marlon’s meals

Fui jantar uma vez – e almoçar duas – com o Marlon James em sua breve passagem por São Paulo.

Também o acompanhei numa peregrinação por lojas de discos atrás de reedições de clássicos obscuros da MPB (Ronnie Von, Tom Zé, Otto), mas isso não vem exatamente ao caso neste momento (todavia ele comprou um Azymuth, um Krig-ha Bandolo e dois Secos e Molhados, além de uns Tom Zé, uns Ronnie Von, e o primeiro do Mundo Livre S/A).

Nossos encontros alimentares se desenrolaram da seguinte forma:

JANTAR DE DOMINGO: Le Jazz da Melo Alves. Ainda não havia frequentado este espaço, e nele experimentei a estranheza de achá-lo exageradamente parecido – em absolutamente todos os sentidos – com o restaurante que há no endereço original, na Rua dos Pinheiros. Lamentavelmente, isso meio que quebrou a sua aura de bistrô charmosinho, substituindo-a por uma vibe violentíssima de Outback e McDonald’s. Dito isto, também se manteve constante a qualidade do bar e da cozinha: alta para o meu bico e para o meu bolso. Old Fashioned gostoso, boas beterrabas assadas com bom queijo de cabra, bom steak tartare com boas fritas. Bem ao lado desta unidade há uma segunda (quiçá terceira) unidade de um outro pico chamado Adega Santiago, que também me pareceu um pouco similar demais ao original quando olhei pra ele, de relance, antes de ir embora.

ALMOÇO DE GRÃ-FINO: Amadeus, protegido por um muro coberto de grama num cantinho estratégico ali nos Jardins. Supostamente é um dos melhores – senão o melhor – restaurante de frutos do mar da cidade. Chegamos faltando quinze minutos para a cozinha fechar e, para dar uma descomplicada geral na vida da rapaziada, fomos direto no menu executivo de almoço. Bastante excelente. O couvert existia em dois níveis: o primeiro, composto de pães, manteiga e azeite; em seguida, uma sequência de bocaditos: ceviche de peixe branco, salmão com creme de ervas, martelinho de caldo de legumes e um bolinho de bacalhau absolutamente inacreditável. Depois, salada de folhas com carpaccio de haddock defumado (todavia o garçom tentou meter que era anchova). Prato principal: massa fresca com lula, camarão e vôngole servida num prato de cerâmica em forma de chapéu de bruxa de cabeça pra baixo e com a ponta cortada. Chique pra caralho. E que sabor extremo, tudo. De sobremesa, pra arrebentar de vez: manjar de coco com calda de caju. Nas mesas vizinhas, eu via Joões Dórias: homens brancos de cabelo penteado e suéter sobre os ombros.

ALMOÇO MEIO PUBLICITÁRIO: Ici Brasserie dos Jardins. Também não conhecia. Jantei uma vez no Ici Bistrô, em Higienópolis, e lembro das ostras serem frescas, e não muito caras. Essa versão um pouco mais rápida nos Jardins não tinha ostras em seu cardápio, e servia quantidades nababescas de comida em seus menus executivos de almoço – o que pode ser uma reclamação ou elogio dependendo de que ângulo você examina a questão. Eu achei rango demais – mas também posso apenas ter ficado empapuçado pelas duas cervejas grossas que mamei durante a refeição (ambas excelentes, em versão ‘chops’). Sei que na salada de aspirações orientais com molho doce e picante, amendoim e broto já vinha tanto frango que quando chegou o steak frites (churros) eu já tava bem gordão. Mesmo assim, dei algum trabalho ao bife alto, vermelho e suculento. Mordi bem, o bicho. Masquei. Besuntei com a béarnaise que o acompanhou. Acabei nem comendo a sobremesa, no fim (mas lembro que era uma mousse de chocolate extrema que, confesso, está fazendo alguma falta às três e cinco da manhã dessa terça-feira).

carpe diem

Num gesto automático de quem trabalha em casa, está gripado em casa, está no fim de semana em casa, ou está passando qualquer quatro horinhas direto em casa, fui até a cozinha e abri a porta do meu armário suspenso. Tinha um pacote de massa integral, um pacote de pão integral e uma caixa de Bis Oreo.

Contemplando a escassez fiquei pensando que muitas pessoas observando este cenário poderiam rapidamente concluir que o boneco tá mal. “Bah, coitado do cara, tá caído, a crise pegou forte, que merda,” coisa e tal.

Todavia, não é que eu tô mal. Pelo contrário.

A real é que morando num bairro coalhado de feiras, supermercados e restaurantes, tenho comido fora com certa frequência e, quando como em casa, tendo a comer coisas compradas no dia (ou há poucos dias).

