leonardo da vinci

Mais uma tradução volumosa, com prazo curto e regressivo pra conta.

Estou ficando bom nisso.

Dessa vez foram cerca de 600 páginas em pouco menos de 3 meses, dessa última (e supostamente definitiva) biografia do Leonardo da Vinci escrita pelo Walter Isaacson – o jornalista yankee que ficou famoso com a biografia do Steve Jobs alguns anos atrás. O livro vai sair aqui no Brasa exatamente ao mesmo tempo que lá na Gringa, o que é sempre churros.

Já tinha feito correrias similares algumas outras vezes com livros da série Só perguntas erradas, do Lemony Snicket, mas nunca havia lidado com este volume, complexidade e grau rococó de texto. Sério: que amigão enrolão, este. Tudo bem que a pesquisa é realmente exemplar e tem algumas novidades bem importantes sobre a obra e a vida de Leonardo aí, mas achei o texto meio carregado na firula acrobática. Suspeito que seja tique de jornalista: depois de tantos anos escrevendo dentro de fórmulas, quando o cara quer pisar fora da risca acaba se embanando na grandiloquência. Acontece.

De qualquer forma, boa jornada traduzir este livro. Me ensinou e lembrou algumas coisas sobre a Itália, pintura, desenho, arquitetura, hidráulica, anatomia, medicina, matemática, física, química, geologia, geografia e história – isso sem falar em inglês e português (e um que outro toquezinho de italiano e francês). E que filho da puta genial mesmo era esse Leonardo. E que filho da puta também (se bem que o pai também não era grandes coisas). Se bem que: bah. Que feio, eu, aqui, quinhentos anos depois difamando a memória do gênio defunto que não pode mais se defender. Deixemos quieto, enfim.

A exemplo de Marlonzeira, eis aqui alguns números para o deleite da rapaziada numismática:

  • Como traduzi a partir de 3 arquivos diferentes, que contam, inclusive, com manchas gráficas diferentes, implicando em números diferentes de páginas para um eventual mesmo volume de texto: não há como dizer precisamente quantas páginas havia no original. No primeiro PDF, sem imagens, são 577. No segundo, 574. No derradeiro: 597. Somando apenas as páginas que eu traduzi de acordo com os meus registros: 544.
  • Detalhe importante: em todas as versões há um anexo de, pelo menos, 30 páginas contendo apenas as NOTAS da pesquisa – trecho espinhoso que não precisarei traduzir, posto que outra pessoa o está fazendo.
  • O que eu sei é que o arquivo do Word com o texto em português ficou com 389 páginas, 170.331 palavras e 1.038.116 toques.
  • Como o prazo dessa vez era MUITO apertado, o processo todo levou pouco menos de 3 meses: comecei no dia 9 de maio e terminei no dia 27 de julho. É um período de 78 dias, nos quais trabalhei efetivamente 58, ao longo de 11 semanas e meia.

Pra finalizar, eis o Quadrinho Tradutivo do Dido, uma tradição feliz since 2017 – todavia dessa vez com uma organização diferente da informação, obedecendo à seguinte lógica:

toques produzidos – página final – total acumulado de toques

SEMANA 1

Day 1 – 20 148 – 15pg – pg 15 – 20 148
Day 2 – 20 374 – 10pg – pg 25 – 40 522
Day 3 – 20 013 – 10pg – pg 35 – 60 535
Day 4 – 20 843 – 10pg – pg 45 – 81 378

SEMANA 2 – 35 pg (mudou o PDF, mudou tudo, páginas duplas)

Dia 1 – 11 796 – ? – ? – 93 174
Dia 2 – 13 944 – pg 31 – 107 118
Dia 3 – 16 435 – pg 35 – 123 553
Dia 4 – 18 314 – pg 40 – 141 867

SEMANA 3 – 46 pg

Dia 1 – 26 570 – pg 47 – 168 437
Dia 2 – 11 639 – pg 50 – 180 076
Dia 3 – 13 335 – pg 53 – 193 411
Dia 4 – 20 578 – pg 58 – 213 989
Dia 5 – 10 241 – pg 61 – 224 230
Dia 6 – 10 486 – pg 63 – 234 716

