two dreams

No primeiro eu chegava a pé em casa, mas não era mais a minha casa – quer dizer, um dia foi. O apartamento em que eu morava em Porto Alegre, no Bom Fim, em cima do Mariu’s, na última quadra da Osvaldo Aranha, depois da curva que leva pro túnel (o único da cidade), uma das ruas mais perigosas e difíceis de atravessar em toda a cidade.

Estava nublado, e era meio de noite. Eu chamava o elevador e, enquanto ele não chegava, dava uma espiada num vão que desembocava na garagem, um espaço que não existia no prédio real. Não havia muitos carros estacionados, e meu amigo EGS promovia um churrasco dançante com uma galera da FABICO por ali.

O elevador chegava. Tinha uma daquelas portas pantográficas (outro detalhe incompatível com o verdadeiro prédio). Por algum motivo absurdo, eu havia pedido um Uber que não era um Uber, e sim um Cabify ou 99pop (posto que não uso mais os serviços do Uber há meses, embora siga chamando o ato de pedir um desses carros de aplicativo de “chamar um Uber”). O elevador ia até em cima e, quando ele chegava, eu apertava o botão para descer novamente.

Lá embaixo, na rua, o carro que me esperava não era o que eu esperava, e sim um dos clássicos táxis laranja tijolo (alguns dizem vermelho) de Porto Alegre. No banco do carona, ao lado do motorista, ia um velho, calvo, de cabelo branco. De alguma forma eu sabia que ele carregava uma grande quantia de cigarros consigo. Acho que cheguei a vê-los dentro de um maço curiosamente cilíndrico. O motorista alegou que o velho era seu pai, e disse que o deixaria em sua casa, que ficava pelo caminho, caso eu não me importasse. Eu não me importei.

Todavia, obviamente, logo ficou claro que alguma coisa estava errada.

O caminho não se parecia em nada com o que eu estava acostumado. Na verdade, eu nunca tinha visto nenhuma daquelas ruas, não conhecia aquelas casas, aquela paisagem. Experimentei um forte arrependimento por haver entrado naquele carro. Comecei a me perguntar por que fiz isso? Notei que o celular do motorista, visível, pendurado no painel, não estava com o GPS ativado, e pedi que ele inserisse o endereço do meu destino ali. Ele desconversou. A paisagem não era particularmente assustadora. De certo modo era até bonita: uns bairros bucólicos, arborizados. Montanhas cobertas de grama e um imenso corpo d’água que não entendi se era um lago ou mesmo o mar. Mesmo assim, eu estava cada vez mais desconfortável com a situação. Quando tentei abrir a porta do carro e a encontrei trancada, bateu o pavor.

Mas aí acordei.

(…)

No segundo eu ia passar por uma cirurgia no coração, aparentemente simples e rápida, sem maiores cortes, que me permitiria voltar para casa no mesmo dia. Eu aceitava tudo com muita facilidade e até alguma alegria (que estranho), mas, alguns momentos antes de começar a anestesia me ocorreu uma pergunta deveras importante: por que estou fazendo isso? Quer dizer, que problema estou buscando tratar com este procedimento? Resolvi questionar os médicos que, a exemplo do motorista mental do outro sonho, mergulharam fundo nas evasivas. Quando comecei a me desesperar e tentei levantar da cama, fui impedido.

E aí, novamente, acordei.

japan house

Confesso a seguinte ignorância aos amigos: não tenho a mais remota ideia do que seja a tal Japan House que abriu na Avenida Paulista há questão de alguns meses. Para manter a veracidade deste sentimento fumegando firme neste post, me omiti de visitar o site da instituição atrás de maiores informações. Tudo que eu sabia até então vinha dos depoimentos de amigos afirmando ser um lugar incrível, belíssimo e interessante. Nesta quinta-feira chuvosa e fria, aproveitando a presença de amigos do peito hospedados em meu lar, fomos conhecer o lugar e confirmar as impressões.

Possui, de fato, uma arquitetura e estrutura lindas, típicas de museu europeu. Tudo é muito branco, cheio de aço e madeira. O lugar é limpíssimo e silencioso, beirando o sacro. Instalações artísticas e exposições delicadas e minimalistas espalhadas pelos andares. Um bom restaurante (assinado pelo Jun Sakamoto), um gift shop com produtos japoneses impressionantes a preços impossíveis (entre os quais um braço robótico, garrafas de saquê de 2 mil reais e um conjunto de algo definido como “copo muito fino”, que supostamente causa a impressão de se estar segurando o líquido com as próprias mãos, embora pra mim eles pareçam mais grossos do que qualquer copo de cristal alemão disponível na cristaleira das vós mais tradicionais do sul do país) e um café honesto, ladeado por uma linda estante repleta de volumes japoneses ou sobre o Japão que podem ser consultados à vontade, embora não estejam à venda.

Todavia, o que realmente me deixou FLABBERGASTED, como dizem os bretões, foi o banheiro.

