o faraco no linkedin

Não quero explicar porquê, mas é fato absoluto que nutro grande carinho pela rede social LinkedIn. Não entro quase nunca, não leio quase nada. Não serve pra muita coisa. Devo estar lá há quase uma década e nunca ninguém me chamou pra coisa alguma. Digo, nunca um cabra ofereceu-me um emprego. Nem sequer um trabalho. Algumas pessoas chegaram até a me pedir. Outras, tipo uns protéticos do interior do Paraná, uns vendedores de loja de shopping de celular em Sorocaba e uns assistentes de raio-X de Maceió eu nunca entendi porque me quiseram em sua rede de contatos pra começo de conversa.

Até que o LinkedIn teve um agito uns 5 anos atrás quando meio que jogavam na tua cara sempre que tu entrava no site uns quizzes que tu lá pelas tantas enchia o saco e meio que respondia, que basicamente consistiam em perguntas de resposta rápida (sim ou não) sobre as habilidades específicas de um dos teus companheiros. Tá, beleza, o cara manda bem no marketing digital. É, é, a mina se garante de social media. Arrã, arrã, teu pai capricha no charmoso “blogging”. Vai fundo, é isso aí. Daí como esse massacre era pra todo mundo, quando o cara entrava lá sempre tinha pelo menos umas 20 mensagens (“essa catrefa toda aí disse que tu é o cara do branded”), aí rolava aquele afaguito no ego, tu todo se animava, beleza, e coisa e tal, mas, lá pelas tantas, a mania passou. Daí os cara até mudaram a interface do site, ficou toda mais neutrona e cinzenta, e aí ele voltou a existir de forma muito mais morta no meu horizonte pessoal.

Só que hoje rolou o seguinte: o Faraco me adicionou.

Vi que o Faraco é professor universitário. Achei massa, registrei o aceite e lembrei do seguinte: no dia em que eu o conheci, no hotel Arvoredo Residence, ele tocava um baixo de forma levemente blasé, usando uma blusa de gola rulê, todo meio lânguido, de bigode, enquanto eu entrevistava o Júpiter Maçã no andar de cima (tratava-se de apartamento “duplex”) para um documentário que realizei com uma crew sobre o mítico auditório Araújo Viana.

Em algum momento tomamos um café.

Depois dessa, encontrei pouquíssimas vezes o Faraco ao vivo, mas guardo essa lembrança pitoresca como cartão de visitas mental suficiente para considerá-lo excelente. Tomara que não seja um bandido! Se for vou me arrepender? Só Jah sabe. A ver.

nem tudo está perdido

Estou em Porto Alegre há algumas horas. O céu está muito azul, o vento está muito frio e a cidade parece essencialmente a mesma, exceto por um pequeno detalhe estranho que me chamou a atenção.

Ontem ouvi uma história curiosa da minha mãe.

Falávamos sobre a forte presença de imigrantes africanos na cidade, coisa que até uns 5 anos atrás era algo incomum, e ela então lembrou de um dia em que estava numa agência da Caixa no centro da cidade e avistou uma viatura da Brigada Militar se deslocando lentamente, com três policiais pendurados pro lado de fora da janela, brandindo fuzis e carabinas. Sentado na calçada à frente da agência havia um negro de pele muito escura, com algumas frutas estendidas sobre um pano, uma visão cada vez mais recorrente na região. Ao avistar esse homem, a viatura parou e um dos policiais apontou a arma em sua direção. O africano congelou. Minha mãe também, com receio de que o policial fizesse alguma coisa.

Mas não deu tempo nem de tentar.

Em questão de segundos a viatura estava cercada de populares, que batiam contra a lataria do carro e bradavam xingamentos diversos, além de repetir diversas vezes para que eles se preocupassem em ir atrás de ladrão, não de gente honesta que estava lutando pra sobreviver trabalhando. Assoberbados pelo levante, os policiais foram embora e o africano pôde voltar a vender suas frutas.

Achei a história particularmente tocante por ter acontecido em Porto Alegre, onde o preconceito racial é um pouco menos velado do que no resto do país. Segundo o depoimento da minha mãe, não foram pessoas jovens que partiram em defesa do homem, mas muita gente de idade, tanto comerciantes das redondezas quanto transeuntes, o que aumenta o espanto. Uma mulher bem velha, com dificuldades de caminhar, teria golpeado o capô do carro com os punhos fechados várias vezes.

