roma: scheda tecnica

Eu sabia muito pouca coisa sobre Roma e a Itália e, pra falar a verdade, não tive muito tempo nem pilha de pesquisar antes de viajar pra lá, de modo que chegamos meio no cagaço numa tarde de sábado e fomos aprendendo sobre a cidade à medida em que íamos existindo e nos movimentando nela. No fim das contas: bom método, achei. De lembranças mais fortes, a presença constante de moscas em absolutamente todos os restaurantes, bares e demais lugares com comida; e o trânsito estranhíssimo, onde atravessar a rua no começo parece uma grande aventura, mas depois de alguns dias tu te acostuma a simplesmente sair caminhando no meio dos carros até que eles (ou pelo menos a maioria) parem pra tu passar.

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geografia: Na sala de espera do aeroporto de Lisboa, não sei se na Wikipedia ou no Wiktravel eu li que, assim como a capital portuguesa e várias outras cidades europeias, Roma havia sido construída em cima de sete colinas (que mania), de modo que sobrevoei o belíssimo terreno montanhoso espanhol e um naco generoso do Mar Mediterrâneo esperando uma surra de lomba do mesmo grau providenciado pelo nosso último destino assim que aterrizasse. Todavia, por algum motivo, isso não aconteceu. Fora o Gianicolo, em Trastevere, morrão brutal que escalei com meu irmão para ter uma vista acachapante da cidade como recompensa, não tive nenhuma grande aventura vertical por lá. Cidade bem estranhona, Roma, aliás – num bom sentido. Umas partes medievais, com chãozinho de pedrinha lisa, sem calçada, dividindo o espaço estreito com os carros por entre caminhos repletos de arcos, fontes, vielas, escadas e pracinhas. Outras partes com aquela cara mais urbana semi soviética de Berlim Oriental, embora com linhas mais arredondadas, mais com cara de decoração de bolo que presídio sofisticado. E aí, no meio disso tudo, a velharia. Igreja pra caralho, todas sensacionais. Uns restos de palácios, umas colunas carcomidas de 2 mil anos, estátua pra tudo quanto é lado, uns monumentos gigantescos que te deixam esmagado, humilhado e metralhado como ser humano. O cara pega um tramzinho despretensioso qualquer e de repente BIM: aparece o Coliseu na janela. É um teto.

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clima: Vacinado por Lisboa e alertado por amigos, já me preparei prum morninho mais quentucho em Roma, que foi precisamente o que experimentei. Se usei moletom algum dia foi mais pelo fiasco e pelo estilo do que pela necessidade real. No fim, meio parecido com Lisboa: uns 30 graus na tarde, uns 17 na noite. Se tinha sol – e nem todo dia teve – ficava um pouco mais casca. Na sombra e com o céu encoberto era mais tranquilo. No nosso segundo dia lá, um domingo, chegou a chover por uns 15 minutos, fazendo brotar de forma muito imediata vendedores indianos de guarda-chuva. Sério, isso foi bem impressionante: os caras, que até então vendiam umas coisas aleatórias tipo uns panos ou água e refri, no instante em que começou a chover apareceram cheios de sombrinha de bolso pra empurrar pra rapaziada. Mas foi isso. O ar em Roma ainda estava bem seco, produzindo aquele tatu firme, embora em alguns momentos tenha estado um pouquinho mais úmido do que em Portugal (até porque rolou essa garoinha).

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airbnb: Ficava na Via Amiterno, numa hood bem residencial pertinho da Porta San Giovani e da Basilica di San Giovani in Laterano, além da estação de metrô San Giovani, o que me faz suspeitar fortemente que o nome do bairro provavelmente deva ser San Giovani também. O apartamento ficava no último bloco de um condomínio com três prédios, bem no fundão. Tu abria um portão que também servia para os carros, passava por dentro de uma entrada que levava para o primeiro prédio e atravessava o pátio repleto de carros, gatos e plantas que levava para o segundo e para o terceiro. Lá tu abria outra porta menor para ganhar acesso às escadas (frias e escuras embora largas, de pedra clara polida e corrimão de granito) ou ao elevador (apertadinho, com porta pantográfica, pitoresco). O apartamento em si era bem espaçoso, com dois grandes quartos equipados com camas de casal – e mais uma segunda cama de armar para o terceiro (ou quinto) hóspede – uma cozinha de bom tamanho com uma mesa redonda num canto e um banheiro legal, equipado com um chuveiro um tanto quanto traiçoeiro (escorregava do poste e saía metralhando pra todo lado, e ainda tinha uma cortina de plástico que, não importava o que se fizesse, sempre molhava a porra toda) e uma máquina de lavar (que, todavia, tinha sido arrebentada pelos chineses que ficaram ali antes de nós e portanto não estava funcionando). O bizarro desse apê é que ele não tinha uma sala de estar, um espaço comum, e talvez por isso carecesse de uma TV – o que não chegou a estragar a experiência, lógico, embora tenha nos privado de mais essa camada de acesso à cultura italiana. Também tinha uma mini varandinha para cada um dos quartos, com a mesma configuração lisboeta de mesinha com cadeiras espremidíssimas num espaço magro. Dava vista pros fundos de um outro prédio e para o pátio desse prédio, com uma dúzia de janelas protegidas por venezianas e cortinas. Não era especialmente feio nem bonito, mas tinha lá o seu charme.

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anfitrião: Era uma mina chamada Annalisa, com fortes vibrações do leste europeu embora falasse italiano belíssimo e perfeito e provavelmente fosse apenas uma italiana loirinha de cabelo liso preso e olho claro e não uma tcheca búlgara moldava curtindo um bronze adriático. Não tinha um inglês muito bom, mas foi solícita e gente fina desde o começo, agilizando carro pra nos buscar e levar no aeroporto e se habilitando a solucionar o problema da máquina de lavar assim que ele se apresentou (inclusive tendo trocado mensagens por mais de uma hora com meu irmão no chat do aplicativo do Airbnb num domingo de noite para tentar resolver a bronca à distância). Boa pessoa.

