two dreams

No primeiro eu chegava a pé em casa, mas não era mais a minha casa – quer dizer, um dia foi. O apartamento em que eu morava em Porto Alegre, no Bom Fim, em cima do Mariu’s, na última quadra da Osvaldo Aranha, depois da curva que leva pro túnel (o único da cidade), uma das ruas mais perigosas e difíceis de atravessar em toda a cidade.

Estava nublado, e era meio de noite. Eu chamava o elevador e, enquanto ele não chegava, dava uma espiada num vão que desembocava na garagem, um espaço que não existia no prédio real. Não havia muitos carros estacionados, e meu amigo EGS promovia um churrasco dançante com uma galera da FABICO por ali.

O elevador chegava. Tinha uma daquelas portas pantográficas (outro detalhe incompatível com o verdadeiro prédio). Por algum motivo absurdo, eu havia pedido um Uber que não era um Uber, e sim um Cabify ou 99pop (posto que não uso mais os serviços do Uber há meses, embora siga chamando o ato de pedir um desses carros de aplicativo de “chamar um Uber”). O elevador ia até em cima e, quando ele chegava, eu apertava o botão para descer novamente.

Lá embaixo, na rua, o carro que me esperava não era o que eu esperava, e sim um dos clássicos táxis laranja tijolo (alguns dizem vermelho) de Porto Alegre. No banco do carona, ao lado do motorista, ia um velho, calvo, de cabelo branco. De alguma forma eu sabia que ele carregava uma grande quantia de cigarros consigo. Acho que cheguei a vê-los dentro de um maço curiosamente cilíndrico. O motorista alegou que o velho era seu pai, e disse que o deixaria em sua casa, que ficava pelo caminho, caso eu não me importasse. Eu não me importei.

Todavia, obviamente, logo ficou claro que alguma coisa estava errada.

O caminho não se parecia em nada com o que eu estava acostumado. Na verdade, eu nunca tinha visto nenhuma daquelas ruas, não conhecia aquelas casas, aquela paisagem. Experimentei um forte arrependimento por haver entrado naquele carro. Comecei a me perguntar por que fiz isso? Notei que o celular do motorista, visível, pendurado no painel, não estava com o GPS ativado, e pedi que ele inserisse o endereço do meu destino ali. Ele desconversou. A paisagem não era particularmente assustadora. De certo modo era até bonita: uns bairros bucólicos, arborizados. Montanhas cobertas de grama e um imenso corpo d’água que não entendi se era um lago ou mesmo o mar. Mesmo assim, eu estava cada vez mais desconfortável com a situação. Quando tentei abrir a porta do carro e a encontrei trancada, bateu o pavor.

Mas aí acordei.

(…)

No segundo eu ia passar por uma cirurgia no coração, aparentemente simples e rápida, sem maiores cortes, que me permitiria voltar para casa no mesmo dia. Eu aceitava tudo com muita facilidade e até alguma alegria (que estranho), mas, alguns momentos antes de começar a anestesia me ocorreu uma pergunta deveras importante: por que estou fazendo isso? Quer dizer, que problema estou buscando tratar com este procedimento? Resolvi questionar os médicos que, a exemplo do motorista mental do outro sonho, mergulharam fundo nas evasivas. Quando comecei a me desesperar e tentei levantar da cama, fui impedido.

E aí, novamente, acordei.

rapidinhas da madruga

Outro dia criei uma senha fácil de lembrar, porém difícil de escrever, posto que é uma frase comprida cujas palavras são compostas de letras posicionadas de formas esquisitas, obrigando o vivente a demonstrar uma certa destreza digital na hora de completar o formulário. Agora: que merda se o cara se bobeia por um décimo de segundo e erra uma letra na digitância: tem que apagar tudo e começar de novo.

(…)

Pior vida atualmente: a desse maluco que era pra ser o apresentador do Troca de Passes, no SporTV, mas deu o azar​ de terem colocado o Roger no programa com ele – que aí não tem muito jeito, Roger é muita manha, lábia e carisma, ele rouba a cena 100% das vezes, come o cara com farinha, e quando botam na bancada junto com ele o Ricardo Rocha chega a ser covardia, dá pra ouvir os ossinhos do cara estalando enquanto os dois boleiros mastigam.

