lisboa: ficha técnica

Ali pelo terceiro ou quarto dia em Portugal fiquei sabendo (e de uma maneira fortuita, lendo a minha timeline do Twitter) que naquelas terras a expressão “dar o peido mestre” significava “bater as botas”. A partir daquele instante me corroeu fundo a vontade de usá-la no mundo real. No dia seguinte, quando pagava as passagens do ônibus que nos levaria a Óbidos, deu um problema no sistema de cobrança e eu cheguei a ensaiar mentalmente umas três vezes dizer isso pro motorista-cobrador, mas, infelizmente, faltou coragem. Jamais o fiz.

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geografia: Lisboa se apresentou pra mim como uma cidade muito limpa, clara e tranquila. A tradicional folha outonal da Europa cobria o chão das ruas mais arborizadas, mas havia um nível muito baixo de lixo mesmo nos aglomerados de juventude. O destaque vai para a instituição lisboeta por excelência que é a LOMBA. Ficamos sabendo que a cidade foi construída em cima de sete colinas só quando já estávamos lá, verdade que se torna muito evidente toda vez que tu traça no Google Maps uma caminhada de 850 metros e se vê levando o triplo do tempo esperado por conta das subidas e descidas extremas, em sequências improváveis, ângulos impossíveis, e todas pavimentadas com aquelas pedrinhas altamente escorregadias (que bom que não choveu, por sinal). De todo modo: cidade linda, aprazível e saborosa. Dá muita vontade de voltar.

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clima: Contrariando minhas expectativas, fez sol e calor todos os dias, com picos de quase 30 e vales não muito abaixo dos 16. Frio mesmo só no Cabo da Roca, uma falésia formidável localizada no ponto mais ocidental do continente, onde uma ventorreia louca trazia um perfume de mar até lá em cima. Sempre viajei para a Europa entre setembro e outubro e, geralmente, isso significa um certo grau de frio (embora às vezes faça um calorzinho de leve também). Em Portugal ele não se apresentou. Um céu muito azul, um sol estalado que me provocou um senhor torrão (pescoço púrpura) em poucas horas andando desprevenido por Belém, um ar seco provocador incessante de tatu. Segundo o taxista que nos levou ao aeroporto ao final daquela semana, não chovia na cidade desde MAIO, o que considerei meio CASCA caso seja verdade.

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airbnb: Ficava na Rua da Caridade, num bairro pacato aparentemente chamado São José, não muito longe da estação Avenida do metrô, coisa de uns 15 minutos a pé da beira do Tejo ali na banda da Praça do Comércio. Vindo do nível do mar tinha que subir uma lomba média, uma escadaria de uns 50 degraus e mais outra lomba, maior e mais inclinada que a primeira, atingindo praticamente o cume do monte. Aí tu chegava num prédio, com cheiro de esgoto no corredor e três lances de escada estreita pra subir. Quando tu abria a porta, todavia: outro mundo. Era um duplex bem baixado, com dois quartos bem decentes (um deles com um pitoresco lavabo com janela pra rua, do qual seria totalmente possível cagar observando os vizinhos caso se quisesse) no piso por onde se entrava. Subindo uma escada meio íngreme chegava-se ao segundo andar, com uma enorme sala multifuncional, equipada com sofás e poltronas ultra-confortáveis, uma boa televisão repleta de canais (incluindo uma espécie de Globo do Passado, que reproduzia vários programas dos anos 80 e 90 misturados com a novela das oito atual com um delay de poucas semanas) e uma ótima mesa de jantar ladeada por cadeiras. Banheiro muito bom, com chuveiro quente fixo na parede e o tradicional secador de toalhas, que usamos, na verdade, para secar cuecas e calcinhas (além das toalhas). Cozinha funcional em excelente estado, máquina de lavar roupa (bom item para viagens de média e longa duração). Fechavam o combo duas mini varandinhas no fim da sala com uma mesa e uma cadeira, totalmente apertadinhas naquele espaço exíguo –  todavia muito afudê curtir sentadinho ali o dia indo embora, nuvem laranja, luz cor de rosa, céu azul cada vez mais escuro.

