whistleblower

Ao longo de pouco mais de vinte anos consumindo em formato de cigarros (becks, finos, chauras, bauras, toras, bombas, catroncas)* a chamada ganja (maconha, fumo, coisa, erva, massa), nunca havia me acontecido o que me aconteceu hoje.

Acendi uma ponta e, quando puxei o primeiro pega, ouviu-se um apito.

Pequenino, magro, mas ainda assim presente. Dei mais uns dois pegas de desconfiança, na leveza e brevidade, só pra ver se era a droga mesmo quem estava fazendo aquele barulho. Satisfeito com a resposta, dei então um pegão comprido, que os antigos conhecerão como “pulmão” ou “pulmas” (grafia alternativa: “pulma”), aquela puxada longa e caprichada, muito comum na prática da “paula”, aka “paulistinha”, que consistia de dar uma tragada (tapa, pega, bola)  e imediatamente passar o negócio para o amigo ao lado. O que teria feito o paulista seminal para que seus atos fossem imortalizados no jargão no submundo canabista porto-alegrense dessa época eu nunca soube. Sei que o bicho hoje resolveu cantar na boca do Dido. Que negócio esquisito. Nem foi bem um apito, era mais um guincho, um som parecido com o que acontece quando se faz um pequeno rasgo ali no pescoço de um balão semi murcho e se deixa sair o ar meio se peidando, meio se assoviando todo.

Lá pelas tantas parou, me deixando defumado (aura estalando de quente) e intrigado com a seguinte questão: como este fenômeno foi possível? Um furo milagroso, num ângulo certo, começando na cabeça e se esticando até a bunda da ponta com a missão única de acrescentar musicalidade a este meu ato controverso? Provavelmente.

*nunca chamo de “baseado”, por algum motivo

we be vaping

No Natal de 2015, após alguns anos de dúvida e muitos meses de pesquisa, comprei de presente pra mim mesmo um vaporizador portátil chamado Arizer Solo. Não era o mais bonito (provavelmente é o Pax), o mais renomado (talvez seja o Crafty) nem o mais barato (certamente alguma ‘caneta’ chinesa), mas, segundo centenas de depoimentos que li em blogs e fóruns em inglês, espanhol e português, era o mais confiável, resistente e eficiente – e estava disponível para pronta entrega.

Mas vamos dar um passo para trás aqui.

Minha primeira experiência com vaporizadores foi ali por 2013, quando um amigo retornou dos Estados Unidos com um Pax na bagagem. O aparelho tinha acabado de ser lançado, causando grande furor por conta do seu design (muito zé bronha por aí se emocionou e saiu comparando com produto Apple): um cilindro fosco, ou todo preto ou todo prata, com uma discreta e agradável luzinha em forma de X com o miolinho cortado brilhando na frente. O cara abria uma portinha lá embaixo, recheava de fumo, fechava a portinha, virava o troço pro outro lado, tirava o bocal, apertava um botão um certo número de vezes para obter uma determinada temperatura (eram apenas 3, pré-definidas), botava o bocal de volta, esperava até que o X cortado ficasse verde e mandava brasa. Era um objeto extremamente sedutor, não apenas pelo visual SLICK AS FUCK, mas também pela sua funcionalidade – que se prometia excepcional.

Tristemente, na hora de usar, o bagulho não se mostrou à altura das expectativas. O cara puxava aquela merda um tempão, tinha que fazer uma força do caralho, não vinha nada de fumaça, não dava nada de efeito, e a bateria ainda por cima não durava porra nenhuma. Que decepção.

Corta para 2015. Estou em Amsterdam. Por intermédio de uma amiga que é a madrinha da Alice (a menina fantabulosa de quem sou padrinho) e que hoje aparentemente está morando na Tailândia (faz um tempo que não nos falamos direito), estou na casa de um nativo que vive num curioso apartamento de uns 15 metros quadrados bem no meio do Red Light District, experimentando do mais profundo ceticismo enquanto observo um dos famosos balões do Volcano se enchendo com o vapor que emana de uma pipoquita generosa de um fumo chamado Lemon Skunk. O Volcano talvez seja o vaporizador mais conhecido do mundo. Parece a base de um liquidificador, só que em vez de ter uma hélice giratória altamente afiada na ponta tem uma peça de cerâmica coberta de aço que esquenta; e em vez de acoplar um copo em cima, o cara coloca uns balões de algum tipo de plástico supostamente seguro, que vão se enchendo lentamente com o vapor produzido pelo material que estiver suando grosso no forno ali embaixo (em quase 100% dos casos, maconha).

Ali a coisa mudou definitivamente pra mim, porque aquele vapor do Lemon Skunk que recheava o balãozão do Volcano me deixou completamente plastificado. Que sabor, que odor, e que paulada no melão que trouxe. Saí dali reconsiderando, pensando “opa”. No fim das contas dá pra ficar bem doidaço inalando vapor.

