OSA: um saboroso aperitivo

Olá, amigos.

Long time no see.

Volto a este espaço com uma motivação muito específica: compartilhar com o mundo um capítulo do meu romance humorístico proibidão, O Sensual Adulto, que sofre uma campanha de financiamento coletivo no Catarse neste exato momento. A ideia é atiçar a curiosidade do leitor para que colabore com esta empreitada egocêntrica e maluca.

Portanto, se você gostar do que ler nas próximas linhas e quiser conhecer essa história por inteiro, por favor, acesse catarse.me/osa até o dia 25 de dezembro de 2018, escolha a recompensa que preferir e colabore com o valor que considerar mais adequado.

Mas atenção: tanto o tempo quanto o número de exemplares é extremamente limitado. Não marque bobeira: adquira já o seu. O bom e velho Didão agradece.

Dito isto, sente-se em algum lugar confortável, estique as pernas, relaxe o pescoço e aprecie um trecho de O Sensual Adulto:

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A brutalidade do calor ferve o cara pra fora do sono, fazendo com que ele adentre por alguns instantes um estado intermediário de consciência conhecido como hipnopompia. Há quem defenda que existam diferenças entre este estado e o seu oposto, a hipnagogia. Há quem diga que são exatamente iguais. Os fenômenos vivenciados em ambos certamente são parecidos. Entrando no ou saindo do estado de sono, é comum que uma pessoa experimente lentidão nos movimentos, confusão generalizada e alguns tipos de alucinações muito específicas, como os sonhos lúcidos, as experiências fora do corpo e a paralisia do sono.

Nada disso, todavia, acomete o cara.

Para ele, o despertar nessa manhã é como se a porta de um enorme forno tivesse sido aberta, e o calor que dele escapa estivesse cozinhando suas costas, seus olhos, seus gargomilhos desprotegidos, enroscados em todo tipo de cabelo íntimo e grudados à parte interna de uma de suas coxas. Sentindo a garganta mais seca que o deserto de Gobi e movendo a pélvis com carinho para aliviar o peso sobre o saco, ele sabe que todas essas sensações não apenas são reais como ainda vão durar o dia inteiro.

O cara estranha o ventilador de teto parado, mas, ao encontrar o visor do rádio relógio apagado, entende tudo e sente mansamente o abraço. Sentado na cama, ainda meio atordoado, ele também sabe que dormiu demais. Plugado à tomada, o celular tenta inutilmente obter energia para sua carga. O alarme (setado para as 12h18) não tocou. Sem referenciais ao alcance, ele nem imagina que horas são. O calor cruel do verão não conhece o perdão, e portanto também não é um indicativo confiável de tempo. Podem ser 9h, podem ser 10h, podem ser até 12h18 em ponto — todavia o cara sabe que é muito mais provável que seja algo entre 13h e 14h, não muito mais que 15h.

Meio que desempenhando o papel triste de quem se imagina protagonizando o filme de sua vida, o cara levanta coçando os guimba e mexe no interruptor algumas vezes, resmungando qualquer coisa como se houvesse na plateia uma gata quente pronta para rir do seu charminho. Ao entrar no banheiro, o movimento de ligar a luz é mais hábito que cálculo. No instante seguinte, todavia, o cara se torna consciente da ação e imediatamente a dramatiza, dando uma risadinha de um terço de boca e olhando para a “câmera” por cima do ombro.

Devidamente higienizado, ainda pingando muita água gelada da barba e sentado num pufe esmagado no meio da sala, o cara examina suas opções. Sem internet, sem computador, sem TV, sem videogame, sem celular, sem saber que horas são. Só lhe resta se entregar aos afazeres domésticos. Uma rápida consulta à pia revela que há trabalho suficiente para mantê-lo ocupado por um bom tempo. Enquanto se aproxima da pilha de pratos, copos, talheres e panelas, o cara pondera sobre a espiritualidade contida no ato de lavar a louça. Uma atividade mundana, mecânica e repetitiva é a válvula de escape perfeita para sua mente criativa, sempre perdida em elucubrações estéticas, abstratas e aleatórias. O intervalo de que o cérebro precisa para processar as informações e resolver os problemas que lhe foram apresentados. A hora do insight.