SEMANA 4 – 54pg

Dia 1 – 19 843 – pg 67 – 254 559
Dia 2 – 29 236 – pg 74 – 283 795
Dia 3 – 18 690 – pg 80 – 302 485
Dia 4 – 09 297 – pg 83 – 311 782
Dia 5 – 24 143 – pg 90 – 335 925

SEMANA 5 (gripe) – 20pg

Dia 1 – 17 898 – pg 95 – 353 823
Dia 2 – 24 640 – pg 100 – 378 463

SEMANA 6 – 50pg

Dia 1 – 18 406 – pg 105 – 396 869
Dia 2 – 15 673 – pg 110 – 412 542
Dia 3 – 22 533 – pg 115 – 435 075
Dia 4 – 19 201 – pg 120 – 454 276
Dia 5 – 17 859 – pg 125 – 472 135

SEMANA 7 – 40pg

Dia 1 – 20 483 – pg 131 – 492 618
Dia 2 – 16 395 – pg 135 – 509 013
Dia 3 – 18 201 – pg 140 – 527 214
Dia 4 – 22 936 – pg 145 – 550 150

SEMANA 8 – 54pg

Dia 1 – 18 059 – pg 150 – 568 209
Dia 2 – 23 159 – pg 155 – 591 368
Dia 3 – 18 520 – pg 160 – 609 888
Dia 4  -10 681 – pg 162 – 620 569
Dia 5 – 21 539 – pg 167 – 642 108
Dia 6 – 17 698 – pg 172 – 659 806

SEMANA 9 – 54pg

Dia 1 – 24 259 – pg 178 – 684 065
Dia 2 – 20 155 – pg 183 – 704 220
Dia 3 – 18 771 – pg 188 – 722 991
Dia 4 – 19 783 – pg 193 – 742 774
Dia 5 – 22 533 – pg 199 – 765 307

SEMANA 10 – 52pg

Dia 1 – 22 165 – pg 204 – 787 472
Dia 2 – 20 407 – pg 209 – 807 879
Dia 3 – 12 558 – pg 214 – 820 437
Dia 4 – 21 026 – pg 220 – 841 463
Dia 5 – 22 244 – pg 225 – 863 707

SEMANA 11 – 55pg (mudou de novo o PDF, agora é uma versão de 1,5GB ns com imagens em alta resolução e duas contagens diferentes de números de página; pelo menos é página simples – que, todavia, deu uma bagunçada na minha contagem aqui, mas tudo bem)

DIA 1 – 22 944 – pg 443/466 – 886 651 (12)
DIA 2 – 15 422 – pg 454/476 – 902 073 (11)
DIA 3 – 20 440 – pg 465/487 – 922 513 (11)
​DIA 4 – 13 950 – pg 476/498 – 936 463 (11)
DIA 5 – 25 598 – pg 486/508 – 962 061 (10)

SEMANA 12 – 39pg

DIA 1 – 25 563- pg 500/522 – 987 624 (14)
DIA 2 – 21 356 – pg 510/532 – 1 008 980 (10)
DIA 3 – 28 882 – pg 525/547 1 038 116 (15)

chacrinha

Sábado assisti pouco mais de uma hora de uma reprise de um programa do Cassino do Chacrinha. Foi uma experiência muito interessante em vários níveis, e provocou uma epifania um tanto incômoda em minha cuca, cuja trajetória se resume da seguinte forma: a) num primeiro impacto pensei “tu vê só, um dia o Brasil já foi assim”; b) alguns minutos depois pensei “as pessoas pareciam mais felizes, será que era mesmo melhor?” muito embora o programa fizesse propaganda do Governo José Sarney e eu me lembre muito bem desse governo, com racionamento de carne e inflação de mais de MIL por cento ao ano; c) por fim me dei conta de que “o Brasil ainda é 100% assim, a diferença é que no final dos anos 80 a Globo ainda estava conectada ao povo brasileiro, e hoje em dia (e há anos) não está mais.”

De repente fez sentido o IBOPE da Globo estar cada vez menor enquanto o de redes que ainda buscam um contato com a massa brasileira, como a Record e o SBT, estarem cada vez maiores.

