bob

Naturalmente, o meu primeiro contato real com o reggae, de saber que aquilo que eu estava ouvindo era reggae, foi, como é o caso de quase todo mundo que habita o planeta terra e não teve a ventura de brotar na curiosa ilha da Jamaica, com Bob Marley.

Talvez eu tenha ouvido Gilberto Gil antes, eu ouvia o Gil desde criança, mas aí era aquele negócio travestido de pop, encharcado de dendê, brasileirão, outra vibe.

And don’t get me wrong on that: Gil a natty.

Todavia, não era the original.

Enfim.

De toda forma, lembro das minhas primeiras audições do Bob terem rolado no começo da adolescência, ali pelos 12 ou 13 anos, muito provavelmente sendo Redemption Song ou Is This Love? a minha iniciação oficial. Lembro também de não ter batido automaticamente ali, e só ter feito mais sentido um pouco mais tarde, quando tinha uns 16 ou 17 anos e conheci o álbum Kaya, com uns petardos como Satisfy My Soul e Running Away (além da faixa título) fervendo constantemente os meus ouvidos e pensamentos. Até hoje, por sinal, toda vez que começa a chover eu sinto vontade de blaze up the chalwa graças à frase got to have kaya now/ for the rain is failing.

Embora eu tenha tido alguns grandes momentos herbalistas relacionados a esse disco – como a vez em que me senti derretendo de verdade dentro de um Gol bolinha andando a 3 km por hora na Interpraias (uma via de chão de pedra cheia de grama no meio que liga diversos balneários do litoral norte do Rio Grande do Sul), sentado na carona, suando brutalmente no calor e ouvindo Sun is shining, ou quando acreditei ter descoberto uma “guitarrinha secreta” num ponto muito específico de Crisis – a verdade é que depois que comecei a me aprofundar mais no tesouro musical inesgotável que é a música jamaicana, acabei deixando o Bob meio de canto.

Até pouquíssimo tempo atrás eu mantinha um preconceito bobo com Marley, dizendo pra mim mesmo (e pra qualquer um que me perguntasse) que achava suas músicas pop demais, que aquilo não era reggae de verdade, que era muito diluído, muito mastigado. Coisa de branco.

Sério.

Todavia os últimos dois anos me jogaram no colo duas traduções enormes totalizando por volta de 1200 páginas sobre a história – real e ficcionalizada – de Robert Nesta Marley (A Brief History of Seven Killings, do Marlon James; e So Much Things To Say, do Roger Steffens). Nesse processo de contextualização e ressignificação, acabei reouvindo muita coisa que eu já conhecia, e descobri muita coisa que pra mim era nova. Prestando uma atenção diferente, ouvindo com outros ouvidos, outra cabeça, outro coração, só tenho uma coisa a dizer: que arrombado que eu fui.

Como é bom, o Bob.

Não era desse mundo, esse cara. E nem esse pessoal todo que gravou essas músicas com ele. Como eu disse uns minutos atrás ali no Twitter: se o cara bota Concrete Jungle pra rolar, fecha os olhos, escuta, no mínimo, um minuto e NÃO SENTE NADA, pode ter certeza de que este cidadão não possui ALMA.

 

discografia afetiva II

Disclaimer aqui.

Amandla – Miles Davis (1989). Estranho como o Flavito tinha esse gosto amplo no tocante ao jazz: na discoteca dele tinha dixieland, tinha standard, mas, principalmente, tinha essas loucuradas fusion dos anos 80 que eram, em grande parte, vamos admitir, meio chatonas. É tudo uns stabs, uns cowbell, aquele baixo do Seinfeld (nesse caso é do Marcus Miller, but still) e umas corneta meio desconcertante por cima de uns efeitos de robô passando mal. Não conversa muito comigo. Apesar disso tudo, sempre gostei muito de uma faixa grandona chamada Big Time, e foi bem bom ouvi-la de novo.

Airport Love Theme – Vincent Bell (1970). Um dos clássicos absolutos da minha infância. Eu tinha um pouco de medo, um pouco de fascinação por ele – e o Flavito escutava bastante. Aquela guitarrinha psicodélica que parece líquida é uma das lembranças sensoriais mais fortes que tenho. Lembrava com mais força da faixa-tema, mas o disco inteiro é muito bom e, aparentemente, bastante raro também. Ouvi-lo é uma boa forma de evocar a imagem da masculinidade adulta idealizada que eu tinha quando criança: cigarros finos tirados de um maço dourado, um apartamento esfumaçado com sofá de couro liso, quadrado, caramelo, janelas noturnas bem servidas, uísque com gelo num copo baixinho, uma mulher enfiada num penhoir mastigando uma piteira. Que criança eu era!

