we be vaping

No Natal de 2015, após alguns anos de dúvida e muitos meses de pesquisa, comprei de presente pra mim mesmo um vaporizador portátil chamado Arizer Solo. Não era o mais bonito (provavelmente é o Pax), o mais renomado (talvez seja o Crafty) nem o mais barato (certamente alguma ‘caneta’ chinesa), mas, segundo centenas de depoimentos que li em blogs e fóruns em inglês, espanhol e português, era o mais confiável, resistente e eficiente – e estava disponível para pronta entrega.

Mas vamos dar um passo para trás aqui.

Minha primeira experiência com vaporizadores foi ali por 2013, quando um amigo retornou dos Estados Unidos com um Pax na bagagem. O aparelho tinha acabado de ser lançado, causando grande furor por conta do seu design (muito zé bronha por aí se emocionou e saiu comparando com produto Apple): um cilindro fosco, ou todo preto ou todo prata, com uma discreta e agradável luzinha em forma de X com o miolinho cortado brilhando na frente. O cara abria uma portinha lá embaixo, recheava de fumo, fechava a portinha, virava o troço pro outro lado, tirava o bocal, apertava um botão um certo número de vezes para obter uma determinada temperatura (eram apenas 3, pré-definidas), botava o bocal de volta, esperava até que o X cortado ficasse verde e mandava brasa. Era um objeto extremamente sedutor, não apenas pelo visual SLICK AS FUCK, mas também pela sua funcionalidade – que se prometia excepcional.

Tristemente, na hora de usar, o bagulho não se mostrou à altura das expectativas. O cara puxava aquela merda um tempão, tinha que fazer uma força do caralho, não vinha nada de fumaça, não dava nada de efeito, e a bateria ainda por cima não durava porra nenhuma. Que decepção.

Corta para 2015. Estou em Amsterdam. Por intermédio de uma amiga que é a madrinha da Alice (a menina fantabulosa de quem sou padrinho) e que hoje aparentemente está morando na Tailândia (faz um tempo que não nos falamos direito), estou na casa de um nativo que vive num curioso apartamento de uns 15 metros quadrados bem no meio do Red Light District, experimentando do mais profundo ceticismo enquanto observo um dos famosos balões do Volcano se enchendo com o vapor que emana de uma pipoquita generosa de um fumo chamado Lemon Skunk. O Volcano talvez seja o vaporizador mais conhecido do mundo. Parece a base de um liquidificador, só que em vez de ter uma hélice giratória altamente afiada na ponta tem uma peça de cerâmica coberta de aço que esquenta; e em vez de acoplar um copo em cima, o cara coloca uns balões de algum tipo de plástico supostamente seguro, que vão se enchendo lentamente com o vapor produzido pelo material que estiver suando grosso no forno ali embaixo (em quase 100% dos casos, maconha).

Ali a coisa mudou definitivamente pra mim, porque aquele vapor do Lemon Skunk que recheava o balãozão do Volcano me deixou completamente plastificado. Que sabor, que odor, e que paulada no melão que trouxe. Saí dali reconsiderando, pensando “opa”. No fim das contas dá pra ficar bem doidaço inalando vapor.

Vamos dar um novo um passo para trás nesse ponto para falar um pouquinho sobre o processo de vaporização.

Vaporizar, naturalmente, é converter algo em vapor. Os vaporizadores de ganja fazem isso usando câmaras aquecidas por um elemento (geralmente de cerâmica ou alumínio) para “assar” a erva até que ela libere seus terpenos (agentes de cheiro e sabor) e alcaloides (substâncias psicoativas) por meio da evaporação, sem jamais provocar a combustão do material.

O princípio é o seguinte: combustão produz fumaça. Fumaça faz mal para os pulmões. Uma vez que os principais canabinoides da planta estão dissolutos em água e evaporam muito antes do seu ponto de combustão, é totalmente possível extraí-los da planta sem precisar incendiá-la, um processo que não apenas é mais saudável como muito mais saboroso e eficiente.