Secando as mãos no pano de prato, o cara antecipa a felicidade que sentirá ao abrir a geladeira. Todos aqueles ingredientes frescos e maravilhosos esperando apenas pela sua intervenção inspirada para se converterem numa saborosa refeição. Porém, ao abrir a porta do eletrodoméstico, o fracasso se manifesta. Não há batatas, tomates, alho ou cebola. Nada de ovos. Nenhum tipo de carne. Nem uma qualidade de peixe ou fruto do mar (há quem os considere: salada). Só um naco ridículo de queijo brie e algumas endívias queimadas de frio — que, por sinal, não vai ser renovado enquanto a energia não for restabelecida, lembra o cara. E fecha a porta com força, já pensando em dar aquela passadinha estratégica no super.

(…)

Em oito ou nove minutos ele ainda não havia vencido o quilômetro e meio e chegado ao super, então um leve movimento de cabeça à esquerda o informou sobre a presença do restaurante Chinês Fusion de sua preferência. O Chinês Fusion de sua preferência vende pratos hediondos como o “yakisopa” (featuring salsicha de ebola fervida na água de hepatite) e o “rolinho inverno” (massa frita recheada com sorvete horrível). Mesmo sendo em geral extremamente ruim, o cara costumava frequentar o Chinês Fusion de sua preferência pelo menos duas vezes por semana. Ia sempre sozinho, sentava na mesma mesa e fazia o mesmo pedido: yakisopa de salsicha de main course e rolinho inverno de sobremesa. Depois do almoço, realizava caminhada afetiva por vielas infectas até a Confeitaria Dramática, onde pedia duas unidades de Salgado Abrupto (contornos similares aos de um joelho) que comeria mais tarde, na segurança e sigilo de seu lar.

Perguntado, o cara jamais admitirá que cumpre essa rotina. Também jamais levará ninguém ao Chinês Fusion de sua preferência. Tampouco indicará Salgado Abrupto da Confeitaria Dramática. Tudo é parte de sua Vida Secreta, esse pequeno — porém importante — espaço de tempo em que ele existe alheio ao resto do universo, sem dar satisfações a ninguém. Só o ato de mencionar essa rotina a outra pessoa já seria o suficiente para macular o sagrado presente na Vida Secreta – que então automaticamente deixaria de ser secreta. Sentindo todo o peso da tradição, o cara até tenta resistir, dizendo pra si mesmo incontáveis vezes “de novo não” e perguntando “será” até finalmente cruzar a porta, dizer alô pro chinês engordurado do caixa e sentar na única mesa pra um no fundo do salão (sempre vazia) para pedir um yakisopa enquanto olha pela janela e reflete sobre a vida.

Hoje, por exemplo, o cara lembra de um curioso mantra dos seus tempos de assalariado. “É muito estranho alguém que almoça sempre sozinho. Tem que suspeitar.” Era o que os colegas que almoçavam em bandos diziam sobre os que almoçavam sozinhos. E o pior é que o cara comprava esse papinho. Imerso no ambiente corporativo é difícil não se deixar contaminar por esse tipo de coisa. É como uma cepa de gripe flutuando na tubulação de ar condicionado, o farelo do eczema despencando das unhas do estagiário que usou o mesmo teclado no turno anterior.

Quando você finalmente sai da empresa e começa a almoçar sozinho todos os dias, você acaba se deparando com a verdade. Como é bom comer em paz, quieto e unitário, sem ninguém pra interagir. Só assim é possível apreciar verdadeiramente a comida, prestando atenção nos cheiros, nas texturas e nos sabores dos ingredientes. Só assim é possível fruir a refeição — algo muito mais importante do que a gente costuma pensar. Sem contar que entre uma mordida e outra a mente divaga, e sempre rolam uns insights furiosos.

