grêmio eterno

Uma coisa que sempre me impressiona nos comentaristas de futebol – principalmente do centro do país, mas não apenas – é a insistência em afirmar que o time do Grêmio a) é violento; e b) tem como ponto forte a bola aérea. Mas meus amigos: vocês não veem que, a cada DOIS ANOS, na pior das hipóteses, os jogadores não são mais os mesmos, que o técnico não é mais o mesmo, que a diretoria não é mais a mesma? Que eu saiba não existe um manual ou um estatuto do Grêmio que dite que todos os seus times precisam se destacar pela qualidade da bola área e pela severidade na marcação. Quem torce pelo Grêmio nos últimos 20 anos está careca de saber que não temos um lateral de qualidade desde o ARCE – e nos falta um cabeceador de talento, pelo menos, desde o JARDEL.

Ou seja, evidente que essa idealização de um Grêmio violento e cabeceador é culpa e herança do saudoso Grêmio de 1995, pilotado pelo Felipão, que tinha uma zaga séria e um jagunço como cabeça de área (pra justificar a violência) e um dos maiores cabeceadores da história do cabeceio lá na frente.

Só que isso aconteceu há VINTE E DOIS ANOS.

Sério, basta olhar o Grêmio desta temporada: toque de bola, 80% dos gols com os pés e baixo número de cartões. Não faz o MENOR sentido insistir nesse papo do futebol violento e aéreo do tricolor dos pampas. Mas estou certo de que vamos ouvir essa ladainha por muito tempo ainda.

projeto Zé Roberto: updates

Não faz cinco dias eu fiz 38 anos. A idade de Homer Simpson. Folgo em saber que estou muito melhor que ele em absolutamente todos os aspectos – físico, mental, espiritual e, principalmente: pelo simples fato de que eu existo de fato num mundo, possuo livre arbítrio (ou alguma ilusão dele), algum dia irei morrer e desaparecer da memória universal.

Todavia ainda estou pior do que Zé Roberto quando tinha a minha idade. Grande parte disso é explicado da maneira mais simples e cômoda (embora precisa): genética. Mas outra porção importante tem a ver com alimentação e regime de exercício – sobretudo com os longos anos de vantagem que ele tem sobre mim nos dois quesitos.

Em abril fez 3 anos que tenho aplicado pilates no meu corpo. Em setembro faz oito que venho prestando progressivamente mais atenção em tudo que eu como, reduzindo a quantidade de gorduras, açúcares e alimentos industrializados enquanto aumento a ingestão de água, frutas, legumes e verduras. Ainda estou longe do vegetarianismo, e acho que assim me manterei por muito tempo, mas também não vejo nenhum problema em reduzir o consumo de carne na dieta.

As coisas já melhoraram muito. Estou mais em forma aos 38 do que estava aos 28 anos de idade, e isso já é algo que muito poucas pessoas podem dizer. Mesmo assim, ainda há um longo caminho pela frente se desejo alcançar meus objetivos. Meu programa pessoal de exercícios funcionou bem por quase dois meses, mas acabei abandonando por falta de saco generalizada. A capoeira me encantou de cara e deu grande alegria inicial, mas as duas únicas aulas de que participei mastigaram meus pés de tal forma que não foi humanamente possível regressar (só fui andar normalmente duas semanas depois da última aula, por exemplo, por conta das bolhas gigantescas que apareceram e explodiram nos dois pés ao longo do treino). Ainda preciso encontrar a atividade aeróbica ideal para o Dido, aquele salto final de qualidade que me levará ao tão sonhado objetivo: chegar aos 40 anos com o SHAPE RASGADO.

Tem dois anos pra tentar.

Espero conseguir.

ex-pontâneo

Tinha uma época, um pouco antes e um pouco depois dos vinte, em que eu abria uma caixa em branco na tela do computador, saia metralhando os dedos no teclado e dentro de pouco tempo estava satisfeito o suficiente com o resultado para publicar. Quanto mais velho, menos espontâneo me parece que eu venho ficando – ou mais criterioso, talvez. Sentindo um pouco mais de vergonha de mim mesmo, de certo modo, das coisas que eu penso ou sinto. Não quero virar o tiozão literário pedante sentado em cima dum pedestal, mas também não me interessa ser o poeta caudaloso escalafobético conectado com as emoções do cosmos. Que boa essa sensação de não saber nada, nunca. Sempre ter algum pingo de dúvida, um terror, uma gana, alguma coisa dando esse nó na cuca do cara dez pras três da matina.

essas coisas acontecem

Começou a esfriar no fim do dia e eu abri a janela pra sentir uns arrepios. De repente, comecei a ouvir também os berros lamentosos de um adulto em meio a gritaria habitual das crianças voltando da escola. Daqui de dentro, parecia que os pequerruchos estavam fazendo mal a um doente mental ou craqueiro – que era a minha principal aposta, posto que sua presença aumentou vertiginosamente na minha região desde a operação totalmente sem sentido do nosso indigesto gestor.

