vegetariANO

Já faz alguns anos que venho cuidando muito melhor da minha alimentação, reduzindo dramaticamente o consumo de produtos industrializados e focando em alimentos integrais, naturais e frescos. Recentemente, todavia, venho repensando também a minha relação com a carne. Eu como muita carne. Ainda é muito menos do que um brasileiro médio come, não tenho a menor dúvida disso, mas, mesmo assim, me ocorreu que talvez seja interessante dar uma guinada rasta extrema em 2018 e tentar brincar um ano de comer só planta pra ver o que me acontece.

Sempre fui muito cético em relação a isso, em algumas fases da vida até mesmo já me postei radicalmente contra o vegetarianismo (sobretudo como ideologia).

Mas sei lá.

Ouvi um argumento muito bom outro dia que me fez pensar.

Embora o consumo de carne e de outros alimentos cozidos tenha sido um dos principais responsáveis pelo nosso salto evolutivo, supostamente, seres humanos não são carnívoros – nem sequer onívoros. A evidência estaria no nosso sistema digestivo. Intestinos de animais que consomem carne tendem a ser muito mais curtos do que os que se alimentam de plantas – e o nosso sistema digestivo está muito mais próximo do de um gorila do que de um tigre.

Como sofro há anos com refluxo ácido e alguns outros distúrbios estomacais e intestinais de menor relevância (pra não falar nos níveis elevados de colesterol herdados supostamente dos ancestrais do leste europeu), me pareceu uma aposta interessante me alimentar como um orangotango em 2018 e registrar a experiência de alguma maneira.

Ainda não estou 100% convicto disso e, sendo bem sincero, considero enorme a possibilidade de não fazer nada e seguir comendo carne o ano que vem.

Mas vai que.

Enfim.

Pensando.

malucaites devaneions

Hoje fiz o seguinte: um acompanhamento hora a hora da minha performance traduzindo.

Primeira hora: 4,5 mil toques (16h-17h)
Segunda hora: 5 mil toques (17h30-18h30)
Terceira hora: 7 mil toques (19h-20h)
Quarta hora: 4,5 mil toques (20h30-21h15)

Nos intervalos, realizei:

a) 3 séries de 10 apoios muuuuuito lentos, até bem lá embaixo, sem impulso, só na calistenia grossa + 3 pranchas de 30s a partir do final do último apoio;

b) o plantio de uma planta de folha dura e roxa, dessas que parecem de cera, após deixar quase um mês dentro de um pote com água pra ver se criava raiz (criou pra caralho);

c) supermercado, onde comprei três heineken, duas das quais bebi durante a quarta hora de trabalho do dia, motivo pelo qual provavelmente cometi ampla gama de erros de digitação, lógica e português nas últimas várias frases (não vou editar).

bob

Naturalmente, o meu primeiro contato real com o reggae, de saber que aquilo que eu estava ouvindo era reggae, foi, como é o caso de quase todo mundo que habita o planeta terra e não teve a ventura de brotar na curiosa ilha da Jamaica, com Bob Marley.

Talvez eu tenha ouvido Gilberto Gil antes, eu ouvia o Gil desde criança, mas aí era aquele negócio travestido de pop, encharcado de dendê, brasileirão, outra vibe.

And don’t get me wrong on that: Gil a natty.

Todavia, não era the original.

Enfim.

De toda forma, lembro das minhas primeiras audições do Bob terem rolado no começo da adolescência, ali pelos 12 ou 13 anos, muito provavelmente sendo Redemption Song ou Is This Love? a minha iniciação oficial. Lembro também de não ter batido automaticamente ali, e só ter feito mais sentido um pouco mais tarde, quando tinha uns 16 ou 17 anos e conheci o álbum Kaya, com uns petardos como Satisfy My Soul e Running Away (além da faixa título) fervendo constantemente os meus ouvidos e pensamentos. Até hoje, por sinal, toda vez que começa a chover eu sinto vontade de blaze up the chalwa graças à frase got to have kaya now/ for the rain is failing.

Embora eu tenha tido alguns grandes momentos herbalistas relacionados a esse disco – como a vez em que me senti derretendo de verdade dentro de um Gol bolinha andando a 3 km por hora na Interpraias (uma via de chão de pedra cheia de grama no meio que liga diversos balneários do litoral norte do Rio Grande do Sul), sentado na carona, suando brutalmente no calor e ouvindo Sun is shining, ou quando acreditei ter descoberto uma “guitarrinha secreta” num ponto muito específico de Crisis – a verdade é que depois que comecei a me aprofundar mais no tesouro musical inesgotável que é a música jamaicana, acabei deixando o Bob meio de canto.

Até pouquíssimo tempo atrás eu mantinha um preconceito bobo com Marley, dizendo pra mim mesmo (e pra qualquer um que me perguntasse) que achava suas músicas pop demais, que aquilo não era reggae de verdade, que era muito diluído, muito mastigado. Coisa de branco.

Sério.

Todavia os últimos dois anos me jogaram no colo duas traduções enormes totalizando por volta de 1200 páginas sobre a história – real e ficcionalizada – de Robert Nesta Marley (A Brief History of Seven Killings, do Marlon James; e So Much Things To Say, do Roger Steffens). Nesse processo de contextualização e ressignificação, acabei reouvindo muita coisa que eu já conhecia, e descobri muita coisa que pra mim era nova. Prestando uma atenção diferente, ouvindo com outros ouvidos, outra cabeça, outro coração, só tenho uma coisa a dizer: que arrombado que eu fui.

Como é bom, o Bob.

Não era desse mundo, esse cara. E nem esse pessoal todo que gravou essas músicas com ele. Como eu disse uns minutos atrás ali no Twitter: se o cara bota Concrete Jungle pra rolar, fecha os olhos, escuta, no mínimo, um minuto e NÃO SENTE NADA, pode ter certeza de que este cidadão não possui ALMA.

 

whistleblower

Ao longo de pouco mais de vinte anos consumindo em formato de cigarros (becks, finos, chauras, bauras, toras, bombas, catroncas)* a chamada ganja (maconha, fumo, coisa, erva, massa), nunca havia me acontecido o que me aconteceu hoje.

Acendi uma ponta e, quando puxei o primeiro pega, ouviu-se um apito.

Pequenino, magro, mas ainda assim presente. Dei mais uns dois pegas de desconfiança, na leveza e brevidade, só pra ver se era a droga mesmo quem estava fazendo aquele barulho. Satisfeito com a resposta, dei então um pegão comprido, que os antigos conhecerão como “pulmão” ou “pulmas” (grafia alternativa: “pulma”), aquela puxada longa e caprichada, muito comum na prática da “paula”, aka “paulistinha”, que consistia de dar uma tragada (tapa, pega, bola)  e imediatamente passar o negócio para o amigo ao lado. O que teria feito o paulista seminal para que seus atos fossem imortalizados no jargão no submundo canabista porto-alegrense dessa época eu nunca soube. Sei que o bicho hoje resolveu cantar na boca do Dido. Que negócio esquisito. Nem foi bem um apito, era mais um guincho, um som parecido com o que acontece quando se faz um pequeno rasgo ali no pescoço de um balão semi murcho e se deixa sair o ar meio se peidando, meio se assoviando todo.

Lá pelas tantas parou, me deixando defumado (aura estalando de quente) e intrigado com a seguinte questão: como este fenômeno foi possível? Um furo milagroso, num ângulo certo, começando na cabeça e se esticando até a bunda da ponta com a missão única de acrescentar musicalidade a este meu ato controverso? Provavelmente.

*nunca chamo de “baseado”, por algum motivo