semana bons salames e prosciuttos, bem como queijos de vaca e ovelha e uma manteiga pesada. Rolou ainda uns chocolatinhos delícia, uns sachezinhos de café com aroma de avelã, uns biscoitaços extremos, mas o meu destaque tem que ir para as cervejas locais, que merecem um esmiúço à parte logo adiante.

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transporte público: Esse no começo meio que assustou. Todo mundo dizia que a Itália era foda, que era tudo uma bagunça, e que o cara tinha que ficar ligado pra não ser roubado ou tomar um golpe. A primeira parte é verdade: é uma bagunça, tudo. Nada é muito auto-explicativo, o cara tem que ir pesquisando na internet uns blogs de viajante pra ir entendendo como funciona o bagulho. Agora, por exemplo, eu já nem lembro muito bem como era o esquema do metrô. O que eu lembro é que um dia a gente foi na estação que tinha ali perto do apê e eu comprei os biglietti numa máquina sem grandes mistérios. O único truque é que todas as máquinas tem desenhado do lado que formato de dinheiro elas aceitam, e nem todas aceitam notas (na real, que eu me lembre, nenhuma aceitou, mesmo as que supostamente deveriam). Se o turista começa a se embananar, não demora muito pro espertalhão local se oferecer pra ajudar (e aí sei lá o que acontece, porque o turista aqui não deu sorte pro azar e quando esses malucos mandaram seu hello may I help you sir eu já mandava o meu non grazie da escapatória total e cortava o carcamano). Achei o metrô bem limpo, simpático e tranquilo – exceto na hora do rush, quando aí vira um metrô normal como em qualquer cidade grande do mundo: lotado pra caralho. Fácil de entender as linhas e estações. Usamos também os biglietti nos trams – que achei ainda mais limpos, simpáticos e tranquilos que os trens do metrô, com a vantagem de te deixarem assistir a cidade enquanto se deslocam, embora não haja nenhuma indicação de parada e o cara precise confiar nos mapas e instinto para descer no lugar certo. A única inconveniência da rede de transporte de Roma é que se o cara tá num lugar onde só chega tram, como Trastevere, por exemplo, e não comprou um bilhete pra fazer a viagem de volta, aí tem que se enfiar numa tabacaria e tentar desenrolar um italiano pra adquirir o produto (o que não chega a ser muito complicado, também). Se não me engano no metrô tu enfia o biletinho na catraca e no tram tu enfia numa maquininha pra carimbar. Vale por algo como 100 minutos apos o início da primeira viagem.

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táxi/uber: Em parte intimidado pela língua, em parte desincentivado pela ótima oferta do transporte público local, não usamos nem táxi nem Uber em Roma. Aparentemente o único lugar em que se pega táxi em Roma é nos pontos; se o cara faz sinal na rua, eles não param. Isso foi o que eu li, mas na real não testei e acho que não vi. Nem prestei atenção. Uma coisa que fizemos, e foi bom: usamos um serviço de transporte privado pra sair do aeroporto e voltar pra lá. Levando em conta que um táxi de Fiumicino até a cidade custa de 50 euros pra cima, foi excelente ter desembolsado apenas 45 pelo mesmo trajeto sem nem precisar gastar o meu italiano inexistente com algum taxista potencialmente vigarista. Não parece uma economia tão enorme em termos absolutos, mas assim que atravessamos o portão de desembarque tinha um maluco com uma plaquinha escrito “Czarnobai” (pena que estava sem bateria no celular pra fotografar) nos esperando, e no dia do voo pra Paris o tiozão que nos levou chegou 15 minutos antes da hora combinada e disse que só estava nos avisando que já tinha chegado, e que estava a nossa disposição quando quiséssemos ir. Sem stress, sem confusão, sem nenhum grau de tensão. E dez euros mais barato que um táxi. Achei estupendo.

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trago: Na minha cabeça e por conta de algumas experiências passadas, a ceva provavelmente não devia ser muito o forte da italianada também. Fora alguns títulos malucões do Birrificio del Ducato que havia consumido por aqui, tudo que eu conhecia de cerveja italiana eram umas lager e umas pilsen padrãozinho, de modo que não estava esperando nada. Todavia, que boa surpresa me fizeram as cervejas italianas. Pelo jeito a onda artesanal e gourmet aportou com força no mercado local, com reflexos visíveis tanto nos rótulos industriais quanto nos semi caseiros. Logo de cara, na nossa primeira refeição, tomamos uma tal de Gran Riserva Doppio da Peroni, curiosamente identificada apenas como “artigianale” no cardápio do ristorante embora seja fortemente comercial. Mesmo assim já era uma pedrada, sobretudo comparada às portuguesas. Não lembro de ter tomado nada muito memorável nos restaurantes nos dias seguintes, mas levamos pra casa o que achamos no supermercado, basicamente rótulos da Moretti e da Poretti (creia, embora, pra ser justo, essa segunda se chame Angelo Poretti). Da primeira tomamos duas que, descobriria mais tarde, fazem parte da linha Le Regionali, de cervejas que levam na receita algum ingrediente local de algum cafundó da Itália. A Moretti alla Toscana, por exemplo, era feita com variedades específicas de trigo (um tal de trigo emmer) e cevada (diz que é orzo di Maremma); já a perfumosa, refrescante e deliciosa alla Friulana (my fave) levava maçãs na receita. Dei uma rápida olhada no site da marca e vi que essa última os caras nem estão mais fazendo. Que bom que eu tomei. No mais, também gostei bastante das cervejas da Angelo Poretti, mais lupuladas e fortonas. Tomei uma 5 Luppoli Bock Chiara e uma 6 Luppoli Bock Rossa. Ambas deliciosas, amargosas, mais com cara de IPA que de BOCK, se é pra falar nesses termos.

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Merece um subcapítulo à parte o espetacular brewpub Ma Che Siète Venutti A Fa?, uma portinha toda cheia de adesivo que leva pruma gruta escura localizada numa parede ancestral no bairro boêmio e charmosinho do  Trastevere. Lá dentro umas VINTE torneiras enfileiradas, servindo cervejas efêmeras, bizarras ou alienígenas como a norueguesa Lervig Hazy Days, a americana The Veil We Ded Mon e as locais Vento Forte IPA, Ritual Lab Tupamaros e Extraomnes Quadrupel. Só pela brincadeira, joguem esses nomes no RateBeer: tudo na base de 98, 99 pontos de 100 possíveis. Agora imagina isso ON TAP. Que trago excelente, meus amigos. Senão o melhor, definitivamente um dos três melhores de toda a minha vida. Eu e o Nes, bem loucões, subimos o Gianicolo, mijamos clandestinamente nas redondezas do Orto Botanico e depois ficamos azucrinando pelos mirantes da colina antes de descer pra tomar a saideira.

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rangos: Essa foi, disparada, minha maior decepção nessa viagem. Passei a vida inteira comendo comida italiana e ouvindo que a Itália era o lugar onde melhor se comia em todo o mundo mas, pelo menos no tocante a Roma, e pelo menos na minha experiência, isso não se mostrou verdadeiro. Não que tenha sido terrível: muito pelo contrário. Comi muito bem na Itália. Só não comi no nível extremamente elevado que eu estava me preparando pra comer. Talvez uma forma melhor de dizer o que eu disse seja afirmando que já comi comida italiana melhor ou, no mínimo dos mínimos, no mesmo nível em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Alguns amigos, ao serem confrontados com essa incômoda realidade me disseram que Roma realmente não é um bom lugar para se comer de forma esplêndida, e que os verdadeiros tesouros gastronômicos da Itália estão escondidos nas cidades do interior e, naturalmente, na casa dos italianos. Mas só posso falar do que vi e comi, e o que vi e comi não me impressionou muito (exceto pelas já supracitadas moscas e pelas generosas peças de carne expostas de forma quase obscena nas vitrines). Dito isto, nosso primeiro contato com a culinária local foi numa pequena cantina chamada Da Roberto e Loretta, onde chegamos depois das 15h e fomos relegados a uma parte isolada do restaurante enquanto habitués comemoravam o que me pareceu um aniversário de gente mais velha em algum dos outros cômodos. Ninguém falava inglês, e tivemos que nos virar para pedir boas massas e um porco assado com batatas. Lembro que tinha coelho no menu, mas acabei optando por um tonnarelli cacio e pepe, por saber tratar-se de um dos pratos mais famosos da culinária romana: massa com queijo pecorino e pimenta. Foi lendo esse cardápio que fomos apresentados ao conceito italiano da entrada, primeiro e segundo pratos – embora não tenhamos entendido muito bem naquele momento. Aparentemente, a maneira tradicional de comer uma refeição na Itália envolve uma série de etapas, que incluem aperitivos, entradas, dois pratos principais, acompanhamentos, saladas, frutas, queijos, sobremesa, café e digestivo. A maioria dos restaurantes opera dessa forma ou, no mínimo, oferecendo opções de antipasto, primo e secondo piatto e dolce. Todavia, quem não tem tempo, saco, bolso ou estômago pra todo esse banquete pode simplesmente comer qualquer dos pratos na sua versão solo. Pelo que entendi, em alguns lugares, isso faz com que o prato único seja servido numa versão maior do que seria caso o cliente tivesse optado pela sequência – mas não tenho certeza absoluta disso. Voltei a comer um cacio e pepe no último dia de viagem, cobrindo uma massa no formato de bolinhas bem pequenas chamada gnocchini (literalmente, um “nhoquinho”), num restaurante bem menos tradicional do que o primeiro, todavia com resultados (sabor e preço) muito próximos (senão idênticos). Também comi bastante sanduíche em Roma: em casa, nuns buracos meio aleatórios perto da parte mais turística da cidade e no notório Pane e Salame, supostamente um dos melhores da cidade. Todos eram bons. Não tinha como não serem: os pães eram bons, os frios eram bons, o que poderia dar errado? Até o tomate seco em Roma era bom, e olha que estamos falando de um dos ingredientes que mais detesto no mundo. Outra coisa típica de Roma da qual me alimentei foi o famoso saltimbocca: filezinhos de vitela enrolados em presunto cru e sálvia e fritos numa solução de vinho branco e manteiga. Esse troço era preza. Bah. Aí eu tirei meu chapéu. Vitela também comi um outro dia numa versão ensopada com batatas e coberta por um molho cremoso marrom, mas nada de muito acachapante dessa vez. Um risoto fraco de polvo e marisco um dia, uma carbonara (literalmente) criminosa um outro (mais sobre isso em tourist trap) e meio que foi isso. O destaque curioso e inesperado vai para o Studio Pasta, um lugar que, apesar do nome, parecia ser forte pela venda de pizzas em fatia, mas, no fim, acabou se revelando uma boa experiência autenticamente regional. Só italianos frequentavam o local, e a maioria estava se alimentando da sua maneira tradicional e nababesca, enfileirando uma sequência interminável de pratos. Como comeu aquela italianada aquela noite. Barbaridade. E muitos ainda saíam pra fumar entre uma etapa e outra da refeição. De nossa parte, pedimos uma prancha de frios bem generosa, com muito salame, presunto cru e diversos tipos de queijo; uma porção de legumes empanados e fritos bastante excelente; um bolinho de arroz típico da região chamado supplì; e um exemplar da célebre pizza romana, com a massa mais fina do que costumamos comer no Brasil. Nada mau. Por fim, vale conferir uma menção honrosa a pelo menos um elemento da gastronomia italiana que sobreviveu gloriosamente à sua fama: o café. Sempre fortíssimo e muito gostoso, fechou todas as refeições com qualidade extrema. Foi o sabor, perfume e sensação que mais deixou saudade no quesito culinário.