Não era nada disso.

Na entrada da garagem do prédio em frente havia um homem de mochila, ajoelhado e com a cabeça no chão, gritando de forma dolorosa alguma coisa de cunho vagamente religioso (talvez por que, ó, pai? ou me ajuda meu pai). A trinta metros do chão é mais difícil de ouvir. Por alguns instantes, nada mais aconteceu. Quem passava perto, desviava do homem ou o ignorava. Alguém dum andar baixo do prédio saiu na sacada para ver o que acontecia. O cara seguia lá.

Não chegou nem a fechar um minuto e do outro lado da rua veio atravessando um cara jovem, negro, de camiseta, se ajoelhou ao lado do maluco, fez ele sentar e os dois começaram a conversar. Deu pra ver que ele tinha um monte de peças de tecido branco com ele, possivelmente panos de prato. Do salão de cabeleireiro ao lado, emergiram duas moças, uma delas trazendo um copo d’água. Em questão de segundos, oito ou de dez pessoas, a maioria mulheres, se aproximaram do cara, conversaram com ele, compraram panos de prato ou simplesmente lhe deram algum dinheiro. Aparentemente teve um zé ruela de terno preto que veio sei lá de onde e deu uma enchida de saco na rapaziada, mas pode até ser que não tenha sido isso.

A verdade é que daqui de longe não deu pra captar os pormenores do episódio, e muito menos pra julgar se era um golpe ou o mais puro desespero. De todo modo, fiquei bastante comovido em ver tanta gente partindo em socorro de um completo desconhecido às cinco e meia da tarde de uma terça-feira de maio de 2017 na cidade de São Paulo. Que bom quando essas coisas acontecem.

microreviewing #3

Nesta edição especial, Zerando a Fila do Netflix:

First Contact: Lost Tribe of the Amazon: Bastante impressionante esse curto documentário (49 min) mostrando os primeiros contatos de duas tribos que passaram milênios isoladas no meio da floresta amazônica na fronteira do Brasil com a Bolívia, mas que agora estão sendo obrigados a fazer a parceria com o homem branco. Duas coisas que me chocaram demais: como uma população humana que jamais teve contato com outra sorri para mostrar satisfação e abana com a mão para se despedir de alguém. Não fazia ideia de que eram gestos universalmente humanos. Classificação: LEVEMENTE ASSUSTADOR NÍVEL OLHAR PRA FOTO DO COSMOS.

Friday: Lembro de ter visto muito tempo atrás e gostado bastante, mas, ao rever vários anos depois, atesto que envelheceu mal. Em tese é um stoner movie situado em South Central L.A. em 94-95, mas só vale mesmo se o cara for (que nem eu) herbalista e muito fã de cultura negra americana, sobretudo a que se desenvolveu no universo dos anos 90 (hip hop golden era). Apesar do roteiro meio chutado, ainda vale pelas atuações de Chris Tucker e John Witherspoon (que todavia está melhor na continuação – o filme teve DUAS). Classificação: IF YOU CAN’T TAKE THE HEAT GET YOUR ASS OFF THE KITCHEN.

XOXO: De tempos em tempos creio ter me deparado com o pior filme de todos os tempos, e essa posição fica assegurada por um bom tempo – até que aparece um desafiante disposto a tomar o trono. Foi exatamente o que aconteceu aqui. Tem tanta coisa errada nesse filme que eu não sei nem por onde começar. O roteiro é inacreditavelmente ruim, os diálogos terríveis, personagens mequetrefes, e ainda por cima tudo acontece numa rave de EDM (em sua nova interpretação, sinônimo de música sem alma feita por e para millenials). Mas o pior de tudo é que não dá pra parar: tudo é tão absurdamente horroroso que o cara tem que ir até o fim ver onde aquilo vai dar. Classificação: MELHOR NEM COMEÇAR.

Why Sharks Attack: Por mais improvável que pareça, bom especial de TV sobre os motivos que estão levando tubarões a nadarem muito mais próximo da costa americana nos últimos anos – e também as diversas técnicas malucas que estão empregando para repeli-los, que incluem mecanismos sofisticados que emitem pulsos eletromagnéticos e cilindros cobertos com tecidos listrados, para imitar a venenosíssima serpente marinha da qual esses majestosos animais se cagam de medo. Classificação: BOM ENTRETENIMENTO DESCOMPROMISSADO.