Luz – Djavan (1982). Neste ponto sou obrigado a fazer um mea culpa. Quando alguém taxa Djavan de chato na minha frente, tendo a defendê-lo com forte convicção. Pois essa convicção foi severamente abalada após ouvir este álbum que, de bom mesmo, só tem a espetacular Sina e a maravilhosa Samurai – ambas tão extremas que quase compensam o fato de todas as demais músicas serem absolutamente tenebrosas. Nem consigo lembrar direito das letras ou das melodias. Quase não deu pra escutar até o fim. Eu tinha uma memória afetiva muito mais favorável ao bardo das Alagoas. Veja só como são as coisas.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – Beatles (1967). Outro dia o disco fez 50 anos, lembrei que tinha trazido um exemplar surradão nessa leva de vinis da casa dos meus pais e fui sacar da embalagem pra botar na vitrola quando tive duas surpresas. A primeira: aquela página com uns desenhos para recortar – incluindo um bigode pra pendurar debaixo do nariz – que não lembro de ter visto quando era criança. A segunda: no selo do disco, uma assinatura do Henrique Schucman, o famoso tapeceiro do Pouso do Tapeceiro, da praia da Gamboa/SC. Enquanto ouvia o vinilzão pesado e grosso de 1967 (edição nacional) ficava me perguntando: “será que Flavito pegou emprestado o disco do Henrique e nunca mais devolveu?” Gosto muito do disco e acho todo ele bom, mas o ponto alto foi ouvir a “reprise” da faixa título e perceber que foi justamente ali que desenvolvi meu gosto pela música eletrônica (por conta do beat absolutamente fatal). Thanks, Ringo.

Portrait in Music – Burt Bacharach (1971). Sempre curti demais o easy listening do Burt, que é, disparado, o cara que fez as músicas mais fáceis de ouvir que eu conheço. Não lembro de uma que eu não goste. Esse disco em particular, todavia, não havia me tocado muito, posto que esperava que fosse todo instrumental, e estava repleto de uma cantoria sem muita graça. Todavia, escondido no finzinho do lado B havia um grande presente para o Dido: a faixa Any day now. Alguns anos atrás, acordei com a melodia do saxofone (ou clarinete) que sola no comecinho dessa música, sem saber que era dela. Procurei alguns dias na internet, assobiei pro SoundHound, tudo sem sucesso. Então liguei pro Flavito e cantarolei a melodia pra ele. Ele não reconheceu de imediato, mas achou familiar e foi procurar. Durante semanas, toda vez que eu ia almoçar na casa dos meus pais, ele me mostrava algum disco do Fausto Papetti, do Stanley Jordan, ou do Santana, crente que tinha encontrado aqueles acordes. Nunca era ela. Depois de algum tempo, paramos de procurar. Hoje, quando finalmente a encontrei, deu uma vontade enorme de ligar pro Flavito (que não usava Facebook e nem WhatsApp por princípio e teimosia) e, deixando a música rolar de fundo, declarar: “encontrei.” Mas isso não dá mais pra fazer.

South of the Border – Herb Alpert’s Tijuana Brass (1964). Não lembro do Flavito ouvindo esse disco sequer uma vez – bem como não lembro dele ter jamais posto pra tocar os compactos do TRINY LOPEZ, que ele também tinha. Mas lembro bem da capa, do impacto que me causou a logotipia e a essência latina que parecia estar ali contida. Mais velho, ouvi muito remix do Tijuana Brass, de modo que quando vi esse disco na discoteca do Flavito resolvi trazer, mesmo sem jamais ter ouvido. Foi uma escolha meio ruim. É um disco xarope, com versões meio pau mole de grandes sucessos, como Garota de Ipanema e Hello Dolly. Faltou uma pimenta, uma pólvora, um sangue correndo forte ali naquelas veias. Que pena.

Mais – Marisa Monte (1991). Sempre gostei muito de Marisa Monte, e esse disco é quase perfeito. A voz dela está muito bonita, as letras são ótimas (que grande canção é Diariamente). Tenho a vaga impressão de que o Flavito já tinha esse álbum em CD quando alguém lhe deu o vinil de presente. Faria sentido: foi por volta de 91 que ele deu pra mim e pro meu irmão nossos primeiros CDs (Ten, do Pearl Jam e Nevermind, do Nirvana). Acho que ouvimos muito poucas vezes esse disco, portanto – sobretudo ele.

