eu também fui pau no cu

Uma coisa muito difícil de admitir, e pra si mesmo mais que para os outros, é o seguinte: não fomos 100% bons ao longo de nossas vidas. Não sei na cuca de vocês, mas na minha tem uma voz de fundo que parece ficar me dizendo o tempo todo que eu sou um cara bom, que eu só faço coisa legal, que estou do lado do que é justo e do que é certo o tempo todo. Só que isso não é verdade. Pra absolutamente ninguém.

A primeira vez que me dei conta disso foi quando, ao reencontrar uma antiga paixão numa tarde em que conversamos muito embalados por uma garrafa de vodca, ela me disse que me perdoava por algo que eu havia feito no passado. E o que eu havia feito: combinado de sair com ela e nunca ter aparecido. Parece algo muito trivial, mas, sendo oito anos mais jovem e, fervendo a febre da primeira paixão, ela realmente esperou por mim aquela noite. E de uma maneira que talvez nenhuma outra mulher esperou ou vá esperar por mim. Mobilizou a mãe e as irmãs, que ficaram exultantes com a notícia, escolheu roupa, tomou banho, botou perfume e ficou me esperando. Eu não apareci.

Não lembro porque fiz isso. Não vem ao caso. Fiquei sabendo por uma de suas irmãs, pouco tempo depois, da minha mancada. A partir daí passei anos com vergonha, querendo me redimir de qualquer forma, buscando seu perdão de todas as maneiras. E quando ela finalmente me deu eu pensei: pra quê? Eu não sou perfeito. Ninguém é. Ninguém é uma coisa só, também. Em outras palavras, é totalmente normal ser mau, aqui e ali, para uma pessoa essencialmente boa – tendo ou não consciência disso. Do mesmo modo, para uma pessoa essencialmente má é absolutamente aceitável que pratique um ou outro ato de bondade eventual ao longo da vida. É da natureza humana.

Digo isso porque na tarde de hoje, conversando com amigos de infância, lembrei de uma eleição para o Grêmio Estudantil do Colégio Nossa Senhora da Glória, um pequeno estabelecimento de ensino localizado num bairro de classe média-baixa de Porto Alegre, no qual estudei todos os anos da minha vida. Já não lembro mais quanto dessa estratégia foi elaborada por mim, quanto foi criação coletiva, mas fato é que usamos táticas altamente controversas para vencer essa eleição no final de 1995, e seguimos operando uma série de desmandos enquanto estivemos no poder, em 1996.

Pra começar, ao montar a chapa, convidamos pessoas de todas as séries e turnos possíveis, na tentativa de angariar a empatia do maior número possível de votantes. Na hora de fazer a campanha corpo a corpo, nas turmas de magistério, frequentadas apenas por mulheres, mandávamos apenas os caras mais populares, os bonitões da época, com os quais todas queriam ficar. Nas turmas em que a predominância era masculina, quem passava eram as gatinhas da equipe. Nas turmas da tarde, alunos da tarde. Nas da manhã, alunos da manhã. Para neutralizar uma animosidade do terceiro ano para com o meu núcleo de amigos, chamamos o camarada mais popular do colégio, que era amigo de absolutamente todo mundo. Nas séries mais elementares (digamos, da terceira à quinta), prometemos absurdos como distribuição livre de picolés, balas e pirulitos para quem votasse em nós (promessa que, naturalmente, jamais foi cumprida).

Além disso fizemos algo um pouco menos reprovável, que também pode ser creditado pelo nosso resultado positivo: propaganda política. Distribuímos adesivos com o logotipo da Chapa Dois e vendemos camisetas estampando o mesmo logotipo no peito, e um desenho do Scooby Doo vestindo a mesma camiseta nas costas – tudo ilustrado por mim. Ainda tenho algumas dessas camisetas, e ainda servem. Os anos me foram bem generosos. Ou melhor: eu fui generoso comigo mesmo.

A jogada das camisetas foi um sucesso estrondoso: vendemos mais de uma centena sem maiores esforços. Todo mundo queria desfilar com uma pelo colégio. E ainda tinha um detalhe genial, que ainda não tenho certeza se já entendi a essa altura da vida, 22 anos depois, mas era o seguinte: havia duas cores de camiseta. As cinza eram restritas aos integrantes da chapa; as brancas, aos apoiadores. Muita gente queria fazer parte da chapa só pra ter uma camiseta cinza, mas ninguém podia. The next best thing era a branca. Esgotaram em dois ou três dias. Que coisa poderosa é o marketing bem feito.

