hipocondria rise

Que eu me lembre, nunca fui hipocondríaco até os meus 25 anos de idade, época em que encasquetei que uma inesperada sensação de plenitude na barriga era sinal de algum tipo de câncer gástrico. Após anos de exames inconclusivos e tentativas semi-fracassadas de tratar Síndrome do Intestino Irritável, uma endoscopia um pouco antes de eu completar 30 me revelou que o meu problema era, na verdade, uma miserável duma Hérnia de Hiato, que criava o ambiente propício para o surgimento de repetidas esofagites causadas por refluxo – quadro que explicava tudo que eu sentia.

Antes disso lembro de ter sofrido de caganeira crônica (uns dez anos), um mamilo inchado (cerca de um ano), coqueluche (alguns meses), acne pesada (uns cinco anos), excesso de ácido úrico (semanas) e até mesmo um episódio bizarro de cegueira temporária de um dos olhos (que se resolveu depois que adormeci na sala de aula) de forma intermitente durante duas décadas sem jamais me ocorrer que eu corria qualquer risco de vida.

Talvez por conta da ausência da fonte de pesquisa destrambelhada que pode ser a internet, eu associava menos qualquer um desses sintomas – ou vários deles – a algum quadro grave, mesmo quando era justamente esse o caso. Hoje em dia vivo num mundo diametralmente oposto: qualquer dorzinha na garganta = seis dias lendo todos os links em português e inglês que contemplem a descrição do sintoma. Como em 100% dessas pesquisas aparecem os termos “câncer” e “AIDS”, já meio que me convenci que não estou com câncer nem com AIDS – todavia isso abre espaço para estimar condições potencialmente piores, como a esclerose lateral amiotrófica, a fibromialgia, o Mal de Parkinson e outros tipos de disfunções cerebrais. Ao longo da última década já pensei sofrer dos mais variados tipos de carcinomas e demências. Sempre fiz exames pra caralho, nunca era nada.

No fundo, no fundo, estou plenamente ciente de que 85 a 90% dos meus sintomas são de fundo psicológico, e que as suas manifestações físicas são o que chamamos de efeitos psicossomáticos. Tem gente que diz que ter a consciência disso ajuda. Não sei se concordo. Na minha loucurinha particular, o melhor antídoto costuma ser o laudo da ressonância, da ecografia, do raio-x ou do hemograma salpicado da palavra “normal”. Normalmente meus sintomas, por mais severos que sejam, desaparecem por completo em até 24 horas após um médico encaixar em alguma parte de alguma sentença um “não tem nada.”

Até hoje a única exceção honrosa foi essa Hérnia de Hiato.

Isso e essa porra do tinnitus.

Que, por sinal, anda apitando mais alto que o normal já faz um tempinho.

Tomara que em algum momento diminua.