Fatiamento do core

Findo o primeiro mês do Programa Kidids de Surra, Bombardeio e Falecimento do Core, declaro o resultado do processo: perfeição.

Não furei nenhum dia*, embora tenha feito pequena mudança de rumos: em vez de fazer duas sessões de exercícios a partir da segunda semana (o que fiz somente na segunda semana, aliás), resolvi ir aumentando gradualmente o número de repetições em cada série até atingir o dobro do original.

Comecei no sábado (aka ontem) a seguinte série:

– 2 x 20 abdominais retos com pernas dobradas a 90º

– 50 seg prancha de cotovelo

– 2 x 20 abdominal oblíquo alternado com pernas dobradas a 90°

– 50 seg prancha com braços esticados fazendo o máximo de flexões de escápula possíveis

– 40 abdominais oblíquos alternados com perna em bicicleta (esticando e dobrando)

– 50 segundos de prancha alternada de braço pra cotovelo (a morte)

Está sendo muito divertido ver o core definir e fortalecer. Ainda não estão muito evidentes os gominhos do Dido, mas em alguns ângulos, com a incidência de luz correta: já dá pra ver.

BIG TINGS A GWAAN.

Prosseguirei.

*UPDATE RELEVANTE: Na verdade, furei um dia, sim, o dia em que arranquei a pele dos meus pés jogando capoeira violenta por uma hora e meia (todavia pelo menos joguei uma hora e meia de capoeira violenta esse dia, então ok).

cotovelo

Não costumo ligar muito pra passagem do tempo, até porque eu realmente não sinto que estou às margens de atingir a idade de Homer Simpson no final deste maio. Trinta e oito anos. É quase quarenta, mas eu ainda existo muito no planeta como a uns vinte anos atrás. Jogo videogame, admiro cannabis, durmo tarde, tenho medo de trovão e fantasma, não tenho problemas de saúde mais significativos além do tinnitus e do colesterol alto (este último, herança de família).

Em contrapartida, venho fazendo exercícios regularmente, e melhorando minha alimentação de forma suave e gradual – com resultados muito bons. Esteticamente meu corpo não mudou muito nos últimos vinte anos, exceto por uma melhora bastante visível na postura e um aumento significativo na flexibilidade e no tônus muscular (tudo graças ao pilates). Ainda não fiquei careca, não tenho um volume muito relevante de cabelos brancos, a pancinha da esquistossomose de 2017 é a mesma de 1997, mas se tem uma coisa que não apenas denuncia minha idade como ainda incomoda são os meus cotovelos. Que parte do corpo extrema, essa minha. Talvez tenha algo a ver com passar os dias roçando os coitados nos braços plásticos da minha cadeira de escritório, mas fato é que tenho notado que, nos últimos anos, meus cotovelos foram se abrutalhando afu. Duros, enrugados, com a pele constantemente descamada, eventualmente cobertos por micro bolhas amareladas. Me sinto um pouco como aquele menino que vi certa feita num programa no Discovery com uma condição rara, cuja pele parecia feita de nacos de madeira. Um pouco como um monstro de pedra.

Mas fazer o quê?

Se o meu cotovelo vai se a única parte do meu corpo a envelhecer clamorosamente enquanto o resto se conserva, acho que posso me considerar um sortudo.

puta merda

Primeiro dia em 19 que não faço a sequência de manutenção do core by Dids. Motivo: implodi os dois pés na capoeira. Na primeira aula havia aberto um tampão no dedo esquerdo (e quase no direito), o que me deixou andando mal por uns três dias. Hoje me preveni e encapei os dedões com um esparadrapo. Resultado: foram poupados. Todavia o gordinho do pé sofreu em seu lugar. A quantidade de pele arrancada do peito do pé esquerdo seria suficiente para reconstruir integralmente a mão de um bebê de até 3 meses. O direito sofreu um pouco menos, apenas um círculo do tamanho de um polegar. Mesmo assim: ambos doem pra burro e dificultam imensamente a tarefa de andar. A ver se amanhã conseguirei fazer pilates e – mais importante – se na sexta estarei em condições de jogar essa capu.

O mais brutal de tudo é que, segundo dois mestres e um instrutor com quem conversei hoje, o pé do cara SEMPRE ABRE na capoeira. Vai ficar mais difícil de abrir com o tempo, mas sempre que o treino for um pouco mais pesado: vai abrir.

