uma breve história de sete assassinatos

Acabo de encerrar o processo hercúleo da tradução de A Brief History of Seven Killings, o superlativo romance de Marlon James que venceu o Booker Man Prize de 2015.

O livro é um mergulho muito intenso na cultura jamaicana, misturando fatos reais e fictícios para contar a história da tentativa de assassinato de Bob Marley em 1976, bem como os desdobramentos nas vidas das personagens ligadas de alguma forma a este evento até 1991. O grande atrativo do texto original é a sua pluralidade de vozes, que incluem desde agentes da CIA e jornalistas brancos falando jargão e jive até políticos e criminosos jamaicanos arrebentando no patois. Foi precisamente esse último detalhe que me credenciou para a tarefa.

Passei os últimos vinte anos ouvindo muito reggae, jungle e dancehall, de modo que manjava relativamente bem do dialeto, da história e cultura da ilha quando comecei a traduzir o livro. Todavia, que escola extrema foi traduzi-lo. Aprendi muita coisa de cultura e patois jamaicano nessa brincadeira. Se antes de Marlon eu compreendia uns 30-40% do que cantavam Cutty Ranks ou Shabba Ranks, por exemplo, agora dá pra dizer que estou nuns 60-70% – o que é um avanço bem considerável.

Foi uma verdadeira guerra encontrar traduções apropriadas para todas as gírias e maneirismos de cada personagem, mas acho que fiz um trabalho decente. Ainda devo ter pela frente mais algumas semanas de ajuste fino (calcado sobretudo em repensar termos específicos e algumas peculiaridades do texto – como nomes de comidas, por exemplo), mas a parte mais dura do processo já foi.

Eis aqui alguns números, pra impressionar as gatas:

  • A edição americana, da Riverhead (Penguin/Random House), que foi meu texto-base, tinha 704 páginas.
  • O arquivo do Word ficou com 597 páginas, 274.918 palavras, 1.471.259 toques.
  • O processo todo levou cerca de 6 meses e meio. Todavia, em todo esse período foram apenas 109 dias de trabalho efetivo, distribuídos ao longo de 20 semanas.

Pra finalizar, um quadro mostrando a evolução do trabalho semana a semana, elaborado de acordo com a seguinte fórmula:

número da semana – toques produzidos – dias trabalhados – número de páginas – total acumulado de toques – total acumulado de páginas 

SETEMBRO

1 – 55 500 – 4 dias – 40pg – 55 500 – 40
2 – 82 116 – 5 dias – 35pg – 137 616 – 75
3 – 62 120 – 4 dias – 27pg – 199 736 – 102

OUTUBRO

4 – 49 880 – 4 dias – 22pg – 249 616 – 124
5 – 75 908 – 6 dias – 32pg – 328 536 – 165
6 – 59 692 – 4 dias – 27pg – 389 024 – 193
7 – 78 118 – 4 dias – 36pg – 467 579 – 230

NOVEMBRO

8 – 57 784 – 7 dias – 29pg – 527 861 – 260

DEZ

9 – 70 176 – 6 dias – 29pg – 598 037 – 289
10 – 77 777 – 5 dias – 33pg – 676 024 – 326
11 – 38 791 – 4 dias – 16pg – 714 870 – 342

JAN

12 – 38 510 – 4 dias – 14pg – 753 280 – 356
13 – 106 741- 6 dias – 46pg – 860 021 – 402
14 – 95 838 – 4 dias – 44pg – 955 859 – 446

FEV

15 – 44 741 – 4 dias – 21pg – 1 000 187 – 467
16 – 106 955 – 6 dias – 50pg – 1 107 142 – 517
17 – 88 334 – 5 dias – 44pg – 1 195 476 – 561
18 – 71 671 – 5 dias – 36pg – 1 267 147 – 597

MAR

19 – 113 207 – 7 dias – 59pg – 1 380 354 – 656
20 – 90 770 – 5 dias – 48pg – 1 471 124 – 704

tirando o chapéu

Moro num bairro bom de São Paulo, o que significa muita segurança, tranquilidade, limpeza e várias opções de lazer, embora, infelizmente, também venha acompanhado de uma dose generosa da mais pura verminose. Há um grande número de ricos nas cercanias, e isso faz com que seja possível observar todo tipo de cena triste, como garçom sendo mal tratado, aquela porra daquela caminhonete da Porsche desrespeitando sinal de trânsito e ainda se achando no direito e, principalmente, pessoas constrangedoramente vestidas com suéter com as mangas amarradas no peito, camisa polo bordada e mocassim sem meia.