Curioso como nesses casos quem toma a frente quase sempre é uma mulher. Pra mim faz sentido: um homem leva um tiro muito mais fácil se tentar bater de frente com a polícia. Aconteceu não faz nem um mês, no interior de Pernambuco, durante um protesto pedindo PAZ: havia dezenas de pessoas discutindo com a polícia, um dos que aparentemente estava no comando escolheu um rapaz, chamou um soldado e mandou atirar nele. O rapaz recebeu um tiro na perna e veio a falecer alguns dias depois no hospital. Tudo isso aconteceu na frente das câmeras. O vídeo pode ser encontrado facilmente em diversos sites de notícia. Imagina só quando não tem ninguém vendo.

Paradoxalmente, não sou contra a polícia. Estou plenamente ciente de que o que faz de São Paulo uma cidade mais habitável que Porto Alegre atualmente é a presença do efetivo policial nas ruas. Sempre que venho pra cá faço o mesmo desafio: conto quantos dias preciso andar pela cidade até encontrar a primeira viatura ou brigadiano. Na média são precisos pelo menos 3 dias para que isso aconteça. Certa feita, num dezembro triste, passei inacreditáveis 11 dias andando pra cima e pra baixo, da zona sul à zona norte, da leste à oeste, a pé, de carro e ônibus até ver a primeira viatura verde musgo.

Em São Paulo, a contagem nunca supera os 5 minutos.

Dessa vez, todavia, fui recebido em minha terra com uma forte surpresa: menos de 2 minutos após deixar o Aeroporto Salgado Filho avistei a primeira viatura. Depois disso ainda vi duplas de policiais patrulhando a Farrapos e a Goethe, viaturas (agora mais discretas, em branco) rondando diversos bairros e – como óbvia consequência – um número muito, mas MUITO menor de indivíduos altamente suspeitos pelas ruas. Tudo numa corrida de menos de quarenta minutos entre o aeroporto e a Medianeira.

Uma vez ouvi um argumento muito interessante acerca do papel da polícia: é terrível que a população tenha se desacostumado a vê-los ao seu lado. Grande parte dessa distorção entra na conta da criminalização do uso de drogas, já que em pleno 2017 já ficou mais que evidente que os viciados não são um grupo etéreo hipotético, mas sim algo extremamente homogêneo, que inclui nossos filhos e pais, amores e amigos. Outra parcela (bem menor) desse distanciamento decai sobre incompetência, preguiça, preconceito, despreparo e ignorância.

Em suma: claramente a polícia que temos não é a ideal, todavia sua extinção tampouco é a solução. Um sonho dourado seria que as futuras gerações de policiais viessem cada vez mais despidas de preconceitos, fossem melhor treinadas e voltassem a se preocupar com o que os filmes e os livros me ensinaram que deveria ser o seu lema: proteger e servir. Não sei se levo fé nisso. Não sei se levo fé.

Todavia: quero muito acreditar.

meu crack

Como é do conhecimento de quem me conhece há um certo tempo, sou dependente químico profundo de FIFA SOCCER.

Tive uma breve fase Winning Eleven/Pro Evolution Soccer nos anos 2000 (especialmente por conta da jogabilidade mais solta, da customização extrema e porque os FIFA pra PSone e PS2 eram uma bosta), mas, na média joguei muito mais FIFA ao longo dos meus mais de 30 anos de videogame. Só em 2011, por exemplo, foram mais de MIL HORAS, o que seria o mesmo que passar aproximadamente UM MÊS E MEIO do ano jogando ininterruptamente.

Enfim.

Recentemente concluí as 15 temporadas do career mode (única modalidade que eu jogo) do FIFA 12 pro PS3 e avancei para a versão de 2014. É a segunda vez que executo a proeza. No FIFA 11 peguei o SIENA, um time italiano da segunda divisão, e o levei até os píncaros da glória. No 12, o eleito foi o alemão DUISBURG, igualmente segundino, escolhido simplesmente porque o seu símbolo era uma zebra. Neste FIFA 14 vi que era possível fazer algo muito mais extremo: partir da QUARTA DIVISÃO inglesa rumo ao topo. Pareceu excelente. Todavia, como nessa versão, pela primeira vez, existe a possibilidade de disputar a Libertadores da América, resolvi brincar um pouco com o meu bom e velho Grêmio – o que está sendo bastante divertido.

Embora agora seja preciso optar entre desenvolver um jogador ou um técnico no career mode (ou seja, não existe mais a modalidade Player Manager, que reunia as duas coisas), ambos caminhos ganharam uma profundidade tremenda, coalhados de pequenos detalhes imersivos que vão consumir meses da minha vida na frente da telinha. Tanto o técnico quanto o jogador podem ser convocados para a seleção do seu país, por exemplo, o que abre uma nova série de possibilidades que até então inexistiam no jogo.