Vamos dar um novo um passo para trás nesse ponto para falar um pouquinho sobre o processo de vaporização.

Vaporizar, naturalmente, é converter algo em vapor. Os vaporizadores de ganja fazem isso usando câmaras aquecidas por um elemento (geralmente de cerâmica ou alumínio) para “assar” a erva até que ela libere seus terpenos (agentes de cheiro e sabor) e alcaloides (substâncias psicoativas) por meio da evaporação, sem jamais provocar a combustão do material.

O princípio é o seguinte: combustão produz fumaça. Fumaça faz mal para os pulmões. Uma vez que os principais canabinoides da planta estão dissolutos em água e evaporam muito antes do seu ponto de combustão, é totalmente possível extraí-los da planta sem precisar incendiá-la, um processo que não apenas é mais saudável como muito mais saboroso e eficiente.

Fumar um baseado, na verdade, é basicamente a mesma coisa: há uma fonte de calor esquentando um material vegetal e alguém inalando através da outra ponta de um canudo. O primeiro problema com isso é a fumaça, que contém benzeno, gás carbônico e diversas outras substâncias cancerígenas. O segundo é que a fonte de calor é parte do próprio material em brasa, o que gera um desperdício muito grande. O cara fumando um beck consegue absorver, com muita sorte, algo perto de 25% de todas as suas substâncias. Já usando um vaporizador pode extrair até 70% (embora na média fique mais perto da faixa dos 50%).

Prestes a completar dois anos de uso do Solo, posso assinar embaixo de todas essas alegações. O troço é realmente potente. Com aproximadamente 1/3 do fumo necessário pra fechar um beckzinho médio (nem perna de grilo nem dedo de gorila) dá pra ficar BEM CHAPADO, e de 2 a 3 vezes – o que ainda se traduz em mais uma faceta do sucesso da vaporização, que é a economia brutal que ela representa para o bolso surrado do maconheiro.

Mas na real eu escrevi TUDO ISSO só pra dizer o seguinte: essa semana eu desenvolvi um método muito bom para limpar o tubo curvo do Arizer Solo.

O Solo vem com dois tubos de vidro pra acoplar diretamente em cima do seu forno (com cinco temperaturas pré-programadas): um reto e um curvo. Nunca usei o reto. Gosto demais do curvo. Mas enfim.

A grande questão aqui é que alguns meses de uso produzem um acúmulo considerável de resina neste tubo, e é um verdadeiro inferno limpar dentro do cotovelo dele.

A química básica diz o seguinte: mergulha o tubo em álcool, deixa descansar um dia e, no dia seguinte, ferve uma água e toca por cima que deve sair tudo. Na prática, não funciona bem assim. Ao longo do tempo, pequenos e médios pedaços de ganja acabam sugados tubo adentro e se grudam em suas paredes. Cobertos com novas camadas de resina endurecida, muitos se recusam a sair de barbada. Então o cara tem que dar uma esfregada.

Tentei várias coisas: aqueles ferrinhos cobertos com barbante pra limpar cachimbo (bons por serem flexíveis, ruins por serem muito finos), algodão (tem a tendência a se fragmentar, e aí é outro inferno remover nacos presos em cantos remotos), papel higiênico (problema similar ao do algodão) e papel toalha (um pouco mais robusto que os anteriores, não é perfeito, mas costuma causar menos problemas). Também usei o truque de misturar sal grosso ao álcool e chacoalhar o tubo para que o atrito ajude a soltar os detritos – o que funcionou em algumas situações, mas não em todas.

Mas aí outro dia, enfrentando as mesmas dificuldades de sempre para limpar ali aquela desgraçada daquela voltinha do tubo, me deu um estalo. Além do álcool, em que outra substância os canabinoides se dissolvem? Gordura. Mas é claro. Eu já tinha lido sobre a famosa técnica de ferver o tubo sujo no leite – e, posteriormente, acrescentar chocolate a este leite e beber na esperança de atingir um efeito que eu, particularmente, não sou muito fã.

Eu não tinha leite. Considerei usar azeite, mas me pareceu que precisaria usar muito – e azeite é muito caro. Acabei apelando para a manteiga. Cortei um naquinho e fui empurrando para dentro do bocal, modelando com o dedo até que o preenchesse por inteiro. Deixei uma meia hora quieto, até que a manteiga começasse a amolecer, então chupei o ar pela outra ponta, fazendo com que ela atravessasse os buracos e adentrasse o tubo. Deixei quieto mais uns 5 minutos enquanto fervia uma água, derramei tudo pelo lado amanteigado e: voilá. Soltou TUDO.

