três do flavito

Lembrei de três histórias mágicas e emblemáticas do Flavito, que ajudam a resumir bem quem ele foi pra quem não teve a sorte imensa de o conhecer:

a) Quando éramos crianças, sempre que tinha festa de aniversário lá em casa, quando a festa acabava, o Flavito pegava eu e meu irmão, a comida que tinha sobrado e, junto com a gente, saía pela cidade num Fusca até encontrar um mendigo, um morador de rua, uma família embaixo de uma ponte e, juntos, doávamos a comida. Não lembro de ter nenhuma lição de moral aí, nenhum discurso. Não tinha um “ó, é isso que vocês tem que fazer.” A gente fazia e só. Passei anos sem lembrar disso. Décadas. Veio uns dois dias depois da morte dele, do nada, enquanto eu tomava um banho. Lembrando disso, eu chorei – mas não de tristeza, e sim de algum tipo de gratidão profunda que não sei nem explicar.

b) Já doente, no hospital, Flavito um dia esperou um enfermeiro muito gente fina que tinha lá sair do quarto, chamou a Sandrinha de canto e disse: “O fulano tá com dificuldades pra pagar a faculdade de medicina, que ele quer terminar pra mudar de vida. Quando eu sair daqui, quero ajudar ele a pagar a faculdade.” Não chegamos a fazer isso e é uma coisa que às vezes me incomoda. Me pergunto se não deveríamos ir atrás desse cara e fazer mesmo isso por ele.

c) Quando o quadro já era irreversível, mas Flavito ainda conseguia falar, beber e comer, ele insistia em fazer a festa de 40 anos de casado no Chez Phillipe, um restaurante francês que ele só foi descobrir mais velho, quando finalmente teve condições financeiras de frequentá-lo. Todos sabíamos que aquilo não aconteceria, mas, para que ele tivesse direito a uma última refeição, inventamos uma pantomima que dizia que o chef enviaria um dos pratos do cardápio para sua aprovação. Acontece que demos o imenso azar do Chez Phillipe estar fechando as portas definitivamente naquela semana. A família retornaria para a França, estava vendendo os móveis e equipamentos, provavelmente imersa em burocracia e dor de cabeça (sem contar a frustração). Mesmo assim, quando Petite ligou para lá e explicou a situação, o chef – que não nos conhecia, não tinha a menor intimidade com nenhum de nós – parou tudo que estava fazendo para cozinhar um filé espetacular com purê e legumes e um creme brulée para o Flavito. Nunca pude agradecê-lo por isso, mas que ser humano maiúsculo foi Phillipe Remondeau. Fiquei com ainda mais pena da cidade perder alguém como ele. Quando chegou o prato e o levamos até Flavito, a primeira coisa que ele fez foi: cortar um pedaço da carne e oferecer a TODOS que estavam ali antes de dar ele a primeira garfada.

Acho que isso resume bem.

morte

Hoje eu tenho uma relação bastante tranquila com a morte.

Nem sempre foi assim.

Durante a infância e, pelo menos, os primeiros vinte anos de nossas vidas (isso numa existência livre de tragédias e miséria, naturalmente), estamos imersos numa ilusão estranha que nos sugere que tudo é eterno, e que somos imortais. A partir daí, por uma série de fatores – acidentes de carro, overdoses, violência urbana, reta final da vida para os nossos avós e parentes mais velhos e uma maior consciência do mundo e da realidade – o assunto começa a entrar em pauta.

A minha teoria, bastante simples, é a seguinte: mesmo a partir desse choque de realidade, a esmagadora maioria das pessoas prefere continuar vivendo essa ilusão em vez de se preparar, lenta e gradualmente, para o fim inevitável – e é justamente por isso que a morte choca tanto quando se apresenta.

Eu procuro fazer diferente.

(…)

Tive a sorte imensa de ter conhecido os meus quatro avós. Convivi intensamente com os maternos (morávamos juntos), e de forma um pouco mais distante com os paternos (visitávamos minha avó aos fins-de-semana; meu avô só fui conhecer já adulto). Assisti todos morrendo. Os pais do meu pai, mais de longe. Os pais da minha mãe, muito de perto.

Minha vó paterna, Rosa de Toni, desenvolveu uma leucemia, mas, como ela morava em outro bairro e, que eu me lembre, jamais a visitei no hospital, apenas experimentei a sua morte como uma notícia amarga e esquisita dada pelo meu pai numa manhã de fim-de-semana. A minha reação, inesperada principalmente pra mim, foi um ataque de riso, algo que foi prontamente reprovado pelo meu irmão, mais novo, e mais sensível, mas, curiosa e maravilhosamente, compreendido e elaborado da seguinte maneira pelo meu pai, uma pessoa claramente de outro mundo: “Isso é normal. Cada um reage de um jeito.”

Fiquei com aquilo na cabeça. Aprendi (ou acreditei) que em situações extremas, tendo mais a rir que a chorar. Ou, talvez, em situações de morte, apenas. Tanto é que não consegui ir ao enterro da minha vó Elfrida Rosumek, ou do meu vô Pedro Pontes.

Se com a doença da vó Rosa eu tinha aprendido que alguns tipos de câncer tem uma melhora súbita e ilusória perto do fim só para depois despencar a toda velocidade no abismo, com a da vó Frida eu conheci o sofrimento que é manter uma pessoa entrevada numa cama por meses (talvez anos). Não lembro bem como tudo começou. Sei que ela teve um derrame e quando voltou para casa ficou acamada, sem falar ou se mover, dependendo de todos para tudo. Na verdade também não lembro muito bem desse período, ou quanto tempo durou. Eu ainda era uma criança. Lembro de vê-la algumas vezes no seu quarto, os olhos vazios, o corpo ainda muito presente, forte, quente. Com medo de ter ataques de riso no cemitério, não fui ao seu enterro.