Quem diria que esses pés de moça iam me causar tamanho constrangimento algum dia?

Em compensação, e notas relacionadas, estou bastante satisfeito com este encontro com a capu. Hoje aprendi mais uns golpes, levei um chute nas costelas a título de demonstração, melhorei consideravelmente minha ginga. Se resolver esse lance dos pés, creio que ainda serei bom. A dream. Porém: a ver.

apartamentos mentais

Ainda não decifrei os motivos, mas fato é que faz alguns anos que sonho repetidamente uma variação do seguinte: ao chegar em casa, abro a porta e meu apartamento não é o apartamento em que eu vivo. Ele fica no mesmo prédio, na mesma cidade, com os mesmos vizinhos, mas o ambiente interno, os móveis, itens de decoração e vista da janela são radicalmente diferentes.

Uma vez eu morava num prédio de tijolinhos desses europeus, tudo grudadinho, numa rua estreita, com muitos restaurantes e lojinhas. Outra, numa cobertura, com uma gigantesca área externa incluindo um gramado, uma piscina e um quiosque com churrasqueira. A mais recente, dessa semana, incluía uma varanda brutal com espreguiçadeiras e enormes vasos com plantas apesar de estar situada num andar mais baixo.

Outro detalhe constante: é sempre dia nesses sonhos. Nunca estive em nenhum desses lugares à noite. Esse último aí, da varanda, era um dia chuvoso, mas, ainda assim: dia.

Não sei se isso quer dizer que eu tenho desejo de me mudar para um lugar maior, não sei se quer dizer dizer que possuo uma visão distorcida dos espaços que habito, só sei que é assim.

Que coisa.

cachorros dormindo

Com o notável atraso que, no mundo dos games, me é familiar, estou jogando e admirando deveras Sleeping Dogs.

Apesar de ser mais um dos duzentos covers de GTA que surgiram nos últimos anos, Sleeping Dogs tem o seu temperinho exótico fervendo e cheirando neste caldo de modo surpreendente.

Pra começar, você é um policial infiltrado numa tríade em Hong Kong, o que já dá uma chacoalhada só por situar a ação numa paisagem diferente. Para avançar a história, você precisa completar missões que fazem o jogo evoluir tanto pelo lado dos hôme quanto pelo lado dos maloqueiro, de modo que é um tal de dedurar capanga e esquema de droga misturado com meter a faca em comerciante que não quer pagar taxa de proteção o tempo todo.

Uma coisa que eu não sabia sobre Hong Kong: armas de fogo são raras por lá. Sendo assim, a maior parte das brigas se dá na base da porrada mesmo. Pelo menos nesse começo (estou na altura dos 15%). O sistema de combate é bem parecido com o desses últimos jogos do Batman da série Arkham Asylum, cheio de botãozinho pra apertar numa hora certa pra aplicar um contra-ataque devastador no coitado que tenta te atraiçoar covardemente.

Outro bagulho muito impressionantes são os gráficos: fluidos, coloridos e cristalinos. Até parece PS4. Também é massa que trata-se de jogo com o chamado “bonecão”, ou seja: os personagem são todos grandões, ocupando muito espaço na tela. Mesmo as cut-scenes, que costumo pular freneticamente (“aperta o x, aperta o x, aperta o x”), tenho assistido com intenso deleite.

Também vale mencionar a excelente opção por fazer um jogo mais ARCADE que SIMULATION, o que se traduz em carros mais fáceis de se controlar nas curvas e uma maior dificuldade de morrer nos combates. Em outras palavras: o jogo prioriza a diversão.

Pra finalizar, muito engenhosos os minigames, envolvendo desparafusar dutos de ventilação e hackear câmeras de vigilância.

Em suma: mistura pretíssima de GTA e Infamous, com pitadas de Arkham Asylum e Warriors.

Veredito: quanto riso! Ó, quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão, todos no coração do Dido.

corpore sano

Ainda sentindo os primeiros efeitos da primeira aula de capoeira do Didão. Músculos das pernas e do abdômen vibram suavemente, deixando a pele constantemente morninha. Os dedões de ambos os pés foram mastigados pelo piso, mas, pelo menos, minha ginga tá fina, embora eu ainda precise melhorar muito sua retomada após aplicar um golpe – hoje aprendi três: meia lua pra frente, benção e queixada.