(…)

Tive um sonho meio confuso e claustrofóbico de uma festa – como são todos os meus sonhos que se passam em ou contém uma festa – e aí no semifinal (o ato penúltimo) rolava uma bad, as luzes se acendiam e eu perdia meu celular, aquela sensação de merda de quando tu acaba de constatar que perdeu uma coisa, especialmente quando é uma coisa que tava contigo até um segundo atrás, que tu cuida bastante, enfim, que merda, só que aí um segundo antes de acordar eu encontrava o celular debaixo de uma mesa de madeira escura, tinha uma toalha em cima, e portanto quando acordei eu tinha um sentimento de satisfação ou completude me inundando a cuca, diferente da frustração com a qual eu costumo acordar quando me acontece o contrário e eu não consigo encontrar uma pessoa, um lugar, uma coisa que se perde de mim no meio do sonho. Mas ruim mesmo é quando tu acorda sem lembrar do teu sonho e passa o dia inteiro com esse sentimento xarope no fundo, sem saber nem poder contra-atacar. Aí it’s a fuck.

(…)

Fui num vascular essa semana ver se estava mesmo desenvolvendo varizes e não é que as veias resolveram diminuir grotescamente de calibre bem no dia da consulta? A favor do acaso vamos levar em conta que fez frio pra caralho (9 graus com sensação térmica que arranhou o 1), os vasos se contraíram e, quem sabe, andei exagerando.

(…)

Também tem mais uma coisa: no fim das contas funcionou pra caralho aquele lance de meter 10 apoio e 10 abdominais pra cada hora trabalhada. Aconteceu uma coisa maravilhosa: o fato de estabelecer uma janela de tempo determinada de trabalho entre uma sessão de exercício e outra aumentou MUITO o meu foco, fazendo com que minha produtividade simplesmente TRIPLICASSE. Na verdade, em termos de volume ela continua exatamente igual, mas reduzi de 15 para 6 horas diárias meus turnos de trabalho – o que é um resultado bastante significativo tanto em termos mentais quanto físicos: como fico menos tempo sentado, exerço menos pressão nas pernocas do Dideira e posso avaliar com mais segurança se as veias inchadas e a sensação de peso nas pernas foram algo transitório ou uma condição crônica incurável (embora perfeitamente tratável). A ver.

a dream #6

Ando tendo um sonho recorrente bem estranho, há meses – talvez até mesmo um ano.

Como já dito anteriormente, costumo sonhar que a casa onde moro não corresponde exatamente à casa em que de fato vivo quando não estou sonhando. Porém este sonho recorrente se dá sempre da mesma forma: estou em algum aposento da minha casa onírica, sei que estou sozinho, ouço barulhos em alguma outra peça, vou conferir e encontro pessoas lá. Não são bandidos, nem qualquer tipo de pessoa ameaçadora: pelo contrário. Em geral são mulheres de meia idade, ou ainda mais velhas, eventualmente uma criança ou pré-adolescente. Pergunto o que estão fazendo ali, sempre me respondem com evasivas. Peço para que me entreguem as chaves da casa, ninguém nunca tem. Peço para que saiam, ninguém quer sair.

Pensando melhor, agora, enquanto escrevo, percebo que talvez não tenha tido esse sonho muitas vezes. Talvez apenas no sonho em si tenha tido a sensação de que aquela situação se repetia – mas talvez não seja verdade. De todo modo, ela parecia bastante familiar.

Eu não conhecia as pessoas que estavam na minha sala se recusando a sair, mas a insistência delas em permanecer ali foi me enchendo de raiva – um sentimento que não costumo experimentar com muita frequência. Aliás, ataques de raiva, ou a mera sensação de ira são, pra mim, tão raros, que não consigo lembrar qual foi a última vez que tive um destes rompantes.