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internet: Logo que chegamos, fluiu macio. Annalisa até esperou que um de nós tivesse conseguido se conectar à rede antes de ir embora. Domingo à noite, todavia, absolutamente do nada, a internet peidou. Caiu e não voltou. Ligamos e desligamos o wi-fi dos celulares, reiniciamos o modem várias e várias vezes. Nada. Tinha uma luzinha lá debaixo do ícone de mundo que simplesmente não acendia. Tudo indicava ser uma daquelas panes eventuais que dá num serviço desses, seja porque rompe um cabo ou porque alguma outra coisa dá um pau, ou só porque tinha uma manutenção programada naquela madrugada de domingo pra segunda. Só que a gente não tinha como saber, e ficamos ali meio perdidões tentando entender, buscando informação em italiano no site da TIM ou da TRE e não encontrando coisa nenhuma. Sensação meio estranha. De repente, lá pelas três da manhã, voltou. Do nada. Nunca soubemos o que foi, mas também nunca mais deu problema.

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obra do local: O mais engraçado é que nas resenhas desse AirBnb tinha um pessoal reclamando do barulho de uma obra acontecendo no apartamento de cima ali por junho. Meu irmão até tinha visto, mas pensou “vamos no começo de outubro, já deve ter acabado.” Eu teria pensado o mesmo. Todavia, como ele, teria pensado errado. Como chegamos num sábado, nos primeiros dois dias não pareceu que haveria uma obra de qualquer tipo ali – e porque haveria de haver? Não faria mesmo o menor sentido. Acontece que havia. Na segunda ficou claro, quando, por volta de oito e meia da manhã, começamos a ouvir pancadas surdas e cadenciadas penetrando o teto grosso e escorrendo até os nossos ouvidos. Por sorte, aparentemente eram apenas retoques: as batidas foram ouvidas apenas por um ou dois dias, embora de forma muito brutal.

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vizinhos: Não eram muito perceptíveis esses vizinhos. Achei os italianos que conhecemos muito menos barulhentos do que o estereótipo gosta de sugerir. Supostamente este era um bairro mais residencial de Roma, com ruas tomadas pelo pequeno comércio, carros absolutamente arrebentados e uma italianada braba caminhando pra cima e pra baixo. Não captei nenhuma grande chinelagem ou gritaria nesta área (nem em qualquer outra, pra falar a verdade). O pessoal parecia apreciar o bom silêncio. Ao mesmo tempo, uma marca registrada eram as roupas, penduradas nas janelas de forma ostensiva (se bem que isso também era flagrante em absolutamente toda a cidade).

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ganja: Não lembro de ter sequer sentido o cheiro da ganja em Roma, mesmo quando nos metemos nas ruelinhas fervilhando de jovens na noite de Trastevere. Será que os caras não curtem muito a erva lá? Se curtem, de onde será que vem o grosso do bicho? Norte da África? Se for, deve ter mais hash que ganja lá. Mas também não sei. Não faço ideia.

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música: Como não tinha TV em casa acabamos não consumindo nada de música por tabela. Considero uma das grandes lacunas dessa viagem à Itália, embora eu já saiba de antemão que, na média, a música italiana é uma merda.

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supermercado: Aqui a coisa começou a melhorar. Bem perto do nosso apartamento havia um bom supermercado local da marca PAM, que nos abasteceu quase que diariamente com pães, frios, queijos, biscoitos, cerveja e chá gelado. Nesse super tinha um negócio muito bom chamado pizza bianca que, na real, era um pão quadradão, chato e fofo, nadando em óleo, excelente para a confecção do: sanduíche. Adquirimos ao longo da semana bons salames e prosciuttos, bem como queijos de vaca e ovelha e uma manteiga pesada. Rolou ainda uns chocolatinhos delícia, uns sachezinhos de café com aroma de avelã, uns biscoitaços extremos, mas o meu destaque tem que ir para as cervejas locais, que merecem um esmiúço à parte logo adiante.

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transporte público: Esse no começo meio que assustou. Todo mundo dizia que a Itália era foda, que era tudo uma bagunça, e que o cara tinha que ficar ligado pra não ser roubado ou tomar um golpe. A primeira parte é verdade: é uma bagunça, tudo. Nada é muito auto-explicativo, o cara tem que ir pesquisando na internet uns blogs de viajante pra ir entendendo como funciona o bagulho. Agora, por exemplo, eu já nem lembro muito bem como era o esquema do metrô. O que eu lembro é que um dia a gente foi na estação que tinha ali perto do apê e eu comprei os biglietti numa máquina sem grandes mistérios. O único truque é que todas as máquinas tem desenhado do lado que formato de dinheiro elas aceitam, e nem todas aceitam notas (na real, que eu me lembre, nenhuma aceitou, mesmo as que supostamente deveriam). Se o turista começa a se embananar, não demora muito pro espertalhão local se oferecer pra ajudar (e aí sei lá o que acontece, porque o turista aqui não deu sorte pro azar e quando esses malucos mandaram seu hello may I help you sir eu já mandava o meu non grazie da escapatória total e cortava o carcamano). Achei o metrô bem limpo, simpático e tranquilo – exceto na hora do rush, quando aí vira um metrô normal como em qualquer cidade grande do mundo: lotado pra caralho. Fácil de entender as linhas e estações. Usamos também os biglietti nos trams – que achei ainda mais limpos, simpáticos e tranquilos que os trens do metrô, com a vantagem de te deixarem assistir a cidade enquanto se deslocam, embora não haja nenhuma indicação de parada e o cara precise confiar nos mapas e instinto para descer no lugar certo. A única inconveniência da rede de transporte de Roma é que se o cara tá num lugar onde só chega tram, como Trastevere, por exemplo, e não comprou um bilhete pra fazer a viagem de volta, aí tem que se enfiar numa tabacaria e tentar desenrolar um italiano pra adquirir o produto (o que não chega a ser muito complicado, também). Se não me engano no metrô tu enfia o biletinho na catraca e no tram tu enfia numa maquininha pra carimbar. Vale por algo como 100 minutos apos o início da primeira viagem.

