essas coisas acontecem

Começou a esfriar no fim do dia e eu abri a janela pra sentir uns arrepios. De repente, comecei a ouvir também os berros lamentosos de um adulto em meio a gritaria habitual das crianças voltando da escola. Daqui de dentro, parecia que os pequerruchos estavam fazendo mal a um doente mental ou craqueiro – que era a minha principal aposta, posto que sua presença aumentou vertiginosamente na minha região desde a operação totalmente sem sentido do nosso indigesto gestor.

Não era nada disso.

Na entrada da garagem do prédio em frente havia um homem de mochila, ajoelhado e com a cabeça no chão, gritando de forma dolorosa alguma coisa de cunho vagamente religioso (talvez por que, ó, pai? ou me ajuda meu pai). A trinta metros do chão é mais difícil de ouvir. Por alguns instantes, nada mais aconteceu. Quem passava perto, desviava do homem ou o ignorava. Alguém dum andar baixo do prédio saiu na sacada para ver o que acontecia. O cara seguia lá.

Não chegou nem a fechar um minuto e do outro lado da rua veio atravessando um cara jovem, negro, de camiseta, se ajoelhou ao lado do maluco, fez ele sentar e os dois começaram a conversar. Deu pra ver que ele tinha um monte de peças de tecido branco com ele, possivelmente panos de prato. Do salão de cabeleireiro ao lado, emergiram duas moças, uma delas trazendo um copo d’água. Em questão de segundos, oito ou de dez pessoas, a maioria mulheres, se aproximaram do cara, conversaram com ele, compraram panos de prato ou simplesmente lhe deram algum dinheiro. Aparentemente teve um zé ruela de terno preto que veio sei lá de onde e deu uma enchida de saco na rapaziada, mas pode até ser que não tenha sido isso.

A verdade é que daqui de longe não deu pra captar os pormenores do episódio, e muito menos pra julgar se era um golpe ou o mais puro desespero. De todo modo, fiquei bastante comovido em ver tanta gente partindo em socorro de um completo desconhecido às cinco e meia da tarde de uma terça-feira de maio de 2017 na cidade de São Paulo. Que bom quando essas coisas acontecem.

microreviewing #3

Nesta edição especial, Zerando a Fila do Netflix:

First Contact: Lost Tribe of the Amazon: Bastante impressionante esse curto documentário (49 min) mostrando os primeiros contatos de duas tribos que passaram milênios isoladas no meio da floresta amazônica na fronteira do Brasil com a Bolívia, mas que agora estão sendo obrigados a fazer a parceria com o homem branco. Duas coisas que me chocaram demais: como uma população humana que jamais teve contato com outra sorri para mostrar satisfação e abana com a mão para se despedir de alguém. Não fazia ideia de que eram gestos universalmente humanos. Classificação: LEVEMENTE ASSUSTADOR NÍVEL OLHAR PRA FOTO DO COSMOS.

Friday: Lembro de ter visto muito tempo atrás e gostado bastante, mas, ao rever vários anos depois, atesto que envelheceu mal. Em tese é um stoner movie situado em South Central L.A. em 94-95, mas só vale mesmo se o cara for (que nem eu) herbalista e muito fã de cultura negra americana, sobretudo a que se desenvolveu no universo dos anos 90 (hip hop golden era). Apesar do roteiro meio chutado, ainda vale pelas atuações de Chris Tucker e John Witherspoon (que todavia está melhor na continuação – o filme teve DUAS). Classificação: IF YOU CAN’T TAKE THE HEAT GET YOUR ASS OFF THE KITCHEN.

XOXO: De tempos em tempos creio ter me deparado com o pior filme de todos os tempos, e essa posição fica assegurada por um bom tempo – até que aparece um desafiante disposto a tomar o trono. Foi exatamente o que aconteceu aqui. Tem tanta coisa errada nesse filme que eu não sei nem por onde começar. O roteiro é inacreditavelmente ruim, os diálogos terríveis, personagens mequetrefes, e ainda por cima tudo acontece numa rave de EDM (em sua nova interpretação, sinônimo de música sem alma feita por e para millenials). Mas o pior de tudo é que não dá pra parar: tudo é tão absurdamente horroroso que o cara tem que ir até o fim ver onde aquilo vai dar. Classificação: MELHOR NEM COMEÇAR.