O mercado de transferências é quase um jogo à parte, extremamente complexo, envolvendo a leitura de um grande volume de e-mails, a coordenação de uma rede de olheiros espalhados pelo mundo e rodadas de negociações muito mais detalhistas e um tanto confusas – apesar de muito satisfatórias também.

Quanto ao futebol em si, sempre é maravilhoso perceber o quanto um jogo que é, essencialmente, O MESMO há pelo menos 15 anos, consegue se reinventar a cada nova versão. Quando o cara troca de FIFA sempre rola aquele período de adaptação nas primeiras semanas. Muda o tempo de bola, muda a física dos jogadores, a rigorosidade do juiz, a facilidade de driblar, passar ou chutar no gol. Na comparação com o FIFA 12, este 14 parece mais orgânico. A movimentação dos jogadores é mais fluida, a animação mais bonita. Tudo é mais realista. Há uma grande variação de possibilidades quando um jogador vai chutar uma bola, por exemplo, o que já deixa a experiência muito mais hipnótica. E, embora ainda esteja meio difícil de jogar, já deu pra perceber que dá pra fazer gols e jogadas muito mais bonitos nessa versão. Certamente gostarei.

Entre os destaques negativos, o principal é o menu. Podia ser muito mais simples. Tanta animaçãozinha e balaca deixou o jogo pesado, a ponto do cara experimentar o loading em praticamente todas as telas – pelo menos não são muito extensos. O menu balaqueiro deixou também tudo mais confuso: é muita opção pra clicar, muita coisa pra escolher. Demora uns dias pra entender. Mas depois que entende, também: vai que é um Dodge.

Fora isso, o som. Agora tem narração em português. E quem narra é o Tiago Leifert. Até aí tudo bem: dá uma animada no cara ouvir o nome dos jogadores e as descrições das jogadas em determinados momentos. Além disso, embora o considere meio bunda, não desgosto inteiramente de Tiagueira. Foda mesmo é o arrombado do Caio comentando. Esse é pra matar. Primeiro que é só corneta e depressão. Tu faz um golaço, ele vai lá e fala que foi falha do goleiro. Tu sofre uma falta, ele vai lá e fala que não foi. Um jogador teu acertou 24 de 25 passes, mas justamente nesse que ele erra vem o Caio e diz que o cara simplesmente não entrou no jogo. Chega a ser hilário, se o cara tá ganhando. Se o cara tá perdendo, todavia: dá uma raiva.

Por outro lado, rolou uma mudança no som que deu um up no game do Dido. Explico: uns 3 ou 4 anos atrás, de saco muito cheio de ficar ouvindo sempre as mesmas músicas indie cu murcho nos menus do jogo, fui pesquisar nos fóruns se tinha algum jeito de mudar isso. Tinha: era só passar alguns mp3 para o HD do PS3, criar uma playlist e depois associar essa playlist a eventos específicos do jogo. Isso já melhorava MUITO a coisa. Mas aí descobri algo ainda mais brutal: era possível fazer algo similar com os cânticos das torcidas.

Num primeiro momento, baixei diversos mp3 de gritos de torcida do Grêmio e associei ao meu Duisburg, mas logo isso se mostrou meio xaropão e estranho – basicamente porque eram gravações de qualidade irregular; algumas muito altas, algumas muito baixas, a maioria mal captada e mal cortada. Então me ocorreu o seguinte: e se eu trocasse todos os gritos de torcida pela minha playlist de músicas? Foi aí que a coisa se transformou pra mim.

A partir dessa descoberta, sempre que eu jogava meu FIFA, o fazia com trilha sonora muito maluca no estádio: drum’n’bass, jungle, rap, UKG, reggae, dancehall, funk e rare groove. Era demais. O problema é que sempre que saía um gol ou eu precisava pausar o jogo, a música parava e desaparecia – o que gerava comportamentos bizarros, do tipo: se tava tocando Protect ya neck, do Wu Tang, ou Unknown 003-A, do DJ Zinc, e eu estivesse precisando fazer uma substituição ou prestes a marcar um gol, minha tendência era ficar só no passe lateral, gastando a bola, pra poder ouvir a faixa inteira. Claro que isso convertia muitos empates e vitórias em derrotas, provocando uma raiva paralela e totalmente desnecessária no amigo.