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anfitrião: Era uma mina chamada Alexandra, mas como tinha sido meu irmão o responsável pelas reservas, demos oi para a pessoa errada, eu e Sandrinha, ao chegar. Uma velhota parruda, abrutalhada, com expressão de poucos amigos, que estava lá numa manhã de sábado pra fazer uma faxina pegada. Eu também estaria meio assim. Em seguida já pintou a verdadeira Alexandra, uma portuga que falava rápido e muito e nos explicou muita coisa sobre a cidade em poucos minutos. Boa pessoa divertida, simpática e gente fina.

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internet: Quando chegamos, numa tarde de sábado,  sofremos o penal de estar sem TV ou internet. O motivo era uma obra que estava sendo feita para reforçar um muro que basicamente segurava uma considerável quantidade de terra no topo do morro, poucos metros acima. Alguém tinha rompido algum cabo, a operadora já estava trabalhando para resolver a situação, mas tudo parecia meio imprevisível àquela altura. No domingo, Alexandra deu um pulo lá em casa e largou um modem 4G ou algo assim pra quebrar um galho. No dia seguinte o problema se resolveu e regressou tanto o sinal da TV quanto o (excelente) sinal da internet.

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obra do local: Nós ainda não sabíamos naquela hora, mas o elemento que uniria todos os airbnbs em que ficaríamos ao longo dessa viagem seria o fato de sempre haver uma obra a um alcance menos de 20 metros dos nossos ouvidos. Em Lisboa era essa obra nesse muro que sustentava o topo do morro, onde havia umas betoneiras elaborando concreto e uns pedreiros portugueses gritando uns troços muito engraçados em português de Portugal. Não chegou a incomodar. Na real incomodou tão pouco que nem lembro se ficou rolando até o final da nossa estadia ou não.

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vizinhos: Era uma galera discreta, em geral. A gente quase não via e mal ouvia. Um dia, dentro do nosso prédio, uma mulher brigou com a filha, ameaçando chamar a polícia se ela não abrisse a porta. Todavia o conflito se desenvolveu de forma muito serena e tristonha, sobretudo para os padrões latinos aos que um brasileiro está acostumado, e acabou murchando se resolvendo sozinho. Ao descer e subir a escadaria entre uma lomba e outra, avistamos diversas velhotas extremas. Chegamos a interagir com algumas. Invariavelmente tinham idade muito avançada (turminha dos 80) e pareciam ter uns 20 a menos. Boa parte da explicação talvez esteja no fato de que, aos 80 anos, ainda estão subindo e descendo escadas todo santo dia. Ou talvez não. Nem sempre as coisas são o que parecem.

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ganja: Nos ofereceram muito haxixe e maconha na chamada Baixa, o centrão, supostamente o bairro mais turístico da cidade, basicamente um enorme calçadão de piso branco intercalando lojas e restaurantes que se estende até a Praça do Comércio. Literalmente a cada 10 segundos alguém se aproximava do Dido e do Nes falando “hash” ou “marijuana”, certamente nos tirando pra gringo por conta da nossa latinha branca e style muito avançado. A maioria tinha pinta de indiano. Tu olhava pra mão dos caras e tava sempre lá a bolinha preta que obviamente não era haxixe. E mesmo que fosse: não faz muito a minha cabeça. Eu gosto mesmo é da planta. Até teve uma noite que a gente passou por um maluco fumando um beck muito cheiroso, ele ofereceu pra gente, acho que até perigava ser quente, mas: ah. Pra quê? Tinha Amsterdam logo ali adiante. Deixa quieto, my youth.

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música: Um troço que eu sempre curto fazer quando viajo pra gringa é escutar os sons que eles estão curtindo e assistir as coisas que eles estão assistindo na TV. Nesse quesito Portugal trouxe uma grata surpresa, fundindo esses dois universos de uma maneira formidável no canal Trace Toca. Podemos resumi-lo como uma surra incessante de música afro-portuguesa, uma mistura louca de rap, trap e funk com kuduro e diversos outros beats e dialetos africanos muito brutais. Vinte e quatro horas ininterruptas dedicadas exclusivamente a videoclipes de artistas de Cabo Verde, Moçambique e Angola, além dos talentos oriundos de várias bocadas locais. Chegava lá na baia era só Elji Beatzkilla (meio o MC Guimê deles), Piruka, Dillaz, Costuleta, Agir e o hitmaker absurdo Plutônio, que contaminou minha mente por semanas com o r’n’b Tu não vales nada.