Tivemos votação acachapante e, no ano seguinte, assumimos o GEG. Lá, fizemos algumas coisas excelentes, como adquirir um computador para a sala do grêmio – dinheiro levantado vendendo rifas para o sorteio de bicicletas, mochilas e outros badulaques que conseguimos de forma mais ou menos Doriática (cof), na iniciativa privada, na base do gogó, sem contrapartida. Também criamos uma carteirinha do grêmio que, agora, não lembro mais para quê servia, mas, se não me engano dava descontos na hora de solicitar a confecção da carteirinha de passagem escolar e na inscrição de eventos organizados pelo grêmio – campeonatos de futebol, basquete e vôlei, coisas do tipo. Mesmo assim, fizemos algumas coisas bastante horrendas, como desviar parte do caixa para a compra de salgadinhos e refrigerantes dos membros que passavam a tarde totalmente de bobeira naquela salinha. Não foram grandes importâncias, lógico, mas aqui não interessa o tamanho do crime, mas pura e simplesmente o ato em si.

Nada se compara, todavia, a algo em que eu não pensava há anos, talvez uns vinte, mas hoje voltou à tona e me fez corar por alguns instantes. Eu e um amigo (que também integrava a chapa) ficamos responsáveis pelas camisetas. Fizemos tudo sozinhos, contando com a confiança plena de todos os demais: eu ilustrei, ele orçou as malharias, juntos escolhemos uma gráfica e fomos encomendar o serviço. Nesse processo, em algum momento, alguém percebeu uma oportunidade de fraude. Acho até que não foi nenhum de nós, e sim o cara da gráfica ou da malharia, que ofereceu fornecer uma nota com valor alterado para que pudéssemos embolsar parte da grana. Que eu me lembre, vendemos as camisetas por um valor levemente mais alto do que pagamos por elas – já que a ideia era não ter lucro, apenas empatar custos. Eu e este amigo embolsamos algo como 300 reais cada, o que em 1995 era uma grana violentíssima (o dólar oscilava entre 80 e 95 centavos na época, de modo que seriam algo como MIL REAIS na cotação de hoje). Com esse dinheiro, paguei minha inscrição no vestibular da PUC (que fiz apenas para ver como era pois ainda tinha um ano do segundo grau pela frente – todavia passei, e com nota máxima em redação, feito que não repeti no ano em que fiz o vestibular pra valer, embora também tenha passado na segunda vez), comprei um óculos do surf, uma camiseta do surf e uma bermuda do surf – coisas que vários dos meus colegas tinham e eu sempre quis ter, mas meus pais nunca tinham dinheiro pra me comprar.

Olhando em retrospecto, parte de mim fica triste, parte fica feliz por tudo isso. Queimar-se, machucar-se, estragar-se: tudo é parte da vida também. Por algum motivo que não consigo elaborar muito bem usando a linguagem, é bom saber que não sou puro. Que não sou perfeito. Que há uma gota de maldade encerrada em mim, e que talvez esteja apenas esperando a oportunidade certa para se manifestar novamente. Quem é que sabe? Nem eu sei. Só sei que pensar em todas essas coisas, reconhecê-las e admitir as culpas e remorsos sem medo não pareceu suficiente pra mim. Eu tive que vir aqui e contar tudo pra você (que eu nem sei quem é, mas que me lê agora).

incômodos

Sempre gostei muito de tudo relacionado à cultura negra, desde as suas manifestações artísticas (principalmente a música) até elementos mais sutis, como a linguagem (verbal e não-verbal). Recentemente alguma chave virou na minha cabeça e começou a me incomodar muito, às vezes beirando o insuportável, o simples ato de estar em algum lugar – um restaurante, uma loja, um bar -, olhar em volta e não ver nenhum negro. Em notas profundamente relacionadas a essa percepção, hoje notei uma coisa bastante curiosa (e ainda mais incômoda): todas as vezes que postei uma foto com amigos negros no Instagram nos últimos meses, recebi um número muito (mas muito) menor de likes do que quando aparece um branco ao meu lado. Na casa de 10-15%. É uma paulada pensar nisso. Espero que eu não seja o único a fazê-lo.

hipocondria rise

Que eu me lembre, nunca fui hipocondríaco até os meus 25 anos de idade, época em que encasquetei que uma inesperada sensação de plenitude na barriga era sinal de algum tipo de câncer gástrico. Após anos de exames inconclusivos e tentativas semi-fracassadas de tratar Síndrome do Intestino Irritável, uma endoscopia um pouco antes de eu completar 30 me revelou que o meu problema era, na verdade, uma miserável duma Hérnia de Hiato, que criava o ambiente propício para o surgimento de repetidas esofagites causadas por refluxo – quadro que explicava tudo que eu sentia.

