Uma coisa muito difícil de admitir, e pra si mesmo mais que para os outros, é o seguinte: não fomos 100% bons ao longo de nossas vidas. Não sei na cuca de vocês, mas na minha tem uma voz de fundo que parece ficar me dizendo o tempo todo que eu sou um cara bom, que eu só faço coisa legal, que estou do lado do que é justo e do que é certo o tempo todo. Só que isso não é verdade. Pra absolutamente ninguém.
A primeira vez que me dei conta disso foi quando, ao reencontrar uma antiga paixão numa tarde em que conversamos muito embalados por uma garrafa de vodca, ela me disse que me perdoava por algo que eu havia feito no passado. E o que eu havia feito: combinado de sair com ela e nunca ter aparecido. Parece algo muito trivial, mas, sendo oito anos mais jovem e, fervendo a febre da primeira paixão, ela realmente esperou por mim aquela noite. E de uma maneira que talvez nenhuma outra mulher esperou ou vá esperar por mim. Mobilizou a mãe e as irmãs, que ficaram exultantes com a notícia, escolheu roupa, tomou banho, botou perfume e ficou me esperando. Eu não apareci.
Não lembro porque fiz isso. Não vem ao caso. Fiquei sabendo por uma de suas irmãs, pouco tempo depois, da minha mancada. A partir daí passei anos com vergonha, querendo me redimir de qualquer forma, buscando seu perdão de todas as maneiras. E quando ela finalmente me deu eu pensei: pra quê? Eu não sou perfeito. Ninguém é. Ninguém é uma coisa só, também. Em outras palavras, é totalmente normal ser mau, aqui e ali, para uma pessoa essencialmente boa – tendo ou não consciência disso. Do mesmo modo, para uma pessoa essencialmente má é absolutamente aceitável que pratique um ou outro ato de bondade eventual ao longo da vida. É da natureza humana.
Digo isso porque na tarde de hoje, conversando com amigos de infância, lembrei de uma eleição para o Grêmio Estudantil do Colégio Nossa Senhora da Glória, um pequeno estabelecimento de ensino localizado num bairro de classe média-baixa de Porto Alegre, no qual estudei todos os anos da minha vida. Já não lembro mais quanto dessa estratégia foi elaborada por mim, quanto foi criação coletiva, mas fato é que usamos táticas altamente controversas para vencer essa eleição no final de 1995, e seguimos operando uma série de desmandos enquanto estivemos no poder, em 1996.
Pra começar, ao montar a chapa, convidamos pessoas de todas as séries e turnos possíveis, na tentativa de angariar a empatia do maior número possível de votantes. Na hora de fazer a campanha corpo a corpo, nas turmas de magistério, frequentadas apenas por mulheres, mandávamos apenas os caras mais populares, os bonitões da época, com os quais todas queriam ficar. Nas turmas em que a predominância era masculina, quem passava eram as gatinhas da equipe. Nas turmas da tarde, alunos da tarde. Nas da manhã, alunos da manhã. Para neutralizar uma animosidade do terceiro ano para com o meu núcleo de amigos, chamamos o camarada mais popular do colégio, que era amigo de absolutamente todo mundo. Nas séries mais elementares (digamos, da terceira à quinta), prometemos absurdos como distribuição livre de picolés, balas e pirulitos para quem votasse em nós (promessa que, naturalmente, jamais foi cumprida).
Além disso fizemos algo um pouco menos reprovável, que também pode ser creditado pelo nosso resultado positivo: propaganda política. Distribuímos adesivos com o logotipo da Chapa Dois e vendemos camisetas estampando o mesmo logotipo no peito, e um desenho do Scooby Doo vestindo a mesma camiseta nas costas – tudo ilustrado por mim. Ainda tenho algumas dessas camisetas, e ainda servem. Os anos me foram bem generosos. Ou melhor: eu fui generoso comigo mesmo.