O vô Claudio Czarnobai, marido da vó Rosa, a abandonou com quatro filhos para criar e foi embora de casa muito antes de eu nascer, de modo que eu só fui conhecê-lo efetivamente quando estava morrendo de um câncer no fígado e foi acolhido pelo meu pai, num episódio extremamente doloroso de sua vida, que também me deu as maiores lições sobre amor, compaixão e perdão que já tive. Nunca vou me esquecer da visita que fiz a ele no hospital. Parecia comigo. Parecia demais comigo. Comigo velho, grisalho, abatido, mas, ainda assim, eu me vi ali. Era um cara muito interessante, cativante, carismático. Falava gesticulando, era um homem bonito. Vi ali um vislumbre do meu futuro e senti, pela primeira vez, o grande vazio que ele deixou por não ter me encantado a vida inteira como fez naqueles cinco ou dez minutos. Lembro do meu pai encostado na porta do quarto, fascinado, com um sorriso largo no rosto e um brilho inconfundível no olhar. Na volta para casa, no carro, a conversa descontraída e leve de repente teve uma virada brusca: Flavito parou o carro, começou a chorar e disse “Eu já tinha matado o teu avô. Na minha cabeça, ele estava morto.” Não lembro de ter visto meu pai chorar outra vez. Uns dois dias depois, o vô Cláudio, de fato, morreu. Também não fui ao seu enterro, ou não lembro de nada. Eu já era mais velho, aqui, até na faculdade já andava. Mas ainda tinha mais coisas a aprender.

(…)

Meu vô Pedro, pai da minha mãe, foi quem definhou mais tempo, vítima do terrível Mal de Alzheimer. A doença foi ainda mais filha da puta por consumir sua mente enquanto o corpo seguia funcionando de forma perfeita. O vô Pedro era do exército. Membro da cavalaria, era também atleta, com recordes no atletismo que perigam ainda não terem sido batidos. Um negrão forte pra caralho. Aos sessenta e vários, certa feita, segurou com os braços um OPALA sem freio descendo desgarrado uma lomba para evitar que colidisse com o portão de nossa casa. Atravessou a maior parte da doença – que levou, na sua fase mais aguda, uns bons cinco anos – com o físico em dia, todos os parâmetros excelentes. Só derretia, mesmo, a sua cabeça.

Com a doença do vô Pedro, em dado momento, adoeceu a família inteira. Era muito, muito pesado. Meus pais tentaram poupar a mim e ao meu irmão o máximo que deu, mas já éramos adultos ali, ambos com mais de vinte anos, isso nem era tão necessário. Acabamos pegando junto na reta final, o que basicamente significava passar longas horas ouvindo as mesmas histórias enquanto fazíamos companhia (algo que se aproxima muito de uma tortura psicológica, sob certos aspectos). Mas também significava dar banho, ajudá-lo a comer e fazer suas necessidades fisiológicas. Pode até soar cômico, mas depois que tu limpa a bunda ou balança o pinto de um homem de 70 anos que tu sempre teve como referência de fortaleza e simbolo máximo de masculinidade, acontece alguma coisa na tua cabeça que muda pra sempre a forma como tu encara a existência e, sobretudo, o tempo que tu passa nesse planeta.

No enterro do vô Pedro eu fui, e não tive acessos de riso.

Bem como não ri nada no enterro do meu pai.

Algumas pessoas me questionaram por não ter chorado em nenhum desses dois. Imagino que podem ter me visto como frio, ou insensível, ou ainda terem suposto que eu estava sufocando sentimentos. Mas, como anteviu Flavito, de forma muito certeira, como sempre: “Cada um reage de um jeito.”

(…)

Quando Flavito morreu, após uma breve, porém intensa agonia de quinze dias no hospital (e cerca de quatro meses em casa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo e tratando um monte de coisa paralela até finalmente descobrirem o que estava causando todos aqueles sintomas), o primeiro impulso da minha mãe foi o de não fazer velório. Talvez tivesse sido o meu primeiro impulso também, se não fosse por um fator: Flavito era um cara muito amado. Mas muito. E muita gente nem sonhava que ele estava doente. Achei que uma coisa que a gente devia ao Flavito era justamente essa despedida. Achei que talvez fosse positivo pra minha mãe ver que, naquele momento de tristeza imensa, havia muita coisa bonita pra acontecer: e, de fato, aconteceu.

Se tem algo que meu pai soube fazer foi deixar uma marca em todos que o conheceram. Isso se viu claramente no seu velório. Quase duzentas pessoas apareceram pra lhe dar adeus. Pessoas que não o viam há mais de dez anos. Pessoas que eu não via há mais de dez anos. Pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Em comum, todas trouxeram o seguinte: uma história maravilhosa vivida com meu pai, rica, viva, positiva. Houve choro? Claro. Tristeza também. Mas ouve risos, alegria, alto astral. Conhecendo meu pai como conhecia, tenho certeza de que era assim que ele gostaria de ter posto esse ponto final na existência.

Talvez eu tenha lidado tão bem com a morte dele por ter tido, mais uma vez, a sorte de ter falado muito sobre o assunto com ele, especialmente depois do primeiro susto que ele nos deu, em 2009, quando sofreu um ataque cardíaco. As conversas enormes e profundas que tivemos nos meses subsequentes me forneceram uma espécie de conclusão mágica a todas as experiências de morte que tinha vivido com todos os meus avós, e desencadearam uma espécie de ruído de fundo contínuo, que fica me lembrando sempre que a gente tem que estar sempre preparado pra morte se quer viver a nossa vida ao máximo e da melhor maneira possível.

Tenho pensado muito no meu pai ultimamente. Sem motivo claro. Em dezembro acaba de fazer um ano que ele morreu, mas parece que faz uns cinco. Talvez essa seja a maior prova de que eu esteja no caminho certo, botando em prática a minha teoria. Talvez eu esteja preenchendo meus dias com tanta coisa, com tanta vida, que eu não vá me arrepender de absolutamente nada quando a cortina se fechar, logo mais. Espero que o logo mais demore muito, mas se demorar pouco, eu sempre que me deito à noite penso, e sinceramente que, até aqui, não tenho arrependimentos. Sei que ainda não vivi toda a minha vida, mas a que vivi até aqui foi maravilhosa e excelente. Tendo isso sempre em mente, tudo fica mais fácil, me parece. Mas também não sei direito porque.

30h em porto alegre

Acabo de passar 30 horas em Porto Alegre.

Cheguei às 10h30 de quinta, parti às 16h30 de sexta.

Fiz toda essa mão só pra tirar a segunda via do meu RG. A foto do primeiro, feito em 1994, derrete lentamente ao longo dos anos sob o efeito das substâncias contidas na espuma do Ibiza, cabaré megalomaníaco que ficava na praia gaúcha de Atlântida nos anos 90. Não fiz uma nova carteira de identidade em São Paulo porque ela teria um número diferente da original – e isso não me servia.