Why Sharks Attack: Por mais improvável que pareça, bom especial de TV sobre os motivos que estão levando tubarões a nadarem muito mais próximo da costa americana nos últimos anos – e também as diversas técnicas malucas que estão empregando para repeli-los, que incluem mecanismos sofisticados que emitem pulsos eletromagnéticos e cilindros cobertos com tecidos listrados, para imitar a venenosíssima serpente marinha da qual esses majestosos animais se cagam de medo. Classificação: BOM ENTRETENIMENTO DESCOMPROMISSADO.

The Hunt: Inaugura uma nova categoria de conteúdo televisivo, a “distração de fundo”. Como a série compila dezenas de imagens muito impressionantes de animais caçando e fugindo uns aos/dos outros na natureza em câmera lenta, é algo que pode apenas ficar passando na sala enquanto se pensa melhor no que assistir, ou se mexe no celular ou se come uma pizza, posto que não é necessário ficar o tempo todo concentrado no que está acontecendo. Quando rola um momento mais encarnado tu dá uma olhadinha, quando fica só aquelas imagem de gnu pastando e macaco caindo de árvore tu vai na geladeira e pega mais uma cerveja. Classificação: MAIOR QUE LAREIRA.

Easy: A grande surpresa do fim-de-semana. Que excelentes demais os 5 primeiros capítulos desta série de 8, produzida pelo Netflix. São histórias independentes, com personagens que às vezes se conectam a personagens de histórias anteriores (posto que todos moram em Chicago), às vezes não, todas tratando de dramas, questionamentos e problemas que atingem a faixa dos trinta e muitos. Falta de grana, escolhas erradas na vida profissional, dificuldades sexuais em relacionamentos longos, vegetarianismo, os limites da arte e da privacidade nos nossos tempos: tudo está lá, retratado quase sempre de maneira incômoda e muito eficiente. Classificação: VEJA FELIZ ATÉ O 5, OS TRÊS ÚLTIMOS SÃO UMA MERDA.

olá, forasteiro

Que curioso: quando acabei de digitar o último O no título desse post e ia começar a redigir este texto, uma pessoa me deu um OIE num popular aplicativo de bate-papo, fazendo meu celular zunir sobre a cama.

Enfim.

Buenas, olá.

Como são grandes as chances de essa ser a primeira vez que você vem por aqui, posto que essa é a primeira vez em que faço propaganda do meu blog desde comecei a escrever nele, em janeiro, fiz uma pequena seleta de textos que publiquei em silêncio nos últimos seis meses por aqui.

  1. Disclaimer
  2. Micro Reviewing #1
  3. Azar
  4. O caçador de estrelas
  5. Micro Reviewing #2
  6. Tirando o chapéu
  7. Só pra registrar
  8. Meu Crack

Mas sinta-se à vontade para ignorar completamente esses links e também todos os demais textos contidos nesta plataforma, como também para sair por aí explorando a graforreia do amigo em busca de distração, estalos mentais e irritação.

DIDS DIDS DIDS

resultados

Fiz ontem os exames de sangue e urina que fazem parte do check up anual que realizo desde 2009, ano em que Flavito teve seu ataque cardíaco e eu fiquei sabendo que sofro de hipercolesterolemia familiar – ou seja, meu corpo produz muito colesterol pra caralho, de modo que os meus níveis só baixam tomando remédio de forma permanente, caminho que não pretendo trilhar tão cedo. Sei que um dia não vai dar mais, mas por enquanto vou adiando o máximo que dá.

Na média, os resultados não mudam e são sempre positivos – exceto pelo colesterol. Não me assusto muito porque dos 5 motivos causadores de infartos e acidentes vasculares cerebrais (descontando-se a variável “idade” aí), este é o único requisito que preencho. De resto, não sou obeso, não sou sedentário, não tenho hipertensão e não sou tabagista. Nível de stress também entra na conta, mas como é um parâmetro subjetivo, de difícil mensuração, considero o meu “baixo” só a título de curiosidade mesmo (não tenho dívidas significativas nem grandes responsabilidades, possuo muitos amigos, durmo bem, trabalho por conta própria, consigo equilibrar descanso e atividade profissional de maneira saudável).