Antes disso lembro de ter sofrido de caganeira crônica (uns dez anos), um mamilo inchado (cerca de um ano), coqueluche (alguns meses), acne pesada (uns cinco anos), excesso de ácido úrico (semanas) e até mesmo um episódio bizarro de cegueira temporária de um dos olhos (que se resolveu depois que adormeci na sala de aula) de forma intermitente durante duas décadas sem jamais me ocorrer que eu corria qualquer risco de vida.

Talvez por conta da ausência da fonte de pesquisa destrambelhada que pode ser a internet, eu associava menos qualquer um desses sintomas – ou vários deles – a algum quadro grave, mesmo quando era justamente esse o caso. Hoje em dia vivo num mundo diametralmente oposto: qualquer dorzinha na garganta = seis dias lendo todos os links em português e inglês que contemplem a descrição do sintoma. Como em 100% dessas pesquisas aparecem os termos “câncer” e “AIDS”, já meio que me convenci que não estou com câncer nem com AIDS – todavia isso abre espaço para estimar condições potencialmente piores, como a esclerose lateral amiotrófica, a fibromialgia, o Mal de Parkinson e outros tipos de disfunções cerebrais. Ao longo da última década já pensei sofrer dos mais variados tipos de carcinomas e demências. Sempre fiz exames pra caralho, nunca era nada.

No fundo, no fundo, estou plenamente ciente de que 85 a 90% dos meus sintomas são de fundo psicológico, e que as suas manifestações físicas são o que chamamos de efeitos psicossomáticos. Tem gente que diz que ter a consciência disso ajuda. Não sei se concordo. Na minha loucurinha particular, o melhor antídoto costuma ser o laudo da ressonância, da ecografia, do raio-x ou do hemograma salpicado da palavra “normal”. Normalmente meus sintomas, por mais severos que sejam, desaparecem por completo em até 24 horas após um médico encaixar em alguma parte de alguma sentença um “não tem nada.”

Até hoje a única exceção honrosa foi essa Hérnia de Hiato.

Isso e essa porra do tinnitus.

Que, por sinal, anda apitando mais alto que o normal já faz um tempinho.

Tomara que em algum momento diminua.

a discoteca do flavito

Sem querer soar o hipster retrôzão da vinilzeira, mas meio que já soando: nessa última passagem por Porto Alegre resolvi dar uma garimpada boa nos discos do meu pai. Tinha um bom gosto fudido aquele polaco. Eu sempre soube disso, mas fuçando no acervo dele tive essa certeza renovada. Trouxe pra São Paulo uns 30, sendo que uns 7 ou 8 eram meus e do meu irmão: Faith No More, Michael Jackson, Guns’n’Roses e Legião Urbana. Entre os dele busquei Vincent Bell, Maha Vishnu, Isaac Hayes, Sarah Vaughn, Duke Ellington, Miles Davis, Gil, Caetano, Chico, Tim Maia, Marisa Monte, Djavan, Beatles, Burt Bacharach, Herb Alpert and the Tijuana Brass. E não veio nem 10% – Flavito tinha coisa pra caralho.

Nas próximas semanas, a ideia é sentar no chão, acender ou bebericar uns troço e ir ouvindo esses discos, pensando em escrever alguma coisa sobre o que acontece.  Certamente suscitarão memórias profundas de criança. Só de olhar as capas de alguns deles já me vieram cheiros de chuleta de porco com abacaxi e cereja, o sol do inverno aquecendo um tapete branco e felpudo, a voz bonita, gentil e grave do Flavito explicando alguma coisa e fumando um crivo, o olhar vidrado, totalmente tomado pela música.