Hoje, todavia, aconteceu um troço tão massa que fiquei até meio mexido, achando que, numa dessas, quem sabe, o ser humano ainda tem jeito.

Pois bem.

Almoço quase todo dia num lugar que convencionei chamar de GAUCHÃO. É o quilo mais barato do bairro (o que não chega a ser grande vantagem, já que todos os quilos num raio de até 1km do nosso lar aqui servem comida fresca, de muito boa qualidade, e esse é no máximo uns 3 reais mais barato que a média, por exemplo). Elegi este local não só pelo preço, mas, principalmente, pelo maravilhoso combo diferencial: a) os donos são gaúchos; b) eles possuem churrasqueira; c) eles sabem comprar e assar a carne.

Assim como eu, o ex-jogador William, com passagens pelo meu Grêmio querido e o Corinthians de vários amigos, costuma almoçar lá com muita regularidade. Um dos donos me disse certa feita que se trata de pessoa muito simples, acessível e de bom coração – o que já se pode verificar só pelo fato do cara almoçar quase todo dia num restaurante de comida a quilo de chinelo e bermuda.

Lá estava eu quase encerrando meu prato composto por farta salada (alface americana, rúcula, cebola, tomate, cenoura e pepino), um pedaço de peito de frango, um de linguiça apimentada (feitos na brasa) e um naco generoso de linguado à milanesa (R$ 16) quando avisto, no reflexo da porta de vidro – posto que estava sentado na área externa, de costas para a rua – William chegando, acompanhado de uma mulher.

Literalmente segundos após a entrada do ex-jogador, um morador de rua de legging roxa, moletom preto de capuz, um cabelo impossível de descrever com as palavras que possuímos e voz, trejeitos e aura de travesti, postou-se ao lado da porta na tentativa de mendigar um almoço de alguma alma caridosa.

A primeira pessoa que passou por ele era um cara de coque masculino e barba que, num primeiro momento, parecia ter dado aquela desculpa clássica do “não tenho nada” ao amendigado cidadão, que seguiu parado na entrada. Outras duas ou três pessoas que passaram por ele nem sequer registraram sua presença, ignoraram seus apelos e seguiram caminhando pelo pátio em direção ao buffet.

Nisso, a mulher que estava junto com o William sentou-se numa mesa às minhas costas. Notei, ainda pelo reflexo, que o morador de rua, motivado ou por fome extrema ou por falta de vergonha, aventurou-se pelo pátio e foi até ela, pronunciar a seguinte frase:

“Não sei nem como é que eu vou fazer pra te pedir o que eu queria te pedir.”

Ela nem deixou ele terminar, pediu para que ele a esperasse, interrompeu o almoço (talvez tenha dado tempo de dar uma garfada, não vi), pegou um dos potes de isopor que o pessoal usa para fazer suas quentinhas e começou a enchê-lo de comida.

Instantes depois, reparei, ainda no reflexo, que o morador de rua foi se afastando até sumir do campo de visão, talvez não acreditando que a mulher fosse mesmo lhe trazer comida, ou pior: supondo que ela reclamaria da sua presença para os donos do restaurante (que é algo que certamente acontece bastante por estes lados). Enquanto isso, o rapaz de coque masculino saía do restaurante. A princípio achei que ele tinha examinado as opções do buffet e desistido de comer ali, dada a velocidade com que entrou e saiu do Gauchão.