(…)

Segunda semana de série de abdominais e pranchas corre de forma extremamente bem sucedida. Sinto cada vez mais facilidade em executar os exercícios, e os benefícios, tanto fisicos quanto estéticos, já são bastante perceptíveis.

(…)

Com isso pretendo manter rotina extrema de exercícios este ano, em função do meu objetivo de chegar aos 40 com físico pouca coisa pior ou até mesmo similar ao do futebolista Zé Roberto na mesma idade. Foi por isso que batizei essa caminhada sofrida em sua homenagem, aliás. O projeto teve início em 2014, com a introdução do pilates em meu core. Em 2017 finalmente senti firmeza em mim mesmo e considerei que já estava pronto para acelerar o processo.

Por enquanto é pilates terça e quinta, capoeira quarta e sexta e metralhação inclemente do core diariamente (duas vezes por dia aos sábados, domingos e segundas; uma vez nos dias de pilates e capoeira).

A ver se atinjo meus objetivos. A dream of atingi-los. Everybody will benefit.

(Bom nome para academia, por sinal, “Benefit”)

 

o caçador de estrelas

Dia 15 de dezembro de 2016 fez um ano que o Flavito morreu.

Hoje acordei com uma dúvida atroz, a mesma que já havia me fustigado os gargomilhos na manhã de ontem: era no dia 2 ou 3 de fevereiro o seu aniversário? Pareceu esquisito não possuir mais essa certeza, e fiquei o dia inteiro me perguntando se devia ou não ligar para minha mãe ou pro meu irmão para tirar a teima. No fim não liguei. Deixei quieto. De repente me ocorreu que não fazia muita diferença de qualquer forma lembrar o dia do aniversário de alguém que já se foi. Especialmente no caso do Flavito, posto que penso no meu pai: todo santo dia.

Fato é que eu queria aproveitar essa data (ou a de ontem, talvez) para contar uma história.

Sendo assim, lá vai:

Impressionante como Flavito segue criando coisas bonitas apesar da tremenda desvantagem de estar morto.

Ano passado tivemos um Natal e um Ano Novo bem esquisitos em família, e não poderia ter sido diferente levando em conta que o havíamos perdido há poucas semanas.

Desde que me conheço por gente ele sempre foi a alma da festa. A esmagadora maioria dos Natais dos Pontes-Czarnobai (e de vários outras combinações de Pontes e Czarnobai) se deram na nossa casa. Era ele quem mais fazia questão. Como gostava de dar uma festa, aquele polaco safado! Como gostava de cozinhar pros outros, escolher a música, acolher quem chegava com um uisquinho, uma vodca, uma mesa cheia de aperitivos. Tinha sido meu Papai Noel da infância, e da infância do meu irmão e de tantas outras crianças depois que deixamos de acreditar na fantasia. Cozinhava bem pra caralho, e sabia receber como poucos. Se eu disser que aprendi tudo que sei com ele estaria mentindo, porque mais sabe o diabo por ser velho do que ser o diabo, e mestre como era, tenho certeza de que jamais entregou todo o jogo.

Este ano, pra dar uma refrescada em nossos corações e dar início a uma nova tradição, resolvemos fazer a festa de Natal na minha casa, que agora é, e pelos últimos cinco anos tem sido, um apartamento em Santa Cecília, na gigantesca cidade de São Paulo. Viriam minha mãe, meu irmão, a mãe da Marcela e um de seus irmãos. Não era ainda o time completo, mas tudo bem: já era um começo. Sem entrar nos pormenores da festa, seus bastidores e resultados, direi apenas que foi um grande sucesso. Flavito teria ficado tremendamente orgulhoso. Certamente seria a pessoa que mais teria gostado de tudo se tivesse podido estar aqui em corpo – posto que em espírito certamente estava presente.

Antes disso, entretanto, aconteceria algo que me faria lembrar que os principais ensinamentos que um pai pode deixar para um filho são as coisas que não são ditas, que se entranham profundamente na nossa carne e lá dentro ficam agindo pra sempre, em silêncio, até que se evidenciam de surpresa, e no momento certo.