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táxi/uber: Em parte intimidado pela língua, em parte desincentivado pela ótima oferta do transporte público local, não usamos nem táxi nem Uber em Roma. Aparentemente o único lugar em que se pega táxi em Roma é nos pontos; se o cara faz sinal na rua, eles não param. Isso foi o que eu li, mas na real não testei e acho que não vi. Nem prestei atenção. Uma coisa que fizemos, e foi bom: usamos um serviço de transporte privado pra sair do aeroporto e voltar pra lá. Levando em conta que um táxi de Fiumicino até a cidade custa de 50 euros pra cima, foi excelente ter desembolsado apenas 45 pelo mesmo trajeto sem nem precisar gastar o meu italiano inexistente com algum taxista potencialmente vigarista. Não parece uma economia tão enorme em termos absolutos, mas assim que atravessamos o portão de desembarque tinha um maluco com uma plaquinha escrito “Czarnobai” (pena que estava sem bateria no celular pra fotografar) nos esperando, e no dia do voo pra Paris o tiozão que nos levou chegou 15 minutos antes da hora combinada e disse que só estava nos avisando que já tinha chegado, e que estava a nossa disposição quando quiséssemos ir. Sem stress, sem confusão, sem nenhum grau de tensão. E dez euros mais barato que um táxi. Achei estupendo.

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trago: Na minha cabeça e por conta de algumas experiências passadas, a ceva provavelmente não devia ser muito o forte da italianada também. Fora alguns títulos malucões do Birrificio del Ducato que havia consumido por aqui, tudo que eu conhecia de cerveja italiana eram umas lager e umas pilsen padrãozinho, de modo que não estava esperando nada. Todavia, que boa surpresa me fizeram as cervejas italianas. Pelo jeito a onda artesanal e gourmet aportou com força no mercado local, com reflexos visíveis tanto nos rótulos industriais quanto nos semi caseiros. Logo de cara, na nossa primeira refeição, tomamos uma tal de Gran Riserva Doppio da Peroni, curiosamente identificada apenas como “artigianale” no cardápio do ristorante embora seja fortemente comercial. Mesmo assim já era uma pedrada, sobretudo comparada às portuguesas. Não lembro de ter tomado nada muito memorável nos restaurantes nos dias seguintes, mas levamos pra casa o que achamos no supermercado, basicamente rótulos da Moretti e da Poretti (creia, embora, pra ser justo, essa segunda se chame Angelo Poretti). Da primeira tomamos duas que, descobriria mais tarde, fazem parte da linha Le Regionali, de cervejas que levam na receita algum ingrediente local de algum cafundó da Itália. A Moretti alla Toscana, por exemplo, era feita com variedades específicas de trigo (um tal de trigo emmer) e cevada (diz que é orzo di Maremma); já a perfumosa, refrescante e deliciosa alla Friulana (my fave) levava maçãs na receita. Dei uma rápida olhada no site da marca e vi que essa última os caras nem estão mais fazendo. Que bom que eu tomei. No mais, também gostei bastante das cervejas da Angelo Poretti, mais lupuladas e fortonas. Tomei uma 5 Luppoli Bock Chiara e uma 6 Luppoli Bock Rossa. Ambas deliciosas, amargosas, mais com cara de IPA que de BOCK, se é pra falar nesses termos.

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Merece um subcapítulo à parte o espetacular brewpub Ma Che Siète Venutti A Fa?, uma portinha toda cheia de adesivo que leva pruma gruta escura localizada numa parede ancestral no bairro boêmio e charmosinho do  Trastevere. Lá dentro umas VINTE torneiras enfileiradas, servindo cervejas efêmeras, bizarras ou alienígenas como a norueguesa Lervig Hazy Days, a americana The Veil We Ded Mon e as locais Vento Forte IPA, Ritual Lab Tupamaros e Extraomnes Quadrupel. Só pela brincadeira, joguem esses nomes no RateBeer: tudo na base de 98, 99 pontos de 100 possíveis. Agora imagina isso ON TAP. Que trago excelente, meus amigos. Senão o melhor, definitivamente um dos três melhores de toda a minha vida. Eu e o Nes, bem loucões, subimos o Gianicolo, mijamos clandestinamente nas redondezas do Orto Botanico e depois ficamos azucrinando pelos mirantes da colina antes de descer pra tomar a saideira.

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rangos: Essa foi, disparada, minha maior decepção nessa viagem. Passei a vida inteira comendo comida italiana e ouvindo que a Itália era o lugar onde melhor se comia em todo o mundo mas, pelo menos no tocante a Roma, e pelo menos na minha experiência, isso não se mostrou verdadeiro. Não que tenha sido terrível: muito pelo contrário. Comi muito bem na Itália. Só não comi no nível extremamente elevado que eu estava me preparando pra comer. Talvez uma forma melhor de dizer o que eu disse seja afirmando que já comi comida italiana melhor ou, no mínimo dos mínimos, no mesmo nível em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Alguns amigos, ao serem confrontados com essa incômoda realidade me disseram que Roma realmente não é um bom lugar para se comer de forma esplêndida, e que os verdadeiros tesouros gastronômicos da Itália estão escondidos nas cidades do interior e, naturalmente, na casa dos italianos. Mas só posso falar do que vi e comi, e o que vi e comi não me impressionou muito (exceto pelas já supracitadas moscas e pelas generosas peças de carne expostas de forma quase obscena nas vitrines). Dito isto, nosso primeiro contato com a culinária local foi numa pequena cantina chamada Da Roberto e Loretta, onde chegamos depois das 15h e fomos relegados a uma parte isolada do restaurante enquanto habitués comemoravam o que me pareceu um aniversário de gente mais velha em algum dos outros cômodos. Ninguém falava inglês, e tivemos que nos virar para pedir boas massas e um porco assado com batatas. Lembro que tinha coelho no menu, mas acabei optando por um tonnarelli cacio e pepe, por saber tratar-se de um dos pratos mais famosos da culinária romana: massa com queijo pecorino e pimenta. Foi lendo esse cardápio que fomos apresentados ao conceito italiano da entrada, primeiro e segundo pratos – embora não tenhamos entendido muito bem naquele momento. Aparentemente, a maneira tradicional de comer uma refeição na Itália envolve uma série de etapas, que incluem aperitivos, entradas, dois pratos principais, acompanhamentos, saladas, frutas, queijos, sobremesa, café e digestivo. A maioria dos restaurantes opera dessa forma ou, no mínimo, oferecendo opções de antipasto, primo e secondo piatto e dolce. Todavia, quem não tem tempo, saco, bolso ou estômago pra todo esse banquete pode simplesmente comer qualquer dos pratos na sua versão solo. Pelo que entendi, em alguns lugares, isso faz com que o prato único seja servido numa versão maior do que seria caso o cliente tivesse optado pela sequência – mas não tenho certeza absoluta disso. Voltei a comer um cacio e pepe no último dia de viagem, cobrindo uma massa no formato de bolinhas bem pequenas chamada gnocchini (literalmente, um “nhoquinho”), num restaurante bem menos tradicional do que o primeiro, todavia com resultados (sabor e preço) muito próximos (senão idênticos). Também comi bastante sanduíche em Roma: em casa, nuns buracos meio aleatórios perto da parte mais turística da cidade e no notório Pane e Salame, supostamente um dos melhores da cidade. Todos eram bons. Não tinha como não serem: os pães eram bons, os frios eram bons, o que poderia dar errado? Até o tomate seco em Roma era bom, e olha que estamos falando de um dos ingredientes que mais detesto no mundo. Outra coisa típica de Roma da qual me alimentei foi o famoso saltimbocca: filezinhos de vitela enrolados em presunto cru e sálvia e fritos numa solução de vinho branco e manteiga. Esse troço era preza. Bah. Aí eu tirei meu chapéu. Vitela também comi um outro dia numa versão ensopada com batatas e coberta por um molho cremoso marrom, mas nada de muito acachapante dessa vez. Um risoto fraco de polvo e marisco um dia, uma carbonara (literalmente) criminosa um outro (mais sobre isso em tourist trap) e meio que foi isso. O destaque curioso e inesperado vai para o Studio Pasta, um lugar que, apesar do nome, parecia ser forte pela venda de pizzas em fatia, mas, no fim, acabou se revelando uma boa experiência autenticamente regional. Só italianos frequentavam o local, e a maioria estava se alimentando da sua maneira tradicional e nababesca, enfileirando uma sequência interminável de pratos. Como comeu aquela italianada aquela noite. Barbaridade. E muitos ainda saíam pra fumar entre uma etapa e outra da refeição. De nossa parte, pedimos uma prancha de frios bem generosa, com muito salame, presunto cru e diversos tipos de queijo; uma porção de legumes empanados e fritos bastante excelente; um bolinho de arroz típico da região chamado supplì; e um exemplar da célebre pizza romana, com a massa mais fina do que costumamos comer no Brasil. Nada mau. Por fim, vale conferir uma menção honrosa a pelo menos um elemento da gastronomia italiana que sobreviveu gloriosamente à sua fama: o café. Sempre fortíssimo e muito gostoso, fechou todas as refeições com qualidade extrema. Foi o sabor, perfume e sensação que mais deixou saudade no quesito culinário.

