bob

Naturalmente, o meu primeiro contato real com o reggae, de saber que aquilo que eu estava ouvindo era reggae, foi, como é o caso de quase todo mundo que habita o planeta terra e não teve a ventura de brotar na curiosa ilha da Jamaica, com Bob Marley.

Talvez eu tenha ouvido Gilberto Gil antes, eu ouvia o Gil desde criança, mas aí era aquele negócio travestido de pop, encharcado de dendê, brasileirão, outra vibe.

And don’t get me wrong on that: Gil a natty.

Todavia, não era the original.

Enfim.

De toda forma, lembro das minhas primeiras audições do Bob terem rolado no começo da adolescência, ali pelos 12 ou 13 anos, muito provavelmente sendo Redemption Song ou Is This Love? a minha iniciação oficial. Lembro também de não ter batido automaticamente ali, e só ter feito mais sentido um pouco mais tarde, quando tinha uns 16 ou 17 anos e conheci o álbum Kaya, com uns petardos como Satisfy My Soul e Running Away (além da faixa título) fervendo constantemente os meus ouvidos e pensamentos. Até hoje, por sinal, toda vez que começa a chover eu sinto vontade de blaze up the chalwa graças à frase got to have kaya now/ for the rain is failing.

Embora eu tenha tido alguns grandes momentos herbalistas relacionados a esse disco – como a vez em que me senti derretendo de verdade dentro de um Gol bolinha andando a 3 km por hora na Interpraias (uma via de chão de pedra cheia de grama no meio que liga diversos balneários do litoral norte do Rio Grande do Sul), sentado na carona, suando brutalmente no calor e ouvindo Sun is shining, ou quando acreditei ter descoberto uma “guitarrinha secreta” num ponto muito específico de Crisis – a verdade é que depois que comecei a me aprofundar mais no tesouro musical inesgotável que é a música jamaicana, acabei deixando o Bob meio de canto.

Até pouquíssimo tempo atrás eu mantinha um preconceito bobo com Marley, dizendo pra mim mesmo (e pra qualquer um que me perguntasse) que achava suas músicas pop demais, que aquilo não era reggae de verdade, que era muito diluído, muito mastigado. Coisa de branco.

Sério.

Todavia os últimos dois anos me jogaram no colo duas traduções enormes totalizando por volta de 1200 páginas sobre a história – real e ficcionalizada – de Robert Nesta Marley (A Brief History of Seven Killings, do Marlon James; e So Much Things To Say, do Roger Steffens). Nesse processo de contextualização e ressignificação, acabei reouvindo muita coisa que eu já conhecia, e descobri muita coisa que pra mim era nova. Prestando uma atenção diferente, ouvindo com outros ouvidos, outra cabeça, outro coração, só tenho uma coisa a dizer: que arrombado que eu fui.

Como é bom, o Bob.

Não era desse mundo, esse cara. E nem esse pessoal todo que gravou essas músicas com ele. Como eu disse uns minutos atrás ali no Twitter: se o cara bota Concrete Jungle pra rolar, fecha os olhos, escuta, no mínimo, um minuto e NÃO SENTE NADA, pode ter certeza de que este cidadão não possui ALMA.