Outra coisa que me tranquiliza nesse contexto é um exame chamado eco doppler, que serve para analisar o funcionamento e a estrutura das artérias, apontando possíveis defeitos e entupimentos. Fiz três vezes esse exame, sendo uma delas nas carótidas e outras duas no tique-taque em pessoa: o coração do Dido. Todas trouxeram o mesmo resultado: funcionamento normal, espessura normal, fluxo normal. Não tem placa de gordura depositada nessas veias e nem no meu coração. Pelo menos não AINDA.

Peguei o resultado dos exames na internet essa manhã. Que maravilha é isso, né? Até uns 10 anos atrás, talvez menos, o cara ia lá, coletava o sangue, aí uma semana depois, num horário xis, o cara tinha que voltar lá no laboratório pra buscar os resultados, e ainda sempre com aquele leve temor de que, por algum motivo, eles não estivessem lá (às vezes acontecia). Hoje em dia tu tira o sangue ao meio-dia e às cinco da tarde o hemograma já está pronto. Estudo do colesterol e outras coisas demoram um pouco mais, todavia entrei às nove e meia da manhã do dia seguinte no site do Lavoisier e já tava o exame completinho lá. Que alegria.

Entre os resultados dignos de nota do check up 2017 está uma expressiva redução no meu colesterol total, de 358 para 314 (12%) – sendo que o não HDL despencou de 306 pra 262 (14%).O HDL, por sua vez, se mantém estável, na casa dos 52, e o VLDL (que eu não sei muito bem o que é) também anda na base dos 18. Discreto recuo dos triglicérides, de 95 pra 89 (6%).

Digo que estes resultados são “expressivos” por um motivo muito importante: não fiz nenhum esforço específico para chegar neles. Não fiz dieta, não aumentei minha carga de exercícios, não tomei remédios. Simplesmente segui comendo de forma equilibrada sem grandes exageros (salada na maior parte dos almoços, sanduíches na maior parte das jantas, uma pizza, um burger, uma batata frita eventual a cada semana ou duas, muita água, frutas), continuei me esticando e fortalecendo duas vezes por semana no pilates (três anos completos em abril) e permaneci existindo, de maneira geral.

Enfim, que sucesso saber que rolou este recuo.

Tem que manter isso, viu? (note que digo com ênfase no viu)

Em notas relacionadas, o xarope é que as panturrilhas seguem incomodando. Será que as longas horas de sentagem ao compiuter finalmente cobraram um preço na forma da maldição popular conhecida como VARIZES deste que vos fala? Veremos. Tomara que não. Pelo que eu li parece que meio que não tem conserto. A ver.

giftbox 15 anos growroom – 2/3

Chegou hoje a segunda parte do Giftbox comemorativo de 15 anos do Growroom e, ao contrário do primeiro, neste eu consegui ficar ainda mais decepcionado. Caidaço boy generalizado esse esquema. Bah. Que tristeza.

Dessa vez além da camiseta – que, justiça seja feita, é tão bonita, bem feita e, aparentemente, resistente quanto a primeira – vieram 3 adesivos da marca de seda A Leda, um pacotinho da Leda oficial do Marcelo D2 (branca, king size), um pacotinho de Leda original (transparente, também king size), um pacote de um bagulho chamado KING BLUNT de morango que, presumo, conterá uma ou mais (vi agora a embalagem, são cinco) folhas de tabaco artificialmente aromatizadas e um potinho de silicone pra guardar haxixe e resina da Squadafum.

Bem fuén. Estava esperando uns brindes muito melhores (latinhas, esmurrugadores) ou pelo menos em maior quantidade (me manda 5 pacotinho de seda, não manda um só que é muito chinelo). Enfim. Que pena. Pelo menos as camisetas são legais e as entregas não estão sendo demoradas, mas pô: se era pra mandar esses brindes furadaços (esqueci que veio também um vale compras dando 10% de desconto na loja Vapor Kings), melhor ter mandado só as camisetas.

UPDATE: dando o braço a torcer (de leve). A leda do Marcelo D2 tem um troço massa: menos papel que o padrão, de modo que, na prática, o vivente consome menos papel ao fumar. Nice touch.

boletim/diário

Tinnitus deu uma boa recolhida faz uns dois ou três dias, sem explicações muito claras. Incômodo, peso, espasmos e dores na panturrilha seguem perceptíveis, de forma intermitente. Possíveis consertos: para o tinnitus, sono mais regulado, após duas semanas dormindo às quatro e acordando às sete; para as panturrilhas: atividade física mais constante, períodos mais curtos sentado ininterruptamente.