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doces: Aqui os romanos se redimiram com tranquilidade. Como fazem doces bons, esses desgraçados. Comemos tiramisù tradicional no Studio Pasta e algumas receitas mirabolantes, com banana e frutas vermelhas no Pompi e tudo era: absolutamente fatal. As tortas do I Vitelloni, o salame de chocolate, a panacotta e até os morangos com nata do Tonnarello (pico aberto supostamente desde 1876): só pedras. Se a comida salgada não me deixou com o famoso gostinho de quero mais, as sobremesas fizeram isso com larga folga.

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tourist trap: Um dia a gente estava andando há horas ali pelo centrinho, bateu fome, bateu cansaço e a solução foi tentar achar o lugar menos horrível pra dar uma sentada, beber e comer alguma coisa tomando o menor tufo possível. Na região em que estávamos, altamente turística, a maioria dos lugares tinha cardápio de plástico e cartaz com foto das comidas na frente – dois dos três principais sinais de furada na Europa. Esse não tinha nenhum dos dois, mas tinha o terceiro: o garçom que fica abordando o turista desavisado na rua na tentativa de atraí-lo para dentro. Acabamos cedendo. O lugar se chamava Osteria dell’Alloro. Se quiser ter uma ideia do tamanho da encrenca, jogue este nome no Trip Advisor e leia algumas das resenhas (já alerto que a nota média é 2,5 e que mais de 40% das 600 avaliações o classificam como ‘horrível’). Logo que entramos, um gordão italiano nos fez sentar, encostou uma mesinha de madeira ao lado da nossa e deitou um peixão sobre ela, perguntando algo como “então hoje vamos comer peixe?”, enquanto manuseava uma faca sugerindo possíveis cortes. Como aqui é Brasil, sentimos o abraço e dissemos não de forma muito enfática. Ele começou a querer sugerir alguma das enormes peças de carne que estavam expostas na vitrine, mas, novamente, negamos, e exigimos o cardápio. Ao perceber que tinha adversários à sua altura, o tramposo meio que nos largou de mão, concentrando seus esforços numa numerosa família americana, que adentrou com 8 ou 9 membros e saiu aceitando absolutamente tudo que ele ia oferecendo. Nosso cardápio demorou, mas chegou. Nele entendemos que o preço dos pratos não era assim tão catastrófico – exceto pelos itens peixe, carne e couvert (que recusamos ainda antes de sentar, pra não ter erro). Só nesse o cara já saía morrendo em mais de 15 euros se bobeasse. Não bobeamos. O brasileiro que entrou depois com um sorriso besta na cara, elogiou as carnes na vitrine dizendo “ô loco”, aceitou couvert, vinho e água mineral pra ele e pra mulher: sim, com certeza. Não sei quanto foi a conta deles, mas certamente não foi bonito. Consultando o cardápio descobrimos que os peixes e peças de carne eram cobrados por peso: 5 euros a cada 100g. É claro que o 5 estava em uma fonte enorme, vermelha, vendido como grande vantagem; e o 100g lá embaixo, bem pequenininho, quase escondido num canto da página. Suponho que os caras cobrem o preço pela peça inteira e depois sirvam apenas um naco – o que explica as fotos de contas de mais de 300 euros por casal no Trip Advisor. Com muito custo, conseguimos pedir nossos pratos: massas absolutamente ordinárias, sem muito gosto ou brilho. Estavam molengas, claramente cozidas muito além do ponto, e pareciam ter sido aquecidas no microondas (o que talvez tenha sido justamente o caso). Comemos, bebemos (cerveja um pouco acima do preço, mas nada de muito absurdo também) e pedimos a conta. Subitamente emergiu da cozinha um garçom brandindo uma bandeja repleta de doces que, à primeira vista, até pareciam bonitos, mas, com uma observação um pouco mais cuidadosa se mostravam envelhecidos e queimados de sol de tanto entra e sai. Tentaram botar algumas taças sobre a nossa mesa, mas não deixamos. Quando a conta chegou, era algo como 45 euros. Meu irmão deu uma nota de 50. O gordão ainda tentou meter a seguinte: “Está certo assim?”. Todavia o Brasil falou mais alto mais uma vez e meu irmão respondeu com a testa franzida, chacoalhando a cabeça e os dedos, vociferando vários nãos e logo em seguida a frase que aquele carcamano menos queria ouvir: “Me traz o meu troco.” O cara demorou um pouco e, quando voltou, com uma cara de cu tremenda, literalmente arremessou as moedas sobre a mesa, e nem respondeu prego quando mandamos o grazie, buona giornata e arrivederci de praxe na despedida.  Levando tudo em conta, até que não fomos tão mal.