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supermercado: Se tenho um arrependimento na passagem por Portugal foi o subaproveitamento de suas redes de supermercado. Fomos poucas vezes, não fizemos nenhuma compra digna de nota – tanto que não consigo lembrar de nenhum pão, nenhum queijo, nenhum frio especial que tenha comido para dar algum destaque. Acho que só compramos mesmo café, uns sucos, chocolate e uma bolacha meio ruim que até ficou de brinde pro próximo hóspede. Em parte isso também aconteceu por conta do preço da comida em tascas, cervejarias (que é como eles chamam os restaurantes), botecos e lanchonetes. Comer fora em Lisboa é muito barato, em geral muito bom e, sabendo procurar, muito farto. Aí o cara se anima.

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transporte público: Bem bom o esquema deles: tu compra uns cartões de papel verde chamado VIVA VIAGEM, carrega eles com uma quantia em dinheiro e vai gastando conforme usa nas diversas linhas e meios de transporte. Usamos em metrô e trem, mas acho que também vale pra bus e algumas balsas, se bobear. O metrô é simples, não vai muito longe, tem poucas linhas e não muitas estações. Na hora do rush pode ficar meio cheio pra caralho e complicado (bem como o trânsito), mas na maior parte do tempo é bem sweet. Pegamos trem duas vezes, uma para Belém (um bairro afastado do centro), outra para Sintra (uma cidade próxima de Lisboa). Em Sintra foi muito barbada, em Belém o cara fica um pouco mais longe das atrações e meio perdido numa primeira vez, mas também rola. Problema maior é carregar o cartão nas malditas máquinas de auto-atendimento: se o maluco não tem dinheiro em moeda nem cartão europeu, aí tem que encarar fila de guichê, o que nem sempre é tranquilo. Eu mesmo morri nuns 40 minutos nessa brincadeira um dia.

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táxi/uber: Não pegamos Uber em Lisboa. Os táxis eram muito abundantes e baratos, e os motoras em geral eram gente finíssima. Dois deles vieram dando lições de história (falando sobre monumentos e personagens), outros dois deram reais sobre Lisboa e Portugal nos dias de hoje (ótima cidade segura e moderna, ótimas perspectivas com o aumento do turismo, todavia gentrificação de bairros tradicionais). Só um dia a gente tava atrasadaço prum fado, tentado pegar táxi há 15 minutos sem sucesso, começamos a caminhar meio no desespero na direção do nosso destino e acabamos entrando no carro desse tiozão totalmente fora de controle, que dirigiu a milhão pelo meio daquelas vielas escorregadias, buzinando e xingando muito todo mundo pelo caminho porque queria se livrar logo pra assistir um jogo do Benfica na Champions. O bom foi que a gente chegou lá uns 5 minutos antes do começo do show (o que parecia totalmente impossível) e, na pressa, o malucão acabou nos cobrando só 3 euros (a corrida tinha dado 4 no taxímetro).

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trago: Ceva não é muito o forte dos tuga. O que o cara encontrava sempre lá era a Sagres – a lager de briga deles – e a Super Bock – que além de não ser bock não é lá muito diferente da Sagres. Garrafa ou chopp: não fazia muita diferença. Cevinha padrão, amarelita, leve, meio docinha, gostosa de beber. Teve um dia num pico muito bom (chamado Taberna Anti-Dantas) que a gente tomou uma artesanal chamada Born in the IPA, produzida pela cervejaria local Musa. Essa sim: bem boa, dando chinelada na boca da cachorrada sem limites. Teve também uma escura (não lembro se Super Bock, Sagres ou até Estella Galicia – já que era bar de tapas espanhol) que a Sandrinha pediu um dia que era bem delícia. Na noite do fado mamamos um vinhozinho verde (chamava Alvarinho, da Deu la Deu), na Taberna Anti-Dantas foi um vinho do porto, no restaurante russo duas vodkas ucranianas (e uma ceva rusky chamada Baltika) e em Óbidos metemo uma ginjinha no melão. E era isso.