Sim, imagino que você saiba que ainda não mudou esse esquema totalmente maluco no Brasil que possibilita que qualquer pessoa tenha até 26 números de RG diferentes, um por estado.

Mas enfim, eu não podia.

Então comprei uma passagem pra Porto Alegre cedo na quinta e fui direto até o Instituto Geral de Perícias, onde tinha marcado o horário das 11h30 para encaminhar a segunda via. Cheguei uns quarenta minutos mais cedo e fui atendido logo em seguida. O atendimento todo não me tomou dez minutos: a atendente copiou os dados da certidão de nascimento, perguntou meu endereço, a minha altura, se eu tinha tatuagens (e, caso tivesse, onde ficavam), tirou uma foto, escaneou os dez dedos. Eu assinei duas vezes numa mesa digitalizadora, ela me perguntou se eu queria receber a carteira em 10 dias por 60 e poucos reais ou em até 3 horas por 83,20. Eu não tinha dez dias, mas os vinte pila eu tinha.

Paguei a taxa numa tabacaria parceira do IGP e do Banrisul a 200 metros dali e chamei um Cabify de 4 reais até a casa da minha mãe. O amigão me passou um código maluco que dava 100% de desconto em até R$ 3 mil em corridas até o dia 25 de junho, porém não funcionou. Cheguei em casa às 11h27, três minutos antes do momento em que deveria estar sendo atendido. A jornada se iniciava com uma enorme vitória.

(…)

Na Medianeira, encontrei Sandrinha de chambre e trocamos longa ideia sentados no pátio. Fazia sol, não muito calor. Também não fazia frio. Havia ramos de erva cidreira secos empilhados perto dos nossos pés, e o cheiro que eles exalavam era muito bom. Sandrinha plantou muita coisa no pátio. Matou outras coisas também. A cebola que ela enfiou na terra brotou lindona. O alho também – e que coisa aromaticamente deliciosa é a folha do alho, aliás. Tomate, salsinha, limão, manjericão, malva: tudo firme na paçoca. Teve um alho poró (ela fala porró, que nem Flavito) que um passarinho (ou gato, talvez até rato) desenterrou do chão e levou embora. Isso ela diz.

(…)

Almoçamos num lugar chamado ABRACCIO, que abriu faz pouco no Praia de Belas. Italiano de rede, caro para o que serve, mas não é de todo ruim. O pão com azeite com ervas que servem de entrada (que basicamente é a versão italiana do pão preto com mel e manteiga do Outback) tem o seu mascability, porém carnes, massas e sobremesas são apenas decentes. No pavor ou na pressa quebra um galho, porém não manda uma brasa tremenda.

Na minha opinião.

(…)

Saímos do shopping levemente queimados, pouco depois das três e meia. Meu plano era estar de volta ao IGP antes das três, para dali rumar para um cartório, onde deveria executar a segunda parte da minha missão: obter uma cópia autenticada.

Essa odisseia toda começou porque eu precisava anexar uma cópia autenticada de um documento de identidade a uma papelada destinada a certos fins. Tentei usar minha carteira de motorista, mas dois tabeliães se recusaram a autenticar uma cópia do documento porque o número ‘1’ da data ’13/08/2017′ estava praticamente apagado no original, e simplesmente não aparecia no xerox.

Eu poderia – e deveria – renovar a carteira de motorista? Lógico que sim. Todavia, DETRAN/SP não realiza a renovação de CNH de outro estado, de modo que teria as seguintes opções: a) solicitar uma transferência de CNH e, levando em conta que vence em menos de dois meses, logo em seguida renová-la; b) tirar uma primeira via, provavelmente tendo que fazer aulas, cursos, pagar exames e coisas do tipo; c) ir até Porto Alegre só para renová-la: que foi a primeira coisa em que eu pensei.

Todavia também me ocorreu que esse processo, independente de ser realizado em Porto Alegre ou São Paulo, demoraria pelo menos uma semana – e eu precisava do documento meio que JÁ.

Then came the RG solution.

(…)

Chegamos no IGP umas vinte, quinze pras quatro. Não notei de primeira, mas aos poucos foi ficando mais claro que havia algo de estranho no ar. A sala parecia mais vazia, menos viva, embora houvesse agora muito mais gente do que quando havia passado por ali de manhã.

Tinha duas pessoas na minha frente na fila para retirar o documento pronto. No guichê ao lado, onde se iniciava o processo, uma família vestida toda de Grêmio recebia instruções e reprimendas sobre o registro de um bebê. Reparei que o marido parecia indignado com a impossibilidade de fazer o RG da criança e, a princípio, pensei que fosse por conta da sua idade por demais tenra. Mas aí eu percebi: o silêncio esquisito na sala vinha dos monitores, computadores e luminárias desligados. O IGP estava sem luz.

Tinha uma pessoa na minha frente na fila pra retirar o documento pronto. Eu ouvia os funcionários justificando para os seus colegas e para os clientes que não havia previsão de volta de luz então não dava pra garantir mais o atendimento naquele dia. Algumas pessoas começavam a ir embora, outras permaneciam imóveis e resolutas. Mais gente ia chegando. Uma funcionária disse algo como “tá, mas o que é que a gente vai fazer com esse pessoal que tá aqui e que não quer ir embora?” e um guardinha resolveu impedir que novas pessoas entrassem tentando puxar uma pantográfica de ferro pra bloquear a entrada.

A funcionária que atendia o meu guichê ficou uns 10 segundos conversando com outra funcionária antes de olhar pra mim e, sem dizer uma palavra, pegar o comprovante de pagamento das minhas mãos e ir até o escaninho das identidades. Letra A. Ela puxa um bolo, dobra se fosse como um maço, e vai olhando as fotos como se contasse notas, até chegar na minha lata. Ela me alcança o documento, não me olha, e grita para o guardinha que não vai mais dar documento nenhum pra ninguém, que hoje acabou.

Nisso já brotou pequena confusão lá fora. Dez ou quinze pessoas gritando “é brincadeira” e fazendo piadas de tiozão agressivo. Eu fui a última pessoa a retirar seu documento aquele dia. Saí fincado e fiquei pensando: e se eu tivesse demorado dez minutos a mais no almoço? Teria pago a taxa de “até 3 horas” para retirar quase em 24. Isso não teria sido de todo mau, porém teria ferrado com os meus planos.

