Azar

Inaugurei o ano novo de maneira deveras peculiar.

Recebi no dia primeiro um e-mail do Betboo me alertando para a possibilidade de perder os fundos válidos que possuía por conta de um longo período de inatividade – 30 meses, de acordo com o site. Dizia o texto que, caso eu não logasse até o final do mês, estes fundos seriam repassados à Autoridade de Jogos de Malta (juro) a título de administração de conta inativa, e não poderiam mais ser resgatados.

Eu nem sequer me lembrava de ter feito uma conta no Betboo algum dia e, embora tenha achado bastante sensacional a possibilidade de fazer uma doação internacional simbólica para Malta (um dos países europeus subestimados pelos quais nutro simpatia, junto com Liechtenstein e Chipre), resolvi dar um conferes.

Meu palpite era o seguinte: devia ter entre 30 e 60 centavos de real na minha conta. A realidade, todavia foi bem mais generosa com o Dido: BRL 28,50. Como era um dinheiro que eu não sabia possuir, também o percebi como dinheiro que não me faria a menor falta e, sendo assim, resolvi apostar tudo pra ver se dava um azar.

Abri então uma aba contendo jogos ao vivo e marquei a opção ’empate’ nas duas partidas de algum campeonato obscuro de país árabe que estavam mais avançadas, pra acabar com aquilo o mais rápido possível. Dez reais em cada. Em dez minutos havia ganhado nas duas e, sem entender muito bem a matemágica do site, vi os BRL 28,50 se transformarem em 30 redondinhos.

Um lucro de 1,50 pareceu meio murcho, de modo que resolvi explorar melhor o site e descobri que além de apostar nos resultados de esportes variados (incluindo um sem número de sub-apostas totalmente malucas, do tipo ‘qual time cobra um lateral primeiro’) também era possível jogar a sorte no tradicional CASSINO.

Neste ponto, abro um parêntese. Venho jogando fervorosamente um dos meus games favoritos de todos os tempos, God Hand, do PS2. Uma das formas de maximizar seus lucros no game é justamente apelar para um CASSINO, onde é possível apostar no Blackjack, o famoso vinte-e-um. Sou relativamente bom no Blackjack. Ontem mesmo transformei 1400 créditos em cerca de 40 mil. Me pareceu possível operar manobra semelhante no Betboo da vida real (especialmente quando um pequeno disclaimer no próprio site afirma que as chances de se sagrar vencedor neste jogo rondam a casa dos 96%). Fecha parêntese.

Cauteloso e cagão como sou, comecei apostando o mínimo: 2 reais. Após duas ou três vitórias consecutivas, entretanto, já passei pros 4 e fiquei lá até transformar meus 30 cru-crus em 50, o que não levou nem dez minutos. Meu primeiro impulso foi de continuar até chegar ao montante mágico de 100 reais, mas o segundo – e mais forte – me disse para parar. Parei.

Por uns 20 minutos.

Retornei ao site disposto a fazer fortuna. Quer dizer, se eu conseguisse mesmo transformar 30 reais em 100 em algo como uma hora, eu certamente poderia abrir mão de todas as minhas demais fontes de renda e me dedicar ao gambling em tempo integral. Curioso como a gente cai nos mesmos buracos clássicos que quando alguém cai a gente sempre diz ‘não sei como é que fulano caiu nessa’.

Em coisa de cinco minutos os 50 reais eram 68. Tive alguns lances de muita sorte, dobrando a aposta nos momentos corretos e recebendo algumas mãos particularmente maravilhosas da máquina. O sonho parecia cada vez mais próximo. Infelizmente, dessa vez não tive a grandeza de perceber o óbvio (a banca nunca perde) e parar quando estava ganhando. Em vez disso resolvi aumentar as apostas, transformando rapidamente os 68 reais em zero.

Resumindo muito: em pouco mais de uma hora descobri que possuía R$ 28,50 num site de apostas, dobrei esse valor sem muito esforço e em seguida o perdi integralmente com menos esforço ainda.

Parte de mim quer passar a próxima semana lendo sobre táticas para vencer sempre no Blackjack e comprar 50 reais em créditos para operar uma vendetta contra a Autoridade de Jogos de Malta; parte quer apenas registrar essa pequena parábola sobre a natureza dos jogos de azar na memória para não repetir os erros no futuro.

Qual será mais forte? Saberemos algum dia.