Paguei a minha conta enquanto a mulher pesava o pote de isopor e anotava o valor na sua comanda. Quando finalmente cheguei na porta, ela estava parada, olhando em volta, com o pote na mão, procurando pelo mendigo. Aquele gesto já tinha dado um bom upinha no dia do Dido, mas o que aconteceu logo em seguida me deixaria ainda mais impressionado. Não tinha me afastado nem dez metros do restaurante quando avisto o rapaz de coque masculino vindo ao meu encontro, descendo a rua em direção ao restaurante. Ao seu lado: o mendigo traveco do crack.

Neste momento vale lembrar que a mulher que acompanhava o jogador William e este rapaz de coque masculino não se conheciam e nem haviam combinado coisa alguma. Ou seja, basicamente o que aconteceu foi que: não uma como DUAS pessoas que habitam este bom bairro (porém meio verme) de São Paulo resolveram mudar o curso dos seus dias para ajudar uma pessoa que, via de regra, costuma ser ignorada, destratada ou expulsa o mais rápido possível dali. Cara, o maluco do coque chegou a SAIR do restaurante e IR ATRÁS DO MALUCO até encontrá-lo, só pra levar ele de volta pra comer.

Foi talvez a coisa mais bonita que vi a semana toda, talvez esse mês – talvez até mesmo esse ano.

Ao chegar em casa, abri meu armário, peguei um chapéu, coloquei na cabeça e depois tirei, em homenagem a esses dois heróis anônimos do Higienópolis.

(Nota: embora eu gravite bastante por Higienópolis e more a cerca de 50m da linha divisória do bairro, tecnicamente aqui é Vila Buarque ou Santa Cecília – embora as imobiliárias chamem de “Baixo Higienópolis” ou até mesmo de Higienópolis, pra ganhar uns cobres no aluguel)

panturrilha

O sintoma do ano, pelo menos até aqui, tem sido o seguinte: incômodo na panturrilha. Do meio pro final do dia sinto a batata da perna mais grossa, mais pesada, mais rígida até. Não chega a doer, mas às vezes rola uma série de espasminhos, que eu às vezes estimo serem nervos, às vezes tendões, às vezes veias de variados tamanhos lutando contra compressões ou bloqueios.

Em grande parte pode-se diagnosticar esse quadro sem muito esforço ou mesmo necessidade de exame físico ou visual: eu passo muito tempo sentado. Talvez eu venha passando mais tempo do que o habitual por causa da tradução hercúlea que venho executando nos últimos sete meses. Talvez por causa do calor desse verão eu tenha bebido mais água, e talvez meu organismo esteja com dificuldade de aproveitá-la inteira, causando o acúmulo de líquidos responsável pela sensação.

Não sei.

Sei que estou torcendo pra chegar logo o outono e, junto com ele, temperaturas mais agradáveis, posto que meu escritório é o aposento da casa que mais esquenta (embora o sol bata mais nele durante os meses frios graças à orientação noroeste das janelas). Aí verei se o sintoma persiste, causando preocupação e gerando consulta médica, ou desaparece, me fazendo mergulhar na confortável negação que, não raramente, ajuda a vitimar homens jovens com doenças compridas.

A ver.

sensação sobrenatural do dia

Sobrenatural aqui entendido não como algo do mundo dos mortos, mas sim qualquer coisa que não seja uma manifestação “natural”, such as o seguinte: havia fumado pequena porção da droga maconha e me concentrava na leitura de um texto quando comecei a sentir agulhas geladas mordiscando minha mão por um breve instante. Consultei a janela para encontrar o céu branco e cinza, mas aparentemente ainda não chovia. Pensei num dano grave aos nervos, talvez uma esclerose múltipla, um arrebento cerebral. Mas nada: segundos depois, nova saraivada de fincadas frias dominou meu braço, e nem deu tempo de gelar o estômago em pleno cagaço, botei a cara contra o vento e recebi a confirmação de que estava apenas me bobeando aqui sem motivo. Uma garoa existia.

micro reviewing #2

MasterChef Brasil: A quarta temporada mal começou, então qualquer avaliação feita agora certamente seria extremamente precipitada, mas, mesmo assim, vou dar o seguintes pitacos baseado no que presenciei no primeiro episódio: a) me pareceu que os jurados agora tem mais falas escritas previamente em vez de declarações espontâneas, o que pode ter sido apenas uma impressão, mas se acabar se confirmando representará enorme tristeza; b) a bateria de testes preliminares que basicamente serve pra rir duns caipiras esse ano não foi tão rica em coiós quanto nas edições anteriores, exceto pelo coitado do gaúcho que foi lá todo pilchado dançando chula ser humilhado assando frango com maracujá e abacaxi com canela em rede nacional. Classificação: ASSISTIREI DO MESMO JEITO.