Mas nem precisou: quem ferrou com meus planos fui eu mesmo.

Em vez de procurar um cartório, voltei pra casa com Sandrinha, fiquei de papo até meu irmão chegar e, juntos, fomos jantar sushi no Bom Fim.

(…)

Bom mesmo o tal Sambô: peixe fresco e farto, e pratos quentes igualmente excelentes. Iscas de lula empanadas no panko, bolinhos de arroz com salmão, polvo com cebola e ervilha torta: barbarica, my youth. Polvo, atum, salmão, peixe branco: nada de extravagante, tudo muito gostoso. Arroz (sushi) ótimo, alga crocante, quase nada de cream cheese em 30 e vários makis. Incomoda um pouco o atendimento surfista amigão (acho meio palha forçar intimidade), mas também não chega a estragar. Tá valendo pela função. Até porque foram muito churros e meteram o jogo do Grêmio no telão totalmente na parceria telepática, posto que nem deu tempo de sugerir essa preza em tom de troça pra ver se colava.

Na volta pra baia, vimos os últimos 20 minutos da Máquina Tricolor ganhando de 2 x 0 do Coritiba com o clássico “gol do Fernandinho” (até onde eu me lembro, todos os gols do Fernandinho são exatamente iguais: um pombo sem asa na diagonal pra cima). Sentamos com a Sandrinha e fumamos uns buds e tomamos umas cevas na sala da nossa infância, que não é mais a sala da nossa infância, só fica no mesmo lugar.

(…)

No dia seguinte acordei cedo pra autenticar o documento que estalava de tão novo. Fui até aquele cartório ali perto do HPS, quase na esquina da Venâncio com a Osvaldo, paguei 13 reais por uma fotocópia, dois selos, duas assinaturas – e não entendi muito bem porque o amigão fez duas em vez de apenas uma, mas vamo que vamo. Em dado momento adentrou o recinto Ibsen Pinheiro. As pessoas o cumprimentaram e celebraram. “Esse é um cara bom,” disseram. “Mas foi sacaneado.”

Tinha ido de Cabify até o cartório, resolvi voltar de Cabify até em casa. Mas aí o sacaneado fui eu. E pelo Cabify. “Cartão negado” era o que a mensagem dizia. “Entre em contato”. Tentei reiniciar o aplicativo. Deletei e baixei de novo. Cadastrei o cartão mais uma vez. Ainda negado. Cogitei chamar um 99pop, mas: o serviço ainda não opera em Porto Alegre. Uber eu não pego mais. Táxi por táxi, pensei, não vou chamar no aplicativo, vou caminhando até um ponto que tem uns quatro ou cinco por aqui – e foi bem o que eu fiz.

Taxista gigantesco com sotaque mastigado tinha cursado história e veio debatendo política de um ponto de vista profundamente Gravataí – no bom sentido. Foi uma das grandes conversas que tive na vida. Deu vontade de filmar, mas também deu vontade de não desperdiçar aquele momento desse jeito. Melhor fervendo na lembrança, e só.

Sei que nisso tudo eu ainda escrevi pro suporte do Cabify (nota: 14h depois, ainda sem resposta) e a batera do celula foi comendo: solta.

Fiquei um tempo em casa de bobeira trocando uma ideia com a Sandrinha até que deu uma e meia e resolvemos sair pra almoçar. Na saída reparei que persistia um movimento de guindastes e caminhões e cones e operários de capacete na nossa rua que tinha notado quando saí mais cedo, mas não prestei muita atenção. Foi a Sandrinha quem apontou o que estavam fazendo: trocando os postes da rua. Que negócio maluco uma máquina com um braço arrancando um POSTE do chão e colocando outro novo no lugar. Nunca tinha visto algo assim.

(…)

É um dos meus restaurantes afetivos, o Tirol. Fomos inúmeras vezes jantar em família, e até a recepção da minha formatura foi lá. Mas não sei. Nos últimos anos tudo foi ficando mais triste pra mim. Hoje a salada estava murcha e cansada, e quase todas as carnes (entrecot, lombinho de porco, filé) meio esturricadas e horríveis, com a honrosa exceção do contrafilé, que estava churros. Todavia que conceito o “rodízio de grelhados”. Acho que um dia até já foi, mas atualmente não é mais pra mim esse lance de encher a cara de carne nesse nível. Não chega nem a fazer sentido, no fim das contas. Estava meio vazio, o salão, e Sandra Annenberg gritava com força as notícias, produzindo algum eco. Meio escuro, também me pareceu. Mas enfim: valeu pelo contrafilé.

(…)

Pegamos um táxi pra voltar pra casa. Motivo: ciclofaixa. O Cabify que nos trouxe na vinda (chamado por Sandrinha) parou bem em cima dela, bem quando vinha um ciclista, e nenhum de nós gostou da ideia de repetir a situação. Então atravessamos a rua e caminhamos alguns metros até uma esquina onde a ciclofaixa não chegava. Esperamos ali até aparecer um carro, fizemos sinal, entramos.

Chegando em casa, minha primeira providência foi procurar uma tomada para carregar o celular, que estava com 7% de bateria àquela altura.

Encaixei os pinos e: nada. Despluguei e repluguei as duas pontas, duas vezes, e então troquei de tomada. Ao obter os mesmos resultados, me ocorreu acionar um interruptor. Nada aconteceu. O motivo? Como estavam trocando os postes da rua, estávamos temporariamente sem luz. Era bastante óbvio, né? Estávamos sem telefone também. Sem internet. E, por algum motivo, sem 3G.

Por uns dois segundos pensei: não acredito que não vou conseguir chegar no aeroporto.

Todavia Sandrinha, por sorte, possuía tanto 57% de bateria no celular dela quanto um sinal 4G que, se não era dos mais robustos, pelo menos existia.

Ordenamos a vinda de um Cabify, em pouco mais de meia hora eu estava pisando no terminal antigo do Salgado Filho e Sandrinha recebia o aviso de uma cobrança de 20 e poucos pilas no seu celular. Procurei o balcão para imprimir a passagem só para poder entrar na sala de embarque e, uma vez dentro, encontrei uma torre de tomadas, conectei meu celular e: não aconteceu nada.