(…)

Fora isso, fiquei bastante impactado com o programa de modo geral. A dança das Chacretes (todas batizadas com nomes de guerra intensos como “Sandrinha Toda Pura”, “Gracinha Copacabana” e “Gleice”), focadas de baixo pra cima, com closes escancarados em suas bundas e virilhas; o desfile interminável de artistas de grande vulto como Biafra, Sylvinho, Benito di Paula, Sandra Sá, Almir Guineto, Sarah Jane e Luís Caldas, todo mundo mandando ver num playback extremo; as mensagens de apoio ao governo José Sarney na voz do Chacrinha, no texto de algumas placas levantadas pela produção e na fala de alguns de seus jurados (que incluíam Elke Maravilha, João Kléber e Sônia Abraão); as roupas, cortes de cabelo e formato do corpo das pessoas, entre artistas e populacho, equilibrando-se num espaço esquisito entre o final dos anos 70 (costeletas, camisa aberta, calça boca de sino) e o auge dos 80 (ombreira, mullet, calça de jeans nevada); o arremesso de jacas, abóboras, melancias, quilos de arroz, feijão e farinha à plateia, geralmente acompanhados de anúncios pró-governo federal (cujo slogan na época era “Tudo pelo social”).

(…)

Não tenho a menor dúvida de que esta aura segue intacta em qualquer boteco com mesa de sinuca que vende pinga, qualquer puteiro de beira de estrada frequentado por caminhoneiros, qualquer município com menos de 50 mil habitantes que ainda conserva o mais puro suco do brasileiro – e ainda não sei muito bem o que fazer com essa constatação.

Vamos deixar assentar mais uns dias.

rapidinhas da madruga

Outro dia criei uma senha fácil de lembrar, porém difícil de escrever, posto que é uma frase comprida cujas palavras são compostas de letras posicionadas de formas esquisitas, obrigando o vivente a demonstrar uma certa destreza digital na hora de completar o formulário. Agora: que merda se o cara se bobeia por um décimo de segundo e erra uma letra na digitância: tem que apagar tudo e começar de novo.

(…)

Pior vida atualmente: a desse maluco que era pra ser o apresentador do Troca de Passes, no SporTV, mas deu o azar​ de terem colocado o Roger no programa com ele – que aí não tem muito jeito, Roger é muita manha, lábia e carisma, ele rouba a cena 100% das vezes, come o cara com farinha, e quando botam na bancada junto com ele o Ricardo Rocha chega a ser covardia, dá pra ouvir os ossinhos do cara estalando enquanto os dois boleiros mastigam.

(…)

Tive um sonho meio confuso e claustrofóbico de uma festa – como são todos os meus sonhos que se passam em ou contém uma festa – e aí no semifinal (o ato penúltimo) rolava uma bad, as luzes se acendiam e eu perdia meu celular, aquela sensação de merda de quando tu acaba de constatar que perdeu uma coisa, especialmente quando é uma coisa que tava contigo até um segundo atrás, que tu cuida bastante, enfim, que merda, só que aí um segundo antes de acordar eu encontrava o celular debaixo de uma mesa de madeira escura, tinha uma toalha em cima, e portanto quando acordei eu tinha um sentimento de satisfação ou completude me inundando a cuca, diferente da frustração com a qual eu costumo acordar quando me acontece o contrário e eu não consigo encontrar uma pessoa, um lugar, uma coisa que se perde de mim no meio do sonho. Mas ruim mesmo é quando tu acorda sem lembrar do teu sonho e passa o dia inteiro com esse sentimento xarope no fundo, sem saber nem poder contra-atacar. Aí it’s a fuck.

(…)

Fui num vascular essa semana ver se estava mesmo desenvolvendo varizes e não é que as veias resolveram diminuir grotescamente de calibre bem no dia da consulta? A favor do acaso vamos levar em conta que fez frio pra caralho (9 graus com sensação térmica que arranhou o 1), os vasos se contraíram e, quem sabe, andei exagerando.

(…)

Também tem mais uma coisa: no fim das contas funcionou pra caralho aquele lance de meter 10 apoio e 10 abdominais pra cada hora trabalhada. Aconteceu uma coisa maravilhosa: o fato de estabelecer uma janela de tempo determinada de trabalho entre uma sessão de exercício e outra aumentou MUITO o meu foco, fazendo com que minha produtividade simplesmente TRIPLICASSE. Na verdade, em termos de volume ela continua exatamente igual, mas reduzi de 15 para 6 horas diárias meus turnos de trabalho – o que é um resultado bastante significativo tanto em termos mentais quanto físicos: como fico menos tempo sentado, exerço menos pressão nas pernocas do Dideira e posso avaliar com mais segurança se as veias inchadas e a sensação de peso nas pernas foram algo transitório ou uma condição crônica incurável (embora perfeitamente tratável). A ver.

física?