Nessa nova versão consertaram isso: agora a música não desaparece mais quando sai um gol ou se pausa o jogo. Além disso a torcida adversária grita de volta, faz batuque na charanga e entoa cânticos enquanto a minha solta uns Mobb Deep, uns Cutty Ranks, umas Minnie Ripperton de volta pra animar a crew. Quanta vitória.

Não avancei muito no jogo ainda (fui desclassificado na Copa do Brasil pelo Goiás já de cara e estou em 13º no Brasileirão com 7 ou 8 partidas disputadas), mas estou torcendo para que agora os jogadores europeus não respondam com “essa liga não é prestigiosa o suficiente” quando um time brasileiro tenta comprá-los. Tem um comentário que o arrombado do Caio faz com frequência que indica o contrário, algo como “agora que os times brasileiros se reforçaram, eles conseguem segurar seus craques por muito mais tempo, e até mesmo repatriar alguns jogadores do exterior.” A ver. Quero sair arrebentando muito nos campeonatos e botar Neymar, Suarez e Messi no lugar de Vargas, Barcos e Kléber (que, justiça seja feita, estão segurando a barra direitinho por enquanto). Vamos ver se dá.

a challenger appears

Não sei se anda acontecendo com vocês aí, mas comigo aqui, nos últimos meses, o Instagram mudou de patamar, deixando de ser apenas uma distração imagética meio morna para se converter no aplicativo que eu mais uso no meu celular.

Começou com a função Histories, que proporcionou uma alternativa muito melhor ao Snapchat – que usei por cerca de seis meses, gostando bastante, embora o aplicativo fosse muito pesado pra caralho (chegou a ocupar 1GB do meu celular) e tivesse uma audiência muito restrita (meus snaps de mais vulto nem chegaram a 20 visualizações). Graças à base de usuários do Instagram, cada History do Dido costuma ter entre 250 e 400 views atualmente, um salto de alcance muito expressivo. Pena que ainda não dá pra inverter um vídeo ou fazer face swap – a melhor coisa do Snap, disparado (fora os nudes).

O segundo momento desse sequestro de atenção promovido pelo Insta foi a implementação do seu próprio chat. Ainda converso MUITO mais com as pessoas via WhatsApp e Telegram, é claro, mas o chat do Insta já superou o chat do Face e, do jeito que as coisas estão indo, é capaz de logo chegar ao topo da lista.

Agora, se tem uma coisa que me irrita – justamente porque agora uso mais o Instagram para interagir com as pessoas – são os alertas arrombadíssimos que o aplicativo resolveu disparar sem limites. Antes eu só era notificado quando alguém curtia uma foto minha, mas a coisa foi, paulatinamente, virando uma tremenda palhaçada. Se alguém posta pela primeira vez depois de muito tempo sem postar, se alguém inicia um vídeo ao vivo, se alguém que é meu amigo do Facebook resolve criar uma conta nova: tudo isso o aplicativo avisa. E aí cria aquele círculo vicioso da frustração: o celular geme, o cara olha de canto, vê o ícone rosadinho e pensa que é alguém puxando papo, se anima com as possibilidades, ajusta o foco da retina e constata que “Seu amigo fulano de tal está no Instagram com o nome Fulano.” Que bosta. Ou, em Dids Speak, “porra merda” (inventei este palavrão recentemente e estou querendo emplacar).

Todavia, de uma coisa nesse novo Instagram eu gosto: quando um camarada posta uma foto em que tu está marcado e o aplicativo te avisa toda vez que algum amigo em comum curte a foto. Esse recurso considero simpático. Os outros todos: uma merda.

O pior efeito colateral dessa mudança, entretanto, é que o número de likes e comentários nas minhas fotos despencou meteoricamente. A impressão que dá é que tem fotos que nem são exibidas pra todos os meus seguidores. Ou isso ou as minhas fotos simplesmente pioraram pra caralho (o que sempre é forte possibilidade).

skr skr skr

Fui ouvir o tal do Raffa Moreira depois da confusão em que ele se meteu com o Haikaiss meio que esperando que o som fosse uma bosta e ele fosse um cuzão – mas estava duplamente enganado: o som do cara é espetacular e ele está absolutamente correto em tudo que diz.