Entre todas as torres disponíveis, eu consegui escolher justamente a que não funcionava.

Cerca de oito segundos depois estava sentado em outro lugar, com o celular plugado em outra tomada, sendo lentamente alimentado pela energia elétrica – que também havia acabado de ser restabelecida na Medianeira, me avisava Sandrinha.

(…)

O voo estava totalmente lotado. Sentado ao meu lado veio um otário que, não satisfeito em não desligar um celular quando as portas da aeronave se fecharam, não desligou DOIS, e veio, até o avião LITERALMENTE decolar, trocando ideia com umas três minas e conversando com alguém que tinha feito alguma merda no trabalho com potencial de lhe foder muito feio, pelo que deu pra entender.

Assim que o avião se aproximou da pista em Guarulhos ele já ligou os dois celulares. Num deles pipocaram uns vinte avisos sonoros e, em seguida, o outro tocou. Ele atendeu, de pé, abrindo o compartimento de bagagem enquanto uma aeromoça pedia para que todos permaneçam sentados até que o avião pare – alerta que ele ignorou solenemente.

Todavia, o amigão tinha um bom motivo para estar daquele jeito; pelo que deu pra entender, um mandado de prisão contra ele havia sido expedido, e provavelmente ele sairia dali dentro de um camburão.

“Eu não tô acreditando que vou sair daqui dentro de um camburão”, foi a última coisa que ouvi ele dizer antes de descer pela porta traseira.

(…)

Eram quase 19h, e pensei que talvez fosse bem mais sensato matar um tempo comendo algo no aeroporto do que enfrentar o trânsito de volta pra casa bem na hora do rush. Ouvi alguém falando no telefone enquanto mijava dizendo que ainda demoraria entre 1h30 e 2h para chegar em casa. Resolvi consultar o site da CET em busca de informações e não me pareceu que o trânsito estivesse especialmente terrível – principalmente levando em conta que era uma sexta, à noite, e eu viajava no contrafluxo, querendo chegar em São Paulo.

A taxista era mulher, e me contou história extrema sobre como seu filho, que hoje estuda numa universidade americana graças a uma bolsa de estudos que ganhou pela sua habilidade com o futebol, quase se tornou vítima de uma quadrilha internacional de tráfico de pessoas aos 18 anos de idade. Também me falou sobre o caso de uma menina que foi levada por uma estranha para um banheiro no aeroporto, onde teve seu cabelo cortado e a roupa trocada e depois sumiu sem deixar rastros.

Pegamos bastante trânsito nos primeiros dois quilômetros, se tanto. Depois aliviou e veio macio. Em menos de uma hora eu estava em: casa.

(…)

Fiquei feliz de chegar em casa.

Meio triste de não ter conseguido cumprir a terceira e última fase da Missão Porto Alegre, que era: entregar a cópia autenticada da identidade e todo o resto da papelada ao meu contador. Fiquei triste porque a tarefa agora terá de ser cumprida pelo meu irmão que, no momento, está se estourando pra consertar o telhado da sua casa, e já está se fudendo bastante por conta disso.

Mas enfim.

Acontece.

verdades, mentiras

Em 1993, quando Zetti, então goleiro do São Paulo e da Seleção Brasileira, foi suspenso do futebol acusado de ter usado cocaína na Bolívia, meu pai, o visionário e saudoso Flavito, fez um pronunciamento profético incrivelmente preciso: “É um crime o que estão fazendo com esse cara. Quer ver que daqui a pouco descobrem que não era nada disso? Quando publicarem a errata, ninguém vai ler e a reputação dele já vai ter sido destruída.”

Nesse caso específico talvez ele não tenha sido tão feliz, posto que foi amplamente noticiado que, de fato, a substância presente na urina do atleta era proveniente do chá de coca muito consumido para mitigar os efeitos da altitude no organismo. Mas, para vários e vários outros casos (talvez todos), Flavito acertou em cheio.

Um bom exemplo recente: o caso do gurizão que supostamente foi pego roubando uma bicicleta e teve a frase “Sou ladrão e vacilão” tatuada na testa. Mesmo que ele tivesse roubado a bicicleta já seria inaceitável o que esses malucos fizeram, mas agora começam a surgir informações que sugerem que talvez a história não tenha sido exatamente assim (ou seja, talvez ele não tenha roubado a bicicleta). E mesmo com essas novas informações, que deveriam servir, no mínimo, para que os linchadores – digitais e reais – se questionassem por um segundo, ainda há multidões apoiando a atitude do tatuador e protestando contra sua prisão pela prática de tortura.

Que tristeza profunda.

A estupidez humana, como bem apontou Einstein, é um bagulho que não tem fim.

essas coisas acontecem

Começou a esfriar no fim do dia e eu abri a janela pra sentir uns arrepios. De repente, comecei a ouvir também os berros lamentosos de um adulto em meio a gritaria habitual das crianças voltando da escola. Daqui de dentro, parecia que os pequerruchos estavam fazendo mal a um doente mental ou craqueiro – que era a minha principal aposta, posto que sua presença aumentou vertiginosamente na minha região desde a operação totalmente sem sentido do nosso indigesto gestor.

Não era nada disso.

Na entrada da garagem do prédio em frente havia um homem de mochila, ajoelhado e com a cabeça no chão, gritando de forma dolorosa alguma coisa de cunho vagamente religioso (talvez por que, ó, pai? ou me ajuda meu pai). A trinta metros do chão é mais difícil de ouvir. Por alguns instantes, nada mais aconteceu. Quem passava perto, desviava do homem ou o ignorava. Alguém dum andar baixo do prédio saiu na sacada para ver o que acontecia. O cara seguia lá.

Não chegou nem a fechar um minuto e do outro lado da rua veio atravessando um cara jovem, negro, de camiseta, se ajoelhou ao lado do maluco, fez ele sentar e os dois começaram a conversar. Deu pra ver que ele tinha um monte de peças de tecido branco com ele, possivelmente panos de prato. Do salão de cabeleireiro ao lado, emergiram duas moças, uma delas trazendo um copo d’água. Em questão de segundos, oito ou de dez pessoas, a maioria mulheres, se aproximaram do cara, conversaram com ele, compraram panos de prato ou simplesmente lhe deram algum dinheiro. Aparentemente teve um zé ruela de terno preto que veio sei lá de onde e deu uma enchida de saco na rapaziada, mas pode até ser que não tenha sido isso.