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programas turísticos: Como não conhecíamos absolutamente nada de Roma e tínhamos vivido boa experiência em Sintra, nos pareceu que a melhor coisa a fazer seria passar o primeiro dia visitando os principais pontos turísticos da cidade num daqueles ônibus turísticos hop on hop off. A ideia era ir registrando os lugares que mais nos chamassem a atenção num caderninho para retornar nos dias seguintes, e foi precisamente o que fizemos. É claro que em uma semana na cidade mal deu pra arranhar a superfície. Roma talvez seja a cidade no mundo com mais atrativos a céu aberto. Chega a ser surreal de tanto monumento, ruína, estátua, palácio e igreja. Bem perto do nosso AirBnb, por exemplo, ficava o Coliseu. Bem perto talvez seja um pouco de exagero: dava uns 20 minutos caminhando. Não só ele como os arredores são bem impressionantes, tanto pelas dimensões quanto pela idade. Que troço fenomenal aquilo tudo. É muito incrível ficar imaginando como construíram edificações tão altas, com tantos detalhes esculpidos, com tanta precisão geométrica – e, acima de tudo: capazes de durar tanto tempo. Não chegamos a entrar no Coliseu em si. Filas quilométricas e a impressão de que olhá-lo de fora, em meio à paisagem urbana da cidade atual, já era impactante o suficiente. Além do mais, vi depois na internet que era só um monte de escada pra subir e um monte de pedra no meio dumas gramas pro cara olhar lá dentro. Chegamos bem perto, demos a volta, observamos as diferenças de arquitetura. Ali por volta tem também os restos do Fórum Romano e do Circus Maximus, mas não exploramos muito – o primeiro por conta da mesma fila imensa e (admito) nosso desconhecimento e desinteresse (no fim das contas tudo bem, era meio que um monte de pedra e coluna e esqueleto de prédio mesmo, e dava pra ver de longe do outro lado, coisa que fizemos uns dias depois); o segundo porque o que foi outrora uma pistinha de corrida onde as bigas tiravam altos rachas hoje em dia é apenas um areão meio feio, que lembra um pouco as memórias que tenho do Ararigbóia (descobri a existência desse G mudo na Wikipedia), um parque localizado entre os bairros o Petrópolis e o Jardim Botânico em Porto Alegre que também conta com um areão meio feio. Diz que os romanos usam aquele espaço hoje em dia pra correr e se exercitar. Eu achei meio fuén.

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A parte da cidade que eu convencionei chamar de “centrinho” é todo aquele pedação antigaço cheio de piazza, palácio, igreja e fonte, mas a verdade é que a quantidade absurda de turista meio que impede a fruição de quase tudo que há por lá. Nem consegui me aproximar do Panteon, por exemplo. A Fontana di Trevi talvez seja o melhor resumo disso. Passa rigorosamente o tempo todo constantemente apinhada de turistas, é um negócio realmente assustador. Muito difícil até de chegar perto. Agora claro: é um troço muito icônico e bonito. Umas estátuas gigantes, imponentes, bem branquinhas, aquela água bem azul fluindo. Só que aí também tem aquela gentarada vermelha de sol jogando moeda por cima dos ombros e meia dúzia de guardinhas soando apitos e gritando em italiano com os turistas que, por ventura, estiverem fazendo algo de errado (como sentar em algum lugar que não pode, descer as escadas comendo sorvete ou tentar entrar na fonte). Tentamos regressar duas ou três vezes, em horários diversos, mas sempre nos deparamos com o mesmo batalhão de pessoas, que se estendia por toda a praça que circundava a fonte. Coloco nesse mesmo espaço geográfico diversos outros bagulhos interessantes, como o Altar da Pátria (imenso e maravilhoso), a Piazza de Spagna (nhé) e o Largo da Torre Argentina (entre outros). Tudo é muito antigo, muito grande e muito bonito, mas, em absolutamente todos esses lugares, a presença realmente massacrante de turistas dá uma quebrada fudida na fruição. É quase decepcionante. Uma exceção foi o Castelo de Santo Ângelo, que só vimos por fora, tanto de longe quanto de perto. Como tinha bem menos gente às voltas, até que deu pra dar uma contempladinha. Do outro lado do rio Tibre, antes de atravessar a ponte que leva até ele, a paisagem é bem bonita, por sinal. Lembra um pouco Paris.