Como por exemplo: em qualquer ponto de sua vida, sobretudo na faixa dos vinte-e-vários ou trinta-e-poucos (e dali em diante), é bem comum que você esteja frustrado, cansado e decepcionado de ser quem é. A maioria das pessoas não pensaria duas vezes se tivesse a oportunidade de trocar seu velho eu por um eu totalmente novo. Mas quantas pessoas sabem exatamente quem são? Quanto desse “velho eu” do qual você está tão disposto a desistir você realmente conhece? Outra coisa na qual o cara pensa é na faixa que consegue ver da sua mesa, pendurada na frente de uma pensão que fica do outro lado da rua. “Aluga-se quarto para moça ou rapaz.” Qual o critério de exclusão? Por que não apenas “Aluga-se quarto”? Será que não pode velho? Isso não é crime?

Ao concluir a refeição e tentar passar o cartão em vias de quitar sua conta, o cara é novamente confrontado com uma realidade que o sol forte havia conseguido ofuscar: ainda estamos sem luz. Na vitrine da Confeitaria Dramática, mais tristeza: Salgado Abrupto em falta. Nas centenas de metros restantes, o trânsito vive seu caos particular amplificado pela ausência de sinais luminosos. Os motoristas, mais tensos que o normal, gritam e buzinam além do esperado. O cara sente um orgulho meio bobo de poder fazer tudo a pé e dá uma risada sincera e gostosa. Uma velha meio louca pilotando um sedã verde-escuro fica puta, acha que é com ela e quer puxar briga. Surpreso, o cara se esquiva, pede desculpas e aperta o passo pra entrar no super.

Brigando pra soltar um carrinho das entranhas de outro, eis que o cara encontra seu colega israelita em situação de compras. Resmungando sozinho e de carranca fechada, Shalom Israel dá um puxão brusco e finalmente separa os dois carrinhos, provocando um tremendo estardalhaço. Seu olhar cruza com o do cara, que o saúda:

“Mestre!”

Sem desmanchar a carranca, Shalom Israel devolve:

“Não me chama de mestre se você não vai me seguir.”

O cara fica tenso por um instante, então Shalom Israel irrompe em gargalhadas. Era divertido, Shalom Israel. Gostava de fazer amizades e praticar a “brincadeira”. Os dois se cumprimentam com semiabraço meio de lado guarnecido por tapinhas nas costas.

“Nunca te vejo por aqui. Você se mudou pra cá?”, o cara pergunta.

“Não, é que aqui o preço tá melhor.”

Shalom alcança ao cara o outro carrinho, que havia se soltado também de um terceiro devido à violência de seu puxão.

“Krav Magá te bombando muito, então?”

“Era pra começar ontem, mas nem fui.”

Quase todos os supermercados em quase todos os países, apesar de variarem bastante na questão dos produtos, não variam tanto assim no tocante à estrutura. Um supermercado é um supermercado. Prateleiras mais ou menos na mesma altura, balcões refrigerados, corredores de piso frio, iluminação artificial, uma fileira de caixas, funcionários uniformizados e de crachá, música ambiente. O supermercado do Bairro Boêmio e Hipster, por ser extremamente Boêmio e Hipster, era um pouco diferente. Tinha seleção grotesca de cervejas artesanais e guloseimas importadas, reaproveitava 95% da água da chuva e usava o máximo de luz solar possível durante o dia graças a uma impressionante cobertura transparente. Apenas por este motivo, aliás, é que não estava virado numa caverna sombria e sorumbática nesta tarde de verão em que falta luz de forma extrema em todo o hemisfério sul.

Menos na parte lá dos caixas.

Lá a cobertura não era transparente, lá tava meio escuro.

(…)

“Ô, Shalom.”

“Fala.”

“Cê viu aquela mulher empurrando uma velhota numa cadeira de rodas?”

“Nem vi, mas que que tem?”

“Imagina um cara parar exatamente na frente da cadeira de rodas, fazer uma cara de espanto, apontar pra velhota e perguntar pra mulher: ‘Caralho, que sensacional! Onde tão vendendo isso aí?’. Entendeu? O cara confundir a cadeira com um carrinho e pensar que a mina tinha comprado a velha em algum lugar.”