A treta já era um pouco mais antiga na internet, mas ganhou notoriedade no final de março quando um repórter do G1 o entrevistou sobre a presença do Haikaiss no Lollapalooza e ele reclamou do excesso de brancos no rap brasileiro. Neste momento eu já tinha concordado 100% com o Raffa, posto que: odeio Haikaiss. Acho o som uma merda: letras vazias, vozes horrendas, flow murcho, bases sem alma. E, sim, são todos brancos, aparentemente boys, fazendo cosplay de favela (como diz o Coruja BC1, não necessariamente falando deles, mas, né?). O bom e velho MANINHO DA PUC, em Dids Speak. Eu, que sempre gostei de rap, andava triste há muito tempo vendo que era isso (e Cone Crew, e Felipe Ret, e Projota) que fazia sucesso no Brasil.

Ao mesmo tempo, nunca tinha ouvido falar desse maluco desse Raffa Moreira, e passei uns dias achando que também era mais um MC zé ruela cagadão querendo cavar um espaço na mídia a todo custo.

Como eu estava errado.

Vários dias depois disso tudo, meio distraído, ouvi a segunda parte do cypher Poetas no Topo (convenientemente batizado de “Poetas no Topo 2”) e curti muito o maluco que cantava no começo do som (nem tanto os outros todos), mas meio que passou batido. Lá pela segunda ou terceira audição, todavia, resolvi prestar atenção no nome do cara e me perguntei “Peraí, esse não era o maluco lá que esculachou os Haikaiss?”

Era.

Resolvi jogar o nome do cara no Google, li uma (excelente) entrevista dele pra Noisey (tão boa que acabou traduzida pro inglês e entrou na versão internacional do site) e quando dei por mim já estava há mais de uma hora no YouTube e tinha ouvido OITO mixtapes dele na sequência, todas mais ou menos com 10-15 minutos, contendo 4 ou 5 músicas. Número de músicas ruins: ZERO. Sério. Que troço impressionante esse cara. Não erra UMA.

Sua música é totalmente fora do padrão. Qualquer padrão. Ele diz fazer trap – aliás, se autodenomina “Rei do Trap de Guarulhos”, um título tão incontestável que eu iria mais longe e trocaria Guarulhos por Brasil, simplesmente porque não tem NINGUÉM fazendo nada remotamente parecido no país. Mas mesmo que a gente encaixe o som do Raffa dentro do espectro do trap, ainda assim ele é diferente. As músicas começam e terminam do nada, sem aviso, as melodias oscilam entre o fofinho ensolarado e o sombrio criminoso, sempre abusando do auto-tune e dos climas inacreditáveis. É tudo feito dentro de uma visão muito particular e forte de quem ele é é que música ele faz, ou seja: o cara tem uma voz muito definida, uma persona extrema, um experimentalismo grande. Respeito demais quem é assim, ainda que o trabalho não seja tão bom – até porque me identifico muito, e sinto que me posiciono exatamente assim no universo.

No caso do Raffa Moreira, todavia, além de tudo isso, o trabalho é foda pra caralho. O chamado arregaço.

As letras são muito loucas, as métricas não fazem o menor sentido, e as rimas nem sempre estão ali, mas mesmo assim: funciona. Em vários momentos ele é engraçado pra caralho (Calça apertada, foda-se se é a mesma do clipe, hey/ Eu uso as mesmas calças dos meus clipes pra andar de skate), em outros é straight up gangsta (Eu soube que cê me viu, ficou gelado/ Quis atravessar a rua e eu tava armado/ Você chamou os seus amigos pro seu lado/ Quando eu sacá a peça, corre arrombado). O resultado é um bagulho totalmente surpreendente e viciante, disparado a coisa mais criativa surgida na música negra de periferia no Brasil nos últimos 20 anos.

Recomendo que você entre no YouTube, digite “Raffa Moreira” e saia escutando TUDO que aparecer pela frente. Se tiver que ouvir só uma coisa, ouça a mixtape RAW RAW EMO (assinada como “xYoung Moreirax AKA Skate Draco”), que ele fez em resposta a um ataque de Twitter de um membro do Haikaiss, Pedro Qualy, que desencavou uma foto sua fazendo pose com uma banda emo na qual ele teria tocado no começo dos anos 2000. Em vez de ficar puto, Raffa achou graça: falou que a música emo está entre suas princilais influências e disse se orgulhar de ter tocado na banda (nota: também já integrou a banca do grupo de pagode Os Travessos). Ainda foi lá e mandou essa mixtape espetacular de resposta. Que tapa de luva extremo.

Se os 11 minutos de Raffa Moreira forem demais prum primeiro contato, tente as músicas soltas (todas encerrando na casa de 2 minutos). Boas sugestões são: Gelo e dois copos, Rockstar, 28 Swag, Print na Briga e Michael Jackson (uma das músicas mais estranhas que já ouvi na vida, mas que está fervendo quente na minha cabeça desde que escutei).