A campainha tocava, eu ia atender e eram dois skatistas – uma menina e um cara, ambos brancos de dread, com mochilas e trazendo alguma coisa nas mãos que não entendi bem o que era. Perguntei o que eles estavam fazendo ali e eles me disseram que o porteiro disse que eu era um cara tão legal que ele tava deixando todo mundo subir. Com isso, a minha raiva aumentou.

Então, apareceu alguém. Uma amiga recente – nem tão recente assim, levando em conta que faz vários anos que nos frequentamos, nutrindo sentimentos mútuos de carinho e admiração (e, talvez, em alguns momentos, até mesmo desejo e paixão). Neste sonho ela era minha vizinha de andar, e parava na minha porta para saber o que se passava. Só a presença dela já foi mais que suficiente para me acalmar, me deixando num estado mental próximo do gozo. Não sei bem o que falamos, mas tenho a impressão de que nos tocamos. Um abraço, talvez. Um beijo sei que não.

Subitamente, um barulho na sala. Um gurizão de uns quinze anos, ou algo assim, de óculos, suspensórios, o nerd arquetípico, estava agachado arrancando o rodapé de uma parede. Corri até ele e perguntei que raios ele estava fazendo. Ele não disse nada e se deitou de costas no chão. O peguei pelas pernas e bati com força contra a parede, demonstrando eu mesmo uma força e violência descomunais. O ameacei, dizendo que se ele não me respondesse o que estava fazendo naquele exato momento, teria que dar essa reposta só quando acordasse no hospital. Ele seguiu em silêncio. Novamente o peguei pelos pés, o suspendi no ar, peguei um impulso cavalar e o acertei com toda força contra a parede. Ele caiu no chão desacordado. Uma poça de sangue se formou embaixo de sua cabeça.

Na sala, as duas tiazinhas que haviam invadido minha casa seguiam se justificando por estar ali – uma para a outra, sem parar, do mesmo jeito que faziam desde o começo do sonho. Minha amiga/vizinha ocupava a cozinha, lavando alguma coisa na pia, com um sorriso lindo no rosto, falando sobre qualquer outra coisa da forma doce como ela sempre fala comigo.

Eu fui tomado por sentimentos ruins. O primeiro deles: matei um cara. Em seguida: eu só queria poder voltar no tempo e não ter batido com tanta força. Isso não sou eu, não precisava ter feito aquilo. Depois: serei preso, serei morto, algo terrível acontecerá. E pra terminar: será que consigo sumir com esse corpo? Dar um jeito de fazer parecer com que isso jamais tivesse acontecido?

E então: acordei.

Me sentindo muito, muito mal. Levei uns dez ou quinze segundos para entender que eu não havia feito nada daquilo, para só então começar o dia em paz comigo mesmo. Que negócio extremo, o inconsciente. Talvez o subconsciente. Um deles. Os dois. Não sei.

a dream #5

O dessa noite (na verdade, provavelmente começo da manhã) foi um pouco mais curto, mas, creio, pleno de chaves ocultas de significado. Basicamente eu andava pelos corredores de uma escola e encontrava muitos amigos que só fui fazer na vida adulta, todos entrando em uma sala de aula. Fiquei um pouco em dúvida se eu deveria ou não entrar naquela sala, então saí e me encontrei com uma professora que tentava desentupir o ralo de uma pia. Era linda essa professora, e sua presença me fazia sentir muito bem. Mostrei a ela a minha técnica para desentupir ralos, que consiste em colocar toda a mão sobre o buraco e forçar a criação de um vácuo, em manobra similar à de um desentupidor de borracha daqueles clássicos de privada. Funcionou. A pia ficava numa área externa coberta, um grande galpão com paredes de tijolo à vista, cercado por um lindo gramado iluminado por um forte sol. Ela me perguntou porque eu não estava na aula, e eu disse que não tinha muita certeza de que deveria estar ali, afinal de contas, eu era, na verdade, um homem de quase 40 anos, e não um menino de 15. Ela, que aparentava estar no final dos seus 20, me disse que entendia, posto que ela já estava no que se referiu como “maior idade.” Depois disso vivi algumas cenas naquele gramado com um cão enorme que me mordia através de um pano de forma amistosa e brincalhona. Havia outras duas pessoas comigo, mas não lembro quem eram.