Pesadelo na Cozinha: É a versão nacional do Kitchen Nightmares, aquele programa em que o Gordon Ramsey vai nuns restaurantes fracassados, fala que o lugar é feio, a comida é uma merda, o dono é burro, depois torra uma grana preta do patrocinador pra resolver todos os problemas e (geralmente) termina numa cena redentora com adulto chorando e instrumental florido bombando no allegro. No Brasil quem pilota o circo é Eric Jacquin, com resultados evidentemente excelentes. Não dá pra negar que o gordão é carismático, o formato é muito redondinho e as personagens escolhidas (no episódio que vi, ao menos) compensam demais o investimento. Forneceu bom drama e excelente comédia – única coisa que eu achei sacanagem foi que pagaram um publicitário lá pra batizar o restaurante do cara de ZIO, embora a pronúncia fosse TIO (nenhum sentido), e ainda enfiaram coelho no menu, sendo que o próprio chef (e dono) havia dito que os clientes reclamavam de CEBOLA no RISOTO. Classificação: ENTRETENIMENTO ENLATADÍSSIMO EMBORA EXCELENTE.

UFC Fight Night 106: Já faz um tempo que não acompanho UFC com o mesmo afinco de 5 ou 6 anos atrás, mas sempre que tem alguma luta potencialmente interessante no card (uma época eram as do Johnny Hendricks, uma época eram as do Zé Aldo; mais recentemente Werdum e Amanda Nunes) eu ainda gasto uma retina no coliseu contemporâneo. Essa edição realizada em Fortaleza e transmitida pela Globo foi das melhores em muitos anos. Logo no começo já teve um maluco chamado TRATOR, um baixinho atarracado muito extremo que caiu pra dentro do adversário (um carecão 30cm mais alto que ele) gritando e socando muito forte sem parar o tempo todo por mais de um minuto. Mais tarde, boa luta de Edson Barboza, o cara com os movimentos mais bonitos do UFC. O maluco luta desde os 9 anos de idade, de modo que tiro MUITO o chapéu pra quem conseguir derrubar (não foi o caso essa noite). Em seguida, Shogun em grande forma performando a tradicional briga de urso e, pra encerrar com chave de ouro, o nocaute (sempre merecido) de Victor Belfort, que deveria ter se aposentado depois daquele tiro de meta que o já claudicante Anderson Silva cobrou na cara dele em 2011. Classificação: SANGUE E PORRADA NA MADRUGADA (VÊ QUEM CURTE).

Big Brother Brasil 2017: Periga ser a melhor edição do reality show depois das estreladas por Diego Alemão e Marcelo Dourado (the second coming), posto que esse ano abandonaram definitivamente os chamados “futuros ex-BBBs” (gostosas, bombados e exibicionistas capazes de tudo pela fama) em prol das “pessoas comuns” (todo o resto). Outra característica que tornou o casting desse ano particularmente atraente para mim é o fato de que mais da metade dos participantes está situado na minha faixa etária (37+), ficando a maior parte do tempo, como bons macacos velhos que são, apenas apaziguando, relativizando, confabulando, botando os jovens para brigar entre si e administrando o prejuízo só na elegância e na malandragem. Salvo engano, todavia, quem deve faturar o milhão e meio este ano é Emilly, gaúcha de 20 anos de idade do sub-tipo “pinscher”, bonitinha e infantil, porém braba e tinhosa, capaz de manipular tudo e todos com seus trejeitos ardilosos. Classificação: SÓ NÃO ASSISTI O BBB DAQUELE RAFINHA EMO PORQUE FOI UMA MERDA, OS OUTROS TODOS ADOREI.