Meus Caros Amigos – Chico Buarque (1976). Não transo um Chico Buarque, como é do conhecimento de muitos. Todavia hoje já aprendi a respeitar como o enorme compositor que é. De qualquer modo, esse era um disco dele que o Flavito ouvia muito. Lembro particularmente de Mulheres de Atenas, música que me enchia de pavor (junto com a música do Cálice e uma que não sei se era o Chico que cantava com a Mercedes Sosa). Por algum motivo associo essa música a um blusão de lã branco que o Flavito teve em algum momento. Não sei explicar o porquê.

Tim Maia – Tim Maia (1970). Mais um disco com história oculta, uma vez que: a) não lembro de ouvir o Flavito tocando jamais em toda sua vida; b) no selo está escrito o nome Ana Maria Czarobai, minha tia, irmã dele. Independentemente disso, trata-se de disco muito formidável, o primeiro do Tim. Tem alguns momentos meio dispensáveis, mas na média é uma sonzeira de altíssima qualidade, sobretudo Eu amo você. Que bom que está em estado perfeito de conservação, sem um mísero arranhão, com os graves totalmente preservados. Que joia extrema.

 

discografia afetiva I

Disclaimer aqui.

Caetano Veloso – Caetano Veloso (1971). Achei curioso não ter tantos discos do começo da carreira da Caê na discoteca de Flavito, o que, pensando bem, até que faz sentido, posto que só fui ouvir Transa, por exemplo, na altura dos vinte e vários anos (e só bateu mesmo depois dos trinta). O polaco gostava mesmo era da fase Circuladô e Velô e coisa e tal. Esse é um dos raros exemplos: o disco que o Caetano compôs no exílio na Inglaterra nos anos 70. Fortemente melancólico, levemente chatuba, não me comoveu. Não lembro também do Flavito ter ouvido muitas vezes, exceto por London, London. Essa rolava lá na baia. Eu lembro até de ter decorado o refrão, uma das primeiras frases que aprendi em inglês. Talvez ele só tivesse comprado o disco por London, London, talvez só tocasse essa música. Por que não? Isso nunca tinha me ocorrido, mas agora ocorreu. Talvez. Não lembro mesmo de nenhuma das outras músicas, da tristeza extrema contida neste álbum (um mérito), da música meio monótona (demérito), da pronúncia macarrônica (traço quirk que pode pender pra qualquer um dos lados, dependendo dos seus gostos).

Realce – Gilberto Gil (1979). Que discaço. Flavito ouviu demais esse álbum, a ponto de ter um arranhão que mais parece um talho de faca no lado B (que, todavia, não fez o disco pular, apenas acrescentou estalos quase imperceptíveis a uma ou duas faixas). Muita música linda – a faixa-título Realce, Sarará Miolo, Superhomem, a canção e Marina entre as minhas preferidas -, uma crowdrocker com rising action invejável (Toda menina baiana) e o sensacional cover de Bob Marley, Não chores mais. Não lembrava que essa música estava nesse disco, mas ouvi-la me fez lembrar que Flavito achava um toque absolutamente genial de Gil a parte da letra que diz “ob-observando”. De repente me dei conta que talvez ele tenha morrido sem saber que o toque de genialidade era, na verdade, de Bob, que já tinha cunhado “ob-observing” na sua original.

A Arte de Chico Buarque – Chico Buarque (1976). Embora não seja grande fã de Chico Buarque e, até algumas horas atrás, possuir grande birra para com sua obra (sobretudo por conta de sua voz), trouxe 3 discos dele (Meus Caros Amigos, o álbum de capa vermelha de 1984 e a coletânea A Arte de Chico Buarque) para o deleite de Petite, que admira o bardo. Este álbum duplo traz os principais sucessos do amigão até 1976 – que já era coisa pra caralho. Fui obrigado a remover meu chapéu. Que bonitas as melodias do Chico. E tudo casa bem com a voz dele, pelo menos até essa época. A audição de Joana Francesa me transportou de volta às tardes de domingo de inverno quando, após o almoço, Flavito sentava em silêncio numa poltrona e ouvia discos fumando, de olhos fechados, eventualmente cantarolando algum pedaço.