O moleque é estranho, o moleque é maluco, mas o moleque é talentoso, criativo e original pra caralho e: vai estourar (mesmo ele dizendo que não faz questão).

Fiquem atentos.

rep

Curioso pensar que rap (rhythm and poetry), em português, também é rep (ritmo e poesia).

Mais curioso ainda constatar que uma novíssima geração de rappers brasileiros está conseguindo realizar o sonho dourado das gerações passadas: a criação e manutenção de um mercado independente forte, baseado em batalhas de freestyle, vídeos no YouTube e presença nas redes sociais, sem a necessidade de interferências externas, gravadoras e jabás.

Nas últimas semanas, após cair acidentalmente num vídeo de um cypher (termo usado originalmente para designar uma batalha de freestyle, mas que no hip hop brasileiro de 2017 é sinônimo de um single, sempre em formato vídeo, em que vários artistas do gênero colaboram rimando juntos sobre uma mesma base) chamado Poetas no Topo, comecei a me inteirar sobre o trabalho de gente que está na cena há pouquíssimo tempo, mas já vem fazendo um estrago considerável.

Só esse vídeo, por exemplo, que traz Makalister (SC), BK (RJ), Menestrel (DF), Djonga (BH), Sant (RJ) e Jxnvs (RJ) rimando sobre uma batida de Slim (RJ), da Brainstorm Studio, tem mais de 6,6 milhões de views em pouco mais de 3 meses. A continuação, com outros rappers como Coruja BC1 (SP) e Baco Exu do Blues (BA), está quase batendo os 10 milhões na metade desse tempo. Vídeos solo de qualquer um desses caras, bem como seus álbuns digitais alcançam 1 milhão de execuções na mesma plataforma sem muito esforço. Os do Froid (DF), por exemplo, contabilizam entre 5 e 7 milhões de visualizações CADA sem que você jamais tenha visto suas fuças na TV, lido suas frases no jornal nem escutado sua voz no rádio.

O ponto é que tem um movimento enorme surgindo aí, alheio ao mainstream, pouco notado pela mídia tradicional, e trazendo a seguinte vantagem adicional e inesperada no pacote: graças às letras extremamente complexas e cheias de referências que esses caras estão escrevendo, tem muito moleque por aí falando em metáfora, figura de linguagem e rima multissilábica, considerando ser inteligente uma coisa boa.

Como nada nunca é perfeito, a contrapartida mais nociva dessa nova cultura são os fan boys e os haters, gente que passa o dia brigando nas caixas de comentários ou defendendo (chupando o saco) ou atacando (chutando o saco) seu MC preferido de maneira quase sempre mortalmente ridícula.

Quando paro pra pensar nisso procuro dar um voto de confiança e uma colher de chá, posto que o grosso da massa ainda é formado por uma rapaziadinha muito juvenil, saindo da adolescência ou se aventurando nos primeiros anos da vida adulta. Muito ou pouco, todo mundo sempre aprende. Deixa o tempo agir.

De todo modo, ando bem feliz com o que vem produzindo os rappers brasileiros da segunda metade dessa década. Bases excelentes, letras ainda irregulares – embora isso signifique que para cada catástrofe há também um clássico sendo escrito -, mas cada vez mais uma busca muito consciente de lapidar cada produção rumo à excelência total. Menção honrosa nesse time de destaque da novíssima cena para os ouvidos deste seu Dido: PrimeiraMente, Síntese e Rincon Sapiência, todos de São Paulo; e Don L, de Fortaleza.

só pra registrar

Sábado, às 10 da manhã, a bordo de um micro-ônibus, sentado ao lado do motorista e passando instruções com o GPS do meu celular, fui até um buffet em Mairiporã, em plena Serra da Cantareira, assistir a uma presbiteriana coreana casar com um judeu russo em cerimônia católica, a céu aberto, conduzida em coreano e inglês com forte sotaque coreano por um pároco que também é tio da noiva, e que veio diretamente dos Estados Unidos só pra isso.

A mãe do noivo, que é uma senhorinha russa com ares de Palmirinha, estava vestindo uma roupa tradicional coreana, assim como a mãe da noiva e algumas outras mulheres importantes da família. Apesar de usarem trajes ocidentais durante a cerimônia, assim que ela acabou, os noivos também se puseram em sensacionais trajes orientais maravilhosos inacreditáveis. Deu vontade de casar com uma coreana só por causa disso (e olha que a tarefa não é fácil; casar fora da comunidade – seja com alguém que não é coreano ou simplesmente não é da igreja – pode ser levemente dureza).