a dream #4

Provavelmente empolgado com o excelente momento do Grêmio, que dura muito mais tempo do que estou acostumado, essa noite tive um sonho levemente temático, que começava num bar, durante um jogo do tricolor da Azenha. Por algum motivo, o Renato Portaluppi de agora estava em campo, fardado, pronto para bater uma falta. Ele a cobrou com perfeição, desviando da barreira e enganando o goleiro, mas a bola explodiu no travessão e se perdeu pela linha de fundo. Alguns instantes depois, num desses saltos de tempo milagrosos que são próprios do reino onírico, lá foi novamente Renateiras com seu topete grisalho cobrar nova falta. Dessa vez a cobrança não foi tão perfeita, a bola se enroscou na barreira e acabou sobrando na área. Tinha muita gente lá, dos dois times (não faço ideia de quem eram nossos adversários), e foi aquele tradicional salameio: chute na canela, jogador caindo pedindo pênalti e falta de ataque, um monte de gente errando em bola, até que o próprio Renato conseguiu arrematar para o gol.

(…)

Não deu tempo de comemorar. Quando vi já estava na sala da casa do mítico Eduardo Bueno, o Peninha, conversando com sua filha enquanto ele gravava alguma coisa para a TV a poucos metros de distância. Não conheço a Lízia pessoalmente. Fiquei sabendo que ela existia alguns anos atrás, quando apareceu num daqueles programas que o Peninha fazia no SporTV durante a Copa. Achei gatinha, escrevi alguma coisa no Twitter pedindo que ela aparecesse mais em tom de semi troça, em algum momento nos adicionamos mutuamente. Trocamos meia dúzia de palavras pelas redes ao longo desses anos, mas nunca nos vimos. Neste sonho, conversávamos sobre uma revista que ela folheava, mas não lembro o tema. Lembro de termos aproximado demais as cabeças um do outro duas ou três vezes e, ao constatar a intimidade desproporcional, imediatamente nos afastarmos. Todavia em algum momento paramos de estranhar a proximidade e, quando eu vi, estávamos lendo a revista com os rostos colados, falando cada vez mais arrastado, até que torcemos o pescoço e nos demos um beijo quente, docinho e molhado.

(…)

O Peninha ficou putaço. Ele eu conheço. Uma vez, quando eu trabalhava no ClicRBS, estava comprando um sanduíche na loja de conveniência do EcoPosto, que fica na frente do prédio da Zero Hora ali na Ipiranga, e ele apareceu com um grupo de amigos e me apresentou pra eles como “símbolo da evolução do Brasil”, posto que, graças à internet, agora já tínhamos até NERDS entre nós. Isso devia ser 2001 ou 2002. Neste sonho ele estava transfigurado pelo ódio enquanto me desancava, curiosamente na escada de pedra que leva para a casa dos meus pais na Medianeira, eu na posição mais alta, o que talvez tenha algum significado oculto. Eu me defendia dizendo que aquilo tinha sido um lapso, um acidente. Não era como se eu fosse namorar a filha dele. Ela não era exatamente o meu tipo e, muito mais importante: eu não era o tipo dela. Lembro dele se acalmando magicamente ao escutar a frase “ela não dá a menor pelota pra mim” e, em seguida, acrescentando “é verdade.”

(…)

Olhei pelas grades do portão. Lízia estava dentro de um carro cinza chumbo. Estava saindo para uma festa com seus amigos. Havia outros dois ou três carros, todos cinza chumbo, e todos estavam cheios de gente fazendo muita algazarra e barulho. Contrariando o grupo, ela vinha bem quieta, sentada no banco traseiro, ao lado da janela, lançando um olhar enigmático e formando um discreto sorriso nos lábios ardendo de vermelho de batom. Quando desviei o olhar para presenciar a reação do Peninha, ele usava um Rayban esverdeado igualzinho ao que Flavito usou um dia.

apartamentos mentais

Ainda não decifrei os motivos, mas fato é que faz alguns anos que sonho repetidamente uma variação do seguinte: ao chegar em casa, abro a porta e meu apartamento não é o apartamento em que eu vivo. Ele fica no mesmo prédio, na mesma cidade, com os mesmos vizinhos, mas o ambiente interno, os móveis, itens de decoração e vista da janela são radicalmente diferentes.