A verdade é que daqui de longe não deu pra captar os pormenores do episódio, e muito menos pra julgar se era um golpe ou o mais puro desespero. De todo modo, fiquei bastante comovido em ver tanta gente partindo em socorro de um completo desconhecido às cinco e meia da tarde de uma terça-feira de maio de 2017 na cidade de São Paulo. Que bom quando essas coisas acontecem.

eu também fui pau no cu

Uma coisa muito difícil de admitir, e pra si mesmo mais que para os outros, é o seguinte: não fomos 100% bons ao longo de nossas vidas. Não sei na cuca de vocês, mas na minha tem uma voz de fundo que parece ficar me dizendo o tempo todo que eu sou um cara bom, que eu só faço coisa legal, que estou do lado do que é justo e do que é certo o tempo todo. Só que isso não é verdade. Pra absolutamente ninguém.

A primeira vez que me dei conta disso foi quando, ao reencontrar uma antiga paixão numa tarde em que conversamos muito embalados por uma garrafa de vodca, ela me disse que me perdoava por algo que eu havia feito no passado. E o que eu havia feito: combinado de sair com ela e nunca ter aparecido. Parece algo muito trivial, mas, sendo oito anos mais jovem e, fervendo a febre da primeira paixão, ela realmente esperou por mim aquela noite. E de uma maneira que talvez nenhuma outra mulher esperou ou vá esperar por mim. Mobilizou a mãe e as irmãs, que ficaram exultantes com a notícia, escolheu roupa, tomou banho, botou perfume e ficou me esperando. Eu não apareci.

Não lembro porque fiz isso. Não vem ao caso. Fiquei sabendo por uma de suas irmãs, pouco tempo depois, da minha mancada. A partir daí passei anos com vergonha, querendo me redimir de qualquer forma, buscando seu perdão de todas as maneiras. E quando ela finalmente me deu eu pensei: pra quê? Eu não sou perfeito. Ninguém é. Ninguém é uma coisa só, também. Em outras palavras, é totalmente normal ser mau, aqui e ali, para uma pessoa essencialmente boa – tendo ou não consciência disso. Do mesmo modo, para uma pessoa essencialmente má é absolutamente aceitável que pratique um ou outro ato de bondade eventual ao longo da vida. É da natureza humana.

Digo isso porque na tarde de hoje, conversando com amigos de infância, lembrei de uma eleição para o Grêmio Estudantil do Colégio Nossa Senhora da Glória, um pequeno estabelecimento de ensino localizado num bairro de classe média-baixa de Porto Alegre, no qual estudei todos os anos da minha vida. Já não lembro mais quanto dessa estratégia foi elaborada por mim, quanto foi criação coletiva, mas fato é que usamos táticas altamente controversas para vencer essa eleição no final de 1995, e seguimos operando uma série de desmandos enquanto estivemos no poder, em 1996.

Pra começar, ao montar a chapa, convidamos pessoas de todas as séries e turnos possíveis, na tentativa de angariar a empatia do maior número possível de votantes. Na hora de fazer a campanha corpo a corpo, nas turmas de magistério, frequentadas apenas por mulheres, mandávamos apenas os caras mais populares, os bonitões da época, com os quais todas queriam ficar. Nas turmas em que a predominância era masculina, quem passava eram as gatinhas da equipe. Nas turmas da tarde, alunos da tarde. Nas da manhã, alunos da manhã. Para neutralizar uma animosidade do terceiro ano para com o meu núcleo de amigos, chamamos o camarada mais popular do colégio, que era amigo de absolutamente todo mundo. Nas séries mais elementares (digamos, da terceira à quinta), prometemos absurdos como distribuição livre de picolés, balas e pirulitos para quem votasse em nós (promessa que, naturalmente, jamais foi cumprida).

Além disso fizemos algo um pouco menos reprovável, que também pode ser creditado pelo nosso resultado positivo: propaganda política. Distribuímos adesivos com o logotipo da Chapa Dois e vendemos camisetas estampando o mesmo logotipo no peito, e um desenho do Scooby Doo vestindo a mesma camiseta nas costas – tudo ilustrado por mim. Ainda tenho algumas dessas camisetas, e ainda servem. Os anos me foram bem generosos. Ou melhor: eu fui generoso comigo mesmo.

A jogada das camisetas foi um sucesso estrondoso: vendemos mais de uma centena sem maiores esforços. Todo mundo queria desfilar com uma pelo colégio. E ainda tinha um detalhe genial, que ainda não tenho certeza se já entendi a essa altura da vida, 22 anos depois, mas era o seguinte: havia duas cores de camiseta. As cinza eram restritas aos integrantes da chapa; as brancas, aos apoiadores. Muita gente queria fazer parte da chapa só pra ter uma camiseta cinza, mas ninguém podia. The next best thing era a branca. Esgotaram em dois ou três dias. Que coisa poderosa é o marketing bem feito.

Tivemos votação acachapante e, no ano seguinte, assumimos o GEG. Lá, fizemos algumas coisas excelentes, como adquirir um computador para a sala do grêmio – dinheiro levantado vendendo rifas para o sorteio de bicicletas, mochilas e outros badulaques que conseguimos de forma mais ou menos Doriática (cof), na iniciativa privada, na base do gogó, sem contrapartida. Também criamos uma carteirinha do grêmio que, agora, não lembro mais para quê servia, mas, se não me engano dava descontos na hora de solicitar a confecção da carteirinha de passagem escolar e na inscrição de eventos organizados pelo grêmio – campeonatos de futebol, basquete e vôlei, coisas do tipo. Mesmo assim, fizemos algumas coisas bastante horrendas, como desviar parte do caixa para a compra de salgadinhos e refrigerantes dos membros que passavam a tarde totalmente de bobeira naquela salinha. Não foram grandes importâncias, lógico, mas aqui não interessa o tamanho do crime, mas pura e simplesmente o ato em si.