Talvez o salto de compreensão mais importante do universo que tive nos últimos anos foi o de perceber, de forma definitiva e inescapável, que o que existe entre o seu nariz e o nariz da gata que logo mais irá beijar, este mesmo espaço por onde se deslocam os pássaros e os aviões, não é, de fato, um espaço, e sim um FLUIDO, onde estamos todos nós imersos, o tempo todo, desde sempre.

Fora isso, acho um ótimo exercício mental tentar compreender isso – e também a forma como o tempo e a velocidade se apresentam de formas radicalmente diferentes em diferentes escalas (uma formiga correndo freneticamente ainda chegará muito depois de um elefante arrastando-se morosamente pela mesma superfície).

mens sana in corpore sano

Como muitos devem ter percebido, após um começo de ano promissor, a empreitada de intensificação do Projeto Zé Roberto deu uma certa estacionada nos últimos tempos. Embora siga no pilates duas vezes por semana (que hoje, por sinal, faltarei por motivos de trabalho atrasado), abandonei de forma inclemente o meu próprio programa de Bombardeio, Castigo e Surra do Core e não busquei nenhuma alternativa à capoeira como exercício aeróbico complementar.

Como presente, desenvolvi o que provavelmente são o princípio de um quadro de varizes (veias que pulsam e se dilatam na panturrilha e nas canelas acompanhadas por uma sensação de peso e cansaço) e, mais recentemente, um incômodo na metade das costas que deve ser algum músculo distendido. Preciso ver essas coisas aí.

Enquanto isso, ainda tenho duas semanas de trabalho muito intenso para cumprir meus prazos na tradução da biografia do Leonardo da Vinci escrita pelo Walter Isaacson. Serão mais de 50 páginas por semana, o que se traduzem em muitas e muitas horas de bunda gastas numa cadeira.

Para compensar a violência que impingirei à minha carcaça, desenvolvi o seguinte plano emergencial para os próximos 15 dias que, caso se mostre viável, pode ser adaptado para um uso mais prolongado.

Para cada hora de trabalho sentado, uma série de 10 flexões de braço + 10 abdominais com as pernas suspensas a 90 graus + alongamentos. Levando em conta que tenho trabalhado uma média de 12 a 15 horas por dia, tendo a ficar bombado. Posso aumentar ou diminuir os valores de acordo com a performance, mas é importante sempre intercalar cada hora de trabalho com alguns minutos de exercício.

A ver se tem algum efeito.

Como hoje vou furar o pilates, fiz breve teste agora e achei bem churros esta novidade. Dez minutos depois, meu corpo está quentinho e satisfeito, se pá vai até me ajudar na concentração.

De todo modo, começando: amanhã.

carpe diem

Num gesto automático de quem trabalha em casa, está gripado em casa, está no fim de semana em casa, ou está passando qualquer quatro horinhas direto em casa, fui até a cozinha e abri a porta do meu armário suspenso. Tinha um pacote de massa integral, um pacote de pão integral e uma caixa de Bis Oreo.

Contemplando a escassez fiquei pensando que muitas pessoas observando este cenário poderiam rapidamente concluir que o boneco tá mal. “Bah, coitado do cara, tá caído, a crise pegou forte, que merda,” coisa e tal.

Todavia, não é que eu tô mal. Pelo contrário.

A real é que morando num bairro coalhado de feiras, supermercados e restaurantes, tenho comido fora com certa frequência e, quando como em casa, tendo a comer coisas compradas no dia (ou há poucos dias).

A campanha, na real, da Petite – todavia, tamo junto -, de consumir menos alimentos industrializados vem de longa data, de forma gradual e sensível. Hoje acabamos indo muito mais à feira que ao supermercado, comprando quantidades menores de comida, em geral consumidas no mesmo dia em que são adquiridas. Em outras palavras: não estamos mais fazendo estoque.

Sem radicalismos, também: a caixa de Bis Oreo é prova cabal disso. Mesmo assim, a real é que já faz um tempo que tem menos pacote de bolacha e salgadinho no armário e mais castanha e fruta na geladeira.