The Hunt: Inaugura uma nova categoria de conteúdo televisivo, a “distração de fundo”. Como a série compila dezenas de imagens muito impressionantes de animais caçando e fugindo uns aos/dos outros na natureza em câmera lenta, é algo que pode apenas ficar passando na sala enquanto se pensa melhor no que assistir, ou se mexe no celular ou se come uma pizza, posto que não é necessário ficar o tempo todo concentrado no que está acontecendo. Quando rola um momento mais encarnado tu dá uma olhadinha, quando fica só aquelas imagem de gnu pastando e macaco caindo de árvore tu vai na geladeira e pega mais uma cerveja. Classificação: MAIOR QUE LAREIRA.

Easy: A grande surpresa do fim-de-semana. Que excelentes demais os 5 primeiros capítulos desta série de 8, produzida pelo Netflix. São histórias independentes, com personagens que às vezes se conectam a personagens de histórias anteriores (posto que todos moram em Chicago), às vezes não, todas tratando de dramas, questionamentos e problemas que atingem a faixa dos trinta e muitos. Falta de grana, escolhas erradas na vida profissional, dificuldades sexuais em relacionamentos longos, vegetarianismo, os limites da arte e da privacidade nos nossos tempos: tudo está lá, retratado quase sempre de maneira incômoda e muito eficiente. Classificação: VEJA FELIZ ATÉ O 5, OS TRÊS ÚLTIMOS SÃO UMA MERDA.

olá, forasteiro

Que curioso: quando acabei de digitar o último O no título desse post e ia começar a redigir este texto, uma pessoa me deu um OIE num popular aplicativo de bate-papo, fazendo meu celular zunir sobre a cama.

Enfim.

Buenas, olá.

Como são grandes as chances de essa ser a primeira vez que você vem por aqui, posto que essa é a primeira vez em que faço propaganda do meu blog desde comecei a escrever nele, em janeiro, fiz uma pequena seleta de textos que publiquei em silêncio nos últimos seis meses por aqui.

  1. Disclaimer
  2. Micro Reviewing #1
  3. Azar
  4. O caçador de estrelas
  5. Micro Reviewing #2
  6. Tirando o chapéu
  7. Só pra registrar
  8. Meu Crack

Mas sinta-se à vontade para ignorar completamente esses links e também todos os demais textos contidos nesta plataforma, como também para sair por aí explorando a graforreia do amigo em busca de distração, estalos mentais e irritação.

DIDS DIDS DIDS

resultados

Fiz ontem os exames de sangue e urina que fazem parte do check up anual que realizo desde 2009, ano em que Flavito teve seu ataque cardíaco e eu fiquei sabendo que sofro de hipercolesterolemia familiar – ou seja, meu corpo produz muito colesterol pra caralho, de modo que os meus níveis só baixam tomando remédio de forma permanente, caminho que não pretendo trilhar tão cedo. Sei que um dia não vai dar mais, mas por enquanto vou adiando o máximo que dá.

Na média, os resultados não mudam e são sempre positivos – exceto pelo colesterol. Não me assusto muito porque dos 5 motivos causadores de infartos e acidentes vasculares cerebrais (descontando-se a variável “idade” aí), este é o único requisito que preencho. De resto, não sou obeso, não sou sedentário, não tenho hipertensão e não sou tabagista. Nível de stress também entra na conta, mas como é um parâmetro subjetivo, de difícil mensuração, considero o meu “baixo” só a título de curiosidade mesmo (não tenho dívidas significativas nem grandes responsabilidades, possuo muitos amigos, durmo bem, trabalho por conta própria, consigo equilibrar descanso e atividade profissional de maneira saudável).

Outra coisa que me tranquiliza nesse contexto é um exame chamado eco doppler, que serve para analisar o funcionamento e a estrutura das artérias, apontando possíveis defeitos e entupimentos. Fiz três vezes esse exame, sendo uma delas nas carótidas e outras duas no tique-taque em pessoa: o coração do Dido. Todas trouxeram o mesmo resultado: funcionamento normal, espessura normal, fluxo normal. Não tem placa de gordura depositada nessas veias e nem no meu coração. Pelo menos não AINDA.