Nada se compara, todavia, a algo em que eu não pensava há anos, talvez uns vinte, mas hoje voltou à tona e me fez corar por alguns instantes. Eu e um amigo (que também integrava a chapa) ficamos responsáveis pelas camisetas. Fizemos tudo sozinhos, contando com a confiança plena de todos os demais: eu ilustrei, ele orçou as malharias, juntos escolhemos uma gráfica e fomos encomendar o serviço. Nesse processo, em algum momento, alguém percebeu uma oportunidade de fraude. Acho até que não foi nenhum de nós, e sim o cara da gráfica ou da malharia, que ofereceu fornecer uma nota com valor alterado para que pudéssemos embolsar parte da grana. Que eu me lembre, vendemos as camisetas por um valor levemente mais alto do que pagamos por elas – já que a ideia era não ter lucro, apenas empatar custos. Eu e este amigo embolsamos algo como 300 reais cada, o que em 1995 era uma grana violentíssima (o dólar oscilava entre 80 e 95 centavos na época, de modo que seriam algo como MIL REAIS na cotação de hoje). Com esse dinheiro, paguei minha inscrição no vestibular da PUC (que fiz apenas para ver como era pois ainda tinha um ano do segundo grau pela frente – todavia passei, e com nota máxima em redação, feito que não repeti no ano em que fiz o vestibular pra valer, embora também tenha passado na segunda vez), comprei um óculos do surf, uma camiseta do surf e uma bermuda do surf – coisas que vários dos meus colegas tinham e eu sempre quis ter, mas meus pais nunca tinham dinheiro pra me comprar.

Olhando em retrospecto, parte de mim fica triste, parte fica feliz por tudo isso. Queimar-se, machucar-se, estragar-se: tudo é parte da vida também. Por algum motivo que não consigo elaborar muito bem usando a linguagem, é bom saber que não sou puro. Que não sou perfeito. Que há uma gota de maldade encerrada em mim, e que talvez esteja apenas esperando a oportunidade certa para se manifestar novamente. Quem é que sabe? Nem eu sei. Só sei que pensar em todas essas coisas, reconhecê-las e admitir as culpas e remorsos sem medo não pareceu suficiente pra mim. Eu tive que vir aqui e contar tudo pra você (que eu nem sei quem é, mas que me lê agora).

incômodos

Sempre gostei muito de tudo relacionado à cultura negra, desde as suas manifestações artísticas (principalmente a música) até elementos mais sutis, como a linguagem (verbal e não-verbal). Recentemente alguma chave virou na minha cabeça e começou a me incomodar muito, às vezes beirando o insuportável, o simples ato de estar em algum lugar – um restaurante, uma loja, um bar -, olhar em volta e não ver nenhum negro. Em notas profundamente relacionadas a essa percepção, hoje notei uma coisa bastante curiosa (e ainda mais incômoda): todas as vezes que postei uma foto com amigos negros no Instagram nos últimos meses, recebi um número muito (mas muito) menor de likes do que quando aparece um branco ao meu lado. Na casa de 10-15%. É uma paulada pensar nisso. Espero que eu não seja o único a fazê-lo.

o faraco no linkedin

Não quero explicar porquê, mas é fato absoluto que nutro grande carinho pela rede social LinkedIn. Não entro quase nunca, não leio quase nada. Não serve pra muita coisa. Devo estar lá há quase uma década e nunca ninguém me chamou pra coisa alguma. Digo, nunca um cabra ofereceu-me um emprego. Nem sequer um trabalho. Algumas pessoas chegaram até a me pedir. Outras, tipo uns protéticos do interior do Paraná, uns vendedores de loja de shopping de celular em Sorocaba e uns assistentes de raio-X de Maceió eu nunca entendi porque me quiseram em sua rede de contatos pra começo de conversa.

Até que o LinkedIn teve um agito uns 5 anos atrás quando meio que jogavam na tua cara sempre que tu entrava no site uns quizzes que tu lá pelas tantas enchia o saco e meio que respondia, que basicamente consistiam em perguntas de resposta rápida (sim ou não) sobre as habilidades específicas de um dos teus companheiros. Tá, beleza, o cara manda bem no marketing digital. É, é, a mina se garante de social media. Arrã, arrã, teu pai capricha no charmoso “blogging”. Vai fundo, é isso aí. Daí como esse massacre era pra todo mundo, quando o cara entrava lá sempre tinha pelo menos umas 20 mensagens (“essa catrefa toda aí disse que tu é o cara do branded”), aí rolava aquele afaguito no ego, tu todo se animava, beleza, e coisa e tal, mas, lá pelas tantas, a mania passou. Daí os cara até mudaram a interface do site, ficou toda mais neutrona e cinzenta, e aí ele voltou a existir de forma muito mais morta no meu horizonte pessoal.

Só que hoje rolou o seguinte: o Faraco me adicionou.

Vi que o Faraco é professor universitário. Achei massa, registrei o aceite e lembrei do seguinte: no dia em que eu o conheci, no hotel Arvoredo Residence, ele tocava um baixo de forma levemente blasé, usando uma blusa de gola rulê, todo meio lânguido, de bigode, enquanto eu entrevistava o Júpiter Maçã no andar de cima (tratava-se de apartamento “duplex”) para um documentário que realizei com uma crew sobre o mítico auditório Araújo Viana.

Em algum momento tomamos um café.

Depois dessa, encontrei pouquíssimas vezes o Faraco ao vivo, mas guardo essa lembrança pitoresca como cartão de visitas mental suficiente para considerá-lo excelente. Tomara que não seja um bandido! Se for vou me arrepender? Só Jah sabe. A ver.

nem tudo está perdido

Estou em Porto Alegre há algumas horas. O céu está muito azul, o vento está muito frio e a cidade parece essencialmente a mesma, exceto por um pequeno detalhe estranho que me chamou a atenção.

Ontem ouvi uma história curiosa da minha mãe.

Falávamos sobre a forte presença de imigrantes africanos na cidade, coisa que até uns 5 anos atrás era algo incomum, e ela então lembrou de um dia em que estava numa agência da Caixa no centro da cidade e avistou uma viatura da Brigada Militar se deslocando lentamente, com três policiais pendurados pro lado de fora da janela, brandindo fuzis e carabinas. Sentado na calçada à frente da agência havia um negro de pele muito escura, com algumas frutas estendidas sobre um pano, uma visão cada vez mais recorrente na região. Ao avistar esse homem, a viatura parou e um dos policiais apontou a arma em sua direção. O africano congelou. Minha mãe também, com receio de que o policial fizesse alguma coisa.

Mas não deu tempo nem de tentar.