O hebreu dá uma risada gostosa.

“Parabéns por ter pensado nisso.”

Shalom Israel é adepto de um método não muito ortodoxo de fazer compras. Primeiro, ele conduz o carrinho durante algum tempo, estaciona-o em um corredor mais tranquilo e sai a coletar produtos. Quando não consegue carregar mais nada, volta na direção do carrinho e derruba tudo lá dentro de qualquer jeito, só para sair em nova busca por mais produtos. Quando perguntado por que não levava o carrinho pelos corredores e ia carregando aos poucos, à medida que passava nas prateleiras, Shalom Israel disse algo como “nenhum sentido” e saiu corredor afora em busca de mais produtos. Boa experiência antropológica ir às compras com Shalom Israel, pensou o cara.

(…)

Já com os carrinhos cheios, Shalom Israel e o cara esperam ser atendidos na fila do caixa. Pelo crachá o cara manja que o nome da gata levemente oriental que opera naquele guichê é: Analice. Sem um leitor de código de barras, Analice está usando um caderno para somar, manualmente, o valor das compras. Analice. Impossível não imaginar pasta de dente no cu depois de ler a combinação Anal + Ice, obtempera o cara. Ele teria feito o comentário a Shalom Israel, se a caixa gata levemente oriental não estivesse meio de olho nas movimentações e papo da dupla. Analice parece especialmente encantada por Shalom Israel, dono de um charme mediterrâneo meio rude que costuma falar bem a este tipo de mina. Percebendo o interesse da gata, Shalom Israel decide impressionar. Mas escolhe mal demais o tema do seu improviso: o setor de laticínios. Isso só acontece porque os primeiros itens que ele coloca sobre a esteira são, coincidentemente, pedaços de três tipos de queijo diferentes (manchego, aziago, emmental) e um pote de sobremesa láctea cremosa sabor: chocolate.

“Sabe um troço que daria muito certo? Queijo doce.”

O cara ri.

“Tou falando sério. Imagina. Queijo doce. Alta concentração de cacau e salpicado de amêndoas. Ou com torrões de café. Ou de caramelo. Frutas do bosque. Pra comer de colherinha ou passar no pão.”

“Ui, que nojo, queijo doce”, interfere Analice, lançando um sorriso tímido na direção do hebreu.

Shalom Israel não aprecia a interferência. Nosso Leão de Judá era um cara muito bacana e coisa e tal, mas, como todo criativo que se preze, era também: a) meio cuzão; b) alguém com o ego do tamanho de Massada. Não gostava nada de ser interrompido. Muito menos contrariado. Especialmente quando estava tentando vender uma ideia que ele mesmo sabia que não era das melhores.

Após pigarro clássico de desprezo, Shalom Israel inclina o corpo na direção de Analice. Seus olhos estão fixos nos dela, que já espera por algum tipo de retruque. Shalom Israel lambe os lábios, abre um sorriso e toma fôlego, mas em vez de dirigir a palavra a Analice, ele vira a cabeça na direção do cara:

“Sabe aquele filme, Alien 3?”

O cara sabe mais ou menos.

“Qual que é o três?”

“Aquele que é todo numa prisão. Saca?”

O cara não saca. Todavia:

“Sim, sim, sim.”

“Então. Tem uma galera numa prisão, num planeta fodido, deserto, no cu do universo. Sei lá, umas vinte, trinta cabeça. Tudo homem.”

“Hm.”

“Lá pelas tantas pinta uma nave trazendo mantimentos. Acho que alguém fala que aquilo só acontece de seis em seis meses, um tempão absurdo, assim. E no meio tempo os caras ficam lá, sozinhos, presos, trabalhando pra manter a própria prisão habitável, num planeta deserto, no cu do universo.”