Pra finalizar, um toque de mestre: em vez de usar algodão ou papel para dar aquela esfregada final, cortei um pedaço de um cordão de tecido usado para prender um avental que eu tenho há 8 anos e nunca usei. Caso eu mude de ideia agora e queira usá-lo, o avental ainda poderá ser fechado (era um cordão ridiculamente grande, tirei apenas um pedaço). Enquanto não me decido, o tubo curvo do meu Solo fica formidavelmente limpo. That’s what I call a win-win situation, my dammies.

giftbox 15 anos growroom – 3/3

In a nutshell: mais ou menos. Valeu demais pelas camisetas, não tanto assim pelos brindes. Tudo bem que o principal eram as camisetas mesmo, e não os brindes – mas eu teria preferido que não tivessem anunciado os “brindes exclusivos de apoiadores foda” e depois mandassem meia dúzia de seda e uns adesivos. Mesmo assim gostei de ter apoiado, gostei pra caralho das camisetas e agradeço por ter sido apresentado ao mundo dos filtros de vidro (achei a maior descoberta dessa jornada, e credito integralmente ao Giftbox 15 anos do Growroom).

Extendend version: a terceira parte do giftbox em comemoração aos 15 anos do Growroom foi a que chegou mais rápido (não que as outras tenham demorado muito), e a que menos decepcionou, talvez até por ter sido a mais previsível. Quer dizer, depois de dois kits meia boca, eu já estava esperando um gran finale mornão pra arrebentar com tudo de vez.

Não foi exatamente o que aconteceu (que bom), mas também não foi lá essas coisas (que maus).

A camiseta, como nas duas partes anteriores, era a pièce de résistence: malha gostosa, estampa bonita, impressão bem feita. Extremamente churros. Valeu cada centavo.

Já no campo dos brindes tínhamos o seguinte:

a) um livrinho de sedas Papelito Slim king size;

b) um livrinho de sedas Papelito Tradicional king size;

c) um livrinho de piteiras de papel (aka “filtrinho”) da Bem Bolado;

d) um adesivo da Bem Bolado (churros forte esse adesivo, massa mesmo, admito);

e) um isqueiro Bic Mini com o logo da PoPipe estampado (preza).

Embora não sejam lá assim uns oh, minha nossa, que baita brindes, também não pra dizer que são palha.

Embora eu não tenha curtido muito o gosto da Papelito Tradicional (que dá uma pesada na fumaça), da versão Brown eu gostei. Darei uma chance à Slim porque gostei da Leda do D2, mas provavelmente não vou me arriscar com a king size Tradicional.

Curto bastante o uso de filtro e piteira de algodão, vidro e papel, e a versão de papel tem a vantagem de remeter à Amsterdam, porque vários coffeeshops de lá tem os seus próprios livrinhos de filtrinho de papel complimentary para o cidadão.

Isqueirinho é sempre o bicho ter, e o logo do PoPipe é massa – embora eu esteja atravessando fase de superávit de isqueiro, com um Zippo prata escovado rugged basicão, uma imitação chinesa de Zippo com um homem aranha esculpido em alto-relevo empoleirado na palavra “Superman”, e um Clipper preto com logo do Club Media, todos recarregáveis (os dois primeiros com fluido, o terceiro com butano).

RESUMINDO: não curti muito ter ganhado mais Papelito (teria curtido mais se mandassem uma Brown – mas os caras não tinham como saber), mas beleza, seda é seda, sempre bom ter seda, e o mesmo vale pra isqueiro. Filtro de papel nem sempre o cara tem saco de botar, mas quando bota sempre vale; e a camiseta, como nas demais parcelas, mandou uma brasa.

VEREDITO FINAL: NOTA 8

giftbox 15 anos growroom – 2/3

Chegou hoje a segunda parte do Giftbox comemorativo de 15 anos do Growroom e, ao contrário do primeiro, neste eu consegui ficar ainda mais decepcionado. Caidaço boy generalizado esse esquema. Bah. Que tristeza.

Dessa vez além da camiseta – que, justiça seja feita, é tão bonita, bem feita e, aparentemente, resistente quanto a primeira – vieram 3 adesivos da marca de seda A Leda, um pacotinho da Leda oficial do Marcelo D2 (branca, king size), um pacotinho de Leda original (transparente, também king size), um pacote de um bagulho chamado KING BLUNT de morango que, presumo, conterá uma ou mais (vi agora a embalagem, são cinco) folhas de tabaco artificialmente aromatizadas e um potinho de silicone pra guardar haxixe e resina da Squadafum.

Bem fuén. Estava esperando uns brindes muito melhores (latinhas, esmurrugadores) ou pelo menos em maior quantidade (me manda 5 pacotinho de seda, não manda um só que é muito chinelo). Enfim. Que pena. Pelo menos as camisetas são legais e as entregas não estão sendo demoradas, mas pô: se era pra mandar esses brindes furadaços (esqueci que veio também um vale compras dando 10% de desconto na loja Vapor Kings), melhor ter mandado só as camisetas.