Os discos dele foram escolhidos com base em dois critérios: a) qualidade musical extrema; b) memória afetiva de infância. Durante os anos 80 e grande parte dos 90, Flavito ouvia MUITO esses discos, de modo que fazem parte, também, da MINHA trilha sonora. Grande parte dessa trilha está adormecida há anos. Não lembro qual foi a última vez que sentei pra ouvir um disco de vinil com meu pai.

Buenas, mas era isso.

Se nada der errado, começo a audição destes álbuns neste sábado – vulgo amanhã.

Veremos o que se apresenta.

sintominhas do mês

Os espasminhos da panturrilha praticamente desapareceram, mas tenho sentido elas meio estranhas, às vezes, meio pesadas, as veias salientes. Um pouco de dor no alto da coxa, perto do quadril. Diarreia explosiva por seis dias seguidos sem um motivo claro. Volume do tinnitus aumentado. Não tudo ao mesmo tempo, nem por muito tempo.

Aposto largamente em ansiedade generalizada (e/ou alguma manifestação psicológica meio semelhante), mas, pelo sim, pelo não, melhor sempre se preocupar um pouquinho.

giftbox 15 anos growroom – 1/3

Pra dar uma força à causa, no começo do ano resolvi adquirir o Gift Box comemorativo de 15 anos de Growroom, o lendário fórum de ativismo pró-cultivo caseiro de canábis no Brasil. São três pacotes enviados mensalmente, de abril a junho, contendo uma camiseta alusiva ao Growroom e uma série de brindes surpresa de diversos parceiros (incluindo headshops e marcas de seda). No primeiro kit, que chegou no finalzito de abril em meu lar, havia:

a) uma camiseta estampada;

b) uma seda mini e uma king size da marca Papelito, do DF;

c) uma piteira de vidro;

d) adesivos do headshop PoPipe.

Levando em conta que o combo custou R$ 250 e, esta parcela, portanto, saiu por mais de 80 conto, tomara que as próximas duas remessas contenham uns brindes melhores. Quer dizer, nada contra esses aí, na real. Aliás, algumas coisas contra alguns, sim. Outras a favor de outras. A camiseta, por exemplo: é muito afudê, malha boa, estampa excelente. A piteira é sensacional. Demorei um tempo pra entender como funcionava, pensei que era tipo uma MARICA, mas na real tu enrola junto com o beck, como se fosse um filtrinho. Achei que fica muito bom, tanto em termos de sabor quanto efeito. Aprovado demais. Todavia é um troço que custa 10 cru-cru.

Já o Papelito decepcionou por aqui. Eu cresci nos anos 90 no eixo Glória-Medianeira-Teresópolis, de modo que não sou nenhum frescão da seda. Fumei muito em Colomy, Xiru, palha de milho, página de Bíblia e guardanapo – e fumaria de novo se preciso. Todavia a vida vai melhorando, ou o cara vai ficando mais velho, e aí que nos últimos 15 anos, mais ou menos, venho fumando só na Smoking Preta mesmo. Em algum momento acho que foi de arroz, agora parece que não é mais. Sei que é um papel extrafino, de combustão lenta e, embora claramente deixe um sabor residual no fumo, é bastante discreto.

Aí que o Papelito me deixou um gostão fudido de papel queimado na boca. Meio que foi só nos primeiros pegas, beleza, depois quando eu acendi a ponta já não estranhei mais tanto, mas uma coisa é certa: o branquinho convencional é mais pegado que a Smoking preta. Ainda veio uma outra seda marrom king size pra testar e, de repente, reverter a má impressão, mas como eu quase nunca fumo de bombão vai ser difícil fazer esse teste anytime soon. Como é unbleached tende a ser melhor, todavia: a ver.

UPDATE: 18h após publicar este post, resolvi dar uma chance ao Papelito brown king size e – BEM BÃO. Nada de espetacular, embora seja muito superior à sua versão convencional branca. Já melhorou a imagem da marca perante o Didão.

Quanto aos adesivos: massa. Já meti uma latinha da PoPipe no meu notibúrcio e outra na latinha da chavidez. Só que adesivo nem devia entrar nessa conta aí, né? É oitenta pila uma camiseta, uma piteira e duas sedinha, mais despesas de correio. Pensando bem, até que não é tão mau negócio assim. A vida tá cara. Let’s help the brothers out. Tão aí há quinze anos militando pelo direito ao cultivo de maconha para uso pessoal no país. Não custa dar um salvezito, ainda que minguado.