A jogada das camisetas foi um sucesso estrondoso: vendemos mais de uma centena sem maiores esforços. Todo mundo queria desfilar com uma pelo colégio. E ainda tinha um detalhe genial, que ainda não tenho certeza se já entendi a essa altura da vida, 22 anos depois, mas era o seguinte: havia duas cores de camiseta. As cinza eram restritas aos integrantes da chapa; as brancas, aos apoiadores. Muita gente queria fazer parte da chapa só pra ter uma camiseta cinza, mas ninguém podia. The next best thing era a branca. Esgotaram em dois ou três dias. Que coisa poderosa é o marketing bem feito.
Tivemos votação acachapante e, no ano seguinte, assumimos o GEG. Lá, fizemos algumas coisas excelentes, como adquirir um computador para a sala do grêmio – dinheiro levantado vendendo rifas para o sorteio de bicicletas, mochilas e outros badulaques que conseguimos de forma mais ou menos Doriática (cof), na iniciativa privada, na base do gogó, sem contrapartida. Também criamos uma carteirinha do grêmio que, agora, não lembro mais para quê servia, mas, se não me engano dava descontos na hora de solicitar a confecção da carteirinha de passagem escolar e na inscrição de eventos organizados pelo grêmio – campeonatos de futebol, basquete e vôlei, coisas do tipo. Mesmo assim, fizemos algumas coisas bastante horrendas, como desviar parte do caixa para a compra de salgadinhos e refrigerantes dos membros que passavam a tarde totalmente de bobeira naquela salinha. Não foram grandes importâncias, lógico, mas aqui não interessa o tamanho do crime, mas pura e simplesmente o ato em si.
Nada se compara, todavia, a algo em que eu não pensava há anos, talvez uns vinte, mas hoje voltou à tona e me fez corar por alguns instantes. Eu e um amigo (que também integrava a chapa) ficamos responsáveis pelas camisetas. Fizemos tudo sozinhos, contando com a confiança plena de todos os demais: eu ilustrei, ele orçou as malharias, juntos escolhemos uma gráfica e fomos encomendar o serviço. Nesse processo, em algum momento, alguém percebeu uma oportunidade de fraude. Acho até que não foi nenhum de nós, e sim o cara da gráfica ou da malharia, que ofereceu fornecer uma nota com valor alterado para que pudéssemos embolsar parte da grana. Que eu me lembre, vendemos as camisetas por um valor levemente mais alto do que pagamos por elas – já que a ideia era não ter lucro, apenas empatar custos. Eu e este amigo embolsamos algo como 300 reais cada, o que em 1995 era uma grana violentíssima (o dólar oscilava entre 80 e 95 centavos na época, de modo que seriam algo como MIL REAIS na cotação de hoje). Com esse dinheiro, paguei minha inscrição no vestibular da PUC (que fiz apenas para ver como era pois ainda tinha um ano do segundo grau pela frente – todavia passei, e com nota máxima em redação, feito que não repeti no ano em que fiz o vestibular pra valer, embora também tenha passado na segunda vez), comprei um óculos do surf, uma camiseta do surf e uma bermuda do surf – coisas que vários dos meus colegas tinham e eu sempre quis ter, mas meus pais nunca tinham dinheiro pra me comprar.
Olhando em retrospecto, parte de mim fica triste, parte fica feliz por tudo isso. Queimar-se, machucar-se, estragar-se: tudo é parte da vida também. Por algum motivo que não consigo elaborar muito bem usando a linguagem, é bom saber que não sou puro. Que não sou perfeito. Que há uma gota de maldade encerrada em mim, e que talvez esteja apenas esperando a oportunidade certa para se manifestar novamente. Quem é que sabe? Nem eu sei. Só sei que pensar em todas essas coisas, reconhecê-las e admitir as culpas e remorsos sem medo não pareceu suficiente pra mim. Eu tive que vir aqui e contar tudo pra você (que eu nem sei quem é, mas que me lê agora).