Mahavishnu – Maha Vishnu Orchestra (1984). Esse eu olhava a letra branca fininha na capa preta, lia o nome e já pensava numas cítaras arregaçando, posto que confundia com Ravi Shankar – que Flavito também admirava e possuía. Não sabia nada sobre essa banda e não lembro de Flavito ter ouvido sequer uma vez na minha presença, mas é aquele jazz fusion dos anos 80 que ele, por algum motivo, curtia demais: também tem altos Jean Michael Jarre, Stanley Jordan e Fausto Papetti na discoteca dele, mas estes não trouxe (embora tenha vindo um Amandla, do Miles Davis, que surfa delícia nessa onda).

Gala 79 apresenta o melhor de Isaac Hayes – Isaac Hayes (1979*). Não sei absolutamente nada sobre Gala 79 e a internet não colaborou muito em prover resposta, apenas sugerindo tratar-se de selo responsável pelo lançamento de coletâneas diversas de música setentista, incluindo Secos & Molhados, Creedence Clearwater Revival e Chico Anysio, além de seletas de sambas e de trilhas sonoras de novelas. Independentemente de qualquer coisa, lembro demais do Flavito ouvindo esta pepita e PELA MÃE DO GUARDA, que negócio espetacular. Botar esse disco pra ouvir o tema de Shaft e Walk On By explicou muita coisa sobre o clique inicial dos meus gostos musicais mais persistentes. Que sonzeira demolidora. Onde quer que esteja, Flavito (nem que apenas em minhas lembranças): thank you for that, my soulman. Cafe to Regio’s. Agora eu lembro. Agora eu sei. Que coisa.

a discoteca do flavito

Sem querer soar o hipster retrôzão da vinilzeira, mas meio que já soando: nessa última passagem por Porto Alegre resolvi dar uma garimpada boa nos discos do meu pai. Tinha um bom gosto fudido aquele polaco. Eu sempre soube disso, mas fuçando no acervo dele tive essa certeza renovada. Trouxe pra São Paulo uns 30, sendo que uns 7 ou 8 eram meus e do meu irmão: Faith No More, Michael Jackson, Guns’n’Roses e Legião Urbana. Entre os dele busquei Vincent Bell, Maha Vishnu, Isaac Hayes, Sarah Vaughn, Duke Ellington, Miles Davis, Gil, Caetano, Chico, Tim Maia, Marisa Monte, Djavan, Beatles, Burt Bacharach, Herb Alpert and the Tijuana Brass. E não veio nem 10% – Flavito tinha coisa pra caralho.

Nas próximas semanas, a ideia é sentar no chão, acender ou bebericar uns troço e ir ouvindo esses discos, pensando em escrever alguma coisa sobre o que acontece.  Certamente suscitarão memórias profundas de criança. Só de olhar as capas de alguns deles já me vieram cheiros de chuleta de porco com abacaxi e cereja, o sol do inverno aquecendo um tapete branco e felpudo, a voz bonita, gentil e grave do Flavito explicando alguma coisa e fumando um crivo, o olhar vidrado, totalmente tomado pela música.

Os discos dele foram escolhidos com base em dois critérios: a) qualidade musical extrema; b) memória afetiva de infância. Durante os anos 80 e grande parte dos 90, Flavito ouvia MUITO esses discos, de modo que fazem parte, também, da MINHA trilha sonora. Grande parte dessa trilha está adormecida há anos. Não lembro qual foi a última vez que sentei pra ouvir um disco de vinil com meu pai.

Buenas, mas era isso.

Se nada der errado, começo a audição destes álbuns neste sábado – vulgo amanhã.

Veremos o que se apresenta.

skr skr skr

Fui ouvir o tal do Raffa Moreira depois da confusão em que ele se meteu com o Haikaiss meio que esperando que o som fosse uma bosta e ele fosse um cuzão – mas estava duplamente enganado: o som do cara é espetacular e ele está absolutamente correto em tudo que diz.

A treta já era um pouco mais antiga na internet, mas ganhou notoriedade no final de março quando um repórter do G1 o entrevistou sobre a presença do Haikaiss no Lollapalooza e ele reclamou do excesso de brancos no rap brasileiro. Neste momento eu já tinha concordado 100% com o Raffa, posto que: odeio Haikaiss. Acho o som uma merda: letras vazias, vozes horrendas, flow murcho, bases sem alma. E, sim, são todos brancos, aparentemente boys, fazendo cosplay de favela (como diz o Coruja BC1, não necessariamente falando deles, mas, né?). O bom e velho MANINHO DA PUC, em Dids Speak. Eu, que sempre gostei de rap, andava triste há muito tempo vendo que era isso (e Cone Crew, e Felipe Ret, e Projota) que fazia sucesso no Brasil.