Não é mais preciso viajar até o Japão para ter a experiência complexa de cagar num daqueles vasos tecnológicos que a gente vê os artistas se impressionando nos filmes. Este do qual usufruí oferecia duas opções de jato de água (frontal e traseiro), com controle de intensidade e frequência (pulso ou constante). Já fiquei impressionado de cara com a MIRA do bagulho: me acertou em cheio no cu. Primeira coisa que me veio à cabeça foi o clássico do jungle Super sharp shooter, do DJ Zinc, que ouvi este fim-de-semana, no b2b do Marky e do Andy, perto das oito da manhã, após noite fortíssima envolvendo Dillinja e Bryan Gee.

Dei uma brincada com os controles e obtive imensa alegria anal. Quando julguei que já tinha tido o suficiente, apertei o botão de SECAGEM, o que promoveu uma sensação bastante curiosa nas entrefelfas do Didão. Parecia que o vaso havia sido tomado por uma porção gentil de água morna e turbulenta e, por cerca de um segundo, julguei ter feito alguma coisa errada (ou estar sentado desgraçadamente num vaso com defeito). Ao constatar, todavia, que meu saco não estava molhado, abri um sorriso satisfeito e deixei que o ar quente terminasse seu serviço em paz.

Pode até não ter sido a cagada da minha vida – muito longe disso -, mas que experiência cultural forte foi essa. Recomendo a todos que façam o mesmo.

Em tempo: se quiserem antes disso comer no Junji Sakamoto, que fica no mesmo piso, deixo o conselho de não pedirem o sushi. Não que seja ruim: pelo contrário. A questão é que é muito caro pra caralho. São 129 reais por 12 peças (embora tenha rolado um chorinho com 4 uramakis), e apenas 2 estavam realmente excepcionais. As outras peças (de peixes como beijupirá e olho de boi) estavam ok, na média dos bons restaurantes de sushi da cidade.

Bom mesmo são os pratos quentes. Não provei o tonkatsu karê, mas a merluza estava espetacular (periga ter sido o melhor peixe que já experimentei na vida) e o sukiyaki assoberbante. Embora não sejam exatamente baratos (entre 72-95 reais), compensam muito mais pelo volume e sabor dos alimentos. Se voltar algum dia, certamente optarei por um prato quente.

De todo modo, que boa experiência é a Japan House. Em visita à São Paulo, considere conhecê-la. Além de tudo é grátis.

marlon’s meals

Fui jantar uma vez – e almoçar duas – com o Marlon James em sua breve passagem por São Paulo.

Também o acompanhei numa peregrinação por lojas de discos atrás de reedições de clássicos obscuros da MPB (Ronnie Von, Tom Zé, Otto), mas isso não vem exatamente ao caso neste momento (todavia ele comprou um Azymuth, um Krig-ha Bandolo e dois Secos e Molhados, além de uns Tom Zé, uns Ronnie Von, e o primeiro do Mundo Livre S/A).

Nossos encontros alimentares se desenrolaram da seguinte forma:

JANTAR DE DOMINGO: Le Jazz da Melo Alves. Ainda não havia frequentado este espaço, e nele experimentei a estranheza de achá-lo exageradamente parecido – em absolutamente todos os sentidos – com o restaurante que há no endereço original, na Rua dos Pinheiros. Lamentavelmente, isso meio que quebrou a sua aura de bistrô charmosinho, substituindo-a por uma vibe violentíssima de Outback e McDonald’s. Dito isto, também se manteve constante a qualidade do bar e da cozinha: alta para o meu bico e para o meu bolso. Old Fashioned gostoso, boas beterrabas assadas com bom queijo de cabra, bom steak tartare com boas fritas. Bem ao lado desta unidade há uma segunda (quiçá terceira) unidade de um outro pico chamado Adega Santiago, que também me pareceu um pouco similar demais ao original quando olhei pra ele, de relance, antes de ir embora.

ALMOÇO DE GRÃ-FINO: Amadeus, protegido por um muro coberto de grama num cantinho estratégico ali nos Jardins. Supostamente é um dos melhores – senão o melhor – restaurante de frutos do mar da cidade. Chegamos faltando quinze minutos para a cozinha fechar e, para dar uma descomplicada geral na vida da rapaziada, fomos direto no menu executivo de almoço. Bastante excelente. O couvert existia em dois níveis: o primeiro, composto de pães, manteiga e azeite; em seguida, uma sequência de bocaditos: ceviche de peixe branco, salmão com creme de ervas, martelinho de caldo de legumes e um bolinho de bacalhau absolutamente inacreditável. Depois, salada de folhas com carpaccio de haddock defumado (todavia o garçom tentou meter que era anchova). Prato principal: massa fresca com lula, camarão e vôngole servida num prato de cerâmica em forma de chapéu de bruxa de cabeça pra baixo e com a ponta cortada. Chique pra caralho. E que sabor extremo, tudo. De sobremesa, pra arrebentar de vez: manjar de coco com calda de caju. Nas mesas vizinhas, eu via Joões Dórias: homens brancos de cabelo penteado e suéter sobre os ombros.