(…)

Voltemos a dezembro de 2015.

Cinco dias após a morte de Flavito, um dos irmãos dele, o Tio Fernando, estava em sua casa (curiosamente também um apartamento em São Paulo, embora não em Santa Cecília) cozinhando o luto quando teve um estalo. Lembrou, de repente, de toda a melodia e grande parte da letra de uma música que Flavito havia composto no começo dos anos 70, para algum tipo de festival que faziam na PUC/RS.

Totalmente em chamas com essa lembrança repentina, Tio Fernando teve uma ideia. Entrou em contato com um dos filhos, o Cláudio, que mora em Santiago do Chile, e ensinou a melodia da guitarra pra ele. Falou também com a Fernanda, a outra filha, que mora em Berlin, e ela elaborou uma linha de baixo. Meus primos, que tocaram por anos em diversas bandas de punk e metal, ativaram seus contatos em São Paulo e conseguiram horas de estúdio para que o Tio Fernando gravasse os vocais. O baterista da banda punk Calibre 12 operou a bateria.

No dia 18 de dezembro de 2016, Tio Fernando fez um churrasco. A casa estava cheia, e as barrigas de todos também. Tomávamos café. Lá pelas tantas ele disse “André, escuta só esse som.” Ele sempre me apresentou uns sons altamente furiosos – Me’Shell Ndgeocello e El Cuarteto de Nós, entre outros -, então eu já esperava que gostaria do que quer que ele fosse tocar ali.

O som começou e era, de fato, muito excelente.

Minha primeira reação foi perguntar: “De quem é isso?”

Ele deu o Sorrisinho Czarnobai. O Sorrisinho Czarnobai é uma instituição provavelmente milenar, certamente secular, que consiste em cerrar os dentes, abrir a boca e manter os dentes na mesma posição, fazendo um mandrake com os olhos e a cabeça que aí é mais difícil de explicar – mas se você já viu alguma vez você sabe exatamente como é. Usa-se esse expediente de muitas maneiras, geralmente humorosas, mas a principal delas é quando tu não sabe que não pode responder aquela pergunta naquele momento. Seja pra não dar o braço a torcer, não se entregar numa discussão, não admitir um pequeno deslise ou não estragar uma surpresa. Nesse caso, claro, era o último caso.

“Depois te conto,” ele disse.

Até essa altura eu não suspeitei de nada.

Ouvi mais um pouco, estava começando a balançar a cabeça, achando o som realmente muito bom. Insisti.

“Muito bom, mesmo. Mas sério, de quem é isso?”

Novo Sorrisinho Czarnobai. Novo “Depois te conto.”

Aqui eu já comecei a suspeitar. Sabendo que meus primos são músicos, me ocorreu que talvez eles tivessem feito uma música pra tocar entre eles. Todavia, neste momento ainda era apenas um pensamento, uma possibilidade muito remota.

Mas aí entrou o refrão. Essa parte é muito forte, o baterista arrebenta com tudo, a guitarra faz uma firula muito espetacular, e o vocal acrescenta uma camada de emoção difícil de ignorar. Achei realmente bom pra caralho e tive algum tipo de reação física muito forte, contorcendo os beiço pra baixo e franzindo a testa (aka “the bass face”) enquanto agitava a cabeça e o corpo com mais força e dizia algo como “Bah, muito bom isso aí. O que que é?”

Aí o Tio Fernando não se aguentou e revelou que era a: Czarnoband.

“Isso aí sou eu cantando, certo? E o Cláudio na guitarra e a Fernanda no baixo. E o Oscar, o Czarnobai honorário, na batera.”

“Caralho, muito bom. A música é de vocês mesmo?”

Daí esse momento foi pra quebrar.

“É do Flavito.”

CARALHO.

Minha mãe, minha tia e a Marcela choravam copiosamente. Eu tive uma crise de riso, uma alegria muito esmagadora, difícil de definir. Era mesmo boa pra caralho aquela música, e era o meu pai quem tinha feito. Puta que pariu.