DIDS DIDS DIDS

o faraco no linkedin

Não quero explicar porquê, mas é fato absoluto que nutro grande carinho pela rede social LinkedIn. Não entro quase nunca, não leio quase nada. Não serve pra muita coisa. Devo estar lá há quase uma década e nunca ninguém me chamou pra coisa alguma. Digo, nunca um cabra ofereceu-me um emprego. Nem sequer um trabalho. Algumas pessoas chegaram até a me pedir. Outras, tipo uns protéticos do interior do Paraná, uns vendedores de loja de shopping de celular em Sorocaba e uns assistentes de raio-X de Maceió eu nunca entendi porque me quiseram em sua rede de contatos pra começo de conversa.

Até que o LinkedIn teve um agito uns 5 anos atrás quando meio que jogavam na tua cara sempre que tu entrava no site uns quizzes que tu lá pelas tantas enchia o saco e meio que respondia, que basicamente consistiam em perguntas de resposta rápida (sim ou não) sobre as habilidades específicas de um dos teus companheiros. Tá, beleza, o cara manda bem no marketing digital. É, é, a mina se garante de social media. Arrã, arrã, teu pai capricha no charmoso “blogging”. Vai fundo, é isso aí. Daí como esse massacre era pra todo mundo, quando o cara entrava lá sempre tinha pelo menos umas 20 mensagens (“essa catrefa toda aí disse que tu é o cara do branded”), aí rolava aquele afaguito no ego, tu todo se animava, beleza, e coisa e tal, mas, lá pelas tantas, a mania passou. Daí os cara até mudaram a interface do site, ficou toda mais neutrona e cinzenta, e aí ele voltou a existir de forma muito mais morta no meu horizonte pessoal.

Só que hoje rolou o seguinte: o Faraco me adicionou.

Vi que o Faraco é professor universitário. Achei massa, registrei o aceite e lembrei do seguinte: no dia em que eu o conheci, no hotel Arvoredo Residence, ele tocava um baixo de forma levemente blasé, usando uma blusa de gola rulê, todo meio lânguido, de bigode, enquanto eu entrevistava o Júpiter Maçã no andar de cima (tratava-se de apartamento “duplex”) para um documentário que realizei com uma crew sobre o mítico auditório Araújo Viana.

Em algum momento tomamos um café.

Depois dessa, encontrei pouquíssimas vezes o Faraco ao vivo, mas guardo essa lembrança pitoresca como cartão de visitas mental suficiente para considerá-lo excelente. Tomara que não seja um bandido! Se for vou me arrepender? Só Jah sabe. A ver.

nem tudo está perdido

Estou em Porto Alegre há algumas horas. O céu está muito azul, o vento está muito frio e a cidade parece essencialmente a mesma, exceto por um pequeno detalhe estranho que me chamou a atenção.

Ontem ouvi uma história curiosa da minha mãe.

Falávamos sobre a forte presença de imigrantes africanos na cidade, coisa que até uns 5 anos atrás era algo incomum, e ela então lembrou de um dia em que estava numa agência da Caixa no centro da cidade e avistou uma viatura da Brigada Militar se deslocando lentamente, com três policiais pendurados pro lado de fora da janela, brandindo fuzis e carabinas. Sentado na calçada à frente da agência havia um negro de pele muito escura, com algumas frutas estendidas sobre um pano, uma visão cada vez mais recorrente na região. Ao avistar esse homem, a viatura parou e um dos policiais apontou a arma em sua direção. O africano congelou. Minha mãe também, com receio de que o policial fizesse alguma coisa.

Mas não deu tempo nem de tentar.

Em questão de segundos a viatura estava cercada de populares, que batiam contra a lataria do carro e bradavam xingamentos diversos, além de repetir diversas vezes para que eles se preocupassem em ir atrás de ladrão, não de gente honesta que estava lutando pra sobreviver trabalhando. Assoberbados pelo levante, os policiais foram embora e o africano pôde voltar a vender suas frutas.

Achei a história particularmente tocante por ter acontecido em Porto Alegre, onde o preconceito racial é um pouco menos velado do que no resto do país. Segundo o depoimento da minha mãe, não foram pessoas jovens que partiram em defesa do homem, mas muita gente de idade, tanto comerciantes das redondezas quanto transeuntes, o que aumenta o espanto. Uma mulher bem velha, com dificuldades de caminhar, teria golpeado o capô do carro com os punhos fechados várias vezes.