Ao mesmo tempo, nunca tinha ouvido falar desse maluco desse Raffa Moreira, e passei uns dias achando que também era mais um MC zé ruela cagadão querendo cavar um espaço na mídia a todo custo.

Como eu estava errado.

Vários dias depois disso tudo, meio distraído, ouvi a segunda parte do cypher Poetas no Topo (convenientemente batizado de “Poetas no Topo 2”) e curti muito o maluco que cantava no começo do som (nem tanto os outros todos), mas meio que passou batido. Lá pela segunda ou terceira audição, todavia, resolvi prestar atenção no nome do cara e me perguntei “Peraí, esse não era o maluco lá que esculachou os Haikaiss?”

Era.

Resolvi jogar o nome do cara no Google, li uma (excelente) entrevista dele pra Noisey (tão boa que acabou traduzida pro inglês e entrou na versão internacional do site) e quando dei por mim já estava há mais de uma hora no YouTube e tinha ouvido OITO mixtapes dele na sequência, todas mais ou menos com 10-15 minutos, contendo 4 ou 5 músicas. Número de músicas ruins: ZERO. Sério. Que troço impressionante esse cara. Não erra UMA.

Sua música é totalmente fora do padrão. Qualquer padrão. Ele diz fazer trap – aliás, se autodenomina “Rei do Trap de Guarulhos”, um título tão incontestável que eu iria mais longe e trocaria Guarulhos por Brasil, simplesmente porque não tem NINGUÉM fazendo nada remotamente parecido no país. Mas mesmo que a gente encaixe o som do Raffa dentro do espectro do trap, ainda assim ele é diferente. As músicas começam e terminam do nada, sem aviso, as melodias oscilam entre o fofinho ensolarado e o sombrio criminoso, sempre abusando do auto-tune e dos climas inacreditáveis. É tudo feito dentro de uma visão muito particular e forte de quem ele é é que música ele faz, ou seja: o cara tem uma voz muito definida, uma persona extrema, um experimentalismo grande. Respeito demais quem é assim, ainda que o trabalho não seja tão bom – até porque me identifico muito, e sinto que me posiciono exatamente assim no universo.

No caso do Raffa Moreira, todavia, além de tudo isso, o trabalho é foda pra caralho. O chamado arregaço.

As letras são muito loucas, as métricas não fazem o menor sentido, e as rimas nem sempre estão ali, mas mesmo assim: funciona. Em vários momentos ele é engraçado pra caralho (Calça apertada, foda-se se é a mesma do clipe, hey/ Eu uso as mesmas calças dos meus clipes pra andar de skate), em outros é straight up gangsta (Eu soube que cê me viu, ficou gelado/ Quis atravessar a rua e eu tava armado/ Você chamou os seus amigos pro seu lado/ Quando eu sacá a peça, corre arrombado). O resultado é um bagulho totalmente surpreendente e viciante, disparado a coisa mais criativa surgida na música negra de periferia no Brasil nos últimos 20 anos.

Recomendo que você entre no YouTube, digite “Raffa Moreira” e saia escutando TUDO que aparecer pela frente. Se tiver que ouvir só uma coisa, ouça a mixtape RAW RAW EMO (assinada como “xYoung Moreirax AKA Skate Draco”), que ele fez em resposta a um ataque de Twitter de um membro do Haikaiss, Pedro Qualy, que desencavou uma foto sua fazendo pose com uma banda emo na qual ele teria tocado no começo dos anos 2000. Em vez de ficar puto, Raffa achou graça: falou que a música emo está entre suas princilais influências e disse se orgulhar de ter tocado na banda (nota: também já integrou a banca do grupo de pagode Os Travessos). Ainda foi lá e mandou essa mixtape espetacular de resposta. Que tapa de luva extremo.

Se os 11 minutos de Raffa Moreira forem demais prum primeiro contato, tente as músicas soltas (todas encerrando na casa de 2 minutos). Boas sugestões são: Gelo e dois copos, Rockstar, 28 Swag, Print na Briga e Michael Jackson (uma das músicas mais estranhas que já ouvi na vida, mas que está fervendo quente na minha cabeça desde que escutei).

O moleque é estranho, o moleque é maluco, mas o moleque é talentoso, criativo e original pra caralho e: vai estourar (mesmo ele dizendo que não faz questão).

Fiquem atentos.

rep

Curioso pensar que rap (rhythm and poetry), em português, também é rep (ritmo e poesia).