Peguei o resultado dos exames na internet essa manhã. Que maravilha é isso, né? Até uns 10 anos atrás, talvez menos, o cara ia lá, coletava o sangue, aí uma semana depois, num horário xis, o cara tinha que voltar lá no laboratório pra buscar os resultados, e ainda sempre com aquele leve temor de que, por algum motivo, eles não estivessem lá (às vezes acontecia). Hoje em dia tu tira o sangue ao meio-dia e às cinco da tarde o hemograma já está pronto. Estudo do colesterol e outras coisas demoram um pouco mais, todavia entrei às nove e meia da manhã do dia seguinte no site do Lavoisier e já tava o exame completinho lá. Que alegria.

Entre os resultados dignos de nota do check up 2017 está uma expressiva redução no meu colesterol total, de 358 para 314 (12%) – sendo que o não HDL despencou de 306 pra 262 (14%).O HDL, por sua vez, se mantém estável, na casa dos 52, e o VLDL (que eu não sei muito bem o que é) também anda na base dos 18. Discreto recuo dos triglicérides, de 95 pra 89 (6%).

Digo que estes resultados são “expressivos” por um motivo muito importante: não fiz nenhum esforço específico para chegar neles. Não fiz dieta, não aumentei minha carga de exercícios, não tomei remédios. Simplesmente segui comendo de forma equilibrada sem grandes exageros (salada na maior parte dos almoços, sanduíches na maior parte das jantas, uma pizza, um burger, uma batata frita eventual a cada semana ou duas, muita água, frutas), continuei me esticando e fortalecendo duas vezes por semana no pilates (três anos completos em abril) e permaneci existindo, de maneira geral.

Enfim, que sucesso saber que rolou este recuo.

Tem que manter isso, viu? (note que digo com ênfase no viu)

Em notas relacionadas, o xarope é que as panturrilhas seguem incomodando. Será que as longas horas de sentagem ao compiuter finalmente cobraram um preço na forma da maldição popular conhecida como VARIZES deste que vos fala? Veremos. Tomara que não. Pelo que eu li parece que meio que não tem conserto. A ver.

giftbox 15 anos growroom – 2/3

Chegou hoje a segunda parte do Giftbox comemorativo de 15 anos do Growroom e, ao contrário do primeiro, neste eu consegui ficar ainda mais decepcionado. Caidaço boy generalizado esse esquema. Bah. Que tristeza.

Dessa vez além da camiseta – que, justiça seja feita, é tão bonita, bem feita e, aparentemente, resistente quanto a primeira – vieram 3 adesivos da marca de seda A Leda, um pacotinho da Leda oficial do Marcelo D2 (branca, king size), um pacotinho de Leda original (transparente, também king size), um pacote de um bagulho chamado KING BLUNT de morango que, presumo, conterá uma ou mais (vi agora a embalagem, são cinco) folhas de tabaco artificialmente aromatizadas e um potinho de silicone pra guardar haxixe e resina da Squadafum.

Bem fuén. Estava esperando uns brindes muito melhores (latinhas, esmurrugadores) ou pelo menos em maior quantidade (me manda 5 pacotinho de seda, não manda um só que é muito chinelo). Enfim. Que pena. Pelo menos as camisetas são legais e as entregas não estão sendo demoradas, mas pô: se era pra mandar esses brindes furadaços (esqueci que veio também um vale compras dando 10% de desconto na loja Vapor Kings), melhor ter mandado só as camisetas.

UPDATE: dando o braço a torcer (de leve). A leda do Marcelo D2 tem um troço massa: menos papel que o padrão, de modo que, na prática, o vivente consome menos papel ao fumar. Nice touch.

boletim/diário

Tinnitus deu uma boa recolhida faz uns dois ou três dias, sem explicações muito claras. Incômodo, peso, espasmos e dores na panturrilha seguem perceptíveis, de forma intermitente. Possíveis consertos: para o tinnitus, sono mais regulado, após duas semanas dormindo às quatro e acordando às sete; para as panturrilhas: atividade física mais constante, períodos mais curtos sentado ininterruptamente.

Essa semana devo fazer exames de sangue e urina como parte integrante do meu check-up de 38 anos, que completo no próximo sábado. Infelizmente ainda estou pior que Zé Roberto aos seus 38 anos, mas ainda tenho dois para chegar ao meu objetivo real, posto que o Projeto Zé Roberto está mirado nos meus quarentinhas. Mesmo assim, ECG não indicou anomalias, meu IMC está abaixo de 22, minha pressão permanece em 12/8 desde que me conheço por gente, e uma eco-doppler do coração revelou que as principais veias de acesso ao órgão estão limpinhas (o que sempre é uma vitória levando em conta minha hipercolesterolemia familiar).

Prossigamos.

discografia afetiva I

Disclaimer aqui.