(…)

Comemos bastante fora, também, em geral num buffet à quilo perto aqui de casa que batizamos carinhosamente de GAUCHÃO pois é de propriedade de dois gaúchos (um de Erechim e outro de Sarandi) – porém, antes de conhecê-los e saber disso, o pico já havia conquistado a alcunha por possuir uma churrasqueira, com boas carnes e gente que sabia assá-las.

Mesmo assim, hoje comemos menos carne do que no começo: vamos mesmo é pela salada. Por incrível que pareça. É sempre fresca, variada e farta, mas, melhor de tudo: está pronta. Convenhamos: a pior parte de alimentar-se de forma saudável é a PRODUÇÃO. Tem que escolher a verdura, negociar o preço, lavar, cortar/preparar, temperar, limpar tudo. No Gauchão tu chega com quinze minutos, te serve de pepino, cenoura, beterraba, alface, agrião, tomate, berinjela, abóbora (se quiser sempre tem fruta também), senta, come, paga e segue o dia. Vai fazer isso em casa: uma operação de, no mínimo, duas horas (sendo muito otimista).

(…)

Também me ocorreu que o cara escrever um texto dizendo “não tô mal” é uma das formas mais ululantes do cara dizer “tô mal”, todavia não é mesmo o caso, eu tô bem, sério, quer dizer, mais ou menos, quem é que tá 100% bem, não é mesmo, meus kids? A coisa tá meio feia sob todos os aspectos que se encara. Talvez um dos ângulos mais confortáveis de encarar a coisa seja ponderar que: pelo menos não vai durar muito. Logo mais vai acabar. De um jeito ou de outro.

discografia afetiva II

Disclaimer aqui.

Amandla – Miles Davis (1989). Estranho como o Flavito tinha esse gosto amplo no tocante ao jazz: na discoteca dele tinha dixieland, tinha standard, mas, principalmente, tinha essas loucuradas fusion dos anos 80 que eram, em grande parte, vamos admitir, meio chatonas. É tudo uns stabs, uns cowbell, aquele baixo do Seinfeld (nesse caso é do Marcus Miller, but still) e umas corneta meio desconcertante por cima de uns efeitos de robô passando mal. Não conversa muito comigo. Apesar disso tudo, sempre gostei muito de uma faixa grandona chamada Big Time, e foi bem bom ouvi-la de novo.

Airport Love Theme – Vincent Bell (1970). Um dos clássicos absolutos da minha infância. Eu tinha um pouco de medo, um pouco de fascinação por ele – e o Flavito escutava bastante. Aquela guitarrinha psicodélica que parece líquida é uma das lembranças sensoriais mais fortes que tenho. Lembrava com mais força da faixa-tema, mas o disco inteiro é muito bom e, aparentemente, bastante raro também. Ouvi-lo é uma boa forma de evocar a imagem da masculinidade adulta idealizada que eu tinha quando criança: cigarros finos tirados de um maço dourado, um apartamento esfumaçado com sofá de couro liso, quadrado, caramelo, janelas noturnas bem servidas, uísque com gelo num copo baixinho, uma mulher enfiada num penhoir mastigando uma piteira. Que criança eu era!

Luz – Djavan (1982). Neste ponto sou obrigado a fazer um mea culpa. Quando alguém taxa Djavan de chato na minha frente, tendo a defendê-lo com forte convicção. Pois essa convicção foi severamente abalada após ouvir este álbum que, de bom mesmo, só tem a espetacular Sina e a maravilhosa Samurai – ambas tão extremas que quase compensam o fato de todas as demais músicas serem absolutamente tenebrosas. Nem consigo lembrar direito das letras ou das melodias. Quase não deu pra escutar até o fim. Eu tinha uma memória afetiva muito mais favorável ao bardo das Alagoas. Veja só como são as coisas.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – Beatles (1967). Outro dia o disco fez 50 anos, lembrei que tinha trazido um exemplar surradão nessa leva de vinis da casa dos meus pais e fui sacar da embalagem pra botar na vitrola quando tive duas surpresas. A primeira: aquela página com uns desenhos para recortar – incluindo um bigode pra pendurar debaixo do nariz – que não lembro de ter visto quando era criança. A segunda: no selo do disco, uma assinatura do Henrique Schucman, o famoso tapeceiro do Pouso do Tapeceiro, da praia da Gamboa/SC. Enquanto ouvia o vinilzão pesado e grosso de 1967 (edição nacional) ficava me perguntando: “será que Flavito pegou emprestado o disco do Henrique e nunca mais devolveu?” Gosto muito do disco e acho todo ele bom, mas o ponto alto foi ouvir a “reprise” da faixa título e perceber que foi justamente ali que desenvolvi meu gosto pela música eletrônica (por conta do beat absolutamente fatal). Thanks, Ringo.