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doces: Aqui os romanos se redimiram com tranquilidade. Como fazem doces bons, esses desgraçados. Comemos tiramisù tradicional no Studio Pasta e algumas receitas mirabolantes, com banana e frutas vermelhas no Pompi e tudo era: absolutamente fatal. As tortas do I Vitelloni, o salame de chocolate, a panacotta e até os morangos com nata do Tonnarello (pico aberto supostamente desde 1876): só pedras. Se a comida salgada não me deixou com o famoso gostinho de quero mais, as sobremesas fizeram isso com larga folga.

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tourist trap: Um dia a gente estava andando há horas ali pelo centrinho, bateu fome, bateu cansaço e a solução foi tentar achar o lugar menos horrível pra dar uma sentada, beber e comer alguma coisa tomando o menor tufo possível. Na região em que estávamos, altamente turística, a maioria dos lugares tinha cardápio de plástico e cartaz com foto das comidas na frente – dois dos três principais sinais de furada na Europa. Esse não tinha nenhum dos dois, mas tinha o terceiro: o garçom que fica abordando o turista desavisado na rua na tentativa de atraí-lo para dentro. Acabamos cedendo. O lugar se chamava Osteria dell’Alloro. Se quiser ter uma ideia do tamanho da encrenca, jogue este nome no Trip Advisor e leia algumas das resenhas (já alerto que a nota média é 2,5 e que mais de 40% das 600 avaliações o classificam como ‘horrível’). Logo que entramos, um gordão italiano nos fez sentar, encostou uma mesinha de madeira ao lado da nossa e deitou um peixão sobre ela, perguntando algo como “então hoje vamos comer peixe?”, enquanto manuseava uma faca sugerindo possíveis cortes. Como aqui é Brasil, sentimos o abraço e dissemos não de forma muito enfática. Ele começou a querer sugerir alguma das enormes peças de carne que estavam expostas na vitrine, mas, novamente, negamos, e exigimos o cardápio. Ao perceber que tinha adversários à sua altura, o tramposo meio que nos largou de mão, concentrando seus esforços numa numerosa família americana, que adentrou com 8 ou 9 membros e saiu aceitando absolutamente tudo que ele ia oferecendo. Nosso cardápio demorou, mas chegou. Nele entendemos que o preço dos pratos não era assim tão catastrófico – exceto pelos itens peixe, carne e couvert (que recusamos ainda antes de sentar, pra não ter erro). Só nesse o cara já saía morrendo em mais de 15 euros se bobeasse. Não bobeamos. O brasileiro que entrou depois com um sorriso besta na cara, elogiou as carnes na vitrine dizendo “ô loco”, aceitou couvert, vinho e água mineral pra ele e pra mulher: sim, com certeza. Não sei quanto foi a conta deles, mas certamente não foi bonito. Consultando o cardápio descobrimos que os peixes e peças de carne eram cobrados por peso: 5 euros a cada 100g. É claro que o 5 estava em uma fonte enorme, vermelha, vendido como grande vantagem; e o 100g lá embaixo, bem pequenininho, quase escondido num canto da página. Suponho que os caras cobrem o preço pela peça inteira e depois sirvam apenas um naco – o que explica as fotos de contas de mais de 300 euros por casal no Trip Advisor. Com muito custo, conseguimos pedir nossos pratos: massas absolutamente ordinárias, sem muito gosto ou brilho. Estavam molengas, claramente cozidas muito além do ponto, e pareciam ter sido aquecidas no microondas (o que talvez tenha sido justamente o caso). Comemos, bebemos (cerveja um pouco acima do preço, mas nada de muito absurdo também) e pedimos a conta. Subitamente emergiu da cozinha um garçom brandindo uma bandeja repleta de doces que, à primeira vista, até pareciam bonitos, mas, com uma observação um pouco mais cuidadosa se mostravam envelhecidos e queimados de sol de tanto entra e sai. Tentaram botar algumas taças sobre a nossa mesa, mas não deixamos. Quando a conta chegou, era algo como 45 euros. Meu irmão deu uma nota de 50. O gordão ainda tentou meter a seguinte: “Está certo assim?”. Todavia o Brasil falou mais alto mais uma vez e meu irmão respondeu com a testa franzida, chacoalhando a cabeça e os dedos, vociferando vários nãos e logo em seguida a frase que aquele carcamano menos queria ouvir: “Me traz o meu troco.” O cara demorou um pouco e, quando voltou, com uma cara de cu tremenda, literalmente arremessou as moedas sobre a mesa, e nem respondeu prego quando mandamos o grazie, buona giornata e arrivederci de praxe na despedida.  Levando tudo em conta, até que não fomos tão mal.

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programas turísticos: Como não conhecíamos absolutamente nada de Roma e tínhamos vivido boa experiência em Sintra, nos pareceu que a melhor coisa a fazer seria passar o primeiro dia visitando os principais pontos turísticos da cidade num daqueles ônibus turísticos hop on hop off. A ideia era ir registrando os lugares que mais nos chamassem a atenção num caderninho para retornar nos dias seguintes, e foi precisamente o que fizemos. É claro que em uma semana na cidade mal deu pra arranhar a superfície. Roma talvez seja a cidade no mundo com mais atrativos a céu aberto. Chega a ser surreal de tanto monumento, ruína, estátua, palácio e igreja. Bem perto do nosso AirBnb, por exemplo, ficava o Coliseu. Bem perto talvez seja um pouco de exagero: dava uns 20 minutos caminhando. Não só ele como os arredores são bem impressionantes, tanto pelas dimensões quanto pela idade. Que troço fenomenal aquilo tudo. É muito incrível ficar imaginando como construíram edificações tão altas, com tantos detalhes esculpidos, com tanta precisão geométrica – e, acima de tudo: capazes de durar tanto tempo. Não chegamos a entrar no Coliseu em si. Filas quilométricas e a impressão de que olhá-lo de fora, em meio à paisagem urbana da cidade atual, já era impactante o suficiente. Além do mais, vi depois na internet que era só um monte de escada pra subir e um monte de pedra no meio dumas gramas pro cara olhar lá dentro. Chegamos bem perto, demos a volta, observamos as diferenças de arquitetura. Ali por volta tem também os restos do Fórum Romano e do Circus Maximus, mas não exploramos muito – o primeiro por conta da mesma fila imensa e (admito) nosso desconhecimento e desinteresse (no fim das contas tudo bem, era meio que um monte de pedra e coluna e esqueleto de prédio mesmo, e dava pra ver de longe do outro lado, coisa que fizemos uns dias depois); o segundo porque o que foi outrora uma pistinha de corrida onde as bigas tiravam altos rachas hoje em dia é apenas um areão meio feio, que lembra um pouco as memórias que tenho do Ararigbóia (descobri a existência desse G mudo na Wikipedia), um parque localizado entre os bairros o Petrópolis e o Jardim Botânico em Porto Alegre que também conta com um areão meio feio. Diz que os romanos usam aquele espaço hoje em dia pra correr e se exercitar. Eu achei meio fuén.

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A parte da cidade que eu convencionei chamar de “centrinho” é todo aquele pedação antigaço cheio de piazza, palácio, igreja e fonte, mas a verdade é que a quantidade absurda de turista meio que impede a fruição de quase tudo que há por lá. Nem consegui me aproximar do Panteon, por exemplo. A Fontana di Trevi talvez seja o melhor resumo disso. Passa rigorosamente o tempo todo constantemente apinhada de turistas, é um negócio realmente assustador. Muito difícil até de chegar perto. Agora claro: é um troço muito icônico e bonito. Umas estátuas gigantes, imponentes, bem branquinhas, aquela água bem azul fluindo. Só que aí também tem aquela gentarada vermelha de sol jogando moeda por cima dos ombros e meia dúzia de guardinhas soando apitos e gritando em italiano com os turistas que, por ventura, estiverem fazendo algo de errado (como sentar em algum lugar que não pode, descer as escadas comendo sorvete ou tentar entrar na fonte). Tentamos regressar duas ou três vezes, em horários diversos, mas sempre nos deparamos com o mesmo batalhão de pessoas, que se estendia por toda a praça que circundava a fonte. Coloco nesse mesmo espaço geográfico diversos outros bagulhos interessantes, como o Altar da Pátria (imenso e maravilhoso), a Piazza de Spagna (nhé) e o Largo da Torre Argentina (entre outros). Tudo é muito antigo, muito grande e muito bonito, mas, em absolutamente todos esses lugares, a presença realmente massacrante de turistas dá uma quebrada fudida na fruição. É quase decepcionante. Uma exceção foi o Castelo de Santo Ângelo, que só vimos por fora, tanto de longe quanto de perto. Como tinha bem menos gente às voltas, até que deu pra dar uma contempladinha. Do outro lado do rio Tibre, antes de atravessar a ponte que leva até ele, a paisagem é bem bonita, por sinal. Lembra um pouco Paris.

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Agora, o que realmente valeu a pena em Roma em termos de pontos turísticos foram três coisas: a) as igrejas; b) o bairro de Trastevere; c) o Vaticano. Entramos aleatoriamente em algumas igrejas no nosso caminho, e todas foram muito, mas muito impressionantes mesmo. Se eu, em pleno século XXI, com acesso a internet, tendo sobrevivido semi ateu a quase 20 anos de educação intensa em colégio de freira, profundamente imerso na cultura judaico-cristã cheguei a balançar, só fico imaginando o que sentia o camponês médio de mil anos atrás ao entrar num templo desses. O cara pisava naqueles mosaicos complexos de ladrilhos coloridos, sentia as vibrações daquelas enormes colunas, olhava praqueles tetos ricamente esculpidos, aqueles vitrais gigantescos, aquelas pinturas monstruosas e não tinha como não acreditar que Deus realmente existia. É um troço muito assoberbante. Pra mim, as igrejas de Roma ganham fácil de qualquer museu que eu tenha visitado no mundo. É uma experiência muito, mas muito extrema. A dica quente pra quem não tiver saco pra ficar 3h na fila pra dar um bico na Capela Sistina é pegar um tram até Trastevere e, depois de se perder pelas maravilhosas ruelinhas antigas com ares medievais e comer um troço típico num daqueles restaurantes de 200 anos de idade, se enfiar na Basilica di Santa Maria in Trastevere. Sem brincadeira, essa experiência botou em cheque a minha fé (ou, melhor dizendo, a falta dela). É beleza demais, chega a dar um tilt no cérebro. O melhor de tudo é que – assim como a maioria das igrejas em Roma- o cara olha por fora e não dá nada. Aí tu entra e já começa a sentir o baque. Um silêncio reverente, uma aura de contemplação, admiração e choque. Fico só imaginando o que deve sentir quem é católico praticante – nem precisa ser muito fervoroso. Acho que dá pra ficar um ano voltando lá todo dia e, mesmo assim, tu não consegue apreender todos os detalhes. Chega a ser quase um exagero. E como se não fosse suficiente, a igreja ainda tem umas duas ou três capelinhas, totalmente diferentes entre si, cheias de pequenos tesouros próprios. As pinturas do altar e das paredes são lindas, as estátuas de santos beiram o inacreditável e aquele teto, todo esculpido no ouro, é um troço de outro planeta. As fotos que se encontra na internet não dão conta nem de 1% da sensação de estar lá, vendo aquilo de perto, sentindo os cheiros, os sons, a temperatura. O peso simbólico e histórico desaba nas tuas costas às toneladas. É realmente brutal. Sobre o Trastevere em si, além do número bem mais administrável de turistas e a sensação de estar numa cidade do interior, ainda vale citar o Gianicolo, uma colina extrema que oferece ao corajoso que vencer as centenas de degraus e lombas uma vista acachapante de Roma, com algumas estatuas, fontes e monumentos de brinde. Subi bem loucão de ceva lá com meu irmão, e foi um dos pontos altos de toda a viagem. Tem uns dois ou três mirantes, e em todos o que o cara mais vê é o laranja dos telhados e o redondo das abóbadas das igrejas contrastando com o branco dos prédios e o verde das copas das árvores. Sobre o Vaticano, vale um capítulo à parte, logo a seguir.