Caetano Veloso – Caetano Veloso (1971). Achei curioso não ter tantos discos do começo da carreira da Caê na discoteca de Flavito, o que, pensando bem, até que faz sentido, posto que só fui ouvir Transa, por exemplo, na altura dos vinte e vários anos (e só bateu mesmo depois dos trinta). O polaco gostava mesmo era da fase Circuladô e Velô e coisa e tal. Esse é um dos raros exemplos: o disco que o Caetano compôs no exílio na Inglaterra nos anos 70. Fortemente melancólico, levemente chatuba, não me comoveu. Não lembro também do Flavito ter ouvido muitas vezes, exceto por London, London. Essa rolava lá na baia. Eu lembro até de ter decorado o refrão, uma das primeiras frases que aprendi em inglês. Talvez ele só tivesse comprado o disco por London, London, talvez só tocasse essa música. Por que não? Isso nunca tinha me ocorrido, mas agora ocorreu. Talvez. Não lembro mesmo de nenhuma das outras músicas, da tristeza extrema contida neste álbum (um mérito), da música meio monótona (demérito), da pronúncia macarrônica (traço quirk que pode pender pra qualquer um dos lados, dependendo dos seus gostos).

Realce – Gilberto Gil (1979). Que discaço. Flavito ouviu demais esse álbum, a ponto de ter um arranhão que mais parece um talho de faca no lado B (que, todavia, não fez o disco pular, apenas acrescentou estalos quase imperceptíveis a uma ou duas faixas). Muita música linda – a faixa-título Realce, Sarará Miolo, Superhomem, a canção e Marina entre as minhas preferidas -, uma crowdrocker com rising action invejável (Toda menina baiana) e o sensacional cover de Bob Marley, Não chores mais. Não lembrava que essa música estava nesse disco, mas ouvi-la me fez lembrar que Flavito achava um toque absolutamente genial de Gil a parte da letra que diz “ob-observando”. De repente me dei conta que talvez ele tenha morrido sem saber que o toque de genialidade era, na verdade, de Bob, que já tinha cunhado “ob-observing” na sua original.

A Arte de Chico Buarque – Chico Buarque (1976). Embora não seja grande fã de Chico Buarque e, até algumas horas atrás, possuir grande birra para com sua obra (sobretudo por conta de sua voz), trouxe 3 discos dele (Meus Caros Amigos, o álbum de capa vermelha de 1984 e a coletânea A Arte de Chico Buarque) para o deleite de Petite, que admira o bardo. Este álbum duplo traz os principais sucessos do amigão até 1976 – que já era coisa pra caralho. Fui obrigado a remover meu chapéu. Que bonitas as melodias do Chico. E tudo casa bem com a voz dele, pelo menos até essa época. A audição de Joana Francesa me transportou de volta às tardes de domingo de inverno quando, após o almoço, Flavito sentava em silêncio numa poltrona e ouvia discos fumando, de olhos fechados, eventualmente cantarolando algum pedaço.

Mahavishnu – Maha Vishnu Orchestra (1984). Esse eu olhava a letra branca fininha na capa preta, lia o nome e já pensava numas cítaras arregaçando, posto que confundia com Ravi Shankar – que Flavito também admirava e possuía. Não sabia nada sobre essa banda e não lembro de Flavito ter ouvido sequer uma vez na minha presença, mas é aquele jazz fusion dos anos 80 que ele, por algum motivo, curtia demais: também tem altos Jean Michael Jarre, Stanley Jordan e Fausto Papetti na discoteca dele, mas estes não trouxe (embora tenha vindo um Amandla, do Miles Davis, que surfa delícia nessa onda).

Gala 79 apresenta o melhor de Isaac Hayes – Isaac Hayes (1979*). Não sei absolutamente nada sobre Gala 79 e a internet não colaborou muito em prover resposta, apenas sugerindo tratar-se de selo responsável pelo lançamento de coletâneas diversas de música setentista, incluindo Secos & Molhados, Creedence Clearwater Revival e Chico Anysio, além de seletas de sambas e de trilhas sonoras de novelas. Independentemente de qualquer coisa, lembro demais do Flavito ouvindo esta pepita e PELA MÃE DO GUARDA, que negócio espetacular. Botar esse disco pra ouvir o tema de Shaft e Walk On By explicou muita coisa sobre o clique inicial dos meus gostos musicais mais persistentes. Que sonzeira demolidora. Onde quer que esteja, Flavito (nem que apenas em minhas lembranças): thank you for that, my soulman. Cafe to Regio’s. Agora eu lembro. Agora eu sei. Que coisa.