Um barulho de sucção invertida (difícil descrever) escapa de um lugar (difícil precisar). As luzes do teto se acendem em sequência, produzindo um efeito parecido com o de peças de dominó caindo. Os motores de refrigeração começam a zunir, os monitores dos caixas se acendem e, em alguns segundos, música ambiente de má qualidade começa a tocar em um volume confortável. Clientes e funcionários soltam um breve hurra comemorativo.

Shalom Israel ignora todos esses eventos.

“Mesmo assim, mesmo apesar de todo esse lixo, os caras deram um jeito de sobreviver numa boa por décadas. Um monte de criminoso perigoso trancado junto no cu do mundo e mesmo assim eles estão numa boa.”

“E daí?”

“E daí que é só chegar uma mina que arruína tudo.”

O cara começa a rir.

“Eu tou falando. Presta atenção nesse filme. A mensagem é muito clara: mulher sempre estressa o ambiente. A mina chega e todo mundo começa a ficar inquieto. Em questão de horas já tem gente se dando facada, se tacando fogo, lá pelas tantas pinta um alien assassino pra cagar ainda mais com tudo e termina o filme e morre todo mundo. Menos a mina. Nem mesmo o alien, uma forma de vida superior, programada pra matar, consegue escapar da fúria feminina.”

“Belo discurso,” diz Analice, de maneira debochada. “Ignorante, escroto, machista… realmente uma beleza.” Fala alto, Analice, pro supermercado inteiro ouvir. “E como se tudo isso não fosse suficiente, você tá falando uma tremenda besteira ainda por cima: no Alien 3, mano, a mina também morre.”

(…)

Ao chegar em casa carregando cerca de dezoito quilos em compras, o cara comemora o fato de o elevador estar de volta ao serviço. O sorvete americano, as cervejas belgas, os sucos orgânicos, as carnes rastreadas e os queijos artesanais vão direto para a geladeira. O resto todo fica nas sacolas, enquanto ele corre para o home-office para ligar seu computador. No quarto, aceso, o visor do celular acusa o recebimento de duas mensagens. Ambas são de Shalom Israel, enviadas nos últimos dois minutos. Uma delas diz “Não se mexer. Nunca.” e a outra, “O ideal seria jamais ter nascido.” O display do rádio relógio informa que a luz voltou em seu lar há exatos 37 minutos (00:37).

Um som de tosse faz o cara experimentar leve cagaço. É seu gato Amargo, um bichano marrom extremo de pelo muito curto e brilhoso, que jamais regurgita. Em vez disso, prefere se engasgar com seus pelos e praticar a tosse de cão doente afetivo (muito embora tecnicamente seja um gato e não sofra de doença alguma). Apesar de cultivar o animal há coisa de oito anos, o cara ainda não se acostumou com aquilo. Para ele, a primeira tosse do gato sempre soa como se fosse a de um anão bem velhinho. De qualquer forma, àquela altura da tarde, a tosse do felino lhe soou mesmo foi como um lembrete. Havia suculento, excepcional e excelente fumo-de-angola armazenado em um pote de vidro selado a vácuo em sua cômoda. “Que boa oportunidade para consumi-lo!”, vibrou o cara.

Enquanto esmigalha os raminhos da inflorescência sobre o papel de seda com uma das mãos, o cara usa a outra para operar o dispositivo “mouse” e fazer todo tipo de bobagem no computador. Entre outras coisas, por exemplo, ele abre uma playlist de músicas ligadas à cultura da droga para melhor fruir sua viagem de doidão. Também consulta os e-mails enviados nas últimas horas e nota que a oferta de frilas segue firme, mas decide negar todos porque, afinal de contas, nenhum paga mais de cinco mil — e por menos de cinco mil é melhor nem responder. Era parte de sua cartilha pessoal de conduta profissional. Outros e-mails dignos de nota daquela tarde eram todos spam. O melhor tinha como assunto a pergunta “Você já está na internet?” e nenhum conteúdo na caixa de texto. “Bom poema metalinguístico”, pensou. Publicitário. Sabe como é.