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rangos: Portugal é sacanagem. Os caras tem arroz de lampreia (que é tipo um peixe-cobra com uma boca extremamente sinistra), percebes (um marisco) e toucinho do céu (um doce de amêndoa). Não comi nenhum dos três. Mas comi coisa boa pra caralho em Portugal. A mais portuguesa de todas foi num restaurante pitorescamente batizado de Caseiro, em Belém: açorda de camarão. Pelo que li a receita (oriunda do Alentejo) varia muito, mas basicamente é uma sopa que vai sendo engrossada com pão e vira meio que um mingauzão de sabores. No meu caso era apimentado e atolado de coentro, muito espetacular. Outro destaque foi o restaurante Incomum, em Sintra, onde comi o melhor e mais farto polvo da minha vida, com espinafre e uns nacos de abóbora castigados na brasa fatais. A melhor tasca só abria à noite e chamava-se Taberna Anti-Dantas. Lá comemos bolinhos de bacalhau fora de série, uma salada de agrião e figos estalando e um atum selado muito brutal. Também cantamos “New York, New York” e “Garota de Ipanema” com o restaurante inteiro (umas 4 mesas, no máximo 20 pessoas) por causa de um quarteto de irlandeses que chegou em chamas (e se recusou a acreditar que eu era brasileiro). Ainda no quesito frutos do mar – pelo qual a culinária do país é famosa – comi um arroz de polvo, um bacalhau às natas e outro com legumes e camarões que estavam apenas ok; uma dourada muito saborosa num lugar chamado O Chiado e bolinhos de bacalhau (que eles chamam de pastéis) bem gostosos em todos os lugares. Da culinária local que eu tive acesso, me arrependo um pouco de não ter provado um tal “bife de peru”, que parecia um schnitzel, um bife à milanesa, e aparecia no menu e no balcão de várias tascas pelas quais passamos. No mais, aproveitamos a gastronomia internacional de Lisboa comendo queijos e frios espanhóis num lugar de tapas muito bom (embora meio fancy e jovem) chamado Rubro, croquetes de queijo de cabra e chouriço extremos num pub igualmente espanhol chamado Taberna Ibérica, peito de pato ao molho de amora (utka chekov) no russo Stanislav e um ótimo gua bao (sanduichinho de pão chiclé chinês) de barriga de porco no asiático Boa Bao. Ainda deu tempo de meter dois burgers, um na chegada, outro na saída. O da entrada chamava Gutsy, era um lugar todo modernoso e meio asséptico, mas barato e bem servido (embora não particularmente delicioso). O da saída botava mais banca já no nome: Cultura do Hambúrguer. De fato, superior ao Gutsy, embora o grande destaque tenha sido o PREGO (que é como eles chamam um tipo de sanduíche) da Sandrinha, e não os burgers que comemos (que estavam bons, mas nada de espetacular). Por fim, um destaque inusitado: a conserva de NABO que acompanhava o pote de azeitonas que nos serviram no Mascote da Atalaia, tasquinha escura onde assistimos um excelente show de fado. Das melhores coisas que já comi na vida. Voltaria lá só para comer de novo.

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doces: Por incrível que pareça, apesar da imensa variedade, fama e popularidade da doçaria portuguesa, comemos pouco doce em Portugal. Pastéis de nata e de Belém, check. Os dois são rigorosamente o mesmo doce, mas Pastéis de Belém, para os portugueses, só podem ser chamados dessa forma se forem comprados no bairro que leva o mesmo nome. Tanto estes quanto outros, comprados em vários outros bairros, possuem a seguinte característica em comum: o mesmo sabor excelente. Fomos até Sintra e pedimos o doce local, chamado travesseiro, no famoso café que os prepara e serve, mas: havia acabado de acabar. Sobremesa mesmo comemos só no Stanislav (um troço delicioso chamado shapka gugutse, panquecas de frutas vermelhas cobertas com chantili e temperadas com chocolate) e no Anti-Dantas (uns copinhos de chocolate cheios de vinho do porto – mais tarde descobriríamos que essa é a maneira folclórica de consumir a notória ginjinha, mas enfim). Merece menção honrosa um troço chamado Rebuçados Peitorais do Dr. Bayard, que são umas balinhas de mel contendo algum extrato vegetal, supostamente medicinais. Comemos como se fosse um Hall’s (embora não fosse refrescante como Hall’s e tivesse, na verdade, o sabor da bala de velho – bastante condizente com a propaganda e apresentação visual, o que me deixou muito satisfeito).