Uma vez eu morava num prédio de tijolinhos desses europeus, tudo grudadinho, numa rua estreita, com muitos restaurantes e lojinhas. Outra, numa cobertura, com uma gigantesca área externa incluindo um gramado, uma piscina e um quiosque com churrasqueira. A mais recente, dessa semana, incluía uma varanda brutal com espreguiçadeiras e enormes vasos com plantas apesar de estar situada num andar mais baixo.

Outro detalhe constante: é sempre dia nesses sonhos. Nunca estive em nenhum desses lugares à noite. Esse último aí, da varanda, era um dia chuvoso, mas, ainda assim: dia.

Não sei se isso quer dizer que eu tenho desejo de me mudar para um lugar maior, não sei se quer dizer dizer que possuo uma visão distorcida dos espaços que habito, só sei que é assim.

Que coisa.

a dream #3

O mais curioso e estranho nesse caso é que esse é o terceiro sonho que relato, e o segundo que tem como protagonista a mesma menina, que eu jamais vi ao vivo, com quem eu nunca conversei e com quem todas as interações (extremamente breves e pontuais) que tive até hoje se deram por meio das redes sociais.

No episódio de hoje, eu despertava e percebia que ela estava ao meu lado na cama. Ela não estava deitada junto comigo, mas sim sentada sobre as cobertas fazendo alguma coisa que não lembro bem (talvez estivesse pintando as unhas, talvez lendo um livro, talvez estivesse apenas me observando). Fato é que, assim como no sonho anterior, assim que acordei e a avistei ali, não estranhei a sua presença, mesmo levando em consideração o fato de que eu possuo uma namorada – que era algo que eu também sabia quando acordei debaixo das cobertas dentro deste sonho.

Trocamos algumas palavras, uma conversa curta e neutra, e eu virei para o outro lado e fechei os olhos. Nisso, algo inesperado aconteceu. Ela deitou ao meu lado e me abraçou por trás. Lembro da sensação gostosa de sofrer mochila sensual de gata. Como é bom. Fiz a garganta zunir de lábios fechados para demonstrar satisfação e prazer (o popular ‘hmm’) e falei algo como “Se eu fosse inventar uma mochila seria exatamente assim”, e ela encaixou melhor o abraço e encostou o nariz no meu pescoço. Senti a respiração quente e percebi quando as maçãs do rosto se incharam, indicando que ela estava sorrindo. Após alguns segundos de deleite comecei a raciocinar melhor e finalmente passei a estranhar aquilo tudo. Quer dizer, porque ela estava deitada na minha cama, me abraçando de forma íntima, se não era minha namorada e nem sequer havíamos feito amor?

Nesse instante notei que estava nu, e senti uma vigorosa ereção brotar. Ela falou algo na linha do “não seja por isso” e eu fiquei contemplando minhas opções. A linha que meu pensamento adotou foi a seguinte: a vida é curta, o tempo passa rápido, vinte anos atrás eu estava aprendendo a dirigir e usar o pênis e vinte anos para frente estarei à beira dos sessenta. Talvez a coisa mais sensata a se fazer seja efetivamente “viver um pouco”, “correr uns riscos”, “aceitar o que a vida me traz de bandeja”.

Enquanto isso ela já tinha tirado a blusa, deixando os mamilos rosados de fora, e trabalhava na remoção da calcinha. Em instantes estava debaixo das cobertas, esfregando seu corpo no meu corpo. O sexo foi meio estranho. Lembro de ver no rosto dela que alguma coisa não estava fruindo muito bem enquanto a penetrava. Os beijos, todavia, eram bons, e o toque em sua pele, lisa e quente, também era muito agradável. Mas alguma coisa ali não estava encaixando. Não era nenhum tipo de culpa cristã se manifestando, disso tenho certeza. Era uma coisa muito mais simples, mais física. Basicamente, eu não estava sentindo nada, prazer nenhum. Eu via meu pau entrando e saindo dela, mas não era bom.