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maloqueiragem: Uns anos atrás, a Kizzy, namorada do meu irmão, tinha levado sua avó a Roma só pra ver o Papa de perto – desejo que, curiosamente, era o mesmo da Sandrinha, nossa excelentíssima progenitora. Na época, pra garantir que nada daria errado, ela seguiu rigorosamente o que manda a cartilha turística, que basicamente consiste no seguinte: o cara manda um FAX (não é carta, não é e-mail, não é telefonema) pro Vaticano informando a data em que pretende assistir a chamada Audiência Papal – que acontece todas as quartas-feiras. Em até dois meses, o Vaticano responde esse fax. Com essa resposta impressa, o cara vai até o Vaticano na véspera do evento, procura um lugar específico lá onde fica a Guarda do Vaticano (ou algo assim) e troca esse papel por uma espécie de convite que, pelo que entendi, depois pode ser trocado por um certificado (um negócio bem bonito até, parece um diploma de faculdade; imagino que pra quem é realmente católico deva ser quase como um troféu). Teoricamente é esse documento que garante o acesso do cara à uma área cheia de cadeiras na Praça de São Pedro no dia do evento. Todavia, após ter vivido a experiência de fato, Kizzy relatou o seguinte: “É uma tremenda bagunça, tem gente com documento, sem documento, ninguém te informa nada e, se tu quiser arriscar, dá pra ir na cara dura e tudo bem.” Foi esse o caminho que escolhemos percorrer. Assim, na quarta-feira, acordamos às 6 da matina, tomamos um café caprichado e pegamos o primeiro metrô até a estação que nos largaria mais perto do Vaticano. Chegamos lá antes das 7h e já havia gordas filas formadas. Precavidos, tínhamos visitado o Vaticano uns dias antes para reconhecer o terreno, e percebemos que o acesso à Praça de São Pedro (teoricamente um lugar onde poderíamos estar sem portar nenhum tipo de ingresso) estava bloqueado. Notamos que as pessoas que estavam nas filas conversavam entre si, desorientadas, tentando entender onde deveriam ficar. Algumas traziam na mão folhas impressas com códigos de barra e QR codes, outras brandiam o convite dentro de um envelope verde. Havia pânico e confusão no ar. Não havia ninguém para orientar a formação das filas ou tirar dúvidas, e as pessoas entravam e saíam delas sem saber direito o que fazer. Por via das dúvidas, entramos numa delas também. Na pior das hipóteses, pensamos, chegaríamos a um ponto em que alguém nos barraria e daria algum tipo de informação. Nossa fila começou a fluir bem, e notamos que as pessoas mostravam seus documentos variados para os guardinhas que controlavam o acesso. Eles, por sua vez, ignoravam solenemente os papéis, e se concentravam em revistar bolsas e mochilas e passar o detetor de metais. Era apenas uma barreira de segurança. Vencida esta barreira, estávamos na praça. Caminhamos até um pedaço e vimos que outras filas enormes estavam se formando. Num primeiro momento, decidimos não entrar em nenhuma delas, conformados em assistir a cerimônia de pé. Eu mesmo tinha visto uns vídeos na internet e descoberto que o melhor lugar para ver o Papa de perto era justamente ali, de pé, atrás dos cordões de isolamento – posto que ele faria um percurso por entre os fiéis em cima do Papa-Móvel antes de dar início à missa, passando bem por ali. Meu irmão, mais esperto que eu, achou que deveríamos entrar na fila de qualquer jeito e, assim que uma delas começou a se mexer, fizemos isso. Não deu nem dois minutos e um cara vestindo uma roupa toda bufante com ares de autoridade começou a gritar em italiano, interrompeu a fila exatamente no casal oriental que ia à nossa frente e conduziu todo mundo a partir daquele ponto até uma outra fila, do outro lado da praça. Lá chegando, vimos a Itália se manifestar em toda sua grandeza: uma bagunça do caralho. Em vez das pessoas ficarem umas atrás das outras, todo mundo começou a querer passar na frente dos outros, criando um efeito “saída de jogo de futebol” ou “hora do rush no metrô”. Essa concentração de gente ia se afunilando em direção a três máquinas de raio-x, onde alguns soldados do exército faziam a revista final, garantindo o acesso à área onde ficavam as cadeiras. Levou algum tempo, foi um pouco confuso, mas passamos por mais essa barreira sem grandes desafios. Sem ninguém para nos orientar ou impedir, caminhamos tranquilamente até a fileira de cadeiras que ficasse mais próxima do cordão de isolamento. Infelizmente não conseguimos sentar na primeira, já tomada por uma trupe de velhos asiáticos, mas a segunda ficou de ótimo tamanho, posto que quando o Papa finalmente passou, duas ou três vezes, à milhão, em cima do seu carro, conseguimos vê-lo a uma distância ridícula, de uns 3 ou 4 metros, no máximo. Cheguei a gritar DALE GRÊMIO pra ver se ele me olhava, mas o castelhano não se abalou. Um ponto alto desse momento foi quando Sandrinha resolveu subir em cima da cadeira pra ver melhor, ato que foi imediatamente reprimido por um soldado (e ignorado por ela). Ato contínuo, TODAS as pessoas resolveram fazer o mesmo ao mesmo tempo, o que fez com que o soldado desistisse da missão, passando a responsabilidade pra mim e pro meu irmão. Com a firmeza de nossos cores jovens bem malhados pela ginástica, fornecemos sustento a algumas malaias e francesas empolgadas, além da própria Sandrinha, oferecendo nossos braços como apoio. Depois disso foi meio foda. A participação do Papa na coisa toda é ler umas cinco páginas da Bíblia, em italiano. Uns dez ou quinze minutos. Em seguida vem uma verdadeira multidão de padres traduzindo o que ele disse em várias línguas (inglês, espanhol, português, francês, alemão – foi aí que aprendi que ‘alemão’ em italiano é tedesco -, árabe, russo, alguma língua do leste europeu que julguei ser polonês e outra asiática que julguei ser chinês). Também há um longo trecho em que esse mesmo monte de padre presta reverência a todas as caravanas de dezenas de paróquias espalhadas pelo mundo que marcam presença lá naquele dia. Ou seja: de mais de duas horas de cerimônia, o Papa fala mesmo menos de 10% do tempo. Há ainda um último momento, em que o Papa pede para que se mentalize os entes queridos e amigos para que eles recebam a bênção que será dada naquele momento. Mesmo não sendo exatamente cristão, mentalizei uns e outros ali. Vai que. De todo modo, foi uma ótima experiência. A felicidade que proporcionamos à Sandrinha era muito palpável. Nossa missão estava cumprida. Aquilo valeu a viagem e nos encheu de ternura. Imagino que ela tenha sentido coisa parecida todas as vezes que nos proporcionou alguma alegria similar, como um presente muito desejado num aniversário ou Natal, ou a nossa primeira viagem de avião, quando éramos pequenos. Foi pouco, ridiculamente pouco, quase nada. Mas eu senti (e sei que o Nes também) como se a gente estivesse retribuindo um milionésimo de tudo que ela fez por nós ao longo da vida.

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dificuldades de língua: De pronunciadas a extremas. Se o cara vai pra Itália sem falar nem entender nada de italiano, a experiência pode dar uma boa murchada. É claro que de vez em quando tu encontra alguém que fala um inglês muito sofrível e com sotaque carregado, mas só nos lugares mais turísticos e, mesmo assim, nem sempre. Em vários e vários momentos me vi dependendo apenas do meu poder de dedução somando a um minúsculo conhecimento de italiano para me salvar. Verdade seja dita: ali pelo quarto ou quinto dia, de tanto ouvir as pessoas falando, alguma coisa o cara pega. Ainda mais aquele italiano utilitário do dia-a-dia, de bon giorno e arrivederci, de restaurante e transporte público. E ainda mais pra quem tem como base uma língua latina, e alguma proximidade com os fonemas e sotaques do italiano por conta de uma série de fatores (no meu caso: morar no Rio Grande do Sul, frequentar a Serra, visitar São Paulo, ter um mínimo de curiosidade por outras línguas e culturas). Volta e meia alguém até dizia “bravo” quando me ouvia falando. Mas fico pensando que prum americano ou prum alemão deve ser bem casca a coisa. De todo modo, dito isto, a mímica opera milagres, e é muito comum o surgimento de interlínguas instantâneas quando a comunicação se faz mister: Sandrinha, por exemplo, conseguiu recuperar um tubo de bloqueador solar com a segurança na saída do Vaticano e comprar uma espécie de poncho numa loja sem falar uma palavra de italiano. Ou seja: o cara se vira.

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odores: Espantosamente, apesar do número elevado de moscas em ambientes alimentícios, não lembro de nenhum cheiro forte em Roma. Mesmo umas casas de frios com aqueles queijos velhos e aqueles presuntos escuros na janela não emitiam fragrâncias pungentes. Não lembro, também, de haver cheiro de mijo nas ruas, mesmo nos becos às voltas do Ma Che Siète Venuti a Fa?, possivelmente o lugar mais propício de receber essa manifestação. Talvez possa falar do cheiro do café, ou dos pães assando em alguma ocasião específica, mas, caso tenha de fato acontecido, não foi marcante a ponto de eu recordar.