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tourist trap: Uma noite já eram quase dez, tudo tava começando a fechar, nós ficamos meio perdidos dando volta na Baixa depois de voltar de Óbidos e acabamos sentando num restaurante totalmente cagado, com potencial tremendo de nos enfiar a faca na alma por dinheiro – que foi mais ou menos o que aconteceu. Cardápio plastificado com foto da comida é sempre furada. Os caras eram uns indianos que não falavam nem português nem inglês direito. O chefão ficava pressionando os garçons pra eles nos empurrarem mais coisas, mas a gente é brasileiro e sabe dizer não pra gringo malandro, de modo que tomou apenas duas cevas (cada um dos Czarnobrothers), um suco (Sandrinha) e comeu três porções de bolinho de bacalhau (aka ‘pastel de bacalhau’). A conta foi uns 50 euros – cara pra caralho, mas a comida não chegou a ser horrível. Fiquei com pena mesmo foi dos dois casais de gringos extremos english speakers que sentaram lá (e pediram o prato máximo, com camarão, peixe, costeleta de porco, batata frita, linguiça, a porra toda) e principalmente do malucão que chegou com duas putas, baixou champanhe e uísque e uns SEIS pratos bombados. Esse deve ter chorado. Vá gostar de buceta assim lá em Lisboa.

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programas turísticos: Após enfrentar uma fila tremenda para recarregar nossos cartões VIVA VIAGEM, fomos até Belém de trem sem maiores problemas, exceto pelo fato da estação ficar meio distante de tudo que há de interessante no bairro (quase 2 km da torre, por exemplo). A primeira atração é o Mosteiro dos Jerônimos que, todavia, sofria reforma, de modo que parte importante de sua bela fachada estava coberta por um tecidão enorme com uma foto em tamanho real representando como o lugar ficaria debaixo daquele pano. Há um jardim muito bonito logo à frente, com fontes e estátuas boas pra se tirar retratos com forte carga dramática. Atravessando a rua e dando uma pernada considerável vemos o gigantesco Padrão dos Descobrimentos, um monumento realmente enorme e impressionante, retratando um monte de malandro barbudo tudo subido numa rampinha olhando prum pedaço do rio que desemboca no mar. É bem bonito. Olhando pra esquerda tu ainda vê a tal Ponte 25 de Abril, que é uma réplica da Golden Gate Bridge, de San Francisco. Achei meio sem sentido, mas ok. Dali é possível partir em caminhada semi heroica pela beira do rio até a icônica Torre de Belém – e uso aqui este predicado por haver percorrido os 900 e poucos metros debaixo de um sol retinto das três da tarde que me deixou com um senhor torrão (por sorte não ardeu muito e nem produziu insolação, mas pelo resto da viagem exibi um pescoço morenaço). Não vi vantagem em ficar horas fritando no sol na fila para subir escada medieval dentro da torre, mas é um bagulho bem bonito de ficar olhando. Sentamos num banco e fizemos exatamente isso. Depois chegamos mais perto, na beira do mar, aspirando aquele ar salgado, pra curtir a vista e tirar umas fotos. Na sombra tava até meio frio. Gostoso.

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Um dia fomos ao Castelo de São Jorge. Sabiamente, pegamos um táxi. Foi barato e conveniente: são lombas muito pegadas até lá em cima, numa inclinação muito extrema, tudo feito daquela pedrinha sabonetosa e escorregadia. A pé deve ser a morte. Tem umas partes que o carro embica tanto que parece que ele está escalando o morro. O castelo em si é bem massa, em ótimo estado de conservação e com uma farta área de sombra produzida pelas árvores para acalmar a pele do cidadão. Logo que tu entra, debaixo desse toldinho de folha, já dá de cara com um mirante fudido, com uma vista nada menos que espetacular da cidade. Também dá pra subir umas escadas pra ter uma visão um pouco mais do alto e caminhar pelos muros originais do bicho, tudo muito insalubre, sem corrimão nem qualquer outro tipo de proteção. Imagino que seja raro que aconteça, mas se o cara escorrega pro lado errado ali em cima certamente dá merda. Mas esse dia ninguém escorregou. Tem restaurante, lanchonete e uns quiosques vendendo água, vinho e sorvete, e tem uns pavão meio solto no meio dos pombos disputando farelo de Cheetos e naco de pão (o que achei meio deprê). Mas só pela vista já vale a visita. Sair do Castelo e descer se perdendo pelas ruazinhas do bairro também é massa. Os restaurantes da região, na média, são excessivamente turísticos: caros e malandrinhos (cobrando dissimuladamente altos preços por itens como azeitonas ou queijo Serra da Estrela), mas nem por isso desprezíveis (quer dizer, pelo menos tem queijo Serra da Estrela).