Essa semana devo fazer exames de sangue e urina como parte integrante do meu check-up de 38 anos, que completo no próximo sábado. Infelizmente ainda estou pior que Zé Roberto aos seus 38 anos, mas ainda tenho dois para chegar ao meu objetivo real, posto que o Projeto Zé Roberto está mirado nos meus quarentinhas. Mesmo assim, ECG não indicou anomalias, meu IMC está abaixo de 22, minha pressão permanece em 12/8 desde que me conheço por gente, e uma eco-doppler do coração revelou que as principais veias de acesso ao órgão estão limpinhas (o que sempre é uma vitória levando em conta minha hipercolesterolemia familiar).

Prossigamos.

discografia afetiva I

Disclaimer aqui.

Caetano Veloso – Caetano Veloso (1971). Achei curioso não ter tantos discos do começo da carreira da Caê na discoteca de Flavito, o que, pensando bem, até que faz sentido, posto que só fui ouvir Transa, por exemplo, na altura dos vinte e vários anos (e só bateu mesmo depois dos trinta). O polaco gostava mesmo era da fase Circuladô e Velô e coisa e tal. Esse é um dos raros exemplos: o disco que o Caetano compôs no exílio na Inglaterra nos anos 70. Fortemente melancólico, levemente chatuba, não me comoveu. Não lembro também do Flavito ter ouvido muitas vezes, exceto por London, London. Essa rolava lá na baia. Eu lembro até de ter decorado o refrão, uma das primeiras frases que aprendi em inglês. Talvez ele só tivesse comprado o disco por London, London, talvez só tocasse essa música. Por que não? Isso nunca tinha me ocorrido, mas agora ocorreu. Talvez. Não lembro mesmo de nenhuma das outras músicas, da tristeza extrema contida neste álbum (um mérito), da música meio monótona (demérito), da pronúncia macarrônica (traço quirk que pode pender pra qualquer um dos lados, dependendo dos seus gostos).

Realce – Gilberto Gil (1979). Que discaço. Flavito ouviu demais esse álbum, a ponto de ter um arranhão que mais parece um talho de faca no lado B (que, todavia, não fez o disco pular, apenas acrescentou estalos quase imperceptíveis a uma ou duas faixas). Muita música linda – a faixa-título Realce, Sarará Miolo, Superhomem, a canção e Marina entre as minhas preferidas -, uma crowdrocker com rising action invejável (Toda menina baiana) e o sensacional cover de Bob Marley, Não chores mais. Não lembrava que essa música estava nesse disco, mas ouvi-la me fez lembrar que Flavito achava um toque absolutamente genial de Gil a parte da letra que diz “ob-observando”. De repente me dei conta que talvez ele tenha morrido sem saber que o toque de genialidade era, na verdade, de Bob, que já tinha cunhado “ob-observing” na sua original.

A Arte de Chico Buarque – Chico Buarque (1976). Embora não seja grande fã de Chico Buarque e, até algumas horas atrás, possuir grande birra para com sua obra (sobretudo por conta de sua voz), trouxe 3 discos dele (Meus Caros Amigos, o álbum de capa vermelha de 1984 e a coletânea A Arte de Chico Buarque) para o deleite de Petite, que admira o bardo. Este álbum duplo traz os principais sucessos do amigão até 1976 – que já era coisa pra caralho. Fui obrigado a remover meu chapéu. Que bonitas as melodias do Chico. E tudo casa bem com a voz dele, pelo menos até essa época. A audição de Joana Francesa me transportou de volta às tardes de domingo de inverno quando, após o almoço, Flavito sentava em silêncio numa poltrona e ouvia discos fumando, de olhos fechados, eventualmente cantarolando algum pedaço.