A campanha, na real, da Petite – todavia, tamo junto -, de consumir menos alimentos industrializados vem de longa data, de forma gradual e sensível. Hoje acabamos indo muito mais à feira que ao supermercado, comprando quantidades menores de comida, em geral consumidas no mesmo dia em que são adquiridas. Em outras palavras: não estamos mais fazendo estoque.

Sem radicalismos, também: a caixa de Bis Oreo é prova cabal disso. Mesmo assim, a real é que já faz um tempo que tem menos pacote de bolacha e salgadinho no armário e mais castanha e fruta na geladeira.

(…)

Comemos bastante fora, também, em geral num buffet à quilo perto aqui de casa que batizamos carinhosamente de GAUCHÃO pois é de propriedade de dois gaúchos (um de Erechim e outro de Sarandi) – porém, antes de conhecê-los e saber disso, o pico já havia conquistado a alcunha por possuir uma churrasqueira, com boas carnes e gente que sabia assá-las.

Mesmo assim, hoje comemos menos carne do que no começo: vamos mesmo é pela salada. Por incrível que pareça. É sempre fresca, variada e farta, mas, melhor de tudo: está pronta. Convenhamos: a pior parte de alimentar-se de forma saudável é a PRODUÇÃO. Tem que escolher a verdura, negociar o preço, lavar, cortar/preparar, temperar, limpar tudo. No Gauchão tu chega com quinze minutos, te serve de pepino, cenoura, beterraba, alface, agrião, tomate, berinjela, abóbora (se quiser sempre tem fruta também), senta, come, paga e segue o dia. Vai fazer isso em casa: uma operação de, no mínimo, duas horas (sendo muito otimista).

(…)

Também me ocorreu que o cara escrever um texto dizendo “não tô mal” é uma das formas mais ululantes do cara dizer “tô mal”, todavia não é mesmo o caso, eu tô bem, sério, quer dizer, mais ou menos, quem é que tá 100% bem, não é mesmo, meus kids? A coisa tá meio feia sob todos os aspectos que se encara. Talvez um dos ângulos mais confortáveis de encarar a coisa seja ponderar que: pelo menos não vai durar muito. Logo mais vai acabar. De um jeito ou de outro.

D.O.M.

Para inaugurar a seção “rango”, eis uma resenha que fiz para meus amigos e familiares do caríssimo (todavia ao mesmo tempo justíssimo) D.O.M., em abril de 2013:

Acabo de chegar em casa após jantar de TRÊS HORAS no D.O.M.
Resumindo muito: merece mesmo ser um dos melhores restaurantes do mundo, não sei exatamente em que posição. Acho que seria exagero colocá-lo em primeiro, muito embora as especulações sejam essas. A nova lista sai agora dia 30, e o NOMA certamente perderá o primeiro lugar depois do episódio de intoxicação alimentar envolvendo centenas de clientes. Atala foi eleito uma das 100 personalidades mais influentes do planeta pela revista Time, de modo que está muito bem cotado para ocupar o trono. Não conheço os demais e seria burrice e demagogia falar qualquer coisa a esse respeito, mesmo sendo Dids, de modo que me calarei a este respeito e me limitarei a falar brevemente sobre minha experiência pessoal sobre o lugar.

Achei o ambiente ok, mas não gostei do fato das mesas para duas pessoas serem todas extremamente próximas umas das outras, de modo que é possível ouvir claramente toda a conversa dos coxinhas que sentam ao lado. Também é lugar muito escuro, com ar condicionado MUITO frio e que toca Adriana Calcanhoto, o que são deméritos. O atendimento é afetado sem ser verme, e a clientela em geral é extremamente jeca, o que me deixou bastante surpreso.

Quanto aos alimentos em si:

O couvert é uma fraude. R$ 38 para comer pão italiano (ótimo, todavia, R$ 38), pães de queijo e manteiga aviação + coalhada fresca + pasta de alho e batata maravilhosa e extrema. Só pedi porque imaginei que talvez pudesse ter algo diferente ou surpreendente (até tinha a pasta de alho, mas meio demais cobrar R$ 38 por pessoa por isso). Pelo menos tinha reposição infinita, coisa que um amigo chamado Hermano aprovaria. Aliás, o mais maravilhoso da noite foi ficar imaginando a reação de duas pessoas aos pratos e quantidades do DOM: Hermano e Flavito.

Pedimos o menu com 8 pratos. Havia menu children de 4 pratos por algo como 350 reais e menu de 8 pratos por algo como 490 reais, mas imaginei que como dificilmente voltaria lá, o melhor seria viver a experiência completa. Petite QUASE pediu o de 4 pratos alegando estar sem fome, mas acabou convencida rapidamente quando o casal na mesa ao lado recebeu o primeiro prato.