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Outra coisa fortemente turística que fizemos foi: assistir a uma apresentação de fado. Passamos uns dias pesquisando e descobrimos que existem duas opções possíveis: a) o fado tradicional, semi-caricato para inglês ver; b) o fado vadio. O semi-caricato, com aquela figura inconfundível da tiazona portuguesa de vestido escuro e um Nuno aleatório qualquer de terno, bigode e gel no cabelo moendo uma viola até não seria um grande problema não fosse o preço, na casa dos 30 euros por pessoa (com jantar e bebida inclusa). No vadio gastamos pouco mais que isso numa conta para três, comendo azeitonas, bolinhos de bacalhau e bebendo vinho. Fado vadio é como eles chamam quando rola um microfone aberto no pico. Uma banda de músicos profissionais toca 3 ou 4 músicas e daí qualquer um da plateia pode se oferecer pra cantar ou tocar algumas também. É mais autêntico, mais cru. Acabamos indo a esse lugar chamado Mascote da Atalaia, no Bairro Alto. Absolutamente pequeno. Algo como trinta pessoas sentadas – a maioria em mesas compartilhadas para seis pessoas. Como fomos os primeiros a chegar, ficamos na única mesa para quatro, a mais próxima dos músicos. Eu estava sentado exatamente ao lado da porta do banheiro. Quando o show começou, meteram uma cadeira ali interditando os esfíncteres da rapaziada e botaram um magrinho de cabelo molinha pra tocar guitarra portuguesa (tem fortes vibes de alaúde) bem do meu lado, cotovelo às vezes futucando o meu. Foi experiência bastante possante em termos estéticos e emocionais. Os músicos – além do magrinho molinha, uma mulher de cabelo preso e um tiozão retaco de barba cerrada – eram bons pra caralho. Primeiro cantou uma mina baixotinha de uns vinte e poucos anos, de tênis, camiseta e rabo de cavalo, e essa nanica arrebentou tudo. Confesso que pensei que esse lance de show de fado seria uma presepada do caralho, mas acabou sendo muito, muito bonito. A voz dessa mina era um troço absurdo, e como ela cantou ali, no chão, a pouco mais de 1 metro de distância, ficando na ponta dos pés e se apoiando na nossa mesa quando rolava uns ápices: deu pra sentir muito mais. Impactante mesmo. Emocionante pra caralho, o cara fica até com vontade de chorar de tanta tristeza que essa música contém. Que loucura. Depois dessa mina cantou um véio meio magro, suadão e bronzeado, com o cabelo encaracolado, compridinho e branco. Era bom esse véio também, todavia achei mais engraçado do que triste. De toda forma, compensou demais esse esquema. Recomendo.

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Praticamos, ainda, a viagenzinha curta nesses dias em Lisboa. A primeira foi pra Sintra, pegando um trem que, em vinte minutos, te larga na boca da city. Uma vez lá compramos passagens de 24h praquele ônibus turístico vermelho que os gringos chamam de hop on hop off. Acabou sendo uma mão na roda porque nos poupou muita subida extrema, nos desovando igualmente na boca do tal Palácio da Pena, um bagulho altamente surreal e inacreditável. É uma porra dum castelo enorme com umas torres pintadas de azul, outras de vermelho, uns pedaços de amarelo, sentado no topo dum morrão maravilhoso, cercado de um mato esperto às suas voltas e dotado de uma vista nada menos que maravilhosa. Além de curtir o panorama humilhante do mundo que se tem lá de cima, ainda dá pra explorar os corredores e diversos aposentos ricamente mobiliados e decorados do lugar que, sabe-se lá como, tinha até uma sala de telefone (pra quem esse pessoal ligava? quem ligava pra lá?). É um negócio realmente fustigante. Já que estávamos por lá mesmo, aproveitamos pra dar uma banda mais caprichada nesse mesmo hop on hop off que nos levou até o Cabo da Roca, um passeio que nos permitiu conhecer um pouco das cidades pequenas do interior do país e também algumas praias. Nunca vou me esquecer do dia acabando no ponto mais ocidental do continente: o vento frio, o cheiro do mar, as ondas metralhando as pedras lá em baixo, a copa das árvores balançando lá em cima, o amarelo das folhas avermelhado por aquela última luz do crepúsculo. Parecia que tava tudo pegando fogo.

