guia czarnobrothers para uma eurotrip (2017)

Não cresci com a perspectiva de viajar para o exterior. Simplesmente não estava no meu radar de possibilidades.

Na minha família, viajar era de carro. Flavito dirigindo, Sandrinha no carona, Nes e eu no banco de trás. E basicamente só pra Serra Gaúcha (fim de semana nos chalés dos funcionários da Caixa em São Francisco de Paula, um almoço de domingo em Nova Petrópolis, um passeio em Canela ou Gramado) ou pra Santa Catarina (veraneios irregulares em Itapema). Teve um ano que a gente foi muito aventureiro, subiu até Curitiba e andou na litorina de Paranaguá. Mas, de forma geral, meu alcance era meio limitado.

A primeira vez que viajei de avião foi pra Belo Horizonte, em 1990. Eu tinha 11 anos de idade. Voei nuns aviõezinhos espremidos sentado só com o Flavito (e o Nes com a Sandrinha) e também com toda a crew no together numa fileira de quatro assentos no meio dum Jumbo, ainda com cinzeiro funcional, talher de metal e jantar quente servido no trecho noturno. Foi muito afudê.

Depois disso só fui voar de novo por volta dos vinte e poucos, já na era de ouro da aviação brasileira, naquela primeira onda de passagens baratas da Gol, quando os Organizers tocavam drum’n’bass no Rio de Janeiro. No ano anterior lembro que eu e o Nes ainda tínhamos ido de BUS pra lá, levando um tupperware contendo 28 pastéis e  quatro sanduíches de presunto e queijo no pão de forma a título de lanchinho (afinal de contas seriam 30 horas de estrada). Lembro também que a gente entrou numa pilha de fumar um por estado visitado (acho que fizemos isso), e lembro que um dos pastéis passou batido na viagem, morou uma semana inteira no Rio de Janeiro e voltou incólume com a gente pra Porto Alegre.

Mas depois ninguém comeu.

(…)

Graças à popularização dos preços de passagens aéreas a partir dos anos 2000, voei bastante entre os 25 e os 35 anos de idade – especialmente por dentro do Brasil. A certa altura eu vinha tanto para São Paulo que a cidade começou a ocupar no meu mapa mental de territórios uma posição equivalente a um bairro afastado de Porto Alegre. Surfando bons momentos econômicos do Dido (trabalho forte, remuneração caprichada, poupança seríssima), do país (real forte) e do mundo (dólar e euro fracos), consegui acumular o capital necessário para viajar algumas vezes para o exterior nesse mesmo período.

Nunca escrevi nada a respeito.

Dessa vez deu vontade.

A primeira vez fui pra Paris, em 2008. Entrei por Amsterdam, tomei umas cevas, fumei uns bagulhos, comi uns queijos, peguei um trem. Primeira vez é aquela estranheza, tudo é novo, rola o choque. É muito diferente. Na segunda já não é mais tanto. Na terceira tu já meio que te acostumou, na quarta a maciez está quase concluída, e na quinta a coisa periga normalizar (embora ainda não banalize totalmente, graças ao bom Jah).

A quinta foi essa, agora, menos de um mês atrás.

Eu e Nes fomos levar a Sandrinha pra conhecer umas coisas que ela queria conhecer. Lugares que veria pela primeira vez aos 67 anos de idade. Dois deles a gente mesmo não conhecia: Lisboa e Roma. Dois deles sim: Paris e Amsterdam.

Foi uma jornada muito doida, 27 dias que tenciono condensar numa série de relatos picoteados que devo publicar ao longo dos próximos dias ou semanas ou meses (só pra deixar uma data aberta e, portanto, não jogar pressão nem regar com o adubinho do fracasso) neste nobre espaço.

Stay tuned.