Em dado momento, um duo formado por parentes distantes da noiva cantou uma canção de inspiração católica em inglês e italiano, enquanto borboletas e insetos de cores variadas dançavam por entre os convidados – efeito acidental da natureza, claro, bem como o som do vento nas folhas, dos cachorros ao longe, dos sapos no lago e das cacatuas tropicais. Os noivos e suas mães despejaram areia colorida, em camadas intercaladas, num recipiente quadrado de vidro. O pai da noiva, com aspecto severo, fez discurso forte em coreano – que não foi traduzido e, portanto, compreendido apenas pela comunidade, que correspondia a uns 75-80% da plateia.

Uma coisa curiosa que observei sobre essa comunidade: aparentemente só assistiram à cerimônia sentados as mulheres, os muito jovens e os muito idosos; vários patriarcas extremos, que eu chamaria até de machos-alfa do bando, ficaram de pé, atrás dos bancos, trocando muita ideia em coreano e sendo cumprimentados com aceno de cabeça pelos jovens adultos que passavam por ali. Outra coisa que notei foi que: capricharam MUITO no almoço, estes amigões. Só prato de mudo, pedreiro style. Muito respeito.

De minha parte, não dei muita bola pras opções mais triviais do buffet, como o agnolini ao pomodoro, o filé ao molho madeira e o arroz branco, e me grudei foi na barriga de porco grelhada (Jah have mercy) e nas loucurinhas coreanas que, sendo 100% sincero, nem sei se comi do jeito correto. Digo isso porque as loucurinhas coreanas se dividiam em duas categorias: o sushi coreano, um enrolado de alga com arroz, bardana, tofu, pepino japonês, bolo de peixe e omelete; e uns acepipes coloridos com pinta de doce, consistência de chiclete e sabor indefinível. Apesar de se chamar kimbap (descobri depois pesquisando), o sushi coreano eu adivinhei o gosto que tinha, e meio que sabia como comer. Já as guloseimas chamativas eu não fazia ideia se existiam na condição de salgado ou doce, mas como havia uma área separada e exclusiva de sobremesas e essas bolinhas estavam ali entre a salada e a cumbuca de feijão, meio que chutei na primeira opção.

Um desses bocaditos louquíssimos, descobri pesquisando, chama-se songpyeon. Diz o texto desse site que são bolinhos de arroz gelatinoso recheados com pasta de castanha, o que descreve com precisão terrível o que comi. Era um bagulho bastante esquisito em todos os sentidos – aparência, aroma, textura e sabor -, e também não sei se ajudou muito eu ter me alimentado desse troço em conluio com a carne. De todo modo, não tive vontade de repetir. O mesmo vale prumas outras bolinhas coloridas (verde, amarelo e rosa) de textura mais macia, embora similar, cobertas por algum tipo de farofa salgada e recheadas com uma pasta marrom que deduzi ser feita de feijão. Tinham cara de doce e eram, de fato, levemente adocicadas. Também era um bagulho muito sinistro. Mas o mais nervoso de todos os bagulhos desse buffet era um PRISMA feito desse mesmo material glutinoso, metade verde, metade branco, com uma listra marrom no meio e grãos de feijão preto grudado às voltas. Parecia uma esculturinha de Durepoxi. Embora tivesse textura semelhante aos demais, tinha um gosto muito louco, difícil de entender e explicar e foi, disparado, o que menos me agradou. Uma mordida e eu já sabia que não era pra mim.

NOTA DO AUTOR: em pesquisa mais profunda (35 segundos de duração) descobri que essas guloseimas se chamam tteok, são itens indispensáveis de um cardápio festivo na Coréia e podem ser consumidas tanto como sobremesa quanto refeição. Sempre relembrando Mara Maravilha: não tem um só dia que se passe que você não aprenda uma coisa nova. Boto fé.

Destaque inesperado desse casamento foi um food truck tão paulistano que fora batizado de KOMBOSA, servindo vasta gama de sabores de milk shake, diversos deles com nomes engraçadinhos. Antes do almoço, por exemplo, me aproximei do estabelecimento e ordenei um LÁ VEM O NEGÃO só pra ouvir eles gritando bem alto, receita que levava chocolate em meia dúzia de estados físicos da matéria (creme, chip, farelo). Muito bom.