Com o roliço cigarro da droga confeccionado, o cara parte em direção à cozinha na busca de um isqueiro – e encontra as sacolas de compra reviradas no chão da sala. Amargo havia realizado breve inspeção nas mercadorias, mas, como não achou nada do seu interesse, deixou os legumes, frutas, pães, conservas e molhos intactos. O cara localiza o isqueiro dando sopa em cima da geladeira, acende a catronca e dá uma bela tragada. Amargo adentra o recinto fungando. Sempre que o cara se entrega à prática do tabagismo artístico, o gato aparece para dar um conferes. Ao assoprar fumaça em sua direção, todavia, o bichano fugirá e se enfiará, emputecido, debaixo de algum móvel. O cara nunca sacou muito bem qualé do mitzi. Mas o considera bróder mesmo assim.

Já que veio até a sala, o cara dá aquela capotada no pufe e bim: mais um pega na tora. E já que está de frente para o maravilhoso televisor de LED de cinquenta polegadas, por que não colocar um blu-ray do Rambo e deixar sem som enquanto o playlist de músicas ligadas à cultura da droga segue bombando? O cara agora suga forte o cilindrão herbáceo, que chega a dar um estalo quando a brasa tosta uma lasca de semente desavisada no caminho. É aí que ele se dá conta que a cinza está muito brutal e que o cinzeiro ficou no home-office. Na levantada do pufe o cara se desequilibra, mongoleia e deixa cair o bicho inteiro no chão, não sem antes virar uma pirueta e atingir com a brasa o seu peito, queimando um buraco fedorento em sua camisa. “Putalamerda”, ele esbraveja.

E logo depois solta uma gaitada.

“Aziras”, diz o cara. “Aziras.”

(…)

A chaura marota agora repousa tranquila no cinzeiro. As compras estão no armário. Acomodado em cima do pufe, Amargo aprecia o filme sozinho na sala. E o cara lá, no home-office, lambendo a resina dos lábios e das pontas do bigode e perdendo tempo na internet. Embebido na droga do malucão, ele está lendo tudo meio errado. Um amigo do colégio com o qual não tem contato há anos lhe envia um site sobre “como recorrer de multas” e ele aplica um Sargentelli, entendendo “como correr de mulatas”. Um banner no canto de uma página pisca a mensagem “Seu CV é importante para empresas” e ele confunde V com U e fica confortavelmente satisfeito com a honestidade e senso de humor do anunciante. Parece-lhe extremamente inteligente pensar, ainda, que em tempos de inclusão digital, a expressão “baixar um santo” começa a ganhar novos e interessantes contornos.

O relógio no cantinho inferior direito da tela indica que são 17h08. Isso o faz pensar que, muito embora existam milhões de vantagens em se trabalhar em casa, há um prazer que ele jamais sentirá novamente: o de sair do trabalho às 17h, pegar o trânsito mais livre no caminho de volta, tomar um banho quente, ligar a tevê, assistir os minutos finais de um programa que não vê há meses (talvez anos) e depois de tudo isso olhar para o relógio só pra pensar “rapaz, num dia normal a essa hora eu ainda estaria preso num engarrafamento”.

Triste mesmo não mais sentir esse prazer.

Todavia, há muitos outros dos quais o cara pode usufruir.

Um bom exemplo é a masturbada do frila. Graças a alguém, hoje em dia é muito mais fácil encontrar apoio visual para bater a masturbada do que já foi há dez, vinte e principalmente trinta anos. Por culpa da internet, a pornografia nunca foi tão abundante e acessível quanto agora, o que nos leva a questionamentos do tipo: “pra quem será que ainda produzem o gênero softcore?” São 17h11, e o cara saca que ainda há tempo mais que suficiente para abrir oito vídeos de 6 minutos em oito janelas diferentes e deixar todos carregando enquanto dá uma última olhada em seus e-mails. O “mosaico” costuma ser uma boa técnica, especialmente nos horários de pico, quando a velocidade das conexões geralmente decai, e os vídeos demoram mais tempo para carregar. Apesar de sugerir variedade, o “mosaico” quase sempre é um espetáculo monotemático. No caso específico do cara, uma ruiva bunduda, de nariz comprido, peitos pequenos e lábios bem finos é o ponto em comum entre todos os vídeos.