Mais curioso ainda constatar que uma novíssima geração de rappers brasileiros está conseguindo realizar o sonho dourado das gerações passadas: a criação e manutenção de um mercado independente forte, baseado em batalhas de freestyle, vídeos no YouTube e presença nas redes sociais, sem a necessidade de interferências externas, gravadoras e jabás.

Nas últimas semanas, após cair acidentalmente num vídeo de um cypher (termo usado originalmente para designar uma batalha de freestyle, mas que no hip hop brasileiro de 2017 é sinônimo de um single, sempre em formato vídeo, em que vários artistas do gênero colaboram rimando juntos sobre uma mesma base) chamado Poetas no Topo, comecei a me inteirar sobre o trabalho de gente que está na cena há pouquíssimo tempo, mas já vem fazendo um estrago considerável.

Só esse vídeo, por exemplo, que traz Makalister (SC), BK (RJ), Menestrel (DF), Djonga (BH), Sant (RJ) e Jxnvs (RJ) rimando sobre uma batida de Slim (RJ), da Brainstorm Studio, tem mais de 6,6 milhões de views em pouco mais de 3 meses. A continuação, com outros rappers como Coruja BC1 (SP) e Baco Exu do Blues (BA), está quase batendo os 10 milhões na metade desse tempo. Vídeos solo de qualquer um desses caras, bem como seus álbuns digitais alcançam 1 milhão de execuções na mesma plataforma sem muito esforço. Os do Froid (DF), por exemplo, contabilizam entre 5 e 7 milhões de visualizações CADA sem que você jamais tenha visto suas fuças na TV, lido suas frases no jornal nem escutado sua voz no rádio.

O ponto é que tem um movimento enorme surgindo aí, alheio ao mainstream, pouco notado pela mídia tradicional, e trazendo a seguinte vantagem adicional e inesperada no pacote: graças às letras extremamente complexas e cheias de referências que esses caras estão escrevendo, tem muito moleque por aí falando em metáfora, figura de linguagem e rima multissilábica, considerando ser inteligente uma coisa boa.

Como nada nunca é perfeito, a contrapartida mais nociva dessa nova cultura são os fan boys e os haters, gente que passa o dia brigando nas caixas de comentários ou defendendo (chupando o saco) ou atacando (chutando o saco) seu MC preferido de maneira quase sempre mortalmente ridícula.

Quando paro pra pensar nisso procuro dar um voto de confiança e uma colher de chá, posto que o grosso da massa ainda é formado por uma rapaziadinha muito juvenil, saindo da adolescência ou se aventurando nos primeiros anos da vida adulta. Muito ou pouco, todo mundo sempre aprende. Deixa o tempo agir.

De todo modo, ando bem feliz com o que vem produzindo os rappers brasileiros da segunda metade dessa década. Bases excelentes, letras ainda irregulares – embora isso signifique que para cada catástrofe há também um clássico sendo escrito -, mas cada vez mais uma busca muito consciente de lapidar cada produção rumo à excelência total. Menção honrosa nesse time de destaque da novíssima cena para os ouvidos deste seu Dido: PrimeiraMente, Síntese e Rincon Sapiência, todos de São Paulo; e Don L, de Fortaleza.

o caçador de estrelas

Dia 15 de dezembro de 2016 fez um ano que o Flavito morreu.

Hoje acordei com uma dúvida atroz, a mesma que já havia me fustigado os gargomilhos na manhã de ontem: era no dia 2 ou 3 de fevereiro o seu aniversário? Pareceu esquisito não possuir mais essa certeza, e fiquei o dia inteiro me perguntando se devia ou não ligar para minha mãe ou pro meu irmão para tirar a teima. No fim não liguei. Deixei quieto. De repente me ocorreu que não fazia muita diferença de qualquer forma lembrar o dia do aniversário de alguém que já se foi. Especialmente no caso do Flavito, posto que penso no meu pai: todo santo dia.

Fato é que eu queria aproveitar essa data (ou a de ontem, talvez) para contar uma história.

Sendo assim, lá vai:

Impressionante como Flavito segue criando coisas bonitas apesar da tremenda desvantagem de estar morto.

Ano passado tivemos um Natal e um Ano Novo bem esquisitos em família, e não poderia ter sido diferente levando em conta que o havíamos perdido há poucas semanas.