Antes dos pratos chegarem, recebemos um mil folhas de mandioca com creme de catupiri e redução de vinho do porto com um coquetel de licor de jabuticaba e espumante para harmonizar. Estava fantástico.

O primeiro prato do menu eram dois camarões grandes servidos com carpaccio de chuchu e tamarindo em cima de um molhinho chamado cajuína (quem já foi a Fortaleza sabe o que é: uma espécie de néctar de caju). Bem bom, mas nada espetacular. Todavia, bom começo, sobretudo por conta do COENTRO fresco e maravilhoso que explodia ligeiramente na boca dando aquela sensação de HMMMM QUE GOSTOSO.

Em seguida, carpaccio de palmito pupunha com vieiras cruas, molho de coral e azeite negro. Isso era EXTREMO. Tudo era muito maravilhoso demais, esse tal molho de coral quase me fez LAMBER o prato (que não era um prato, era uma LASCA DE PEDRA).

Depois, ostras empanas com farinha de mandioca com ovas de salmão e sagu de tapioca. Pra mim, o ponto alto da noite. Eu poderia comer uns 10 desses troços e não enjoaria. Tudo era bom demais – e ainda tinham uma pimenta maravilhosa temperando tudo que explodia na boca mas sumia rapidamente, não arruinando o sabor de nada.

Depois: arroz negro levemente tostado com legumes verdes e leite de castanha do Pará. Entre os legumes havia o aspargo, o brócolis, o pimentão, o aipo, o alho poró e um troço meio mágico, que não identificamos, mas era branco translúcido e havia sido dolorosamente cortado de modo a parecer uma espinha de peixe. Tinha gosto meio de hortelã meio de maça, refrescante e picante e difícil de identificar. Até aqui, só sucessos.

Pintou então um peixe chamado cavalinha servido com sautée de palmito pupunha e cogumelos frescos, com molho de limão e mel de abelha. Era de chorar.

Daí meio que rolou um STILL, com prato de bacalhau confitado e maionese de leite, acompanhado de cebola em conserva e a pele do próprio peixe tostadinha que era OK. Duas ou três semanas comi bacalhau confitado muito superior no Bravin.

Então veio algo surpreendente: um fettuccine feito de palmito pupunha à carbonara. O carbonara em si era apenas muito bom, mas o fettuccine feito de palmito era de outro mundo (e parece ter dado um trabalho fudido).

Pra finalizar, stinco de cordeiro, um corte bem popular aqui em São Paulo, que é a batata da perna do bicho (que praticamente se esfolheava ao toque do garfo) com purê de cará, um molho doce de algo que não consegui identificar e castanha do pará ralada por cima. MUITO fatal.

Daí veio a grande decepção da noite, o aligot. Um amigo havia recomendado o alimento com furor, e na mesa ao lado vimos quando o garçom serviu, usando duas colheres, de forma quase acrobática, o purê de batata com queijo minas frescal e gruyère. Quando chegou a nossa vez achamos sem gosto de nada e pesadão. Fez as vezes de “prato de queijo” num menu francês tradicional, mas na opinião de Um Dids e Uma Petite, fez muito feio. Se tivessem servido só uma fatia de queijo minas e outra de gruyère teria sido melhor.

Então vieram as DUAS sobremesas para redimir tudo:

Primeiro, cubos de abóbora levemente grelhados com sorvete de tapioca, espuma de sei lá o que molinha e deliciosa, um cristal de açúcar levemente explosivo e uma trilha de ervas carbonizadas que, a princípio, só de olhar, pareciam alto migué, mas na boca, meu amigo, que coisa mais fantástica.

Pra fechar com chave de ouro: bolo de castanha do Pará (apenas ok) coberto com sorvete extraordinário de Jack Daniels, calda de chocolate amargo manchando o prato, folhas de rúcula selvagem, sal, curry e pimenta. Esse foi pra matar o Dids.

Acompanhando tudo isso, pedimos um espumante que conhecemos e gostamos, o 130, da Casa Valduga. Custou R$ 200, o que é extremamente honesto, levando-se em conta que comprado na própria vinícola saía por R$ 80 em 2009 e era comum achar por preços entre R$ 120 e R$ 150 no comércio local em Porto Alegre.

Tomamos, também, três garrafas de água São Pellegrino (ou foi o que nos cobraram), sendo que cada uma por R$ 15.
Total da conta (morte total e irrestrita): R$ 1436 e uns quebrados.

Ótima refeição e valeu cada centavo.

Levando-se em conta que comemorávamos seis anos de namoro, achei que foi até barato.