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Andamos por Óbidos uns dias depois. Dava pra chegar de trem, mas a estação ficava supostamente longe da cidade. Ir de ônibus envolvia uma certa mão em deslocamentos de metrô por dentro Lisboa e algum labirintismo atrás da parada correta na estação Mato Grosso, mas o bus tinha a vantagem de nos largar na cara do gol. Se não me engano esse bus ia pra Caldas da Rainha e o cara tinha que descer no meio do caminho, mas era barbada fazer isso (na pior das hipóteses era só seguir os outros turistas, mas é bem fácil de perceber onde tu está chegando quando vê os muros de pedra medieval). A cidade em si é meio igual a Paraty, no Rio de Janeiro, então não me comoveu profundamente. Valeu mesmo pela ginjinha (o licor da ginja, fruta local similar à cereja) e pelo vinho do porto branco Offley – cujas garrafas comprei nesta visita e transportei por mais de 20 dias, 5 aeroportos e países dentro de uma mala, tendo chegado ao seu destino: intactas. Um salve para todas as companhias aéreas e ferroviárias que tornaram isso possível. Óbidos quase virou óbitos quando inventei de subir nos muros da cidade. À primeira vista parece uma excelente ideia dar a volta na cidade a vários metros de altura, observando o casario e a paisagem lá embaixo. Na prática, todavia, o sonho foi brutalmente mastigado pelos dentes duros da realidade. O que acontece é que, assim como no Castelo de São Jorge, não há nenhuma proteção para quem se aventura nessa brincadeira. Num dos lados temos efetivamente o muro do castelo, que dá para um precipício de uns 100 metros de altura – mas pelo menos te oferece uma tremenda proteção contra este tombo. Do outro lado não tem nada. Claro que aqui o tombo é bem menor, podendo ser de uns 5 metros se o cara der a sorte de cair no telhado de uma casa; mas tem uns trechos que é uma queda livre de mais de 30 metros. Até aí, ok, vá lá: tá na conta da habilidade do caminhante. O problema é que tu tem um espaço de um metro pra caminhar e na contramão tá sempre vindo um casal de velhos de bengala, uma família de gordão americano, todo mundo se jogando pros lados e precisando se apoiar em alguma coisa pra não cair. E aí tu, garotão juvenil, saudável, brioso, pra fazer a parceria pros gordo e pros véio o que que tu faz? Tu deixa eles se escorarem no muro e fica de costas pro vazio, torcendo pra que eles não se pendurem em ti caso alguma coisa dê errado. O pior é que uns desses veios eram muito filha da puta e passavam dizendo coisas do tipo “você é muito jovem, a vida vale a pena, não se atire daí” em tom de brincadeirinha desgraçada quando a gente dava o lado pra eles. Aguentei uns 200 metros assim (o percurso completo tem, salvo engano, uns 2 km) e pedi arrego quando um véio EFETIVAMENTE resvalou numa pedra lá e eu meio que me grudei nele antes dele se grudar em mim. Naquela hora pensei que tava tudo errado, que se alguém merecia ser poupado de morrer escorregando de forma estúpida dos muros de Óbidos era um alemão de 80 anos, não um filho da Medianeira de 38, mas achei melhor simplesmente desistir e descer. Afinal de contas, pensei, aquela porra não foi projetada pra ter um fluxo constante de gente nas duas direções. Certo que uma hora vai dar merda (se é que já não deu, acho impossível que não tenha dado). Pior de tudo foi que quando decidi voltar, eu mesmo sofri um breve escorregão, joguei o peso do corpo pro lado errado e tive que usar todo o conhecimento, flexibilidade e tônus adquirido em anos de pilates sério e caprichado pra me puxar de volta, recobrar o equilíbrio e evitar uma morte extremamente ridícula logo no começo da viagem. Ou seja, legal Óbidos e tudo, mas não recomendo subir no muro (e nem ir até lá se tu já foi a Paraty).