Curioso como nesses casos quem toma a frente quase sempre é uma mulher. Pra mim faz sentido: um homem leva um tiro muito mais fácil se tentar bater de frente com a polícia. Aconteceu não faz nem um mês, no interior de Pernambuco, durante um protesto pedindo PAZ: havia dezenas de pessoas discutindo com a polícia, um dos que aparentemente estava no comando escolheu um rapaz, chamou um soldado e mandou atirar nele. O rapaz recebeu um tiro na perna e veio a falecer alguns dias depois no hospital. Tudo isso aconteceu na frente das câmeras. O vídeo pode ser encontrado facilmente em diversos sites de notícia. Imagina só quando não tem ninguém vendo.

Paradoxalmente, não sou contra a polícia. Estou plenamente ciente de que o que faz de São Paulo uma cidade mais habitável que Porto Alegre atualmente é a presença do efetivo policial nas ruas. Sempre que venho pra cá faço o mesmo desafio: conto quantos dias preciso andar pela cidade até encontrar a primeira viatura ou brigadiano. Na média são precisos pelo menos 3 dias para que isso aconteça. Certa feita, num dezembro triste, passei inacreditáveis 11 dias andando pra cima e pra baixo, da zona sul à zona norte, da leste à oeste, a pé, de carro e ônibus até ver a primeira viatura verde musgo.

Em São Paulo, a contagem nunca supera os 5 minutos.

Dessa vez, todavia, fui recebido em minha terra com uma forte surpresa: menos de 2 minutos após deixar o Aeroporto Salgado Filho avistei a primeira viatura. Depois disso ainda vi duplas de policiais patrulhando a Farrapos e a Goethe, viaturas (agora mais discretas, em branco) rondando diversos bairros e – como óbvia consequência – um número muito, mas MUITO menor de indivíduos altamente suspeitos pelas ruas. Tudo numa corrida de menos de quarenta minutos entre o aeroporto e a Medianeira.

Uma vez ouvi um argumento muito interessante acerca do papel da polícia: é terrível que a população tenha se desacostumado a vê-los ao seu lado. Grande parte dessa distorção entra na conta da criminalização do uso de drogas, já que em pleno 2017 já ficou mais que evidente que os viciados não são um grupo etéreo hipotético, mas sim algo extremamente homogêneo, que inclui nossos filhos e pais, amores e amigos. Outra parcela (bem menor) desse distanciamento decai sobre incompetência, preguiça, preconceito, despreparo e ignorância.

Em suma: claramente a polícia que temos não é a ideal, todavia sua extinção tampouco é a solução. Um sonho dourado seria que as futuras gerações de policiais viessem cada vez mais despidas de preconceitos, fossem melhor treinadas e voltassem a se preocupar com o que os filmes e os livros me ensinaram que deveria ser o seu lema: proteger e servir. Não sei se levo fé nisso. Não sei se levo fé.

Todavia: quero muito acreditar.

meu crack

Como é do conhecimento de quem me conhece há um certo tempo, sou dependente químico profundo de FIFA SOCCER.

Tive uma breve fase Winning Eleven/Pro Evolution Soccer nos anos 2000 (especialmente por conta da jogabilidade mais solta, da customização extrema e porque os FIFA pra PSone e PS2 eram uma bosta), mas, na média joguei muito mais FIFA ao longo dos meus mais de 30 anos de videogame. Só em 2011, por exemplo, foram mais de MIL HORAS, o que seria o mesmo que passar aproximadamente UM MÊS E MEIO do ano jogando ininterruptamente.

Enfim.

Recentemente concluí as 15 temporadas do career mode (única modalidade que eu jogo) do FIFA 12 pro PS3 e avancei para a versão de 2014. É a segunda vez que executo a proeza. No FIFA 11 peguei o SIENA, um time italiano da segunda divisão, e o levei até os píncaros da glória. No 12, o eleito foi o alemão DUISBURG, igualmente segundino, escolhido simplesmente porque o seu símbolo era uma zebra. Neste FIFA 14 vi que era possível fazer algo muito mais extremo: partir da QUARTA DIVISÃO inglesa rumo ao topo. Pareceu excelente. Todavia, como nessa versão, pela primeira vez, existe a possibilidade de disputar a Libertadores da América, resolvi brincar um pouco com o meu bom e velho Grêmio – o que está sendo bastante divertido.