Portrait in Music – Burt Bacharach (1971). Sempre curti demais o easy listening do Burt, que é, disparado, o cara que fez as músicas mais fáceis de ouvir que eu conheço. Não lembro de uma que eu não goste. Esse disco em particular, todavia, não havia me tocado muito, posto que esperava que fosse todo instrumental, e estava repleto de uma cantoria sem muita graça. Todavia, escondido no finzinho do lado B havia um grande presente para o Dido: a faixa Any day now. Alguns anos atrás, acordei com a melodia do saxofone (ou clarinete) que sola no comecinho dessa música, sem saber que era dela. Procurei alguns dias na internet, assobiei pro SoundHound, tudo sem sucesso. Então liguei pro Flavito e cantarolei a melodia pra ele. Ele não reconheceu de imediato, mas achou familiar e foi procurar. Durante semanas, toda vez que eu ia almoçar na casa dos meus pais, ele me mostrava algum disco do Fausto Papetti, do Stanley Jordan, ou do Santana, crente que tinha encontrado aqueles acordes. Nunca era ela. Depois de algum tempo, paramos de procurar. Hoje, quando finalmente a encontrei, deu uma vontade enorme de ligar pro Flavito (que não usava Facebook e nem WhatsApp por princípio e teimosia) e, deixando a música rolar de fundo, declarar: “encontrei.” Mas isso não dá mais pra fazer.

South of the Border – Herb Alpert’s Tijuana Brass (1964). Não lembro do Flavito ouvindo esse disco sequer uma vez – bem como não lembro dele ter jamais posto pra tocar os compactos do TRINY LOPEZ, que ele também tinha. Mas lembro bem da capa, do impacto que me causou a logotipia e a essência latina que parecia estar ali contida. Mais velho, ouvi muito remix do Tijuana Brass, de modo que quando vi esse disco na discoteca do Flavito resolvi trazer, mesmo sem jamais ter ouvido. Foi uma escolha meio ruim. É um disco xarope, com versões meio pau mole de grandes sucessos, como Garota de Ipanema e Hello Dolly. Faltou uma pimenta, uma pólvora, um sangue correndo forte ali naquelas veias. Que pena.

Mais – Marisa Monte (1991). Sempre gostei muito de Marisa Monte, e esse disco é quase perfeito. A voz dela está muito bonita, as letras são ótimas (que grande canção é Diariamente). Tenho a vaga impressão de que o Flavito já tinha esse álbum em CD quando alguém lhe deu o vinil de presente. Faria sentido: foi por volta de 91 que ele deu pra mim e pro meu irmão nossos primeiros CDs (Ten, do Pearl Jam e Nevermind, do Nirvana). Acho que ouvimos muito poucas vezes esse disco, portanto – sobretudo ele.

Meus Caros Amigos – Chico Buarque (1976). Não transo um Chico Buarque, como é do conhecimento de muitos. Todavia hoje já aprendi a respeitar como o enorme compositor que é. De qualquer modo, esse era um disco dele que o Flavito ouvia muito. Lembro particularmente de Mulheres de Atenas, música que me enchia de pavor (junto com a música do Cálice e uma que não sei se era o Chico que cantava com a Mercedes Sosa). Por algum motivo associo essa música a um blusão de lã branco que o Flavito teve em algum momento. Não sei explicar o porquê.

Tim Maia – Tim Maia (1970). Mais um disco com história oculta, uma vez que: a) não lembro de ouvir o Flavito tocando jamais em toda sua vida; b) no selo está escrito o nome Ana Maria Czarobai, minha tia, irmã dele. Independentemente disso, trata-se de disco muito formidável, o primeiro do Tim. Tem alguns momentos meio dispensáveis, mas na média é uma sonzeira de altíssima qualidade, sobretudo Eu amo você. Que bom que está em estado perfeito de conservação, sem um mísero arranhão, com os graves totalmente preservados. Que joia extrema.