Fumar um baseado, na verdade, é basicamente a mesma coisa: há uma fonte de calor esquentando um material vegetal e alguém inalando através da outra ponta de um canudo. O primeiro problema com isso é a fumaça, que contém benzeno, gás carbônico e diversas outras substâncias cancerígenas. O segundo é que a fonte de calor é parte do próprio material em brasa, o que gera um desperdício muito grande. O cara fumando um beck consegue absorver, com muita sorte, algo perto de 25% de todas as suas substâncias. Já usando um vaporizador pode extrair até 70% (embora na média fique mais perto da faixa dos 50%).

Prestes a completar dois anos de uso do Solo, posso assinar embaixo de todas essas alegações. O troço é realmente potente. Com aproximadamente 1/3 do fumo necessário pra fechar um beckzinho médio (nem perna de grilo nem dedo de gorila) dá pra ficar BEM CHAPADO, e de 2 a 3 vezes – o que ainda se traduz em mais uma faceta do sucesso da vaporização, que é a economia brutal que ela representa para o bolso surrado do maconheiro.

Mas na real eu escrevi TUDO ISSO só pra dizer o seguinte: essa semana eu desenvolvi um método muito bom para limpar o tubo curvo do Arizer Solo.

O Solo vem com dois tubos de vidro pra acoplar diretamente em cima do seu forno (com cinco temperaturas pré-programadas): um reto e um curvo. Nunca usei o reto. Gosto demais do curvo. Mas enfim.

A grande questão aqui é que alguns meses de uso produzem um acúmulo considerável de resina neste tubo, e é um verdadeiro inferno limpar dentro do cotovelo dele.

A química básica diz o seguinte: mergulha o tubo em álcool, deixa descansar um dia e, no dia seguinte, ferve uma água e toca por cima que deve sair tudo. Na prática, não funciona bem assim. Ao longo do tempo, pequenos e médios pedaços de ganja acabam sugados tubo adentro e se grudam em suas paredes. Cobertos com novas camadas de resina endurecida, muitos se recusam a sair de barbada. Então o cara tem que dar uma esfregada.

Tentei várias coisas: aqueles ferrinhos cobertos com barbante pra limpar cachimbo (bons por serem flexíveis, ruins por serem muito finos), algodão (tem a tendência a se fragmentar, e aí é outro inferno remover nacos presos em cantos remotos), papel higiênico (problema similar ao do algodão) e papel toalha (um pouco mais robusto que os anteriores, não é perfeito, mas costuma causar menos problemas). Também usei o truque de misturar sal grosso ao álcool e chacoalhar o tubo para que o atrito ajude a soltar os detritos – o que funcionou em algumas situações, mas não em todas.

Mas aí outro dia, enfrentando as mesmas dificuldades de sempre para limpar ali aquela desgraçada daquela voltinha do tubo, me deu um estalo. Além do álcool, em que outra substância os canabinoides se dissolvem? Gordura. Mas é claro. Eu já tinha lido sobre a famosa técnica de ferver o tubo sujo no leite – e, posteriormente, acrescentar chocolate a este leite e beber na esperança de atingir um efeito que eu, particularmente, não sou muito fã.

Eu não tinha leite. Considerei usar azeite, mas me pareceu que precisaria usar muito – e azeite é muito caro. Acabei apelando para a manteiga. Cortei um naquinho e fui empurrando para dentro do bocal, modelando com o dedo até que o preenchesse por inteiro. Deixei uma meia hora quieto, até que a manteiga começasse a amolecer, então chupei o ar pela outra ponta, fazendo com que ela atravessasse os buracos e adentrasse o tubo. Deixei quieto mais uns 5 minutos enquanto fervia uma água, derramei tudo pelo lado amanteigado e: voilá. Soltou TUDO.

Pra finalizar, um toque de mestre: em vez de usar algodão ou papel para dar aquela esfregada final, cortei um pedaço de um cordão de tecido usado para prender um avental que eu tenho há 8 anos e nunca usei. Caso eu mude de ideia agora e queira usá-lo, o avental ainda poderá ser fechado (era um cordão ridiculamente grande, tirei apenas um pedaço). Enquanto não me decido, o tubo curvo do meu Solo fica formidavelmente limpo. That’s what I call a win-win situation, my dammies.