Resolvi desistir. Ela me perguntou por quê? e vi a decepção e a tristeza em seu rosto, o que me deixou ainda mais atônito, posto que a mensagem que essa expressão passava era a de que ela sim estava aproveitando muito aquela transa. Fui até a porta do quarto, abri e espiei levemente. Não vi absolutamente nada. Mesmo assim, retornei à cama esbaforido e disse a ela “Minha namorada está vindo aí”. Ela arregalou os olhos “mentira” e ambos começamos a revirar os lençóis atrás das nossas peças de roupa de forma frenética, quando ouvimos a porta ranger e pessoas começaram a entrar por ela.

Nenhuma delas era minha namorada. Em vez disso, amigos da faculdade e do colégio, suas mulheres, seus filhos. Nesse instante notei que meu quarto não era o meu quarto. Mais parecia uma garagem, um galpão com o piso frio de lajota, gigante, escuro e impessoal. Meus amigos ignoraram totalmente a minha presença e da minha amiga virtual. Ela, por sinal, desapareceu neste ponto do sonho e nunca mais foi vista. Não pensei mais nela também.

Após me vestir, comecei a explorar a casa e percebi tratar-se de uma enorme mansão. Não havia nada de suntuoso nos aposentos, móveis ou objetos de decoração, entretanto. Era uma casa de praia padrão, com muito tijolo, penumbra e ventilador de teto. Estava abarrotada de pessoas, e se estendia de forma grotesca até se transformar numa espécie de condomínio infinito, com milhares de pessoas praticando o churrasco com pagode nas áreas externas. Ninguém parecia me ver, ninguém falava comigo. Reconheci, além de vários amigos de várias fases da vida, algumas celebridades improváveis, como o sambista Arlindo Cruz. Todos me ignoravam solenemente.

Segui andando e quando vi estava em algo muito maior, similar a uma feira de tecnologia, cheia de estandes e pessoas demonstrando produtos. Percebi que tinha me afastado demais da minha casa e tive vontade de retornar. Nesse ponto entrou em cena uma característica pouco comentada dos sonhos, que eu mesmo só descobri recentemente. É impossível, num sonho, retornar para o mesmo lugar de onde você partiu. Se você abrir uma porta e passar por ela, quando você virar as costas e voltar pela mesma porta, estará em um lugar diferente de onde você saiu. Se possível, faça o teste. Aprendi isso na época em que explorava os sonhos lúcidos e, inclusive, era uma das maneiras de testar a realidade – junto com olhar duas vezes para um relógio (eles nunca marcam o mesmo horário num sonho) ou tentar acender ou apagar a luz (não dá pra mudar a iluminação de um ambiente num sonho).

Todavia, àquela altura eu não sabia que estava sonhando, então me aproximei de um maluco que tinha um crachá pendurado no peito e segurava os braços para trás e perguntei pra ele como eu voltava para a “área das casas”. Ele me disse “Só pegar esse elevador aqui.” Olhei para o espaço vazio para onde ele apontou, mas não havia nada. Fui até a borda e vi um trilho de trem. Me desequilibrei e caí nos trilhos. Um trem vinha à toda velocidade em minha direção, mas eu consegui subir de volta antes dele me atingir – e o próprio trem caiu numa vala segundos antes de me alcançar. Então o maluco se aproximou para me explicar melhor. Eu deveria pisar num quadrado de grama bem na borda do vão que não estava ali quando despenquei nos trilhos. Ao pisar nesse troço, o quadrado se iluminou a apareceu na minha frente um objeto ovalado, negro, meio parecido com um disco voador. Ele ficou flutuando sobre o vão e se abriu, como uma concha, revelando um interior similar ao cockpit de uma nave, com controles e luzinhas.