Após encerrar o último gole, me aproximei do bar e pedi um long island iced tea pra menina que preparava os coquetéis. Ela perguntou se eu já havia almoçado. Eu não havia almoçado, mas me sentia suficientemente alimentado pelo milk shake. Resolvi não mentir. “Não almocei porém sou adulto, sei que o drink é forte, tá tudo bem.” Ela achou que eu estava fazendo pouco do poder alcoólico da poção que estava prestes a mesclar, de modo que resolveu dar uma apimentada na nossa relação: “Tá achando fraco, é? Então vou te preparar um Adiós Motherfucker.”

NOTA DO AUTOR: Eu não tinha achado fraco.

Todavia, o camarada que preparava drinks ao lado da menina, antes que eu pudesse falar qualquer coisa já disse algo como “Nossa, não é nem uma da tarde e você já vai preparar o primeiro Adiós Motherfucker do dia?”, aparentemente desafiando a lógica, ignorando completamente o fato do casamento ter sido realizado de manhã. Meio sem paciência de dar muita trela praquela tchurminha, acabei embarcando em sua pantomima. “Beleza, vamos lá, faz aí teu drink,” eu disse pra mina, que começou a preparar a bebida, toda orgulhosa. O tal Adiós Motherfucker consistia de uma dose de vodca, uma de gim, uma de curaçao blue, uma de tequila e uma de cachaça. Not that big of a deal, se você me perguntar, mas enfim. Na sequência daquela conversa entreouvi esse mesmo camarada barman explicando prumas minas que o drink mais forte que ele já tinha criado se chamava ESTUPRO COLETIVO, mas aí eu meio que desliguei o cérebro e saí de perto porque tudo tem limite.

Não sei muito bem como encerrar esse relato, de modo que vou encerrá-lo desse jeito, com um parágrafo supérfluo, cuja única função é a de dar um fim digno a o que – pelo menos eu – estou considerando um bom texto. Portanto: FIM.

a verdade vos libertará

Em mais de 20 anos advogando a favor da maconha nunca fui capaz de me filiar a nenhuma organização ou movimento pró-legalização por um único motivo: a teimosia em não colocar na pauta os comprovados malefícios da erva.

Ora, dizer que a maconha é uma erva natural e que, por isso, é absolutamente inócua é um argumento tão estúpido quanto defender que ela é a porta de entrada para drogas mais pesadas ou que fumar um baseado equivale a fumar 20 cigarros de tabaco.

O que me faria militar abertamente pela causa hoje mesmo: um grupo pró-legalização que também falasse sobre os riscos aumentados de se desenvolver esquizofrenia na adolescência, ou de problemas cardíacos depois dos 50, as diversas bagunças mentais que podem ser causadas por uso contumaz e/ou pesado e a preocupante correlação entre o uso da maconha e a incidência do câncer de testículo.

Em outras palavras: vamos falar a verdade. Querer vencer uma guerra de mentiras com mais mentiras é, na minha humilde opinião, começar perdendo.

constância e consistência

Em 2009, quando mantive por cerca de um ano meu último blog, o Bugio, eu já tinha enfrentado obstáculo semelhante ao que enfrento agora, oito anos depois, nessa tentativa de retomar o hábito. Não sei se é porque estou mais velho e, portanto, meço mais minhas palavras; se o excesso de informações e opiniões na internet me dá a impressão constante de que tudo já foi dito e que eu não tenho mais nada a contribuir em nenhuma discussão; ou, mais provavelmente, uma combinação das duas coisas. Fato é que ainda não me animei a divulgar nas redes sociais a minha “volta” à escrita regular basicamente porque ela não tem sido constante nem consistente.

Umas duas semanas antes da minha última postagem pareceu que tinha engrenado. Mesmo com muito trabalho por conta da reta final da tradução de A Brief History of Seven Killings, eu vinha com disposição e ideias e estava postando com alguma regularidade por aqui. Imediatamente após o término do texto, todavia, graças a uma série de visitas aqui em casa combinado a um pequeno FARTÃO em relação às longas horas em cima do computador proporcionadas pela maratona de tradução, acabei deixando de lado esse espaço.

A ideia é retornar.

A parte boa de não ter divulgado nada é ainda não ter uma audiência e, portanto, nenhum tipo de pressão ou responsabilidade – por mais imaginária que seja. Consultando as ferramentas de acesso sei que, mesmo sem divulgação, possuo entre 50 e 80 leitores por dia (já descontando os robôs), mas como aboli a caixa de comentários (e ninguém me escreveu nenhum e-mail até agora), fica uma sensação de que falo com as paredes, o que tem sido muito bom pra destravar e desenferrujar na maciota. Sigamos assim mais um tempo. Vamos ver o que o futuro nos reserva.