Mahavishnu – Maha Vishnu Orchestra (1984). Esse eu olhava a letra branca fininha na capa preta, lia o nome e já pensava numas cítaras arregaçando, posto que confundia com Ravi Shankar – que Flavito também admirava e possuía. Não sabia nada sobre essa banda e não lembro de Flavito ter ouvido sequer uma vez na minha presença, mas é aquele jazz fusion dos anos 80 que ele, por algum motivo, curtia demais: também tem altos Jean Michael Jarre, Stanley Jordan e Fausto Papetti na discoteca dele, mas estes não trouxe (embora tenha vindo um Amandla, do Miles Davis, que surfa delícia nessa onda).

Gala 79 apresenta o melhor de Isaac Hayes – Isaac Hayes (1979*). Não sei absolutamente nada sobre Gala 79 e a internet não colaborou muito em prover resposta, apenas sugerindo tratar-se de selo responsável pelo lançamento de coletâneas diversas de música setentista, incluindo Secos & Molhados, Creedence Clearwater Revival e Chico Anysio, além de seletas de sambas e de trilhas sonoras de novelas. Independentemente de qualquer coisa, lembro demais do Flavito ouvindo esta pepita e PELA MÃE DO GUARDA, que negócio espetacular. Botar esse disco pra ouvir o tema de Shaft e Walk On By explicou muita coisa sobre o clique inicial dos meus gostos musicais mais persistentes. Que sonzeira demolidora. Onde quer que esteja, Flavito (nem que apenas em minhas lembranças): thank you for that, my soulman. Cafe to Regio’s. Agora eu lembro. Agora eu sei. Que coisa.

eu também fui pau no cu

Uma coisa muito difícil de admitir, e pra si mesmo mais que para os outros, é o seguinte: não fomos 100% bons ao longo de nossas vidas. Não sei na cuca de vocês, mas na minha tem uma voz de fundo que parece ficar me dizendo o tempo todo que eu sou um cara bom, que eu só faço coisa legal, que estou do lado do que é justo e do que é certo o tempo todo. Só que isso não é verdade. Pra absolutamente ninguém.

A primeira vez que me dei conta disso foi quando, ao reencontrar uma antiga paixão numa tarde em que conversamos muito embalados por uma garrafa de vodca, ela me disse que me perdoava por algo que eu havia feito no passado. E o que eu havia feito: combinado de sair com ela e nunca ter aparecido. Parece algo muito trivial, mas, sendo oito anos mais jovem e, fervendo a febre da primeira paixão, ela realmente esperou por mim aquela noite. E de uma maneira que talvez nenhuma outra mulher esperou ou vá esperar por mim. Mobilizou a mãe e as irmãs, que ficaram exultantes com a notícia, escolheu roupa, tomou banho, botou perfume e ficou me esperando. Eu não apareci.

Não lembro porque fiz isso. Não vem ao caso. Fiquei sabendo por uma de suas irmãs, pouco tempo depois, da minha mancada. A partir daí passei anos com vergonha, querendo me redimir de qualquer forma, buscando seu perdão de todas as maneiras. E quando ela finalmente me deu eu pensei: pra quê? Eu não sou perfeito. Ninguém é. Ninguém é uma coisa só, também. Em outras palavras, é totalmente normal ser mau, aqui e ali, para uma pessoa essencialmente boa – tendo ou não consciência disso. Do mesmo modo, para uma pessoa essencialmente má é absolutamente aceitável que pratique um ou outro ato de bondade eventual ao longo da vida. É da natureza humana.

Digo isso porque na tarde de hoje, conversando com amigos de infância, lembrei de uma eleição para o Grêmio Estudantil do Colégio Nossa Senhora da Glória, um pequeno estabelecimento de ensino localizado num bairro de classe média-baixa de Porto Alegre, no qual estudei todos os anos da minha vida. Já não lembro mais quanto dessa estratégia foi elaborada por mim, quanto foi criação coletiva, mas fato é que usamos táticas altamente controversas para vencer essa eleição no final de 1995, e seguimos operando uma série de desmandos enquanto estivemos no poder, em 1996.