Desde que me conheço por gente ele sempre foi a alma da festa. A esmagadora maioria dos Natais dos Pontes-Czarnobai (e de vários outras combinações de Pontes e Czarnobai) se deram na nossa casa. Era ele quem mais fazia questão. Como gostava de dar uma festa, aquele polaco safado! Como gostava de cozinhar pros outros, escolher a música, acolher quem chegava com um uisquinho, uma vodca, uma mesa cheia de aperitivos. Tinha sido meu Papai Noel da infância, e da infância do meu irmão e de tantas outras crianças depois que deixamos de acreditar na fantasia. Cozinhava bem pra caralho, e sabia receber como poucos. Se eu disser que aprendi tudo que sei com ele estaria mentindo, porque mais sabe o diabo por ser velho do que ser o diabo, e mestre como era, tenho certeza de que jamais entregou todo o jogo.

Este ano, pra dar uma refrescada em nossos corações e dar início a uma nova tradição, resolvemos fazer a festa de Natal na minha casa, que agora é, e pelos últimos cinco anos tem sido, um apartamento em Santa Cecília, na gigantesca cidade de São Paulo. Viriam minha mãe, meu irmão, a mãe da Marcela e um de seus irmãos. Não era ainda o time completo, mas tudo bem: já era um começo. Sem entrar nos pormenores da festa, seus bastidores e resultados, direi apenas que foi um grande sucesso. Flavito teria ficado tremendamente orgulhoso. Certamente seria a pessoa que mais teria gostado de tudo se tivesse podido estar aqui em corpo – posto que em espírito certamente estava presente.

Antes disso, entretanto, aconteceria algo que me faria lembrar que os principais ensinamentos que um pai pode deixar para um filho são as coisas que não são ditas, que se entranham profundamente na nossa carne e lá dentro ficam agindo pra sempre, em silêncio, até que se evidenciam de surpresa, e no momento certo.

(…)

Voltemos a dezembro de 2015.

Cinco dias após a morte de Flavito, um dos irmãos dele, o Tio Fernando, estava em sua casa (curiosamente também um apartamento em São Paulo, embora não em Santa Cecília) cozinhando o luto quando teve um estalo. Lembrou, de repente, de toda a melodia e grande parte da letra de uma música que Flavito havia composto no começo dos anos 70, para algum tipo de festival que faziam na PUC/RS.

Totalmente em chamas com essa lembrança repentina, Tio Fernando teve uma ideia. Entrou em contato com um dos filhos, o Cláudio, que mora em Santiago do Chile, e ensinou a melodia da guitarra pra ele. Falou também com a Fernanda, a outra filha, que mora em Berlin, e ela elaborou uma linha de baixo. Meus primos, que tocaram por anos em diversas bandas de punk e metal, ativaram seus contatos em São Paulo e conseguiram horas de estúdio para que o Tio Fernando gravasse os vocais. O baterista da banda punk Calibre 12 operou a bateria.

No dia 18 de dezembro de 2016, Tio Fernando fez um churrasco. A casa estava cheia, e as barrigas de todos também. Tomávamos café. Lá pelas tantas ele disse “André, escuta só esse som.” Ele sempre me apresentou uns sons altamente furiosos – Me’Shell Ndgeocello e El Cuarteto de Nós, entre outros -, então eu já esperava que gostaria do que quer que ele fosse tocar ali.

O som começou e era, de fato, muito excelente.

Minha primeira reação foi perguntar: “De quem é isso?”

Ele deu o Sorrisinho Czarnobai. O Sorrisinho Czarnobai é uma instituição provavelmente milenar, certamente secular, que consiste em cerrar os dentes, abrir a boca e manter os dentes na mesma posição, fazendo um mandrake com os olhos e a cabeça que aí é mais difícil de explicar – mas se você já viu alguma vez você sabe exatamente como é. Usa-se esse expediente de muitas maneiras, geralmente humorosas, mas a principal delas é quando tu não sabe que não pode responder aquela pergunta naquele momento. Seja pra não dar o braço a torcer, não se entregar numa discussão, não admitir um pequeno deslise ou não estragar uma surpresa. Nesse caso, claro, era o último caso.

“Depois te conto,” ele disse.

Até essa altura eu não suspeitei de nada.

Ouvi mais um pouco, estava começando a balançar a cabeça, achando o som realmente muito bom. Insisti.

“Muito bom, mesmo. Mas sério, de quem é isso?”

Novo Sorrisinho Czarnobai. Novo “Depois te conto.”

Aqui eu já comecei a suspeitar. Sabendo que meus primos são músicos, me ocorreu que talvez eles tivessem feito uma música pra tocar entre eles. Todavia, neste momento ainda era apenas um pensamento, uma possibilidade muito remota.