“Como é que eu vou entrar aí?” eu perguntei, posto que o “elevador” não estava muito próximo da beirada, e quando olhei pra baixo só enxerguei escuridão e vazio. O maluco disse “ele vem mais perto”, e o elevador se aproximou para que eu entrasse. Subir nele foi parecido com subir num colchão de ar dentro de uma piscina: difícil. O troço não ficava estável, e inclinava perigosamente quando eu tentava jogar o peso do corpo em cima de uma das pernas. Quando finalmente consegui embarcar, percebi que estava sentado sobre o próprio painel de controle – não havia um assento. Comecei a mexer nos controles e rapidamente consegui manobrar o bólido, de modo que não ouvi as explicações que o amigão estava tentando me dar, fechei a concha e sai a milhão pelos corredores, que não tinham a menor semelhança com nada por onde eu tivesse passado até então.

Após alguns segundos de grande estranhamento por não ter a menor ideia de onde eu estava ou o que estava fazendo – e ainda por cima todo encurvado dentro de uma saboneteira tecnológica voando a centenas de quilômetros por hora por dentro de cozinhas, banheiros e corredores de hotéis, algo que lembrava muito, agora percebo, a sequência de abertura de “Corra que a polícia vem aí” – me veio o estalo: “Puta merda, estou sonhando.”

Então puf: acordei.

a dream #2

Outra experiência única em matéria de sonho acometeu o Dido a noite passada. Um detalhe curioso sobre os sonhos é que na esmagadora maioria deles (beirando a totalidade) a gente não se dá conta que é um sonho enquanto ele se desenrola. Enquanto estamos ali, no olho do furacão, parece que se trata do mundo real, desperto, físico. Mesmo quando experimentei a glória do SONHO LÚCIDO isso jamais aconteceu no começo do sonho. Pelo contrário: quase sempre bem no fim, e quase sempre assim que eu me dava conta de que estava sonhando eu acordava.

Mas tergiverso.

Fato é que neste sonho eu me encontrava num local com luz indireta e piso de madeira, que podia muito bem ser a casa de alguém onde ocorre uma festinha petit comitée como um espaço profissional alugado para fazer um coquetel de lançamento de algum produto ou serviço. Eu encontrava uma menina que eu conheço de redes sociais há alguns anos, e que é amiga de amigos e que, embora tenhamos trocado meia dúzia de mensagens esporádicas ao longo desse tempo, jamais nos encontramos ao vivo nem conversamos.

Ao avistar essa menina, eu sofria o seguinte estalo: “sonhei com ela.”

A partir dessa constatação, meu raciocínio fez algo inédito. A primeira coisa que aconteceu foi que eu comecei a me lembrar do sonho que tive com ela, cujos detalhes agora me escapam totalmente. Em seguida, me aproximei dela e começamos a conversar como se ela também compartilhasse de antemão daquelas informações e sensações. Em outras palavras, como se ela tivesse sonhado o mesmo sonho, soubesse as mesmas coisas. Conversávamos como se aquela não fosse a primeira vez que nos víamos, como se o sonho dentro daquele sonho contasse como um primeiro encontro.

Em algum momento, isso me pareceu estranho, e eu entendi que aquilo que eu estava tomando como realidade também era um sonho.

E foi aí que, como sói ocorrer nesses casos, o Dido se embananou todo na cuca e: despertou de pau duro na cama.

a dream #1

Não sei se foi a primeira vez na história que isso aconteceu, mas, certamente foi a primeira vez que aconteceu comigo. Estava sonhando que, durante os preparativos de organização de uma grande festa, fui designado para fazer uma coreografia inspirada em artes marciais envolvendo a montagem de uma pirâmide humana com Tarcísio Meira e Glória Menezes. Ensaiamos apenas uma vez antes da cerimônia em si e, claro, deu tudo errado. Parece que ainda por cima tinha um concurso rolando, a nossa equipe (éramos só nós três) tirou último lugar, o Tarcísio ficou putaço me xingando muito e a Glória nem falava comigo mais. A coisa toda foi tão engraçada que eu comecei a rir no sonho e ri tanto que ME ACORDEI RINDO, o que também despertou Petite, ao meu lado que, por sua vez, também teve um ataque de riso ao me ouvir relatando o que tinha acabado de ocorrer.