Pra começar, ao montar a chapa, convidamos pessoas de todas as séries e turnos possíveis, na tentativa de angariar a empatia do maior número possível de votantes. Na hora de fazer a campanha corpo a corpo, nas turmas de magistério, frequentadas apenas por mulheres, mandávamos apenas os caras mais populares, os bonitões da época, com os quais todas queriam ficar. Nas turmas em que a predominância era masculina, quem passava eram as gatinhas da equipe. Nas turmas da tarde, alunos da tarde. Nas da manhã, alunos da manhã. Para neutralizar uma animosidade do terceiro ano para com o meu núcleo de amigos, chamamos o camarada mais popular do colégio, que era amigo de absolutamente todo mundo. Nas séries mais elementares (digamos, da terceira à quinta), prometemos absurdos como distribuição livre de picolés, balas e pirulitos para quem votasse em nós (promessa que, naturalmente, jamais foi cumprida).

Além disso fizemos algo um pouco menos reprovável, que também pode ser creditado pelo nosso resultado positivo: propaganda política. Distribuímos adesivos com o logotipo da Chapa Dois e vendemos camisetas estampando o mesmo logotipo no peito, e um desenho do Scooby Doo vestindo a mesma camiseta nas costas – tudo ilustrado por mim. Ainda tenho algumas dessas camisetas, e ainda servem. Os anos me foram bem generosos. Ou melhor: eu fui generoso comigo mesmo.

A jogada das camisetas foi um sucesso estrondoso: vendemos mais de uma centena sem maiores esforços. Todo mundo queria desfilar com uma pelo colégio. E ainda tinha um detalhe genial, que ainda não tenho certeza se já entendi a essa altura da vida, 22 anos depois, mas era o seguinte: havia duas cores de camiseta. As cinza eram restritas aos integrantes da chapa; as brancas, aos apoiadores. Muita gente queria fazer parte da chapa só pra ter uma camiseta cinza, mas ninguém podia. The next best thing era a branca. Esgotaram em dois ou três dias. Que coisa poderosa é o marketing bem feito.

Tivemos votação acachapante e, no ano seguinte, assumimos o GEG. Lá, fizemos algumas coisas excelentes, como adquirir um computador para a sala do grêmio – dinheiro levantado vendendo rifas para o sorteio de bicicletas, mochilas e outros badulaques que conseguimos de forma mais ou menos Doriática (cof), na iniciativa privada, na base do gogó, sem contrapartida. Também criamos uma carteirinha do grêmio que, agora, não lembro mais para quê servia, mas, se não me engano dava descontos na hora de solicitar a confecção da carteirinha de passagem escolar e na inscrição de eventos organizados pelo grêmio – campeonatos de futebol, basquete e vôlei, coisas do tipo. Mesmo assim, fizemos algumas coisas bastante horrendas, como desviar parte do caixa para a compra de salgadinhos e refrigerantes dos membros que passavam a tarde totalmente de bobeira naquela salinha. Não foram grandes importâncias, lógico, mas aqui não interessa o tamanho do crime, mas pura e simplesmente o ato em si.

Nada se compara, todavia, a algo em que eu não pensava há anos, talvez uns vinte, mas hoje voltou à tona e me fez corar por alguns instantes. Eu e um amigo (que também integrava a chapa) ficamos responsáveis pelas camisetas. Fizemos tudo sozinhos, contando com a confiança plena de todos os demais: eu ilustrei, ele orçou as malharias, juntos escolhemos uma gráfica e fomos encomendar o serviço. Nesse processo, em algum momento, alguém percebeu uma oportunidade de fraude. Acho até que não foi nenhum de nós, e sim o cara da gráfica ou da malharia, que ofereceu fornecer uma nota com valor alterado para que pudéssemos embolsar parte da grana. Que eu me lembre, vendemos as camisetas por um valor levemente mais alto do que pagamos por elas – já que a ideia era não ter lucro, apenas empatar custos. Eu e este amigo embolsamos algo como 300 reais cada, o que em 1995 era uma grana violentíssima (o dólar oscilava entre 80 e 95 centavos na época, de modo que seriam algo como MIL REAIS na cotação de hoje). Com esse dinheiro, paguei minha inscrição no vestibular da PUC (que fiz apenas para ver como era pois ainda tinha um ano do segundo grau pela frente – todavia passei, e com nota máxima em redação, feito que não repeti no ano em que fiz o vestibular pra valer, embora também tenha passado na segunda vez), comprei um óculos do surf, uma camiseta do surf e uma bermuda do surf – coisas que vários dos meus colegas tinham e eu sempre quis ter, mas meus pais nunca tinham dinheiro pra me comprar.

