chacrinha

Sábado assisti pouco mais de uma hora de uma reprise de um programa do Cassino do Chacrinha. Foi uma experiência muito interessante em vários níveis, e provocou uma epifania um tanto incômoda em minha cuca, cuja trajetória se resume da seguinte forma: a) num primeiro impacto pensei “tu vê só, um dia o Brasil já foi assim”; b) alguns minutos depois pensei “as pessoas pareciam mais felizes, será que era mesmo melhor?” muito embora o programa fizesse propaganda do Governo José Sarney e eu me lembre muito bem desse governo, com racionamento de carne e inflação de mais de MIL por cento ao ano; c) por fim me dei conta de que “o Brasil ainda é 100% assim, a diferença é que no final dos anos 80 a Globo ainda estava conectada ao povo brasileiro, e hoje em dia (e há anos) não está mais.”

De repente fez sentido o IBOPE da Globo estar cada vez menor enquanto o de redes que ainda buscam um contato com a massa brasileira, como a Record e o SBT, estarem cada vez maiores.

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Fora isso, fiquei bastante impactado com o programa de modo geral. A dança das Chacretes (todas batizadas com nomes de guerra intensos como “Sandrinha Toda Pura”, “Gracinha Copacabana” e “Gleice”), focadas de baixo pra cima, com closes escancarados em suas bundas e virilhas; o desfile interminável de artistas de grande vulto como Biafra, Sylvinho, Benito di Paula, Sandra Sá, Almir Guineto, Sarah Jane e Luís Caldas, todo mundo mandando ver num playback extremo; as mensagens de apoio ao governo José Sarney na voz do Chacrinha, no texto de algumas placas levantadas pela produção e na fala de alguns de seus jurados (que incluíam Elke Maravilha, João Kléber e Sônia Abraão); as roupas, cortes de cabelo e formato do corpo das pessoas, entre artistas e populacho, equilibrando-se num espaço esquisito entre o final dos anos 70 (costeletas, camisa aberta, calça boca de sino) e o auge dos 80 (ombreira, mullet, calça de jeans nevada); o arremesso de jacas, abóboras, melancias, quilos de arroz, feijão e farinha à plateia, geralmente acompanhados de anúncios pró-governo federal (cujo slogan na época era “Tudo pelo social”).

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Não tenho a menor dúvida de que esta aura segue intacta em qualquer boteco com mesa de sinuca que vende pinga, qualquer puteiro de beira de estrada frequentado por caminhoneiros, qualquer município com menos de 50 mil habitantes que ainda conserva o mais puro suco do brasileiro – e ainda não sei muito bem o que fazer com essa constatação.

Vamos deixar assentar mais uns dias.