ALMOÇO MEIO PUBLICITÁRIO: Ici Brasserie dos Jardins. Também não conhecia. Jantei uma vez no Ici Bistrô, em Higienópolis, e lembro das ostras serem frescas, e não muito caras. Essa versão um pouco mais rápida nos Jardins não tinha ostras em seu cardápio, e servia quantidades nababescas de comida em seus menus executivos de almoço – o que pode ser uma reclamação ou elogio dependendo de que ângulo você examina a questão. Eu achei rango demais – mas também posso apenas ter ficado empapuçado pelas duas cervejas grossas que mamei durante a refeição (ambas excelentes, em versão ‘chops’). Sei que na salada de aspirações orientais com molho doce e picante, amendoim e broto já vinha tanto frango que quando chegou o steak frites (churros) eu já tava bem gordão. Mesmo assim, dei algum trabalho ao bife alto, vermelho e suculento. Mordi bem, o bicho. Masquei. Besuntei com a béarnaise que o acompanhou. Acabei nem comendo a sobremesa, no fim (mas lembro que era uma mousse de chocolate extrema que, confesso, está fazendo alguma falta às três e cinco da manhã dessa terça-feira).

reinaldo, de salto

Quando me mudei para São Paulo, cinco anos atrás, não aderi instantaneamente a uma linha local de telefone. Minha conta era, então, de R$ 63, e os planos mais suaves equivalentes na capital paulista naquela época me exigiam o dobro. Portanto: posterguei. Só adquiri número de celular com DDD 011 depois da Copa de 2014, se não estou enganado. Fui até procurar e tru dat: só o fiz no final de janeiro de 2015. Enfim.

O número novo tinha um passado, de forma que herdou alguns penduricalhos interessantes, como o fantasminha de uma ex-cliente da Vivo chamada Silvana. Recebo de 3 a 5 spams via SMS destinados a ela toda semana. Eventualmente alguém me liga oferecendo Nextel ou cobrando carnê da Casas Bahia, mas fica nisso.

Todavia o novo número também me trouxe o Seu Reinaldo.

Poucos dias após ativar o telefone, recebi a primeira ligação. Acho que devo ter sido bem seco, quem sabe até meio grosso, quando vi o DDD 012, ouvi o sotaque do interior (o erre de borracha do Nhô) e disse que aquele número não era do fulano (cujo nome agora me escapa). Ele ligou uma segunda vez, na sequência, e eu o frustrei novamente. Na terceira cogitei simplesmente não atender, mas fiz exatamente o contrário. Já tinha ficado muito evidente que era apenas um senhorzinho humilde num cafundó rural deste Brasilzão tentando entrar em contato com alguém. Devia ser alguém importante pra ele, já que estava ligando pela TERCEIRA vez para o número errado, apesar de ter sido informado disso desde a primeira. Resolvi ajudar.

Tivemos uma longa conversa. Tratava-se de um sujeito chamado Reinaldo, que habita a cidade de Salto/SP. Até que não é uma cidade tão pequena (130 mil habitantes). “Fica aqui na região de Itu”, ele sempre reforça. Estava tentando falar com o filho. Que não mora em São Paulo, mas sim em alguma outra cidade do interior paulistano – que eu também não lembro qual é. O lance inesperado é que o número do telefone do seu filho era exatamente igual ao meu – exceto pelo DDD. Que coisa.

Foi legal ter feito isso. Digo, ter tido a chance de fazê-lo. O cara podia simplesmente não ter mais ligado, ou descoberto de alguma outra forma como entrar em contato com o filho (não era nada grave, aliás). Lembro que depois de descobrir que o filho morava em outra cidade, procurar no Google o DDD equivalente a ela e ensinar pra ele como fazer a ligação, Reinaldo ficou transbordando de felicidade. O cara dava gargalhadas de alegria, estava mesmo muito grato que um completo estranho tivesse parado tudo que estava fazendo para ensinar um outro completo estranho a ligar para o seu filho. Ficou me agradecendo uns 2 minutos, me disse que quando eu estivesse pros lados de Salto era só falar com ele que, aquela coisa toda. Nos despedimos, desligamos, beleza.

Só que a história não termina assim.

It LINGERS.

Volta e meia, Reinaldo ainda se atrapalha e liga por engano. E, embora eu ainda não tenha me ligado de acrescentar o nome dele aos meus contatos, quando ele começa a rir depois que eu digo que é o André eu também já sei que é ele quem tá falando. Sempre trocamos uma ideiazinha. Agora ele já sabe o que fazer pra ligar pro filho dele, mas, mesmo assim ainda gasta uns segundinhos de conversa pra perguntar de mim e da minha família, dizer que com ele tá tudo bem, e reforçar o convite pra visitá-lo em Salto algum dia. Um desses anos aí, não sei qual foi, ele chegou a me ligar no Natal ou Ano Novo, também. Última vez que ele ligou faz uns três dias. Depois de falarmos por uns 3 minutos pensei o seguinte: nunca tinha feito um amigo por TELEFONE na vida. Que coisa inesgotável que é.