O cara atualiza sua caixa de entrada: nada. Sem novidades, ele corre os olhos pela tela até encontrar a última mensagem que marcou para ler mais tarde. É do trabalho. De Administrador Pedro. Aquele e-mail gigante e rocambolesco, com aquele puta espaço em branco de suspense, falando sobre uma festa de fim de ano. Como já conhecia seu conteúdo, ele pratica a leitura diagonal. Primeiro, procura pelo endereço, dia e horário. Envolve aeroporto. Em seguida, dá uma lida bem chutada no texto do chefe. Alguma coisa sobre andar de barco em “águas internacionais”. Sobre “romper barreiras”, “desafiar limites”, “viver o sonho”. “Pff”, desdenha o cara, fechando a mensagem e levantando decidido em direção ao banheiro, onde separa meio metro de papel higiênico para conter a espermatorreia e enche a boca com enxaguatório extremo.

No meio do bochecho ele ouve um plim e volta correndo pra conferir. Opa: e-mail de Terrivelmente Gostosa. Sucinto e direto. Meloso e simplório. “Opa”, pensa o cara. E dá um conferes na barra do tempo dos vídeos pra ver em que pé andam. Nisso, novo plim (e o bochecho comendo solto). Um novo e-mail. Agora, de Prognata Mau-Caráter. Grandiloquente e poético. Intenso e profundo. “Rapaz”, pensa o cara. E sente o pinto lhe apertar a cueca. “Hora da punha!”, ele pensa. E vai correndo soltar na pia o cuspe grosso e mentolado da covardia.

O cara puxa a cueca pra baixo com um dedão, dá um play no primeiro vídeo do “mosaico” e logo em seguida já calça o pinto com a outra mão. Recostado sobre uma toalhinha para não avacalhar o couro italiano da sua cadeira ergonômica com suor de cu, ele logo se dá conta de que fez uma má escolha. O primeiro vídeo possui “enredo”, e ainda vai demorar alguns segundos (minutos, talvez) até que alguma coisa aconteça. Nesse intervalo sua mente voa — e tropeça numa lembrança meio bizarra da festa na casa de Oriental Milton. Um clima meio pegado com Prognata Mau-Caráter. A pupila pretona dançando frenética na cara da mina, tremelicando como uma pipa descontrolada ao sabor do vento. Ela dizendo alguma coisa sobre ter um filho com ele. A pilha das lembranças vai na linha do “me come agora, me faz um filho, é só o que eu quero”, o que deixa o membro do cara virilzão. Ao mesmo tempo, também lhe ocorre que isso não pode ter acontecido dessa forma. Ainda que a lembrança da face da Prognata transtornada pelo desejo lhe pareça bem viva, ela seria bastante improvável, uma vez que eles só pararam pra conversar poucos segundos antes de faltar luz. “Será que todo esse papo foi só um sonho?”, o cara reflete.

Nisso, ouve-se claramente o barulho característico da fechadura da porta de um apartamento sendo aberta.

Rapidamente, o cara guarda o pinto na cueca, fecha as oito janelas do “mosaico” e se levanta de forma abrupta da cadeira. Assim que fica de pé, ele diminui o ritmo da ação pela metade. Segurando a onda, ele guarda o cinzeiro contendo a ponta resinada numa gaveta, sai do home-office devagar e atravessa o corredor lentamente em direção à sala, de maneira a fazer o encontro parecer casual. Uma ruiva bunduda, de nariz comprido, peitos pequenos e lábios bem finos o cumprimenta com um beijo morno e estala os saltos caminhando pela sala. Antes de largar a bolsa no sofá e afagar o cocoruto de Amargo, esta ruiva bunduda tecerá um breve elogio ao hálito do cara e perguntará “e aí, o que você fez hoje?”.

O cara tinha esquecido completamente: hoje saía mais cedo do trampo a namorada.