Olhando em retrospecto, parte de mim fica triste, parte fica feliz por tudo isso. Queimar-se, machucar-se, estragar-se: tudo é parte da vida também. Por algum motivo que não consigo elaborar muito bem usando a linguagem, é bom saber que não sou puro. Que não sou perfeito. Que há uma gota de maldade encerrada em mim, e que talvez esteja apenas esperando a oportunidade certa para se manifestar novamente. Quem é que sabe? Nem eu sei. Só sei que pensar em todas essas coisas, reconhecê-las e admitir as culpas e remorsos sem medo não pareceu suficiente pra mim. Eu tive que vir aqui e contar tudo pra você (que eu nem sei quem é, mas que me lê agora).

incômodos

Sempre gostei muito de tudo relacionado à cultura negra, desde as suas manifestações artísticas (principalmente a música) até elementos mais sutis, como a linguagem (verbal e não-verbal). Recentemente alguma chave virou na minha cabeça e começou a me incomodar muito, às vezes beirando o insuportável, o simples ato de estar em algum lugar – um restaurante, uma loja, um bar -, olhar em volta e não ver nenhum negro. Em notas profundamente relacionadas a essa percepção, hoje notei uma coisa bastante curiosa (e ainda mais incômoda): todas as vezes que postei uma foto com amigos negros no Instagram nos últimos meses, recebi um número muito (mas muito) menor de likes do que quando aparece um branco ao meu lado. Na casa de 10-15%. É uma paulada pensar nisso. Espero que eu não seja o único a fazê-lo.

hipocondria rise

Que eu me lembre, nunca fui hipocondríaco até os meus 25 anos de idade, época em que encasquetei que uma inesperada sensação de plenitude na barriga era sinal de algum tipo de câncer gástrico. Após anos de exames inconclusivos e tentativas semi-fracassadas de tratar Síndrome do Intestino Irritável, uma endoscopia um pouco antes de eu completar 30 me revelou que o meu problema era, na verdade, uma miserável duma Hérnia de Hiato, que criava o ambiente propício para o surgimento de repetidas esofagites causadas por refluxo – quadro que explicava tudo que eu sentia.

Antes disso lembro de ter sofrido de caganeira crônica (uns dez anos), um mamilo inchado (cerca de um ano), coqueluche (alguns meses), acne pesada (uns cinco anos), excesso de ácido úrico (semanas) e até mesmo um episódio bizarro de cegueira temporária de um dos olhos (que se resolveu depois que adormeci na sala de aula) de forma intermitente durante duas décadas sem jamais me ocorrer que eu corria qualquer risco de vida.

Talvez por conta da ausência da fonte de pesquisa destrambelhada que pode ser a internet, eu associava menos qualquer um desses sintomas – ou vários deles – a algum quadro grave, mesmo quando era justamente esse o caso. Hoje em dia vivo num mundo diametralmente oposto: qualquer dorzinha na garganta = seis dias lendo todos os links em português e inglês que contemplem a descrição do sintoma. Como em 100% dessas pesquisas aparecem os termos “câncer” e “AIDS”, já meio que me convenci que não estou com câncer nem com AIDS – todavia isso abre espaço para estimar condições potencialmente piores, como a esclerose lateral amiotrófica, a fibromialgia, o Mal de Parkinson e outros tipos de disfunções cerebrais. Ao longo da última década já pensei sofrer dos mais variados tipos de carcinomas e demências. Sempre fiz exames pra caralho, nunca era nada.

No fundo, no fundo, estou plenamente ciente de que 85 a 90% dos meus sintomas são de fundo psicológico, e que as suas manifestações físicas são o que chamamos de efeitos psicossomáticos. Tem gente que diz que ter a consciência disso ajuda. Não sei se concordo. Na minha loucurinha particular, o melhor antídoto costuma ser o laudo da ressonância, da ecografia, do raio-x ou do hemograma salpicado da palavra “normal”. Normalmente meus sintomas, por mais severos que sejam, desaparecem por completo em até 24 horas após um médico encaixar em alguma parte de alguma sentença um “não tem nada.”

Até hoje a única exceção honrosa foi essa Hérnia de Hiato.

Isso e essa porra do tinnitus.

Que, por sinal, anda apitando mais alto que o normal já faz um tempinho.

Tomara que em algum momento diminua.