Tio Fernando passou alguns minutos explicando todo o processo que levou UM ANO, envolvendo guitarras gravadas no Chile, baixo na Alemanha e algumas visitas a um estúdio pra gravar os vocais. Em seguida, entregou um CD, com um encarte, para cada um de nós, contendo letra, história e algumas fotos incríveis, que eu nunca tinha visto, uma delas meu pai com uns 20 e pouquinhos, ao lado do Henrique “Tapeceiro”, seu grande amigo de anos e anos, os dois de terninhos, com um violão no joelho, compondo e cantando.

Era exatamente o tipo de coisa que meu pai fazia.

Uma das coisas mais tradicionais das festas de Natal eram justamente esses presentes artesanais que o Flavito aprontava. Um ano era uma fita VHS com os melhores momentos dos almoços de família, outro era um DVD com todas as fotos digitalizadas do começo dos anos 70 até a metade dos anos 2000, no outro uma cachaça de butiá, no outro uma caponata, e assim por diante. A principal característica desses presentes, entretanto, eram as embalagens e os encartes. Sempre havia textos muito maravilhosos e uma diagramação que imitava o produto real, mas com os seus toques pessoais. É famosa a história da vez em que uma garrafa de cachaça de pitanga só embarcou no avião porque os funcionários da alfândega acharam que o selo do Ministério da Agricultura e o código de barras eram genuínos.

Tio Fernando foi lá e fez a mesma coisa.

Foi uma forma muito bonita de manter viva uma tradição que tinha começado com o Flavito, e uma das primeiras vezes na vida que ficou muito claro pra mim o significado de família. Ali tinha envolvido amor de irmão, de pai, de mãe, de tio e tia, sobrinho e sobrinha, primo e prima, cunhado e cunhada, sogra e sogra, nora e genro. Estava tudo ali. Sinto Flavito muito presente em minha vida todos os dias desde sempre, mas naquele momento sua presença foi ainda mais forte. Parecia mesmo que ele estava ali. E, de certa forma, ele estava. Quer dizer, foi ele quem nos ensinou a fazer as coisas assim, a amar desse jeito, a dividir nosso coração com os outros dessa forma.

Nos dias seguintes, ouvi essa música pelo menos umas dez vezes por dia. Toda vez que chegava no refrão, eu tinha uma crise de choro muito intensa. Em parte porque eu ficava triste de ele não estar mais aqui, em parte porque eu ficava feliz por tudo que ele representava ainda estar aqui, em parte por simplesmente me sentir esmagado demais por toda a beleza do gesto – e porque a música era realmente boa pra caralho ainda por cima.

Meu lado místico teve muita dificuldade em ignorar a forte possibilidade de tudo isso ter sido, no fundo, uma manobra orquestrada pelo Fantasma de Flavito em pessoa, posto que era tudo muito ELE aquilo ali. A letra da música, então, falando sobre vida e morte, do jeito que fala, putalamerda.

Meu lado racional, por outro lado, fica imaginando o papel decisivo que a baixa confiabilidade da memória somado à força descomunal das emoções podem ter exercido nesse episódio, fazendo o meu tio, de forma quase acidental, criar uma letra carregada desses signos que conversam nesse nível quase transcendental conosco.

A verdade provavelmente está no meio das duas coisas, aí.

De qualquer forma, a música é essa:

Recomendo a audição acompanhada da leitura da letra.

No mais é isso.

FLAVITO ETERNO: AME-O OU DEIXE-O.

mastigação do core

Primeira semana de treino concluída. A princípio, poucos benefícios visíveis. A cada dia fica um pouco menos cansativo terminar o treino, mas ele continua sendo sofrido da mesma forma. Os dois exercícios que mais me abalam são a prancha apoiado no antebraço e os abdominais oblíquos com bicicletinha das pernas – especialmente a partir da 32ª repetição.

Fiz apenas três pequenas mudanças no treino conforme definido no primeiro dia. A partir do terceiro dia parei de me preocupar com velocidade, pois ficou evidente que um movimento mais rápido geralmente implica em tomar impulso para subir o tronco e depois largar as costas no chão para descer. Muito mais eficiente é fazer um movimento lento, de menor amplitude, mas que trabalhe apenas a força do abdome. Também adicionei a famigerada flexão de escápulas à prancha de braços estendidos.

Fora isso, como tenho encurtamento na musculatura das pernas, resolvi fazer 3 x 10 segundos de alongamento de tronco para frente, com as pernas retas, tentando alcançar a ponta dos dedos dos pés. Não tem muito a ver com o core em si, mas já aproveito pra atacar essa outra frente na mesma sessão de exercícios.