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maloqueiragem: Andávamos por uma ruelinha solitária depois do almoço em Óbidos quando reparei que as paredes obscenamente brancas das casas estavam repletas de nomes azulados escritos nelas. Comentei em tom de semi troça que “bah, se eu tivesse trazido uma caneta certamente ia meter uma tag aí”, e Sandrinha prontamente produziu uma sharpie preta, com a qual todos assinamos nossos nomes no patrimônio histórico português. Só quando estávamos indo embora vimos a placa que pedia aos turistas que não fizessem aquela chinelagem em sua cidade, mas aí já era tarde demais.

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dificuldades de língua: Baixíssima, afinal de contas, o país todo fala português (e, cada vez mais, inglês, a julgar pelo grande número de vezes que fomos interpelados nesta língua graças à tonalidade de nossas faces, peles e cabelos). Dito isto, todavia, apesar dos caras falarem e escreverem em português por lá, o uso da língua é bastante diferente. Há muitas palavras novas e construções estranhas nas placas, avisos e cardápios e se algum maluco destrambelha a falar muito rápido não dá pra entender quase nada. Mas claro que rapidinho o cara aprende as novidades, se acostuma às nuances e quando vê tá achando suave e macio tomar um comboio pra comer uma sapateira numa tasca muito engraçada perto do Rossio.

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odores: Perfumes pouco pronunciados em Lisboa, mesmo com a cidade extremamente seca. Talvez o mais marcante seja mesmo o cheiro dos peixes, moluscos e mariscos cozinhando com cebola e azeite escapando pelas janelas e portas das cozinhas espalhadas pela cidade. Teve o olor salgado do mar trazido pelo vento no Cabo da Roca, evidente, mas fora isso aromas neutros, pouco memoráveis, por todas as cidades que passamos.

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segurança: Vários nativos se orgulhavam em afirmar repetidas vezes que Portugal era o país mais seguro da Europa, o que pareceu ser, de fato, o caso. Andamos pra cima e pra baixo, dia e noite, e mal vimos pedintes e moradores de rua. Havia alguma presença policial e militar, mas era muito discreta em comparação aos demais destinos. Não lembro de nenhum golpe que tenham tentado nos aplicar, exceto os tradicionais africanos que amarram uma fitinha colorida no teu pulso e depois exigem 10 ou 20 euros que, todavia, ao descobrir que éramos brasileiros (e não deixávamos que pegassem nossos pulsos) sempre riam, faziam elogios genéricos e logo nos abandonavam, concentrando seus esforços em algum outro turista mais endinheirado, moscão e inocente.

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volume de turistas: Bastante modesto em Lisboa, chegando a moderado nos monumentos, cidades turísticas e algumas estações de transporte público. Os próprios portugueses reconhecem que seu país sempre foi destino pouco requisitado, mas que ganhou força nos últimos anos por conta do medo de atentados terroristas nos destinos mais populares (França, Itália, Inglaterra, Alemanha e Espanha). Mesmo assim, cidade tranquila, Lisboa. Muito frequentável.

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aeroporto: Confuso e lotado, sobretudo no setor de imigração, mas não especialmente ruim.

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presença ilustre: Num dos primeiros dias da viagem, caminhando pelo calçadão da Baixa, Sandrinha alegou ter avistado John Malkovich. Imediatamente duvidamos dela. Alguns dias depois, contudo, ficamos sabendo que o ator havia, de fato, comprado uma casa em Lisboa há pouco tempo, e que, aparentemente, estava na cidade naquele mesmo período, o que fez com que seu relato ganhasse força e verossimilhança. O que é certo, todavia, é que em nossa última noite avistamos o ator Thiago Lacerda emergindo da estação de metrô Restauradores, todo gordão e empolgado, berrando para o amigo que o acompanhava “cara, eu vou te levar pra comer o melhor bife de Lisboa” e apontando, segundo meu irmão, para a Cervejaria Pinóquio, que, saberíamos mais tarde, trata-se do restaurante preferido do Zeca Pagodinho na cidade. Fui pesquisar e descobri que o lugar, apesar de ser especializado em frutos do mar, possui, realmente, um filé famoso em sua ementa (que é como eles chamam o cardápio). Quem poderia imaginar? O gordão do Thiago Lacerda, é claro.