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segurança: Acho que nunca tinha visto tanto aparato de guerra nas ruas. Era muito difícil se locomover por Roma sem avistar um jipe ou um blindado camuflado acompanhado por três soldados portanto metrancas nervosas. Num dos dias em que estivemos lá, li numa daquelas televisões do metrô que havia uma ameaça de bomba no Circus Maximus (o que soou extremamente ridículo, posto que é um lugar aberto, praticamente ignorado pelos turistas, que se acumulam de forma catastrófica a 200m dali, no Coliseu). Não fui atrás depois pra ver o que aconteceu de fato, mas imagino que algum mongolão tenha esquecido uma mochila em algum lugar e todo mundo se cagou. Li depois que o Estado Islâmico havia prometido atacar o centro da fé católica no mundo, o que talvez justifique a presença forte do exército nas ruas. De todo modo, não sei dizer se isso me fez sentir mais protegido ou ameaçado. Depois de uns dois dias os soldados meio que passaram a fazer parte da paisagem, o cara nem registra. Os golpistas africanos pareciam mais dóceis do que os que encontrei ao longo dos anos em Paris, mas, a exemplo destes, toda vez que tentavam se aproximar para colocar a “pulseira da amizade” no meu punho eu abria um enorme sorriso e dava um drible gritando em bom português algo como “aqui é Brasil, meu querido,” o que, na minha experiência, em 100% das vezes, sempre oferece salvo conduto e provoca sorriso animado de volta do golpista, que fala meia dúzia de platitudes e parte em busca de um gringo menos malandro pra atacar. O grande risco em Roma, a meu ver, é contrair o tétano após qualquer tipo de contato com um automóvel. Nunca vi uma cidade com tão pouco apreço pelo carro como Roma. A impressão que dá é que os caras enxergam seus veículos realmente como utilitários, que te levam do ponto A ao ponto B, sem nenhuma vaidade ou símbolo de status associado. Bateu, tá andando, deixa assim. Tudo quebrado. Tudo amassado. Vários e vários carros com fita crepe segurando uns pedaços. Um monte de ferrugem laranja aparente nas rachaduras. Carro com saco de plástico no lugar da janela do passageiro, para-brisa trincado. Um troço bem impressionante. Perto de Roma, os carros de Buenos Aires são umas limusines.

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volume de turistas: Absolutamente brutal. Se o cara vai pra Paris e acha que lá tem muito turista, melhor nunca botar os pés em Roma (e dizem que Veneza é ainda pior). Isso que fomos em outubro, teoricamente durante a baixa temporada. Não quero nem pensar como é aquilo no verão. São, literalmente, multidões de turistas percorrendo as ruelas e pontos históricos. É tanta gente junta que o cara acaba se sentindo constrangido de estar ali, de ser mais um ajudando a deixar aquela linda cidade cada vez menos habitável. Às voltas do Coliseu, por exemplo, era ruim até de caminhar. Como provavelmente deve ser assim o ano inteiro, cheguei a sentir um pouco de pena de quem tem que viver lá, levantar de manhã e pegar condução pro trabalho, encontrar um lugar ao meio-dia pra almoçar. Talvez seja por isso que os romanos fecham tudo por volta do meio-dia (até mesmo alguns restaurantes) e só abrem depois das três (dessa eu não sabia, aliás; pensei que siesta era só na Espanha). Além dos turistas, ainda há uma população paralela de aproveitadores – no bom e no mau sentido. Imagino que haja golpistas e punguistas ali no meio (embora não tenha visto nada que sugerisse isso), mas o mais comum mesmo são as centenas de vendedores de badulaques (em grande maioria indianos) e os guias a pé, gente que te aborda em diversas línguas oferecendo o que parece ser algum tipo de tour comentado. Toda essa multidão deixa o cara muito confuso num primeiro contato. Não dá pra saber direito quem é efetivamente licenciado (todo mundo usa algum tipo de colete ou crachá, mas de uns 20 tipos diferentes) e quem tá esperando um otário pra mamar uns euros. Mas isso é o de menos. O que incomoda mesmo é tu ser totalmente incapaz de prestar atenção num monumento qualquer porque, literalmente, a cada dois segundos, alguém para na tua frente pra fazer uma selfie. Realmente cansa. Coitados dos moradores.

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aeroporto: Não passamos muito tempo em Fiumicino. Na chegada as malas não demoraram e já tinha um motora previamente contratado nos esperando no desembarque. Na saída chegamos mais cedo do que o necessário porque achávamos que as bagagens não estavam inclusas no preço da passagem (todavia estavam). Como saímos bem cedo e não havíamos tomado café, aproveitamos esse tempinho que sobrou pra comer e beber algo no aeroporto e, nesse sentido, vale um destaque: a pizza, os sanduíches e o café que os caras vendiam lá eram tão bons quanto os encontrados na cidade (e com preços equivalentes). Talvez seja o aeroporto mais honesto em que já estive, o que me deixou bastante surpreso. Outro destaque vai para o espanhol que estava voltando pra casa com sua mulher, três crianças, toda a bagagem inacreditavelmente volumosa que isso envolvia e, não satisfeito com isso, DUAS TVS DE TELA PLANA DE 48 POLEGADAS. Esse é galo.

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presença ilustre: Conforme o supracitado, os africanos da pulseira da amizade são muito mais dóceis e inocentes em Roma que em Paris, de modo que vivemos situações muito interessantes com dois deles, ambas em Trastevere. O primeiro africano digno de nota era um cara muito magro, muito bem vestido (calça skinny preta, bons sapatos de bico fino de couro, um blusão branco de gola rulê), muito bem aprumado (barba desenhada, dreads de tamanho médio) e cheiroso, tomando uma latinha de ceva e abordando os turistas de uma forma muito original: gritando a palavra NEGRO enquanto os olhava de forma ameaçadora. Vimos ele abordar algumas pessoas assim, exigindo algum dinheiro logo em seguida. Todo mundo dava. Estávamos alguns passos atrás dele. Lá pelas tantas, ele nos percebeu e, provavelmente nos julgando americanos ou ingleses, tentou meter a tática do pavor. Rimos na cara dele e eu respondi, no mesmo tom: BRANCO, ao que ele riu muito e tentou exigir dez euros para tomar uma cerveja da mesma forma. Seguimos andando dizendo algo como “tu tá de brincadeira, irmãozinho, tu já tá tomando uma ceva e é tu quem mora na Itália, é tu quem tinha que dar esses dez euros pros brasileiros chinelos aqui”, ao que ele riu ainda mais e se afastou. O segundo africano digno de nota deu um pouco de pena, quando penso nisso. Ele nos viu bebendo na frente do Ma Che Siète Venuti a Fa? e achou que ia vender uns anéis horrorosos pras nossas namoradas, todavia meu irmão – já bem alcoolizado, até por ter aberto os trabalhos com uma QUADRUPEL – emendou uma longa conversa sobre como a mulher dele era alérgica a OURO e que ele teve que devolver uns brincos que uma vez comprou pra ela, e o cara acabou desistindo da venda e ficou trocando uma ideia conosco. Era do Senegal, esse faixa. Quando dissemos que éramos do Brasil ele tentou fazer uma brincadeira dizendo que tinha visto de longe que a gente era igual a ele (colando o braço dele no meu e apontando pros dois), e eu tentei meter outra, dizendo que na real ele tinha visto a nossa alma, que era negra (eu também já estava bem embalado), só que ele não entendeu em inglês. Eu tentei falar em francês, mas ele também não entendia – eu não sabia que “alma” era “âme”, tentei “spirit” com o érre afrancesado, ele achava que a gente tava falando do SOL (???). Na saideira, ele ainda deixou uma pulseirinha comigo. Disse que não ia pagar por ela, ele insistiu e disse que era um presente porque eu era gente fina. Por via das dúvidas, guardei no bolso, não meti no pulso. Aqui é Brasil. Vai que ele tava me marcando pra algum outro camarada bater uma carteira mais tarde? Vai saber? Melhor não brincar.

dando um upa na bateria

Já faz uns meses que a bateria do meu iPhone 5 vem enchendo o saco.

Não se trata de um aparelho propriamente novo: só comigo já está há 3 longos e intensos anos, e ainda por cima o adquiri na qualidade de usado, com pelo menos um bom ano de uso no lombo. Se tem algo que aprendi na minha curta experiência com aparelhos da Apple é que eles duram muito bem os primeiros dois anos, começam a se apertar entre o terceiro e o quarto e o quinto serve apenas como uma espécie de troféu maluco, posto que não apenas o troço fica lento e sem espaço pra nada como o sistema operacional para de se atualizar e um número crescente de aplicativos vai parando de funcionar.

De modo que estou plenamente consciente de que, não importa o que aconteça, 2018 será o último ano deste aparelho.

Enquanto isso, o troço vem dando uma série de pequenos problemas já faz um tempo, sendo o mais grave de todos: a bateria. Nessa viagem que fiz com minha mãe e meu irmão, com forte uso de GPS e da câmera, senti o tamanho do abraço: alguns dias chegou a morrer em menos de duas horas de uso.

(…)

Outro dia resolvi pesquisar alguma solução possível a curto prazo, enquanto não sobrava um troco esperto pra investir no aparelho que me acompanhará, no mínimo, pelos próximos cinco anos. Descobri que existe uma espécie de mandinga para “resetar” a bateria, fazendo com que sua duração se amplie. Como não era um processo muito complicado e eu não tinha muita coisa a perder, resolvi testar.

Funcionou muito bem.

A coisa funciona da seguinte forma: idealmente quando o seu iPhone atualizar o sistema operacional, use o celular até drenar inteiramente a sua bateria.

Quando o bicho apagar e implorar pra ser ligado na tomada, deixe-o descansar por mais 24h, uma vez que, pelo que li, quando o celular apaga a bateria ainda tem uma micro carguinha ali para uma série de operações elementares, e esse restinho só se esvai após pelo menos 24h de sossego.

Fechada a hibernação, plugue o bichão na tomada. Vai carregar por alguns minutos até ligar. Assim que ligar: desligue-o novamente e deixe carregando com o celular desligado.

Os caras falam em deixar carregando até atingir 100% de bateria (o que deve acontecer entre 3 e 4 horas) e depois MAIS CINCO HORAS, partindo do princípio que o 100% não indica que a bateria está inteiramente carregada, de acordo com a própria Apple. No meu caso, arredondei pra DOZE direto.

Quando finalmente terminar este último ciclo, pode ligar o celular, mas liga segurando o botãozinho de cima e o botãozão de baixo para promover o chamado RESET.

Se todos os passos forem executados do jeito certo, agora a bateria deve durar significativamente mais do que antes.

(…)

Na minha experiência, o ganho foi assoberbante.

Estava conseguindo manter o aparelho com carga por algo como 8h em espera, ou um máximo de 1h de uso e mais 4h ou 5h em standby.

Depois do reset da bateria, cada carga rende de 2h a 3h de uso e quase 12h em repouso, e mais de 20h em standby.

Achei uma BAITA dica.

Pra mim deu muito certo.

vicissitudes da tecnologia contemporânea

Estava há meses com um problema intermitente e razoavelmente incômodo no meu iPhone 5: a câmera não conseguia fazer foco de jeito nenhum.

Normalmente tudo que é preciso fazer para que isso aconteça é tocar na tela após aproximar ou distanciar a câmera do objeto, mas comigo não estava dando certo.

Hoje, pela primeira vez, resolvi jogar a dúvida no Google. Caí num post de 2015 num fórum qualquer. Li o que o reclamante escreveu e era exatamente o problema que eu tinha. Curiosamente não encontrei a resposta, só um monte de respostas à resposta dizendo “não acredito que algo tão simples resolveu o problema.”

Uns vinte posts depois, finalmente encontrei alguém citando a resposta original, que dizia tratar-se de um problema físico de desalinhamento das lentes do aparelho. A solução troglodita: dar um tapão nas costas do celular.

Foi exatamente o que fiz.

WORKED LIKE A CHARM.

Que alegria.