Mas aí entrou o refrão. Essa parte é muito forte, o baterista arrebenta com tudo, a guitarra faz uma firula muito espetacular, e o vocal acrescenta uma camada de emoção difícil de ignorar. Achei realmente bom pra caralho e tive algum tipo de reação física muito forte, contorcendo os beiço pra baixo e franzindo a testa (aka “the bass face”) enquanto agitava a cabeça e o corpo com mais força e dizia algo como “Bah, muito bom isso aí. O que que é?”

Aí o Tio Fernando não se aguentou e revelou que era a: Czarnoband.

“Isso aí sou eu cantando, certo? E o Cláudio na guitarra e a Fernanda no baixo. E o Oscar, o Czarnobai honorário, na batera.”

“Caralho, muito bom. A música é de vocês mesmo?”

Daí esse momento foi pra quebrar.

“É do Flavito.”

CARALHO.

Minha mãe, minha tia e a Marcela choravam copiosamente. Eu tive uma crise de riso, uma alegria muito esmagadora, difícil de definir. Era mesmo boa pra caralho aquela música, e era o meu pai quem tinha feito. Puta que pariu.

Tio Fernando passou alguns minutos explicando todo o processo que levou UM ANO, envolvendo guitarras gravadas no Chile, baixo na Alemanha e algumas visitas a um estúdio pra gravar os vocais. Em seguida, entregou um CD, com um encarte, para cada um de nós, contendo letra, história e algumas fotos incríveis, que eu nunca tinha visto, uma delas meu pai com uns 20 e pouquinhos, ao lado do Henrique “Tapeceiro”, seu grande amigo de anos e anos, os dois de terninhos, com um violão no joelho, compondo e cantando.

Era exatamente o tipo de coisa que meu pai fazia.

Uma das coisas mais tradicionais das festas de Natal eram justamente esses presentes artesanais que o Flavito aprontava. Um ano era uma fita VHS com os melhores momentos dos almoços de família, outro era um DVD com todas as fotos digitalizadas do começo dos anos 70 até a metade dos anos 2000, no outro uma cachaça de butiá, no outro uma caponata, e assim por diante. A principal característica desses presentes, entretanto, eram as embalagens e os encartes. Sempre havia textos muito maravilhosos e uma diagramação que imitava o produto real, mas com os seus toques pessoais. É famosa a história da vez em que uma garrafa de cachaça de pitanga só embarcou no avião porque os funcionários da alfândega acharam que o selo do Ministério da Agricultura e o código de barras eram genuínos.

Tio Fernando foi lá e fez a mesma coisa.

Foi uma forma muito bonita de manter viva uma tradição que tinha começado com o Flavito, e uma das primeiras vezes na vida que ficou muito claro pra mim o significado de família. Ali tinha envolvido amor de irmão, de pai, de mãe, de tio e tia, sobrinho e sobrinha, primo e prima, cunhado e cunhada, sogra e sogra, nora e genro. Estava tudo ali. Sinto Flavito muito presente em minha vida todos os dias desde sempre, mas naquele momento sua presença foi ainda mais forte. Parecia mesmo que ele estava ali. E, de certa forma, ele estava. Quer dizer, foi ele quem nos ensinou a fazer as coisas assim, a amar desse jeito, a dividir nosso coração com os outros dessa forma.

Nos dias seguintes, ouvi essa música pelo menos umas dez vezes por dia. Toda vez que chegava no refrão, eu tinha uma crise de choro muito intensa. Em parte porque eu ficava triste de ele não estar mais aqui, em parte porque eu ficava feliz por tudo que ele representava ainda estar aqui, em parte por simplesmente me sentir esmagado demais por toda a beleza do gesto – e porque a música era realmente boa pra caralho ainda por cima.

Meu lado místico teve muita dificuldade em ignorar a forte possibilidade de tudo isso ter sido, no fundo, uma manobra orquestrada pelo Fantasma de Flavito em pessoa, posto que era tudo muito ELE aquilo ali. A letra da música, então, falando sobre vida e morte, do jeito que fala, putalamerda.

Meu lado racional, por outro lado, fica imaginando o papel decisivo que a baixa confiabilidade da memória somado à força descomunal das emoções podem ter exercido nesse episódio, fazendo o meu tio, de forma quase acidental, criar uma letra carregada desses signos que conversam nesse nível quase transcendental conosco.

A verdade provavelmente está no meio das duas coisas, aí.

De qualquer forma, a música é essa:

Recomendo a audição acompanhada da leitura da letra.

No mais é isso.

FLAVITO ETERNO: AME-O OU DEIXE-O.