UPDATE: dando o braço a torcer (de leve). A leda do Marcelo D2 tem um troço massa: menos papel que o padrão, de modo que, na prática, o vivente consome menos papel ao fumar. Nice touch.

giftbox 15 anos growroom – 1/3

Pra dar uma força à causa, no começo do ano resolvi adquirir o Gift Box comemorativo de 15 anos de Growroom, o lendário fórum de ativismo pró-cultivo caseiro de canábis no Brasil. São três pacotes enviados mensalmente, de abril a junho, contendo uma camiseta alusiva ao Growroom e uma série de brindes surpresa de diversos parceiros (incluindo headshops e marcas de seda). No primeiro kit, que chegou no finalzito de abril em meu lar, havia:

a) uma camiseta estampada;

b) uma seda mini e uma king size da marca Papelito, do DF;

c) uma piteira de vidro;

d) adesivos do headshop PoPipe.

Levando em conta que o combo custou R$ 250 e, esta parcela, portanto, saiu por mais de 80 conto, tomara que as próximas duas remessas contenham uns brindes melhores. Quer dizer, nada contra esses aí, na real. Aliás, algumas coisas contra alguns, sim. Outras a favor de outras. A camiseta, por exemplo: é muito afudê, malha boa, estampa excelente. A piteira é sensacional. Demorei um tempo pra entender como funcionava, pensei que era tipo uma MARICA, mas na real tu enrola junto com o beck, como se fosse um filtrinho. Achei que fica muito bom, tanto em termos de sabor quanto efeito. Aprovado demais. Todavia é um troço que custa 10 cru-cru.

Já o Papelito decepcionou por aqui. Eu cresci nos anos 90 no eixo Glória-Medianeira-Teresópolis, de modo que não sou nenhum frescão da seda. Fumei muito em Colomy, Xiru, palha de milho, página de Bíblia e guardanapo – e fumaria de novo se preciso. Todavia a vida vai melhorando, ou o cara vai ficando mais velho, e aí que nos últimos 15 anos, mais ou menos, venho fumando só na Smoking Preta mesmo. Em algum momento acho que foi de arroz, agora parece que não é mais. Sei que é um papel extrafino, de combustão lenta e, embora claramente deixe um sabor residual no fumo, é bastante discreto.

Aí que o Papelito me deixou um gostão fudido de papel queimado na boca. Meio que foi só nos primeiros pegas, beleza, depois quando eu acendi a ponta já não estranhei mais tanto, mas uma coisa é certa: o branquinho convencional é mais pegado que a Smoking preta. Ainda veio uma outra seda marrom king size pra testar e, de repente, reverter a má impressão, mas como eu quase nunca fumo de bombão vai ser difícil fazer esse teste anytime soon. Como é unbleached tende a ser melhor, todavia: a ver.

UPDATE: 18h após publicar este post, resolvi dar uma chance ao Papelito brown king size e – BEM BÃO. Nada de espetacular, embora seja muito superior à sua versão convencional branca. Já melhorou a imagem da marca perante o Didão.

Quanto aos adesivos: massa. Já meti uma latinha da PoPipe no meu notibúrcio e outra na latinha da chavidez. Só que adesivo nem devia entrar nessa conta aí, né? É oitenta pila uma camiseta, uma piteira e duas sedinha, mais despesas de correio. Pensando bem, até que não é tão mau negócio assim. A vida tá cara. Let’s help the brothers out. Tão aí há quinze anos militando pelo direito ao cultivo de maconha para uso pessoal no país. Não custa dar um salvezito, ainda que minguado.

DIDS DIDS DIDS

a verdade vos libertará

Em mais de 20 anos advogando a favor da maconha nunca fui capaz de me filiar a nenhuma organização ou movimento pró-legalização por um único motivo: a teimosia em não colocar na pauta os comprovados malefícios da erva.

Ora, dizer que a maconha é uma erva natural e que, por isso, é absolutamente inócua é um argumento tão estúpido quanto defender que ela é a porta de entrada para drogas mais pesadas ou que fumar um baseado equivale a fumar 20 cigarros de tabaco.

O que me faria militar abertamente pela causa hoje mesmo: um grupo pró-legalização que também falasse sobre os riscos aumentados de se desenvolver esquizofrenia na adolescência, ou de problemas cardíacos depois dos 50, as diversas bagunças mentais que podem ser causadas por uso contumaz e/ou pesado e a preocupante correlação entre o uso da maconha e a incidência do câncer de testículo.

Em outras palavras: vamos falar a verdade. Querer vencer uma guerra de mentiras com mais mentiras é, na minha humilde opinião, começar perdendo.