UPDATE: Como sempre me disseram, desde pequeno, alegria de pobre dura pouco, de modo que o truque funcionou apenas DUAS vezes, e agora não importa a pancada que eu dê, segue tudo borrado no visor. Quatro anos com o mesmo celular, tá chegando mesmo na hora de pensar em trocar de modelo.

we be vaping

No Natal de 2015, após alguns anos de dúvida e muitos meses de pesquisa, comprei de presente pra mim mesmo um vaporizador portátil chamado Arizer Solo. Não era o mais bonito (provavelmente é o Pax), o mais renomado (talvez seja o Crafty) nem o mais barato (certamente alguma ‘caneta’ chinesa), mas, segundo centenas de depoimentos que li em blogs e fóruns em inglês, espanhol e português, era o mais confiável, resistente e eficiente – e estava disponível para pronta entrega.

Mas vamos dar um passo para trás aqui.

Minha primeira experiência com vaporizadores foi ali por 2013, quando um amigo retornou dos Estados Unidos com um Pax na bagagem. O aparelho tinha acabado de ser lançado, causando grande furor por conta do seu design (muito zé bronha por aí se emocionou e saiu comparando com produto Apple): um cilindro fosco, ou todo preto ou todo prata, com uma discreta e agradável luzinha em forma de X com o miolinho cortado brilhando na frente. O cara abria uma portinha lá embaixo, recheava de fumo, fechava a portinha, virava o troço pro outro lado, tirava o bocal, apertava um botão um certo número de vezes para obter uma determinada temperatura (eram apenas 3, pré-definidas), botava o bocal de volta, esperava até que o X cortado ficasse verde e mandava brasa. Era um objeto extremamente sedutor, não apenas pelo visual SLICK AS FUCK, mas também pela sua funcionalidade – que se prometia excepcional.

Tristemente, na hora de usar, o bagulho não se mostrou à altura das expectativas. O cara puxava aquela merda um tempão, tinha que fazer uma força do caralho, não vinha nada de fumaça, não dava nada de efeito, e a bateria ainda por cima não durava porra nenhuma. Que decepção.

Corta para 2015. Estou em Amsterdam. Por intermédio de uma amiga que é a madrinha da Alice (a menina fantabulosa de quem sou padrinho) e que hoje aparentemente está morando na Tailândia (faz um tempo que não nos falamos direito), estou na casa de um nativo que vive num curioso apartamento de uns 15 metros quadrados bem no meio do Red Light District, experimentando do mais profundo ceticismo enquanto observo um dos famosos balões do Volcano se enchendo com o vapor que emana de uma pipoquita generosa de um fumo chamado Lemon Skunk. O Volcano talvez seja o vaporizador mais conhecido do mundo. Parece a base de um liquidificador, só que em vez de ter uma hélice giratória altamente afiada na ponta tem uma peça de cerâmica coberta de aço que esquenta; e em vez de acoplar um copo em cima, o cara coloca uns balões de algum tipo de plástico supostamente seguro, que vão se enchendo lentamente com o vapor produzido pelo material que estiver suando grosso no forno ali embaixo (em quase 100% dos casos, maconha).

Ali a coisa mudou definitivamente pra mim, porque aquele vapor do Lemon Skunk que recheava o balãozão do Volcano me deixou completamente plastificado. Que sabor, que odor, e que paulada no melão que trouxe. Saí dali reconsiderando, pensando “opa”. No fim das contas dá pra ficar bem doidaço inalando vapor.

Vamos dar um novo um passo para trás nesse ponto para falar um pouquinho sobre o processo de vaporização.

Vaporizar, naturalmente, é converter algo em vapor. Os vaporizadores de ganja fazem isso usando câmaras aquecidas por um elemento (geralmente de cerâmica ou alumínio) para “assar” a erva até que ela libere seus terpenos (agentes de cheiro e sabor) e alcaloides (substâncias psicoativas) por meio da evaporação, sem jamais provocar a combustão do material.

O princípio é o seguinte: combustão produz fumaça. Fumaça faz mal para os pulmões. Uma vez que os principais canabinoides da planta estão dissolutos em água e evaporam muito antes do seu ponto de combustão, é totalmente possível extraí-los da planta sem precisar incendiá-la, um processo que não apenas é mais saudável como muito mais saboroso e eficiente.

Fumar um baseado, na verdade, é basicamente a mesma coisa: há uma fonte de calor esquentando um material vegetal e alguém inalando através da outra ponta de um canudo. O primeiro problema com isso é a fumaça, que contém benzeno, gás carbônico e diversas outras substâncias cancerígenas. O segundo é que a fonte de calor é parte do próprio material em brasa, o que gera um desperdício muito grande. O cara fumando um beck consegue absorver, com muita sorte, algo perto de 25% de todas as suas substâncias. Já usando um vaporizador pode extrair até 70% (embora na média fique mais perto da faixa dos 50%).

Prestes a completar dois anos de uso do Solo, posso assinar embaixo de todas essas alegações. O troço é realmente potente. Com aproximadamente 1/3 do fumo necessário pra fechar um beckzinho médio (nem perna de grilo nem dedo de gorila) dá pra ficar BEM CHAPADO, e de 2 a 3 vezes – o que ainda se traduz em mais uma faceta do sucesso da vaporização, que é a economia brutal que ela representa para o bolso surrado do maconheiro.

Mas na real eu escrevi TUDO ISSO só pra dizer o seguinte: essa semana eu desenvolvi um método muito bom para limpar o tubo curvo do Arizer Solo.

O Solo vem com dois tubos de vidro pra acoplar diretamente em cima do seu forno (com cinco temperaturas pré-programadas): um reto e um curvo. Nunca usei o reto. Gosto demais do curvo. Mas enfim.

A grande questão aqui é que alguns meses de uso produzem um acúmulo considerável de resina neste tubo, e é um verdadeiro inferno limpar dentro do cotovelo dele.

A química básica diz o seguinte: mergulha o tubo em álcool, deixa descansar um dia e, no dia seguinte, ferve uma água e toca por cima que deve sair tudo. Na prática, não funciona bem assim. Ao longo do tempo, pequenos e médios pedaços de ganja acabam sugados tubo adentro e se grudam em suas paredes. Cobertos com novas camadas de resina endurecida, muitos se recusam a sair de barbada. Então o cara tem que dar uma esfregada.

Tentei várias coisas: aqueles ferrinhos cobertos com barbante pra limpar cachimbo (bons por serem flexíveis, ruins por serem muito finos), algodão (tem a tendência a se fragmentar, e aí é outro inferno remover nacos presos em cantos remotos), papel higiênico (problema similar ao do algodão) e papel toalha (um pouco mais robusto que os anteriores, não é perfeito, mas costuma causar menos problemas). Também usei o truque de misturar sal grosso ao álcool e chacoalhar o tubo para que o atrito ajude a soltar os detritos – o que funcionou em algumas situações, mas não em todas.

Mas aí outro dia, enfrentando as mesmas dificuldades de sempre para limpar ali aquela desgraçada daquela voltinha do tubo, me deu um estalo. Além do álcool, em que outra substância os canabinoides se dissolvem? Gordura. Mas é claro. Eu já tinha lido sobre a famosa técnica de ferver o tubo sujo no leite – e, posteriormente, acrescentar chocolate a este leite e beber na esperança de atingir um efeito que eu, particularmente, não sou muito fã.

Eu não tinha leite. Considerei usar azeite, mas me pareceu que precisaria usar muito – e azeite é muito caro. Acabei apelando para a manteiga. Cortei um naquinho e fui empurrando para dentro do bocal, modelando com o dedo até que o preenchesse por inteiro. Deixei uma meia hora quieto, até que a manteiga começasse a amolecer, então chupei o ar pela outra ponta, fazendo com que ela atravessasse os buracos e adentrasse o tubo. Deixei quieto mais uns 5 minutos enquanto fervia uma água, derramei tudo pelo lado amanteigado e: voilá. Soltou TUDO.

Pra finalizar, um toque de mestre: em vez de usar algodão ou papel para dar aquela esfregada final, cortei um pedaço de um cordão de tecido usado para prender um avental que eu tenho há 8 anos e nunca usei. Caso eu mude de ideia agora e queira usá-lo, o avental ainda poderá ser fechado (era um cordão ridiculamente grande, tirei apenas um pedaço). Enquanto não me decido, o tubo curvo do meu Solo fica formidavelmente limpo. That’s what I call a win-win situation, my dammies.

lisboa: ficha técnica

Ali pelo terceiro ou quarto dia em Portugal fiquei sabendo (e de uma maneira fortuita, lendo a minha timeline do Twitter) que naquelas terras a expressão “dar o peido mestre” significava “bater as botas”. A partir daquele instante me corroeu fundo a vontade de usá-la no mundo real. No dia seguinte, quando pagava as passagens do ônibus que nos levaria a Óbidos, deu um problema no sistema de cobrança e eu cheguei a ensaiar mentalmente umas três vezes dizer isso pro motorista-cobrador, mas, infelizmente, faltou coragem. Jamais o fiz.

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geografia: Lisboa se apresentou pra mim como uma cidade muito limpa, clara e tranquila. A tradicional folha outonal da Europa cobria o chão das ruas mais arborizadas, mas havia um nível muito baixo de lixo mesmo nos aglomerados de juventude. O destaque vai para a instituição lisboeta por excelência que é a LOMBA. Ficamos sabendo que a cidade foi construída em cima de sete colinas só quando já estávamos lá, verdade que se torna muito evidente toda vez que tu traça no Google Maps uma caminhada de 850 metros e se vê levando o triplo do tempo esperado por conta das subidas e descidas extremas, em sequências improváveis, ângulos impossíveis, e todas pavimentadas com aquelas pedrinhas altamente escorregadias (que bom que não choveu, por sinal). De todo modo: cidade linda, aprazível e saborosa. Dá muita vontade de voltar.

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clima: Contrariando minhas expectativas, fez sol e calor todos os dias, com picos de quase 30 e vales não muito abaixo dos 16. Frio mesmo só no Cabo da Roca, uma falésia formidável localizada no ponto mais ocidental do continente, onde uma ventorreia louca trazia um perfume de mar até lá em cima. Sempre viajei para a Europa entre setembro e outubro e, geralmente, isso significa um certo grau de frio (embora às vezes faça um calorzinho de leve também). Em Portugal ele não se apresentou. Um céu muito azul, um sol estalado que me provocou um senhor torrão (pescoço púrpura) em poucas horas andando desprevenido por Belém, um ar seco provocador incessante de tatu. Segundo o taxista que nos levou ao aeroporto ao final daquela semana, não chovia na cidade desde MAIO, o que considerei meio CASCA caso seja verdade.

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airbnb: Ficava na Rua da Caridade, num bairro pacato aparentemente chamado São José, não muito longe da estação Avenida do metrô, coisa de uns 15 minutos a pé da beira do Tejo ali na banda da Praça do Comércio. Vindo do nível do mar tinha que subir uma lomba média, uma escadaria de uns 50 degraus e mais outra lomba, maior e mais inclinada que a primeira, atingindo praticamente o cume do monte. Aí tu chegava num prédio, com cheiro de esgoto no corredor e três lances de escada estreita pra subir. Quando tu abria a porta, todavia: outro mundo. Era um duplex bem baixado, com dois quartos bem decentes (um deles com um pitoresco lavabo com janela pra rua, do qual seria totalmente possível cagar observando os vizinhos caso se quisesse) no piso por onde se entrava. Subindo uma escada meio íngreme chegava-se ao segundo andar, com uma enorme sala multifuncional, equipada com sofás e poltronas ultra-confortáveis, uma boa televisão repleta de canais (incluindo uma espécie de Globo do Passado, que reproduzia vários programas dos anos 80 e 90 misturados com a novela das oito atual com um delay de poucas semanas) e uma ótima mesa de jantar ladeada por cadeiras. Banheiro muito bom, com chuveiro quente fixo na parede e o tradicional secador de toalhas, que usamos, na verdade, para secar cuecas e calcinhas (além das toalhas). Cozinha funcional em excelente estado, máquina de lavar roupa (bom item para viagens de média e longa duração). Fechavam o combo duas mini varandinhas no fim da sala com uma mesa e uma cadeira, totalmente apertadinhas naquele espaço exíguo –  todavia muito afudê curtir sentadinho ali o dia indo embora, nuvem laranja, luz cor de rosa, céu azul cada vez mais escuro.