três jogos

PRISON ARCHITECT: Em termos de videogame, sempre preferi os consoles aos computadores, embora recentemente tenha me rendendo a alguns títulos, mais notadamente este, um jogo independente, com grande comunidade ativa em prol de ajustes e melhorias, que nada mais é que um simulador de prisão. O bagulho é extremamente complexo, abrangendo desde a construção de paredes, dimensionamento de quadro elétrico e instalação de canos até aspectos relativos à variedade e qualidade da comida oferecida e o rigor das punições aplicadas aos detentos. O resultado é uma espécie de Sim City misturado com aquário (ou uma daquelas fazendas de formiga, que nunca possuí, mas sempre admirei), algo que dragou minha atenção de tal maneira nos últimos meses do ano passado que teve dias que passei quase 10 horas fazendo apenas isso, sem perceber o tempo passar. O resultado é que apesar de ter jogado menos de 20 dias, possuo 171 horas contabilizadas de jogo.

VEREDITO: MAIS FORTE QUE CRACK

CLASH OF CLANS: Joguinhos de celular nunca fizeram muito a minha cabeça, nem mesmo o famoso SNAKE do começo dos anos 2000, e a verdade é que não lembro bem porque baixei e como comecei a jogar esse troço – mas lá se vão uns bons 3 anos. Esse é o seguinte: o cara constrói uma vilinha e tem que ficar se defendendo de ataques de exércitos que incluem vikings, valquírias, arqueiros, gigantes, goblins, balões, dragões, golems, bruxas e outros seres fantásticos. Alternativamente, também é possível atacar outras vilas atrás de recursos, que serão então revertidos para construir vilas mais seguras (instalando canhões, torres de arqueiros e outras armas, construindo muros e escondendo armadilhas). Tudo acontece online, jogador contra jogador, num estilo todo cartunesco, caricato e infantil. Cheguei a integrar um clã de iraquianos e paquistaneses certa feita, mas a coisa acabou ficando meio pesada quando os caras entraram numas de defender o ISIS e eu pulei fora.

VEREDITO: MAIS FORTE QUE JOHN PLAYER SPECIAL

FIFA 2012: Quando mencionei que estava namorando a ideia de adquirir um PS3, vários anos atrás, meu irmão me fez a seguinte indagação: “Tu tem certeza que quer pagar mil reais só pra jogar FIFA?” Após ponderar, comprei não apenas o PS3 com o FIFA da época (que era o 2011), como também o meu primeiro (e até agora único) televisor HD. Essa parábola representa a minha estima pelo jogo. Costumo jogar FIFA sempre no modo CAREER, o mais profundo de todos, e sempre escolho um time europeu da segunda divisão, pra ter mais longevidade e possibilidade de contratação de jogadores. Salvo engano, joguei o FIFA 11 até meados de 2014, quando cheguei ao fim das 15 temporadas. Em seguida adquiri o FIFA 12 por um preço tremendamente camarada, e atualmente estou na metade da 14ª.

VEREDITO: MAIS FORTE QUE CHARUTO DE MACUMBA

ouvideira nervosa

Ontem à noite tive o que podemos chamar de “crise aguda de tinnitus”.

Acontecia com muita frequência nas primeiras semanas: na hora de dormir, com o silêncio da casa e das ruas, a tendência era que a altura do zumbido aumentasse muito, me deixando incrivelmente perturbadão. Acho que isso acontecia porque o zumbido constante era uma sensação nova, e eu dedicava muito da minha atenção a ela. Por ser nova, era também misteriosa, e me deixava muito aceso imaginando os possíveis causadores da mazela – tumor cerebral? doença degenerativa? desequilíbrio grave do organismo?

Depois de um tempo, com vários exames descartando causas perigosas mais imediatas, fui sossegando o rabo. Acostumei com o som e passei a cancelá-lo com grande facilidade, mesmo em situações de silêncio pronunciado, como na hora de dormir. Ainda percebo um aumento no volume do apito em algumas situações específicas, como quando bebo profissionalmente, se durmo poucas horas várias noites seguiras ou se estou muito estressado.