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Agora, o que realmente valeu a pena em Roma em termos de pontos turísticos foram três coisas: a) as igrejas; b) o bairro de Trastevere; c) o Vaticano. Entramos aleatoriamente em algumas igrejas no nosso caminho, e todas foram muito, mas muito impressionantes mesmo. Se eu, em pleno século XXI, com acesso a internet, tendo sobrevivido semi ateu a quase 20 anos de educação intensa em colégio de freira, profundamente imerso na cultura judaico-cristã cheguei a balançar, só fico imaginando o que sentia o camponês médio de mil anos atrás ao entrar num templo desses. O cara pisava naqueles mosaicos complexos de ladrilhos coloridos, sentia as vibrações daquelas enormes colunas, olhava praqueles tetos ricamente esculpidos, aqueles vitrais gigantescos, aquelas pinturas monstruosas e não tinha como não acreditar que Deus realmente existia. É um troço muito assoberbante. Pra mim, as igrejas de Roma ganham fácil de qualquer museu que eu tenha visitado no mundo. É uma experiência muito, mas muito extrema. A dica quente pra quem não tiver saco pra ficar 3h na fila pra dar um bico na Capela Sistina é pegar um tram até Trastevere e, depois de se perder pelas maravilhosas ruelinhas antigas com ares medievais e comer um troço típico num daqueles restaurantes de 200 anos de idade, se enfiar na Basilica di Santa Maria in Trastevere. Sem brincadeira, essa experiência botou em cheque a minha fé (ou, melhor dizendo, a falta dela). É beleza demais, chega a dar um tilt no cérebro. O melhor de tudo é que – assim como a maioria das igrejas em Roma- o cara olha por fora e não dá nada. Aí tu entra e já começa a sentir o baque. Um silêncio reverente, uma aura de contemplação, admiração e choque. Fico só imaginando o que deve sentir quem é católico praticante – nem precisa ser muito fervoroso. Acho que dá pra ficar um ano voltando lá todo dia e, mesmo assim, tu não consegue apreender todos os detalhes. Chega a ser quase um exagero. E como se não fosse suficiente, a igreja ainda tem umas duas ou três capelinhas, totalmente diferentes entre si, cheias de pequenos tesouros próprios. As pinturas do altar e das paredes são lindas, as estátuas de santos beiram o inacreditável e aquele teto, todo esculpido no ouro, é um troço de outro planeta. As fotos que se encontra na internet não dão conta nem de 1% da sensação de estar lá, vendo aquilo de perto, sentindo os cheiros, os sons, a temperatura. O peso simbólico e histórico desaba nas tuas costas às toneladas. É realmente brutal. Sobre o Trastevere em si, além do número bem mais administrável de turistas e a sensação de estar numa cidade do interior, ainda vale citar o Gianicolo, uma colina extrema que oferece ao corajoso que vencer as centenas de degraus e lombas uma vista acachapante de Roma, com algumas estatuas, fontes e monumentos de brinde. Subi bem loucão de ceva lá com meu irmão, e foi um dos pontos altos de toda a viagem. Tem uns dois ou três mirantes, e em todos o que o cara mais vê é o laranja dos telhados e o redondo das abóbadas das igrejas contrastando com o branco dos prédios e o verde das copas das árvores. Sobre o Vaticano, vale um capítulo à parte, logo a seguir.

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maloqueiragem: Uns anos atrás, a Kizzy, namorada do meu irmão, tinha levado sua avó a Roma só pra ver o Papa de perto – desejo que, curiosamente, era o mesmo da Sandrinha, nossa excelentíssima progenitora. Na época, pra garantir que nada daria errado, ela seguiu rigorosamente o que manda a cartilha turística, que basicamente consiste no seguinte: o cara manda um FAX (não é carta, não é e-mail, não é telefonema) pro Vaticano informando a data em que pretende assistir a chamada Audiência Papal – que acontece todas as quartas-feiras. Em até dois meses, o Vaticano responde esse fax. Com essa resposta impressa, o cara vai até o Vaticano na véspera do evento, procura um lugar específico lá onde fica a Guarda do Vaticano (ou algo assim) e troca esse papel por uma espécie de convite que, pelo que entendi, depois pode ser trocado por um certificado (um negócio bem bonito até, parece um diploma de faculdade; imagino que pra quem é realmente católico deva ser quase como um troféu). Teoricamente é esse documento que garante o acesso do cara à uma área cheia de cadeiras na Praça de São Pedro no dia do evento. Todavia, após ter vivido a experiência de fato, Kizzy relatou o seguinte: “É uma tremenda bagunça, tem gente com documento, sem documento, ninguém te informa nada e, se tu quiser arriscar, dá pra ir na cara dura e tudo bem.” Foi esse o caminho que escolhemos percorrer. Assim, na quarta-feira, acordamos às 6 da matina, tomamos um café caprichado e pegamos o primeiro metrô até a estação que nos largaria mais perto do Vaticano. Chegamos lá antes das 7h e já havia gordas filas formadas. Precavidos, tínhamos visitado o Vaticano uns dias antes para reconhecer o terreno, e percebemos que o acesso à Praça de São Pedro (teoricamente um lugar onde poderíamos estar sem portar nenhum tipo de ingresso) estava bloqueado. Notamos que as pessoas que estavam nas filas conversavam entre si, desorientadas, tentando entender onde deveriam ficar. Algumas traziam na mão folhas impressas com códigos de barra e QR codes, outras brandiam o convite dentro de um envelope verde. Havia pânico e confusão no ar. Não havia ninguém para orientar a formação das filas ou tirar dúvidas, e as pessoas entravam e saíam delas sem saber direito o que fazer. Por via das dúvidas, entramos numa delas também. Na pior das hipóteses, pensamos, chegaríamos a um ponto em que alguém nos barraria e daria algum tipo de informação. Nossa fila começou a fluir bem, e notamos que as pessoas mostravam seus documentos variados para os guardinhas que controlavam o acesso. Eles, por sua vez, ignoravam solenemente os papéis, e se concentravam em revistar bolsas e mochilas e passar o detetor de metais. Era apenas uma barreira de segurança. Vencida esta barreira, estávamos na praça. Caminhamos até um pedaço e vimos que outras filas enormes estavam se formando. Num primeiro momento, decidimos não entrar em nenhuma delas, conformados em assistir a cerimônia de pé. Eu mesmo tinha visto uns vídeos na internet e descoberto que o melhor lugar para ver o Papa de perto era justamente ali, de pé, atrás dos cordões de isolamento – posto que ele faria um percurso por entre os fiéis em cima do Papa-Móvel antes de dar início à missa, passando bem por ali. Meu irmão, mais esperto que eu, achou que deveríamos entrar na fila de qualquer jeito e, assim que uma delas começou a se mexer, fizemos isso. Não deu nem dois minutos e um cara vestindo uma roupa toda bufante com ares de autoridade começou a gritar em italiano, interrompeu a fila exatamente no casal oriental que ia à nossa frente e conduziu todo mundo a partir daquele ponto até uma outra fila, do outro lado da praça. Lá chegando, vimos a Itália se manifestar em toda sua grandeza: uma bagunça do caralho. Em vez das pessoas ficarem umas atrás das outras, todo mundo começou a querer passar na frente dos outros, criando um efeito “saída de jogo de futebol” ou “hora do rush no metrô”. Essa concentração de gente ia se afunilando em direção a três máquinas de raio-x, onde alguns soldados do exército faziam a revista final, garantindo o acesso à área onde ficavam as cadeiras. Levou algum tempo, foi um pouco confuso, mas passamos por mais essa barreira sem grandes desafios. Sem ninguém para nos orientar ou impedir, caminhamos tranquilamente até a fileira de cadeiras que ficasse mais próxima do cordão de isolamento. Infelizmente não conseguimos sentar na primeira, já tomada por uma trupe de velhos asiáticos, mas a segunda ficou de ótimo tamanho, posto que quando o Papa finalmente passou, duas ou três vezes, à milhão, em cima do seu carro, conseguimos vê-lo a uma distância ridícula, de uns 3 ou 4 metros, no máximo. Cheguei a gritar DALE GRÊMIO pra ver se ele me olhava, mas o castelhano não se abalou. Um ponto alto desse momento foi quando Sandrinha resolveu subir em cima da cadeira pra ver melhor, ato que foi imediatamente reprimido por um soldado (e ignorado por ela). Ato contínuo, TODAS as pessoas resolveram fazer o mesmo ao mesmo tempo, o que fez com que o soldado desistisse da missão, passando a responsabilidade pra mim e pro meu irmão. Com a firmeza de nossos cores jovens bem malhados pela ginástica, fornecemos sustento a algumas malaias e francesas empolgadas, além da própria Sandrinha, oferecendo nossos braços como apoio. Depois disso foi meio foda. A participação do Papa na coisa toda é ler umas cinco páginas da Bíblia, em italiano. Uns dez ou quinze minutos. Em seguida vem uma verdadeira multidão de padres traduzindo o que ele disse em várias línguas (inglês, espanhol, português, francês, alemão – foi aí que aprendi que ‘alemão’ em italiano é tedesco -, árabe, russo, alguma língua do leste europeu que julguei ser polonês e outra asiática que julguei ser chinês). Também há um longo trecho em que esse mesmo monte de padre presta reverência a todas as caravanas de dezenas de paróquias espalhadas pelo mundo que marcam presença lá naquele dia. Ou seja: de mais de duas horas de cerimônia, o Papa fala mesmo menos de 10% do tempo. Há ainda um último momento, em que o Papa pede para que se mentalize os entes queridos e amigos para que eles recebam a bênção que será dada naquele momento. Mesmo não sendo exatamente cristão, mentalizei uns e outros ali. Vai que. De todo modo, foi uma ótima experiência. A felicidade que proporcionamos à Sandrinha era muito palpável. Nossa missão estava cumprida. Aquilo valeu a viagem e nos encheu de ternura. Imagino que ela tenha sentido coisa parecida todas as vezes que nos proporcionou alguma alegria similar, como um presente muito desejado num aniversário ou Natal, ou a nossa primeira viagem de avião, quando éramos pequenos. Foi pouco, ridiculamente pouco, quase nada. Mas eu senti (e sei que o Nes também) como se a gente estivesse retribuindo um milionésimo de tudo que ela fez por nós ao longo da vida.