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anfitrião: Era uma mina chamada Alexandra, mas como tinha sido meu irmão o responsável pelas reservas, demos oi para a pessoa errada, eu e Sandrinha, ao chegar. Uma velhota parruda, abrutalhada, com expressão de poucos amigos, que estava lá numa manhã de sábado pra fazer uma faxina pegada. Eu também estaria meio assim. Em seguida já pintou a verdadeira Alexandra, uma portuga que falava rápido e muito e nos explicou muita coisa sobre a cidade em poucos minutos. Boa pessoa divertida, simpática e gente fina.

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internet: Quando chegamos, numa tarde de sábado,  sofremos o penal de estar sem TV ou internet. O motivo era uma obra que estava sendo feita para reforçar um muro que basicamente segurava uma considerável quantidade de terra no topo do morro, poucos metros acima. Alguém tinha rompido algum cabo, a operadora já estava trabalhando para resolver a situação, mas tudo parecia meio imprevisível àquela altura. No domingo, Alexandra deu um pulo lá em casa e largou um modem 4G ou algo assim pra quebrar um galho. No dia seguinte o problema se resolveu e regressou tanto o sinal da TV quanto o (excelente) sinal da internet.

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obra do local: Nós ainda não sabíamos naquela hora, mas o elemento que uniria todos os airbnbs em que ficaríamos ao longo dessa viagem seria o fato de sempre haver uma obra a um alcance menos de 20 metros dos nossos ouvidos. Em Lisboa era essa obra nesse muro que sustentava o topo do morro, onde havia umas betoneiras elaborando concreto e uns pedreiros portugueses gritando uns troços muito engraçados em português de Portugal. Não chegou a incomodar. Na real incomodou tão pouco que nem lembro se ficou rolando até o final da nossa estadia ou não.

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vizinhos: Era uma galera discreta, em geral. A gente quase não via e mal ouvia. Um dia, dentro do nosso prédio, uma mulher brigou com a filha, ameaçando chamar a polícia se ela não abrisse a porta. Todavia o conflito se desenvolveu de forma muito serena e tristonha, sobretudo para os padrões latinos aos que um brasileiro está acostumado, e acabou murchando se resolvendo sozinho. Ao descer e subir a escadaria entre uma lomba e outra, avistamos diversas velhotas extremas. Chegamos a interagir com algumas. Invariavelmente tinham idade muito avançada (turminha dos 80) e pareciam ter uns 20 a menos. Boa parte da explicação talvez esteja no fato de que, aos 80 anos, ainda estão subindo e descendo escadas todo santo dia. Ou talvez não. Nem sempre as coisas são o que parecem.

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ganja: Nos ofereceram muito haxixe e maconha na chamada Baixa, o centrão, supostamente o bairro mais turístico da cidade, basicamente um enorme calçadão de piso branco intercalando lojas e restaurantes que se estende até a Praça do Comércio. Literalmente a cada 10 segundos alguém se aproximava do Dido e do Nes falando “hash” ou “marijuana”, certamente nos tirando pra gringo por conta da nossa latinha branca e style muito avançado. A maioria tinha pinta de indiano. Tu olhava pra mão dos caras e tava sempre lá a bolinha preta que obviamente não era haxixe. E mesmo que fosse: não faz muito a minha cabeça. Eu gosto mesmo é da planta. Até teve uma noite que a gente passou por um maluco fumando um beck muito cheiroso, ele ofereceu pra gente, acho que até perigava ser quente, mas: ah. Pra quê? Tinha Amsterdam logo ali adiante. Deixa quieto, my youth.

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música: Um troço que eu sempre curto fazer quando viajo pra gringa é escutar os sons que eles estão curtindo e assistir as coisas que eles estão assistindo na TV. Nesse quesito Portugal trouxe uma grata surpresa, fundindo esses dois universos de uma maneira formidável no canal Trace Toca. Podemos resumi-lo como uma surra incessante de música afro-portuguesa, uma mistura louca de rap, trap e funk com kuduro e diversos outros beats e dialetos africanos muito brutais. Vinte e quatro horas ininterruptas dedicadas exclusivamente a videoclipes de artistas de Cabo Verde, Moçambique e Angola, além dos talentos oriundos de várias bocadas locais. Chegava lá na baia era só Elji Beatzkilla (meio o MC Guimê deles), Piruka, Dillaz, Costuleta, Agir e o hitmaker absurdo Plutônio, que contaminou minha mente por semanas com o r’n’b Tu não vales nada.

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supermercado: Se tenho um arrependimento na passagem por Portugal foi o subaproveitamento de suas redes de supermercado. Fomos poucas vezes, não fizemos nenhuma compra digna de nota – tanto que não consigo lembrar de nenhum pão, nenhum queijo, nenhum frio especial que tenha comido para dar algum destaque. Acho que só compramos mesmo café, uns sucos, chocolate e uma bolacha meio ruim que até ficou de brinde pro próximo hóspede. Em parte isso também aconteceu por conta do preço da comida em tascas, cervejarias (que é como eles chamam os restaurantes), botecos e lanchonetes. Comer fora em Lisboa é muito barato, em geral muito bom e, sabendo procurar, muito farto. Aí o cara se anima.

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transporte público: Bem bom o esquema deles: tu compra uns cartões de papel verde chamado VIVA VIAGEM, carrega eles com uma quantia em dinheiro e vai gastando conforme usa nas diversas linhas e meios de transporte. Usamos em metrô e trem, mas acho que também vale pra bus e algumas balsas, se bobear. O metrô é simples, não vai muito longe, tem poucas linhas e não muitas estações. Na hora do rush pode ficar meio cheio pra caralho e complicado (bem como o trânsito), mas na maior parte do tempo é bem sweet. Pegamos trem duas vezes, uma para Belém (um bairro afastado do centro), outra para Sintra (uma cidade próxima de Lisboa). Em Sintra foi muito barbada, em Belém o cara fica um pouco mais longe das atrações e meio perdido numa primeira vez, mas também rola. Problema maior é carregar o cartão nas malditas máquinas de auto-atendimento: se o maluco não tem dinheiro em moeda nem cartão europeu, aí tem que encarar fila de guichê, o que nem sempre é tranquilo. Eu mesmo morri nuns 40 minutos nessa brincadeira um dia.

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táxi/uber: Não pegamos Uber em Lisboa. Os táxis eram muito abundantes e baratos, e os motoras em geral eram gente finíssima. Dois deles vieram dando lições de história (falando sobre monumentos e personagens), outros dois deram reais sobre Lisboa e Portugal nos dias de hoje (ótima cidade segura e moderna, ótimas perspectivas com o aumento do turismo, todavia gentrificação de bairros tradicionais). Só um dia a gente tava atrasadaço prum fado, tentado pegar táxi há 15 minutos sem sucesso, começamos a caminhar meio no desespero na direção do nosso destino e acabamos entrando no carro desse tiozão totalmente fora de controle, que dirigiu a milhão pelo meio daquelas vielas escorregadias, buzinando e xingando muito todo mundo pelo caminho porque queria se livrar logo pra assistir um jogo do Benfica na Champions. O bom foi que a gente chegou lá uns 5 minutos antes do começo do show (o que parecia totalmente impossível) e, na pressa, o malucão acabou nos cobrando só 3 euros (a corrida tinha dado 4 no taxímetro).

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trago: Ceva não é muito o forte dos tuga. O que o cara encontrava sempre lá era a Sagres – a lager de briga deles – e a Super Bock – que além de não ser bock não é lá muito diferente da Sagres. Garrafa ou chopp: não fazia muita diferença. Cevinha padrão, amarelita, leve, meio docinha, gostosa de beber. Teve um dia num pico muito bom (chamado Taberna Anti-Dantas) que a gente tomou uma artesanal chamada Born in the IPA, produzida pela cervejaria local Musa. Essa sim: bem boa, dando chinelada na boca da cachorrada sem limites. Teve também uma escura (não lembro se Super Bock, Sagres ou até Estella Galicia – já que era bar de tapas espanhol) que a Sandrinha pediu um dia que era bem delícia. Na noite do fado mamamos um vinhozinho verde (chamava Alvarinho, da Deu la Deu), na Taberna Anti-Dantas foi um vinho do porto, no restaurante russo duas vodkas ucranianas (e uma ceva rusky chamada Baltika) e em Óbidos metemo uma ginjinha no melão. E era isso.

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rangos: Portugal é sacanagem. Os caras tem arroz de lampreia (que é tipo um peixe-cobra com uma boca extremamente sinistra), percebes (um marisco) e toucinho do céu (um doce de amêndoa). Não comi nenhum dos três. Mas comi coisa boa pra caralho em Portugal. A mais portuguesa de todas foi num restaurante pitorescamente batizado de Caseiro, em Belém: açorda de camarão. Pelo que li a receita (oriunda do Alentejo) varia muito, mas basicamente é uma sopa que vai sendo engrossada com pão e vira meio que um mingauzão de sabores. No meu caso era apimentado e atolado de coentro, muito espetacular. Outro destaque foi o restaurante Incomum, em Sintra, onde comi o melhor e mais farto polvo da minha vida, com espinafre e uns nacos de abóbora castigados na brasa fatais. A melhor tasca só abria à noite e chamava-se Taberna Anti-Dantas. Lá comemos bolinhos de bacalhau fora de série, uma salada de agrião e figos estalando e um atum selado muito brutal. Também cantamos “New York, New York” e “Garota de Ipanema” com o restaurante inteiro (umas 4 mesas, no máximo 20 pessoas) por causa de um quarteto de irlandeses que chegou em chamas (e se recusou a acreditar que eu era brasileiro). Ainda no quesito frutos do mar – pelo qual a culinária do país é famosa – comi um arroz de polvo, um bacalhau às natas e outro com legumes e camarões que estavam apenas ok; uma dourada muito saborosa num lugar chamado O Chiado e bolinhos de bacalhau (que eles chamam de pastéis) bem gostosos em todos os lugares. Da culinária local que eu tive acesso, me arrependo um pouco de não ter provado um tal “bife de peru”, que parecia um schnitzel, um bife à milanesa, e aparecia no menu e no balcão de várias tascas pelas quais passamos. No mais, aproveitamos a gastronomia internacional de Lisboa comendo queijos e frios espanhóis num lugar de tapas muito bom (embora meio fancy e jovem) chamado Rubro, croquetes de queijo de cabra e chouriço extremos num pub igualmente espanhol chamado Taberna Ibérica, peito de pato ao molho de amora (utka chekov) no russo Stanislav e um ótimo gua bao (sanduichinho de pão chiclé chinês) de barriga de porco no asiático Boa Bao. Ainda deu tempo de meter dois burgers, um na chegada, outro na saída. O da entrada chamava Gutsy, era um lugar todo modernoso e meio asséptico, mas barato e bem servido (embora não particularmente delicioso). O da saída botava mais banca já no nome: Cultura do Hambúrguer. De fato, superior ao Gutsy, embora o grande destaque tenha sido o PREGO (que é como eles chamam um tipo de sanduíche) da Sandrinha, e não os burgers que comemos (que estavam bons, mas nada de espetacular). Por fim, um destaque inusitado: a conserva de NABO que acompanhava o pote de azeitonas que nos serviram no Mascote da Atalaia, tasquinha escura onde assistimos um excelente show de fado. Das melhores coisas que já comi na vida. Voltaria lá só para comer de novo.