Amanhã começa a nova fase, que basicamente consiste de executar a mesma série de exercícios duas vezes ao dia, em lugar de apenas uma.

Seguirei me reportando a este espaço.

a dream #3

O mais curioso e estranho nesse caso é que esse é o terceiro sonho que relato, e o segundo que tem como protagonista a mesma menina, que eu jamais vi ao vivo, com quem eu nunca conversei e com quem todas as interações (extremamente breves e pontuais) que tive até hoje se deram por meio das redes sociais.

No episódio de hoje, eu despertava e percebia que ela estava ao meu lado na cama. Ela não estava deitada junto comigo, mas sim sentada sobre as cobertas fazendo alguma coisa que não lembro bem (talvez estivesse pintando as unhas, talvez lendo um livro, talvez estivesse apenas me observando). Fato é que, assim como no sonho anterior, assim que acordei e a avistei ali, não estranhei a sua presença, mesmo levando em consideração o fato de que eu possuo uma namorada – que era algo que eu também sabia quando acordei debaixo das cobertas dentro deste sonho.

Trocamos algumas palavras, uma conversa curta e neutra, e eu virei para o outro lado e fechei os olhos. Nisso, algo inesperado aconteceu. Ela deitou ao meu lado e me abraçou por trás. Lembro da sensação gostosa de sofrer mochila sensual de gata. Como é bom. Fiz a garganta zunir de lábios fechados para demonstrar satisfação e prazer (o popular ‘hmm’) e falei algo como “Se eu fosse inventar uma mochila seria exatamente assim”, e ela encaixou melhor o abraço e encostou o nariz no meu pescoço. Senti a respiração quente e percebi quando as maçãs do rosto se incharam, indicando que ela estava sorrindo. Após alguns segundos de deleite comecei a raciocinar melhor e finalmente passei a estranhar aquilo tudo. Quer dizer, porque ela estava deitada na minha cama, me abraçando de forma íntima, se não era minha namorada e nem sequer havíamos feito amor?

Nesse instante notei que estava nu, e senti uma vigorosa ereção brotar. Ela falou algo na linha do “não seja por isso” e eu fiquei contemplando minhas opções. A linha que meu pensamento adotou foi a seguinte: a vida é curta, o tempo passa rápido, vinte anos atrás eu estava aprendendo a dirigir e usar o pênis e vinte anos para frente estarei à beira dos sessenta. Talvez a coisa mais sensata a se fazer seja efetivamente “viver um pouco”, “correr uns riscos”, “aceitar o que a vida me traz de bandeja”.

Enquanto isso ela já tinha tirado a blusa, deixando os mamilos rosados de fora, e trabalhava na remoção da calcinha. Em instantes estava debaixo das cobertas, esfregando seu corpo no meu corpo. O sexo foi meio estranho. Lembro de ver no rosto dela que alguma coisa não estava fruindo muito bem enquanto a penetrava. Os beijos, todavia, eram bons, e o toque em sua pele, lisa e quente, também era muito agradável. Mas alguma coisa ali não estava encaixando. Não era nenhum tipo de culpa cristã se manifestando, disso tenho certeza. Era uma coisa muito mais simples, mais física. Basicamente, eu não estava sentindo nada, prazer nenhum. Eu via meu pau entrando e saindo dela, mas não era bom.

Resolvi desistir. Ela me perguntou por quê? e vi a decepção e a tristeza em seu rosto, o que me deixou ainda mais atônito, posto que a mensagem que essa expressão passava era a de que ela sim estava aproveitando muito aquela transa. Fui até a porta do quarto, abri e espiei levemente. Não vi absolutamente nada. Mesmo assim, retornei à cama esbaforido e disse a ela “Minha namorada está vindo aí”. Ela arregalou os olhos “mentira” e ambos começamos a revirar os lençóis atrás das nossas peças de roupa de forma frenética, quando ouvimos a porta ranger e pessoas começaram a entrar por ela.