Em questão de segundos a viatura estava cercada de populares, que batiam contra a lataria do carro e bradavam xingamentos diversos, além de repetir diversas vezes para que eles se preocupassem em ir atrás de ladrão, não de gente honesta que estava lutando pra sobreviver trabalhando. Assoberbados pelo levante, os policiais foram embora e o africano pôde voltar a vender suas frutas.

Achei a história particularmente tocante por ter acontecido em Porto Alegre, onde o preconceito racial é um pouco menos velado do que no resto do país. Segundo o depoimento da minha mãe, não foram pessoas jovens que partiram em defesa do homem, mas muita gente de idade, tanto comerciantes das redondezas quanto transeuntes, o que aumenta o espanto. Uma mulher bem velha, com dificuldades de caminhar, teria golpeado o capô do carro com os punhos fechados várias vezes.

Curioso como nesses casos quem toma a frente quase sempre é uma mulher. Pra mim faz sentido: um homem leva um tiro muito mais fácil se tentar bater de frente com a polícia. Aconteceu não faz nem um mês, no interior de Pernambuco, durante um protesto pedindo PAZ: havia dezenas de pessoas discutindo com a polícia, um dos que aparentemente estava no comando escolheu um rapaz, chamou um soldado e mandou atirar nele. O rapaz recebeu um tiro na perna e veio a falecer alguns dias depois no hospital. Tudo isso aconteceu na frente das câmeras. O vídeo pode ser encontrado facilmente em diversos sites de notícia. Imagina só quando não tem ninguém vendo.

Paradoxalmente, não sou contra a polícia. Estou plenamente ciente de que o que faz de São Paulo uma cidade mais habitável que Porto Alegre atualmente é a presença do efetivo policial nas ruas. Sempre que venho pra cá faço o mesmo desafio: conto quantos dias preciso andar pela cidade até encontrar a primeira viatura ou brigadiano. Na média são precisos pelo menos 3 dias para que isso aconteça. Certa feita, num dezembro triste, passei inacreditáveis 11 dias andando pra cima e pra baixo, da zona sul à zona norte, da leste à oeste, a pé, de carro e ônibus até ver a primeira viatura verde musgo.

Em São Paulo, a contagem nunca supera os 5 minutos.

Dessa vez, todavia, fui recebido em minha terra com uma forte surpresa: menos de 2 minutos após deixar o Aeroporto Salgado Filho avistei a primeira viatura. Depois disso ainda vi duplas de policiais patrulhando a Farrapos e a Goethe, viaturas (agora mais discretas, em branco) rondando diversos bairros e – como óbvia consequência – um número muito, mas MUITO menor de indivíduos altamente suspeitos pelas ruas. Tudo numa corrida de menos de quarenta minutos entre o aeroporto e a Medianeira.

Uma vez ouvi um argumento muito interessante acerca do papel da polícia: é terrível que a população tenha se desacostumado a vê-los ao seu lado. Grande parte dessa distorção entra na conta da criminalização do uso de drogas, já que em pleno 2017 já ficou mais que evidente que os viciados não são um grupo etéreo hipotético, mas sim algo extremamente homogêneo, que inclui nossos filhos e pais, amores e amigos. Outra parcela (bem menor) desse distanciamento decai sobre incompetência, preguiça, preconceito, despreparo e ignorância.

Em suma: claramente a polícia que temos não é a ideal, todavia sua extinção tampouco é a solução. Um sonho dourado seria que as futuras gerações de policiais viessem cada vez mais despidas de preconceitos, fossem melhor treinadas e voltassem a se preocupar com o que os filmes e os livros me ensinaram que deveria ser o seu lema: proteger e servir. Não sei se levo fé nisso. Não sei se levo fé.

Todavia: quero muito acreditar.

a challenger appears

Não sei se anda acontecendo com vocês aí, mas comigo aqui, nos últimos meses, o Instagram mudou de patamar, deixando de ser apenas uma distração imagética meio morna para se converter no aplicativo que eu mais uso no meu celular.

Começou com a função Histories, que proporcionou uma alternativa muito melhor ao Snapchat – que usei por cerca de seis meses, gostando bastante, embora o aplicativo fosse muito pesado pra caralho (chegou a ocupar 1GB do meu celular) e tivesse uma audiência muito restrita (meus snaps de mais vulto nem chegaram a 20 visualizações). Graças à base de usuários do Instagram, cada History do Dido costuma ter entre 250 e 400 views atualmente, um salto de alcance muito expressivo. Pena que ainda não dá pra inverter um vídeo ou fazer face swap – a melhor coisa do Snap, disparado (fora os nudes).

O segundo momento desse sequestro de atenção promovido pelo Insta foi a implementação do seu próprio chat. Ainda converso MUITO mais com as pessoas via WhatsApp e Telegram, é claro, mas o chat do Insta já superou o chat do Face e, do jeito que as coisas estão indo, é capaz de logo chegar ao topo da lista.

Agora, se tem uma coisa que me irrita – justamente porque agora uso mais o Instagram para interagir com as pessoas – são os alertas arrombadíssimos que o aplicativo resolveu disparar sem limites. Antes eu só era notificado quando alguém curtia uma foto minha, mas a coisa foi, paulatinamente, virando uma tremenda palhaçada. Se alguém posta pela primeira vez depois de muito tempo sem postar, se alguém inicia um vídeo ao vivo, se alguém que é meu amigo do Facebook resolve criar uma conta nova: tudo isso o aplicativo avisa. E aí cria aquele círculo vicioso da frustração: o celular geme, o cara olha de canto, vê o ícone rosadinho e pensa que é alguém puxando papo, se anima com as possibilidades, ajusta o foco da retina e constata que “Seu amigo fulano de tal está no Instagram com o nome Fulano.” Que bosta. Ou, em Dids Speak, “porra merda” (inventei este palavrão recentemente e estou querendo emplacar).

Todavia, de uma coisa nesse novo Instagram eu gosto: quando um camarada posta uma foto em que tu está marcado e o aplicativo te avisa toda vez que algum amigo em comum curte a foto. Esse recurso considero simpático. Os outros todos: uma merda.

O pior efeito colateral dessa mudança, entretanto, é que o número de likes e comentários nas minhas fotos despencou meteoricamente. A impressão que dá é que tem fotos que nem são exibidas pra todos os meus seguidores. Ou isso ou as minhas fotos simplesmente pioraram pra caralho (o que sempre é forte possibilidade).