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doces: Por incrível que pareça, apesar da imensa variedade, fama e popularidade da doçaria portuguesa, comemos pouco doce em Portugal. Pastéis de nata e de Belém, check. Os dois são rigorosamente o mesmo doce, mas Pastéis de Belém, para os portugueses, só podem ser chamados dessa forma se forem comprados no bairro que leva o mesmo nome. Tanto estes quanto outros, comprados em vários outros bairros, possuem a seguinte característica em comum: o mesmo sabor excelente. Fomos até Sintra e pedimos o doce local, chamado travesseiro, no famoso café que os prepara e serve, mas: havia acabado de acabar. Sobremesa mesmo comemos só no Stanislav (um troço delicioso chamado shapka gugutse, panquecas de frutas vermelhas cobertas com chantili e temperadas com chocolate) e no Anti-Dantas (uns copinhos de chocolate cheios de vinho do porto – mais tarde descobriríamos que essa é a maneira folclórica de consumir a notória ginjinha, mas enfim). Merece menção honrosa um troço chamado Rebuçados Peitorais do Dr. Bayard, que são umas balinhas de mel contendo algum extrato vegetal, supostamente medicinais. Comemos como se fosse um Hall’s (embora não fosse refrescante como Hall’s e tivesse, na verdade, o sabor da bala de velho – bastante condizente com a propaganda e apresentação visual, o que me deixou muito satisfeito).

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tourist trap: Uma noite já eram quase dez, tudo tava começando a fechar, nós ficamos meio perdidos dando volta na Baixa depois de voltar de Óbidos e acabamos sentando num restaurante totalmente cagado, com potencial tremendo de nos enfiar a faca na alma por dinheiro – que foi mais ou menos o que aconteceu. Cardápio plastificado com foto da comida é sempre furada. Os caras eram uns indianos que não falavam nem português nem inglês direito. O chefão ficava pressionando os garçons pra eles nos empurrarem mais coisas, mas a gente é brasileiro e sabe dizer não pra gringo malandro, de modo que tomou apenas duas cevas (cada um dos Czarnobrothers), um suco (Sandrinha) e comeu três porções de bolinho de bacalhau (aka ‘pastel de bacalhau’). A conta foi uns 50 euros – cara pra caralho, mas a comida não chegou a ser horrível. Fiquei com pena mesmo foi dos dois casais de gringos extremos english speakers que sentaram lá (e pediram o prato máximo, com camarão, peixe, costeleta de porco, batata frita, linguiça, a porra toda) e principalmente do malucão que chegou com duas putas, baixou champanhe e uísque e uns SEIS pratos bombados. Esse deve ter chorado. Vá gostar de buceta assim lá em Lisboa.

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programas turísticos: Após enfrentar uma fila tremenda para recarregar nossos cartões VIVA VIAGEM, fomos até Belém de trem sem maiores problemas, exceto pelo fato da estação ficar meio distante de tudo que há de interessante no bairro (quase 2 km da torre, por exemplo). A primeira atração é o Mosteiro dos Jerônimos que, todavia, sofria reforma, de modo que parte importante de sua bela fachada estava coberta por um tecidão enorme com uma foto em tamanho real representando como o lugar ficaria debaixo daquele pano. Há um jardim muito bonito logo à frente, com fontes e estátuas boas pra se tirar retratos com forte carga dramática. Atravessando a rua e dando uma pernada considerável vemos o gigantesco Padrão dos Descobrimentos, um monumento realmente enorme e impressionante, retratando um monte de malandro barbudo tudo subido numa rampinha olhando prum pedaço do rio que desemboca no mar. É bem bonito. Olhando pra esquerda tu ainda vê a tal Ponte 25 de Abril, que é uma réplica da Golden Gate Bridge, de San Francisco. Achei meio sem sentido, mas ok. Dali é possível partir em caminhada semi heroica pela beira do rio até a icônica Torre de Belém – e uso aqui este predicado por haver percorrido os 900 e poucos metros debaixo de um sol retinto das três da tarde que me deixou com um senhor torrão (por sorte não ardeu muito e nem produziu insolação, mas pelo resto da viagem exibi um pescoço morenaço). Não vi vantagem em ficar horas fritando no sol na fila para subir escada medieval dentro da torre, mas é um bagulho bem bonito de ficar olhando. Sentamos num banco e fizemos exatamente isso. Depois chegamos mais perto, na beira do mar, aspirando aquele ar salgado, pra curtir a vista e tirar umas fotos. Na sombra tava até meio frio. Gostoso.

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Um dia fomos ao Castelo de São Jorge. Sabiamente, pegamos um táxi. Foi barato e conveniente: são lombas muito pegadas até lá em cima, numa inclinação muito extrema, tudo feito daquela pedrinha sabonetosa e escorregadia. A pé deve ser a morte. Tem umas partes que o carro embica tanto que parece que ele está escalando o morro. O castelo em si é bem massa, em ótimo estado de conservação e com uma farta área de sombra produzida pelas árvores para acalmar a pele do cidadão. Logo que tu entra, debaixo desse toldinho de folha, já dá de cara com um mirante fudido, com uma vista nada menos que espetacular da cidade. Também dá pra subir umas escadas pra ter uma visão um pouco mais do alto e caminhar pelos muros originais do bicho, tudo muito insalubre, sem corrimão nem qualquer outro tipo de proteção. Imagino que seja raro que aconteça, mas se o cara escorrega pro lado errado ali em cima certamente dá merda. Mas esse dia ninguém escorregou. Tem restaurante, lanchonete e uns quiosques vendendo água, vinho e sorvete, e tem uns pavão meio solto no meio dos pombos disputando farelo de Cheetos e naco de pão (o que achei meio deprê). Mas só pela vista já vale a visita. Sair do Castelo e descer se perdendo pelas ruazinhas do bairro também é massa. Os restaurantes da região, na média, são excessivamente turísticos: caros e malandrinhos (cobrando dissimuladamente altos preços por itens como azeitonas ou queijo Serra da Estrela), mas nem por isso desprezíveis (quer dizer, pelo menos tem queijo Serra da Estrela).

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Outra coisa fortemente turística que fizemos foi: assistir a uma apresentação de fado. Passamos uns dias pesquisando e descobrimos que existem duas opções possíveis: a) o fado tradicional, semi-caricato para inglês ver; b) o fado vadio. O semi-caricato, com aquela figura inconfundível da tiazona portuguesa de vestido escuro e um Nuno aleatório qualquer de terno, bigode e gel no cabelo moendo uma viola até não seria um grande problema não fosse o preço, na casa dos 30 euros por pessoa (com jantar e bebida inclusa). No vadio gastamos pouco mais que isso numa conta para três, comendo azeitonas, bolinhos de bacalhau e bebendo vinho. Fado vadio é como eles chamam quando rola um microfone aberto no pico. Uma banda de músicos profissionais toca 3 ou 4 músicas e daí qualquer um da plateia pode se oferecer pra cantar ou tocar algumas também. É mais autêntico, mais cru. Acabamos indo a esse lugar chamado Mascote da Atalaia, no Bairro Alto. Absolutamente pequeno. Algo como trinta pessoas sentadas – a maioria em mesas compartilhadas para seis pessoas. Como fomos os primeiros a chegar, ficamos na única mesa para quatro, a mais próxima dos músicos. Eu estava sentado exatamente ao lado da porta do banheiro. Quando o show começou, meteram uma cadeira ali interditando os esfíncteres da rapaziada e botaram um magrinho de cabelo molinha pra tocar guitarra portuguesa (tem fortes vibes de alaúde) bem do meu lado, cotovelo às vezes futucando o meu. Foi experiência bastante possante em termos estéticos e emocionais. Os músicos – além do magrinho molinha, uma mulher de cabelo preso e um tiozão retaco de barba cerrada – eram bons pra caralho. Primeiro cantou uma mina baixotinha de uns vinte e poucos anos, de tênis, camiseta e rabo de cavalo, e essa nanica arrebentou tudo. Confesso que pensei que esse lance de show de fado seria uma presepada do caralho, mas acabou sendo muito, muito bonito. A voz dessa mina era um troço absurdo, e como ela cantou ali, no chão, a pouco mais de 1 metro de distância, ficando na ponta dos pés e se apoiando na nossa mesa quando rolava uns ápices: deu pra sentir muito mais. Impactante mesmo. Emocionante pra caralho, o cara fica até com vontade de chorar de tanta tristeza que essa música contém. Que loucura. Depois dessa mina cantou um véio meio magro, suadão e bronzeado, com o cabelo encaracolado, compridinho e branco. Era bom esse véio também, todavia achei mais engraçado do que triste. De toda forma, compensou demais esse esquema. Recomendo.

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Praticamos, ainda, a viagenzinha curta nesses dias em Lisboa. A primeira foi pra Sintra, pegando um trem que, em vinte minutos, te larga na boca da city. Uma vez lá compramos passagens de 24h praquele ônibus turístico vermelho que os gringos chamam de hop on hop off. Acabou sendo uma mão na roda porque nos poupou muita subida extrema, nos desovando igualmente na boca do tal Palácio da Pena, um bagulho altamente surreal e inacreditável. É uma porra dum castelo enorme com umas torres pintadas de azul, outras de vermelho, uns pedaços de amarelo, sentado no topo dum morrão maravilhoso, cercado de um mato esperto às suas voltas e dotado de uma vista nada menos que maravilhosa. Além de curtir o panorama humilhante do mundo que se tem lá de cima, ainda dá pra explorar os corredores e diversos aposentos ricamente mobiliados e decorados do lugar que, sabe-se lá como, tinha até uma sala de telefone (pra quem esse pessoal ligava? quem ligava pra lá?). É um negócio realmente fustigante. Já que estávamos por lá mesmo, aproveitamos pra dar uma banda mais caprichada nesse mesmo hop on hop off que nos levou até o Cabo da Roca, um passeio que nos permitiu conhecer um pouco das cidades pequenas do interior do país e também algumas praias. Nunca vou me esquecer do dia acabando no ponto mais ocidental do continente: o vento frio, o cheiro do mar, as ondas metralhando as pedras lá em baixo, a copa das árvores balançando lá em cima, o amarelo das folhas avermelhado por aquela última luz do crepúsculo. Parecia que tava tudo pegando fogo.