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dificuldades de língua: De pronunciadas a extremas. Se o cara vai pra Itália sem falar nem entender nada de italiano, a experiência pode dar uma boa murchada. É claro que de vez em quando tu encontra alguém que fala um inglês muito sofrível e com sotaque carregado, mas só nos lugares mais turísticos e, mesmo assim, nem sempre. Em vários e vários momentos me vi dependendo apenas do meu poder de dedução somando a um minúsculo conhecimento de italiano para me salvar. Verdade seja dita: ali pelo quarto ou quinto dia, de tanto ouvir as pessoas falando, alguma coisa o cara pega. Ainda mais aquele italiano utilitário do dia-a-dia, de bon giorno e arrivederci, de restaurante e transporte público. E ainda mais pra quem tem como base uma língua latina, e alguma proximidade com os fonemas e sotaques do italiano por conta de uma série de fatores (no meu caso: morar no Rio Grande do Sul, frequentar a Serra, visitar São Paulo, ter um mínimo de curiosidade por outras línguas e culturas). Volta e meia alguém até dizia “bravo” quando me ouvia falando. Mas fico pensando que prum americano ou prum alemão deve ser bem casca a coisa. De todo modo, dito isto, a mímica opera milagres, e é muito comum o surgimento de interlínguas instantâneas quando a comunicação se faz mister: Sandrinha, por exemplo, conseguiu recuperar um tubo de bloqueador solar com a segurança na saída do Vaticano e comprar uma espécie de poncho numa loja sem falar uma palavra de italiano. Ou seja: o cara se vira.

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odores: Espantosamente, apesar do número elevado de moscas em ambientes alimentícios, não lembro de nenhum cheiro forte em Roma. Mesmo umas casas de frios com aqueles queijos velhos e aqueles presuntos escuros na janela não emitiam fragrâncias pungentes. Não lembro, também, de haver cheiro de mijo nas ruas, mesmo nos becos às voltas do Ma Che Siète Venuti a Fa?, possivelmente o lugar mais propício de receber essa manifestação. Talvez possa falar do cheiro do café, ou dos pães assando em alguma ocasião específica, mas, caso tenha de fato acontecido, não foi marcante a ponto de eu recordar.

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segurança: Acho que nunca tinha visto tanto aparato de guerra nas ruas. Era muito difícil se locomover por Roma sem avistar um jipe ou um blindado camuflado acompanhado por três soldados portanto metrancas nervosas. Num dos dias em que estivemos lá, li numa daquelas televisões do metrô que havia uma ameaça de bomba no Circus Maximus (o que soou extremamente ridículo, posto que é um lugar aberto, praticamente ignorado pelos turistas, que se acumulam de forma catastrófica a 200m dali, no Coliseu). Não fui atrás depois pra ver o que aconteceu de fato, mas imagino que algum mongolão tenha esquecido uma mochila em algum lugar e todo mundo se cagou. Li depois que o Estado Islâmico havia prometido atacar o centro da fé católica no mundo, o que talvez justifique a presença forte do exército nas ruas. De todo modo, não sei dizer se isso me fez sentir mais protegido ou ameaçado. Depois de uns dois dias os soldados meio que passaram a fazer parte da paisagem, o cara nem registra. Os golpistas africanos pareciam mais dóceis do que os que encontrei ao longo dos anos em Paris, mas, a exemplo destes, toda vez que tentavam se aproximar para colocar a “pulseira da amizade” no meu punho eu abria um enorme sorriso e dava um drible gritando em bom português algo como “aqui é Brasil, meu querido,” o que, na minha experiência, em 100% das vezes, sempre oferece salvo conduto e provoca sorriso animado de volta do golpista, que fala meia dúzia de platitudes e parte em busca de um gringo menos malandro pra atacar. O grande risco em Roma, a meu ver, é contrair o tétano após qualquer tipo de contato com um automóvel. Nunca vi uma cidade com tão pouco apreço pelo carro como Roma. A impressão que dá é que os caras enxergam seus veículos realmente como utilitários, que te levam do ponto A ao ponto B, sem nenhuma vaidade ou símbolo de status associado. Bateu, tá andando, deixa assim. Tudo quebrado. Tudo amassado. Vários e vários carros com fita crepe segurando uns pedaços. Um monte de ferrugem laranja aparente nas rachaduras. Carro com saco de plástico no lugar da janela do passageiro, para-brisa trincado. Um troço bem impressionante. Perto de Roma, os carros de Buenos Aires são umas limusines.