Nenhuma delas era minha namorada. Em vez disso, amigos da faculdade e do colégio, suas mulheres, seus filhos. Nesse instante notei que meu quarto não era o meu quarto. Mais parecia uma garagem, um galpão com o piso frio de lajota, gigante, escuro e impessoal. Meus amigos ignoraram totalmente a minha presença e da minha amiga virtual. Ela, por sinal, desapareceu neste ponto do sonho e nunca mais foi vista. Não pensei mais nela também.

Após me vestir, comecei a explorar a casa e percebi tratar-se de uma enorme mansão. Não havia nada de suntuoso nos aposentos, móveis ou objetos de decoração, entretanto. Era uma casa de praia padrão, com muito tijolo, penumbra e ventilador de teto. Estava abarrotada de pessoas, e se estendia de forma grotesca até se transformar numa espécie de condomínio infinito, com milhares de pessoas praticando o churrasco com pagode nas áreas externas. Ninguém parecia me ver, ninguém falava comigo. Reconheci, além de vários amigos de várias fases da vida, algumas celebridades improváveis, como o sambista Arlindo Cruz. Todos me ignoravam solenemente.

Segui andando e quando vi estava em algo muito maior, similar a uma feira de tecnologia, cheia de estandes e pessoas demonstrando produtos. Percebi que tinha me afastado demais da minha casa e tive vontade de retornar. Nesse ponto entrou em cena uma característica pouco comentada dos sonhos, que eu mesmo só descobri recentemente. É impossível, num sonho, retornar para o mesmo lugar de onde você partiu. Se você abrir uma porta e passar por ela, quando você virar as costas e voltar pela mesma porta, estará em um lugar diferente de onde você saiu. Se possível, faça o teste. Aprendi isso na época em que explorava os sonhos lúcidos e, inclusive, era uma das maneiras de testar a realidade – junto com olhar duas vezes para um relógio (eles nunca marcam o mesmo horário num sonho) ou tentar acender ou apagar a luz (não dá pra mudar a iluminação de um ambiente num sonho).

Todavia, àquela altura eu não sabia que estava sonhando, então me aproximei de um maluco que tinha um crachá pendurado no peito e segurava os braços para trás e perguntei pra ele como eu voltava para a “área das casas”. Ele me disse “Só pegar esse elevador aqui.” Olhei para o espaço vazio para onde ele apontou, mas não havia nada. Fui até a borda e vi um trilho de trem. Me desequilibrei e caí nos trilhos. Um trem vinha à toda velocidade em minha direção, mas eu consegui subir de volta antes dele me atingir – e o próprio trem caiu numa vala segundos antes de me alcançar. Então o maluco se aproximou para me explicar melhor. Eu deveria pisar num quadrado de grama bem na borda do vão que não estava ali quando despenquei nos trilhos. Ao pisar nesse troço, o quadrado se iluminou a apareceu na minha frente um objeto ovalado, negro, meio parecido com um disco voador. Ele ficou flutuando sobre o vão e se abriu, como uma concha, revelando um interior similar ao cockpit de uma nave, com controles e luzinhas.

“Como é que eu vou entrar aí?” eu perguntei, posto que o “elevador” não estava muito próximo da beirada, e quando olhei pra baixo só enxerguei escuridão e vazio. O maluco disse “ele vem mais perto”, e o elevador se aproximou para que eu entrasse. Subir nele foi parecido com subir num colchão de ar dentro de uma piscina: difícil. O troço não ficava estável, e inclinava perigosamente quando eu tentava jogar o peso do corpo em cima de uma das pernas. Quando finalmente consegui embarcar, percebi que estava sentado sobre o próprio painel de controle – não havia um assento. Comecei a mexer nos controles e rapidamente consegui manobrar o bólido, de modo que não ouvi as explicações que o amigão estava tentando me dar, fechei a concha e sai a milhão pelos corredores, que não tinham a menor semelhança com nada por onde eu tivesse passado até então.

Após alguns segundos de grande estranhamento por não ter a menor ideia de onde eu estava ou o que estava fazendo – e ainda por cima todo encurvado dentro de uma saboneteira tecnológica voando a centenas de quilômetros por hora por dentro de cozinhas, banheiros e corredores de hotéis, algo que lembrava muito, agora percebo, a sequência de abertura de “Corra que a polícia vem aí” – me veio o estalo: “Puta merda, estou sonhando.”

Então puf: acordei.