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Andamos por Óbidos uns dias depois. Dava pra chegar de trem, mas a estação ficava supostamente longe da cidade. Ir de ônibus envolvia uma certa mão em deslocamentos de metrô por dentro Lisboa e algum labirintismo atrás da parada correta na estação Mato Grosso, mas o bus tinha a vantagem de nos largar na cara do gol. Se não me engano esse bus ia pra Caldas da Rainha e o cara tinha que descer no meio do caminho, mas era barbada fazer isso (na pior das hipóteses era só seguir os outros turistas, mas é bem fácil de perceber onde tu está chegando quando vê os muros de pedra medieval). A cidade em si é meio igual a Paraty, no Rio de Janeiro, então não me comoveu profundamente. Valeu mesmo pela ginjinha (o licor da ginja, fruta local similar à cereja) e pelo vinho do porto branco Offley – cujas garrafas comprei nesta visita e transportei por mais de 20 dias, 5 aeroportos e países dentro de uma mala, tendo chegado ao seu destino: intactas. Um salve para todas as companhias aéreas e ferroviárias que tornaram isso possível. Óbidos quase virou óbitos quando inventei de subir nos muros da cidade. À primeira vista parece uma excelente ideia dar a volta na cidade a vários metros de altura, observando o casario e a paisagem lá embaixo. Na prática, todavia, o sonho foi brutalmente mastigado pelos dentes duros da realidade. O que acontece é que, assim como no Castelo de São Jorge, não há nenhuma proteção para quem se aventura nessa brincadeira. Num dos lados temos efetivamente o muro do castelo, que dá para um precipício de uns 100 metros de altura – mas pelo menos te oferece uma tremenda proteção contra este tombo. Do outro lado não tem nada. Claro que aqui o tombo é bem menor, podendo ser de uns 5 metros se o cara der a sorte de cair no telhado de uma casa; mas tem uns trechos que é uma queda livre de mais de 30 metros. Até aí, ok, vá lá: tá na conta da habilidade do caminhante. O problema é que tu tem um espaço de um metro pra caminhar e na contramão tá sempre vindo um casal de velhos de bengala, uma família de gordão americano, todo mundo se jogando pros lados e precisando se apoiar em alguma coisa pra não cair. E aí tu, garotão juvenil, saudável, brioso, pra fazer a parceria pros gordo e pros véio o que que tu faz? Tu deixa eles se escorarem no muro e fica de costas pro vazio, torcendo pra que eles não se pendurem em ti caso alguma coisa dê errado. O pior é que uns desses veios eram muito filha da puta e passavam dizendo coisas do tipo “você é muito jovem, a vida vale a pena, não se atire daí” em tom de brincadeirinha desgraçada quando a gente dava o lado pra eles. Aguentei uns 200 metros assim (o percurso completo tem, salvo engano, uns 2 km) e pedi arrego quando um véio EFETIVAMENTE resvalou numa pedra lá e eu meio que me grudei nele antes dele se grudar em mim. Naquela hora pensei que tava tudo errado, que se alguém merecia ser poupado de morrer escorregando de forma estúpida dos muros de Óbidos era um alemão de 80 anos, não um filho da Medianeira de 38, mas achei melhor simplesmente desistir e descer. Afinal de contas, pensei, aquela porra não foi projetada pra ter um fluxo constante de gente nas duas direções. Certo que uma hora vai dar merda (se é que já não deu, acho impossível que não tenha dado). Pior de tudo foi que quando decidi voltar, eu mesmo sofri um breve escorregão, joguei o peso do corpo pro lado errado e tive que usar todo o conhecimento, flexibilidade e tônus adquirido em anos de pilates sério e caprichado pra me puxar de volta, recobrar o equilíbrio e evitar uma morte extremamente ridícula logo no começo da viagem. Ou seja, legal Óbidos e tudo, mas não recomendo subir no muro (e nem ir até lá se tu já foi a Paraty).

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maloqueiragem: Andávamos por uma ruelinha solitária depois do almoço em Óbidos quando reparei que as paredes obscenamente brancas das casas estavam repletas de nomes azulados escritos nelas. Comentei em tom de semi troça que “bah, se eu tivesse trazido uma caneta certamente ia meter uma tag aí”, e Sandrinha prontamente produziu uma sharpie preta, com a qual todos assinamos nossos nomes no patrimônio histórico português. Só quando estávamos indo embora vimos a placa que pedia aos turistas que não fizessem aquela chinelagem em sua cidade, mas aí já era tarde demais.

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dificuldades de língua: Baixíssima, afinal de contas, o país todo fala português (e, cada vez mais, inglês, a julgar pelo grande número de vezes que fomos interpelados nesta língua graças à tonalidade de nossas faces, peles e cabelos). Dito isto, todavia, apesar dos caras falarem e escreverem em português por lá, o uso da língua é bastante diferente. Há muitas palavras novas e construções estranhas nas placas, avisos e cardápios e se algum maluco destrambelha a falar muito rápido não dá pra entender quase nada. Mas claro que rapidinho o cara aprende as novidades, se acostuma às nuances e quando vê tá achando suave e macio tomar um comboio pra comer uma sapateira numa tasca muito engraçada perto do Rossio.

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odores: Perfumes pouco pronunciados em Lisboa, mesmo com a cidade extremamente seca. Talvez o mais marcante seja mesmo o cheiro dos peixes, moluscos e mariscos cozinhando com cebola e azeite escapando pelas janelas e portas das cozinhas espalhadas pela cidade. Teve o olor salgado do mar trazido pelo vento no Cabo da Roca, evidente, mas fora isso aromas neutros, pouco memoráveis, por todas as cidades que passamos.

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segurança: Vários nativos se orgulhavam em afirmar repetidas vezes que Portugal era o país mais seguro da Europa, o que pareceu ser, de fato, o caso. Andamos pra cima e pra baixo, dia e noite, e mal vimos pedintes e moradores de rua. Havia alguma presença policial e militar, mas era muito discreta em comparação aos demais destinos. Não lembro de nenhum golpe que tenham tentado nos aplicar, exceto os tradicionais africanos que amarram uma fitinha colorida no teu pulso e depois exigem 10 ou 20 euros que, todavia, ao descobrir que éramos brasileiros (e não deixávamos que pegassem nossos pulsos) sempre riam, faziam elogios genéricos e logo nos abandonavam, concentrando seus esforços em algum outro turista mais endinheirado, moscão e inocente.

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volume de turistas: Bastante modesto em Lisboa, chegando a moderado nos monumentos, cidades turísticas e algumas estações de transporte público. Os próprios portugueses reconhecem que seu país sempre foi destino pouco requisitado, mas que ganhou força nos últimos anos por conta do medo de atentados terroristas nos destinos mais populares (França, Itália, Inglaterra, Alemanha e Espanha). Mesmo assim, cidade tranquila, Lisboa. Muito frequentável.

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aeroporto: Confuso e lotado, sobretudo no setor de imigração, mas não especialmente ruim.

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presença ilustre: Num dos primeiros dias da viagem, caminhando pelo calçadão da Baixa, Sandrinha alegou ter avistado John Malkovich. Imediatamente duvidamos dela. Alguns dias depois, contudo, ficamos sabendo que o ator havia, de fato, comprado uma casa em Lisboa há pouco tempo, e que, aparentemente, estava na cidade naquele mesmo período, o que fez com que seu relato ganhasse força e verossimilhança. O que é certo, todavia, é que em nossa última noite avistamos o ator Thiago Lacerda emergindo da estação de metrô Restauradores, todo gordão e empolgado, berrando para o amigo que o acompanhava “cara, eu vou te levar pra comer o melhor bife de Lisboa” e apontando, segundo meu irmão, para a Cervejaria Pinóquio, que, saberíamos mais tarde, trata-se do restaurante preferido do Zeca Pagodinho na cidade. Fui pesquisar e descobri que o lugar, apesar de ser especializado em frutos do mar, possui, realmente, um filé famoso em sua ementa (que é como eles chamam o cardápio). Quem poderia imaginar? O gordão do Thiago Lacerda, é claro.

guia czarnobrothers para uma eurotrip (2017)

Não cresci com a perspectiva de viajar para o exterior. Simplesmente não estava no meu radar de possibilidades.

Na minha família, viajar era de carro. Flavito dirigindo, Sandrinha no carona, Nes e eu no banco de trás. E basicamente só pra Serra Gaúcha (fim de semana nos chalés dos funcionários da Caixa em São Francisco de Paula, um almoço de domingo em Nova Petrópolis, um passeio em Canela ou Gramado) ou pra Santa Catarina (veraneios irregulares em Itapema). Teve um ano que a gente foi muito aventureiro, subiu até Curitiba e andou na litorina de Paranaguá. Mas, de forma geral, meu alcance era meio limitado.

A primeira vez que viajei de avião foi pra Belo Horizonte, em 1990. Eu tinha 11 anos de idade. Voei nuns aviõezinhos espremidos sentado só com o Flavito (e o Nes com a Sandrinha) e também com toda a crew no together numa fileira de quatro assentos no meio dum Jumbo, ainda com cinzeiro funcional, talher de metal e jantar quente servido no trecho noturno. Foi muito afudê.

Depois disso só fui voar de novo por volta dos vinte e poucos, já na era de ouro da aviação brasileira, naquela primeira onda de passagens baratas da Gol, quando os Organizers tocavam drum’n’bass no Rio de Janeiro. No ano anterior lembro que eu e o Nes ainda tínhamos ido de BUS pra lá, levando um tupperware contendo 28 pastéis e  quatro sanduíches de presunto e queijo no pão de forma a título de lanchinho (afinal de contas seriam 30 horas de estrada). Lembro também que a gente entrou numa pilha de fumar um por estado visitado (acho que fizemos isso), e lembro que um dos pastéis passou batido na viagem, morou uma semana inteira no Rio de Janeiro e voltou incólume com a gente pra Porto Alegre.

Mas depois ninguém comeu.

(…)

Graças à popularização dos preços de passagens aéreas a partir dos anos 2000, voei bastante entre os 25 e os 35 anos de idade – especialmente por dentro do Brasil. A certa altura eu vinha tanto para São Paulo que a cidade começou a ocupar no meu mapa mental de territórios uma posição equivalente a um bairro afastado de Porto Alegre. Surfando bons momentos econômicos do Dido (trabalho forte, remuneração caprichada, poupança seríssima), do país (real forte) e do mundo (dólar e euro fracos), consegui acumular o capital necessário para viajar algumas vezes para o exterior nesse mesmo período.

Nunca escrevi nada a respeito.

Dessa vez deu vontade.

A primeira vez fui pra Paris, em 2008. Entrei por Amsterdam, tomei umas cevas, fumei uns bagulhos, comi uns queijos, peguei um trem. Primeira vez é aquela estranheza, tudo é novo, rola o choque. É muito diferente. Na segunda já não é mais tanto. Na terceira tu já meio que te acostumou, na quarta a maciez está quase concluída, e na quinta a coisa periga normalizar (embora ainda não banalize totalmente, graças ao bom Jah).

A quinta foi essa, agora, menos de um mês atrás.

Eu e Nes fomos levar a Sandrinha pra conhecer umas coisas que ela queria conhecer. Lugares que veria pela primeira vez aos 67 anos de idade. Dois deles a gente mesmo não conhecia: Lisboa e Roma. Dois deles sim: Paris e Amsterdam.

Foi uma jornada muito doida, 27 dias que tenciono condensar numa série de relatos picoteados que devo publicar ao longo dos próximos dias ou semanas ou meses (só pra deixar uma data aberta e, portanto, não jogar pressão nem regar com o adubinho do fracasso) neste nobre espaço.

Stay tuned.