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volume de turistas: Absolutamente brutal. Se o cara vai pra Paris e acha que lá tem muito turista, melhor nunca botar os pés em Roma (e dizem que Veneza é ainda pior). Isso que fomos em outubro, teoricamente durante a baixa temporada. Não quero nem pensar como é aquilo no verão. São, literalmente, multidões de turistas percorrendo as ruelas e pontos históricos. É tanta gente junta que o cara acaba se sentindo constrangido de estar ali, de ser mais um ajudando a deixar aquela linda cidade cada vez menos habitável. Às voltas do Coliseu, por exemplo, era ruim até de caminhar. Como provavelmente deve ser assim o ano inteiro, cheguei a sentir um pouco de pena de quem tem que viver lá, levantar de manhã e pegar condução pro trabalho, encontrar um lugar ao meio-dia pra almoçar. Talvez seja por isso que os romanos fecham tudo por volta do meio-dia (até mesmo alguns restaurantes) e só abrem depois das três (dessa eu não sabia, aliás; pensei que siesta era só na Espanha). Além dos turistas, ainda há uma população paralela de aproveitadores – no bom e no mau sentido. Imagino que haja golpistas e punguistas ali no meio (embora não tenha visto nada que sugerisse isso), mas o mais comum mesmo são as centenas de vendedores de badulaques (em grande maioria indianos) e os guias a pé, gente que te aborda em diversas línguas oferecendo o que parece ser algum tipo de tour comentado. Toda essa multidão deixa o cara muito confuso num primeiro contato. Não dá pra saber direito quem é efetivamente licenciado (todo mundo usa algum tipo de colete ou crachá, mas de uns 20 tipos diferentes) e quem tá esperando um otário pra mamar uns euros. Mas isso é o de menos. O que incomoda mesmo é tu ser totalmente incapaz de prestar atenção num monumento qualquer porque, literalmente, a cada dois segundos, alguém para na tua frente pra fazer uma selfie. Realmente cansa. Coitados dos moradores.

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aeroporto: Não passamos muito tempo em Fiumicino. Na chegada as malas não demoraram e já tinha um motora previamente contratado nos esperando no desembarque. Na saída chegamos mais cedo do que o necessário porque achávamos que as bagagens não estavam inclusas no preço da passagem (todavia estavam). Como saímos bem cedo e não havíamos tomado café, aproveitamos esse tempinho que sobrou pra comer e beber algo no aeroporto e, nesse sentido, vale um destaque: a pizza, os sanduíches e o café que os caras vendiam lá eram tão bons quanto os encontrados na cidade (e com preços equivalentes). Talvez seja o aeroporto mais honesto em que já estive, o que me deixou bastante surpreso. Outro destaque vai para o espanhol que estava voltando pra casa com sua mulher, três crianças, toda a bagagem inacreditavelmente volumosa que isso envolvia e, não satisfeito com isso, DUAS TVS DE TELA PLANA DE 48 POLEGADAS. Esse é galo.

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presença ilustre: Conforme o supracitado, os africanos da pulseira da amizade são muito mais dóceis e inocentes em Roma que em Paris, de modo que vivemos situações muito interessantes com dois deles, ambas em Trastevere. O primeiro africano digno de nota era um cara muito magro, muito bem vestido (calça skinny preta, bons sapatos de bico fino de couro, um blusão branco de gola rulê), muito bem aprumado (barba desenhada, dreads de tamanho médio) e cheiroso, tomando uma latinha de ceva e abordando os turistas de uma forma muito original: gritando a palavra NEGRO enquanto os olhava de forma ameaçadora. Vimos ele abordar algumas pessoas assim, exigindo algum dinheiro logo em seguida. Todo mundo dava. Estávamos alguns passos atrás dele. Lá pelas tantas, ele nos percebeu e, provavelmente nos julgando americanos ou ingleses, tentou meter a tática do pavor. Rimos na cara dele e eu respondi, no mesmo tom: BRANCO, ao que ele riu muito e tentou exigir dez euros para tomar uma cerveja da mesma forma. Seguimos andando dizendo algo como “tu tá de brincadeira, irmãozinho, tu já tá tomando uma ceva e é tu quem mora na Itália, é tu quem tinha que dar esses dez euros pros brasileiros chinelos aqui”, ao que ele riu ainda mais e se afastou. O segundo africano digno de nota deu um pouco de pena, quando penso nisso. Ele nos viu bebendo na frente do Ma Che Siète Venuti a Fa? e achou que ia vender uns anéis horrorosos pras nossas namoradas, todavia meu irmão – já bem alcoolizado, até por ter aberto os trabalhos com uma QUADRUPEL – emendou uma longa conversa sobre como a mulher dele era alérgica a OURO e que ele teve que devolver uns brincos que uma vez comprou pra ela, e o cara acabou desistindo da venda e ficou trocando uma ideia conosco. Era do Senegal, esse faixa. Quando dissemos que éramos do Brasil ele tentou fazer uma brincadeira dizendo que tinha visto de longe que a gente era igual a ele (colando o braço dele no meu e apontando pros dois), e eu tentei meter outra, dizendo que na real ele tinha visto a nossa alma, que era negra (eu também já estava bem embalado), só que ele não entendeu em inglês. Eu tentei falar em francês, mas ele também não entendia – eu não sabia que “alma” era “âme”, tentei “spirit” com o érre afrancesado, ele achava que a gente tava falando do SOL (???). Na saideira, ele ainda deixou uma pulseirinha comigo. Disse que não ia pagar por ela, ele insistiu e disse que era um presente porque eu era gente fina. Por via das dúvidas, guardei no bolso, não meti no pulso. Aqui é Brasil. Vai que ele tava me marcando pra algum outro camarada bater uma carteira mais tarde? Vai saber? Melhor não brincar.