whistleblower

Ao longo de pouco mais de vinte anos consumindo em formato de cigarros (becks, finos, chauras, bauras, toras, bombas, catroncas)* a chamada ganja (maconha, fumo, coisa, erva, massa), nunca havia me acontecido o que me aconteceu hoje.

Acendi uma ponta e, quando puxei o primeiro pega, ouviu-se um apito.

Pequenino, magro, mas ainda assim presente. Dei mais uns dois pegas de desconfiança, na leveza e brevidade, só pra ver se era a droga mesmo quem estava fazendo aquele barulho. Satisfeito com a resposta, dei então um pegão comprido, que os antigos conhecerão como “pulmão” ou “pulmas” (grafia alternativa: “pulma”), aquela puxada longa e caprichada, muito comum na prática da “paula”, aka “paulistinha”, que consistia de dar uma tragada (tapa, pega, bola)  e imediatamente passar o negócio para o amigo ao lado. O que teria feito o paulista seminal para que seus atos fossem imortalizados no jargão no submundo canabista porto-alegrense dessa época eu nunca soube. Sei que o bicho hoje resolveu cantar na boca do Dido. Que negócio esquisito. Nem foi bem um apito, era mais um guincho, um som parecido com o que acontece quando se faz um pequeno rasgo ali no pescoço de um balão semi murcho e se deixa sair o ar meio se peidando, meio se assoviando todo.

Lá pelas tantas parou, me deixando defumado (aura estalando de quente) e intrigado com a seguinte questão: como este fenômeno foi possível? Um furo milagroso, num ângulo certo, começando na cabeça e se esticando até a bunda da ponta com a missão única de acrescentar musicalidade a este meu ato controverso? Provavelmente.

*nunca chamo de “baseado”, por algum motivo