Ontem, todavia, não me encontrava em nenhuma das duas situações.

Mais cedo, porém, aconteceu algo. É uma coisa que acontece de forma muito episódica, talvez uma vez por ano ou a cada seis meses. Todavia: acontece.

Chamo de “efeito tampão”.

O efeito tampão se manifesta do nada. O cara tá ali, jogando um game, traduzindo um troço, comendo um camarão, fazendo um apoio, curtindo um barato com os amigos e BLIM: um ouvido fica surdão. Na real, não: abafadão. Parece que um daqueles plugs de operador de britadeira simplesmente se materializou dentro do ouvido. Os sons ainda são muito audíveis, porém ficam distantes, filtrados. A coisa toda não dura mais que dois segundos e, assim como veio, vai embora sem deixar – aparentemente – nenhuma sequela.

TALVEZ isso tenha alguma relação com o apito mais alto dessa noite.

Talvez não.

Além do efeito tampão, também rola às vezes o efeito catástrofe, que é quando o cara experimenta um aumento inacreditável do volume do tinnitus pelo mesmo segundo, da mesma forma imprevisível e efêmera. Esse, pela minha observação, tem mais relação com a limpeza do canal auricular por meio de: cotonetes. Eu limpei o ouvido hoje? Dali umas cinco, seis hora vou enfrentar essa hecatombe auricular. Todavia: nem sempre. Mas até hoje, que eu me lembre, não acontece sem eu ter futucado a orelha no intuito de higienizá-la.

Ficaremos de olho.

reflexos robóticos

Uma coisa que faço há anos, mas só hoje parei pra racionalizar: sempre que escrevo um e-mail mais duro, de cobrança ou crítica, ou envio uma mensagem com potencial vexatório, de desejo ou recusa, a minha tendência é fechar imediatamente a janela do browser aberta no Gmail ou sair do WhatsApp, por exemplo, como se eu estivesse me escondendo, como se eu não quisesse que a pessoa visse o meu rosto enquanto eu entrego a bomba.

o.j. simpson vs. a teoria do churrasco

Comecei a assistir esse fim-de-semana a essa série da Netflix com o Cuba Gooding Jr. (mau ator), o John Travolta (mau ator) e o Ross, de Friends (pior ator) sobre o caso O.J. Simpson.

Estou gostando porque o tema me interessa e, além do mais, sempre curti muito essas versões ficcionalizadas de crimes e julgamentos nos Estados Unidos, mas o que mais me chamou a atenção até aqui não são as nem atuações fracas, nem o roteiro bom, nem a caracterização dos personagens (mediana).

O que me saltou aos olhos nesses primeiros 3 capítulos foi o formato.

Os episódios, que tem entre 45 e 60 minutos, são todos fatiados em blocos dramáticos de 10 a 12 minutos e encerram com uma tela preta que, em alguns casos, parece que fica preta por tempo demais. Além disso, todos terminam com um cliffhanger, ou seja, aquela situação inacabada de carga emocional elevada, responsável pelo saboroso gostinho de quero mais.

Vejo nesta divisão de conteúdo uma aplicação prática da minha Teoria do Churrasco™, que prega que a melhor forma de fazer alguém consumir conteúdo extenso nos tempos atuais é: compartimentando esse conteúdo extenso em uma sequência de blocos curtos.

Um seriado por si só já é um exemplo muito bom disso, mas quando as divisões de tempo se mostram tão evidentes dentro de cada episódio é sinal de que atingimos um novo patamar no tempo máximo que uma pessoa aguenta prestar atenção em alguma coisa.

Fiquei pensando se o tempo excessivo em que a tela fica preta entre um e outro desses blocos narrativos não seria justamente o tempo que o cérebro precisa para se resetar, tornando-se apto para absorver melhor o novo conteúdo que se apresenta assim que a imagem se ilumina. Levando-se em conta que foi feito pela Netflix, que costuma levar os algoritmos muito a sério, talvez esse palpite represente algo muito próximo da: verdade (senão a própria).

A ver.