Embora agora seja preciso optar entre desenvolver um jogador ou um técnico no career mode (ou seja, não existe mais a modalidade Player Manager, que reunia as duas coisas), ambos caminhos ganharam uma profundidade tremenda, coalhados de pequenos detalhes imersivos que vão consumir meses da minha vida na frente da telinha. Tanto o técnico quanto o jogador podem ser convocados para a seleção do seu país, por exemplo, o que abre uma nova série de possibilidades que até então inexistiam no jogo.

O mercado de transferências é quase um jogo à parte, extremamente complexo, envolvendo a leitura de um grande volume de e-mails, a coordenação de uma rede de olheiros espalhados pelo mundo e rodadas de negociações muito mais detalhistas e um tanto confusas – apesar de muito satisfatórias também.

Quanto ao futebol em si, sempre é maravilhoso perceber o quanto um jogo que é, essencialmente, O MESMO há pelo menos 15 anos, consegue se reinventar a cada nova versão. Quando o cara troca de FIFA sempre rola aquele período de adaptação nas primeiras semanas. Muda o tempo de bola, muda a física dos jogadores, a rigorosidade do juiz, a facilidade de driblar, passar ou chutar no gol. Na comparação com o FIFA 12, este 14 parece mais orgânico. A movimentação dos jogadores é mais fluida, a animação mais bonita. Tudo é mais realista. Há uma grande variação de possibilidades quando um jogador vai chutar uma bola, por exemplo, o que já deixa a experiência muito mais hipnótica. E, embora ainda esteja meio difícil de jogar, já deu pra perceber que dá pra fazer gols e jogadas muito mais bonitos nessa versão. Certamente gostarei.

Entre os destaques negativos, o principal é o menu. Podia ser muito mais simples. Tanta animaçãozinha e balaca deixou o jogo pesado, a ponto do cara experimentar o loading em praticamente todas as telas – pelo menos não são muito extensos. O menu balaqueiro deixou também tudo mais confuso: é muita opção pra clicar, muita coisa pra escolher. Demora uns dias pra entender. Mas depois que entende, também: vai que é um Dodge.

Fora isso, o som. Agora tem narração em português. E quem narra é o Tiago Leifert. Até aí tudo bem: dá uma animada no cara ouvir o nome dos jogadores e as descrições das jogadas em determinados momentos. Além disso, embora o considere meio bunda, não desgosto inteiramente de Tiagueira. Foda mesmo é o arrombado do Caio comentando. Esse é pra matar. Primeiro que é só corneta e depressão. Tu faz um golaço, ele vai lá e fala que foi falha do goleiro. Tu sofre uma falta, ele vai lá e fala que não foi. Um jogador teu acertou 24 de 25 passes, mas justamente nesse que ele erra vem o Caio e diz que o cara simplesmente não entrou no jogo. Chega a ser hilário, se o cara tá ganhando. Se o cara tá perdendo, todavia: dá uma raiva.

Por outro lado, rolou uma mudança no som que deu um up no game do Dido. Explico: uns 3 ou 4 anos atrás, de saco muito cheio de ficar ouvindo sempre as mesmas músicas indie cu murcho nos menus do jogo, fui pesquisar nos fóruns se tinha algum jeito de mudar isso. Tinha: era só passar alguns mp3 para o HD do PS3, criar uma playlist e depois associar essa playlist a eventos específicos do jogo. Isso já melhorava MUITO a coisa. Mas aí descobri algo ainda mais brutal: era possível fazer algo similar com os cânticos das torcidas.

Num primeiro momento, baixei diversos mp3 de gritos de torcida do Grêmio e associei ao meu Duisburg, mas logo isso se mostrou meio xaropão e estranho – basicamente porque eram gravações de qualidade irregular; algumas muito altas, algumas muito baixas, a maioria mal captada e mal cortada. Então me ocorreu o seguinte: e se eu trocasse todos os gritos de torcida pela minha playlist de músicas? Foi aí que a coisa se transformou pra mim.

A partir dessa descoberta, sempre que eu jogava meu FIFA, o fazia com trilha sonora muito maluca no estádio: drum’n’bass, jungle, rap, UKG, reggae, dancehall, funk e rare groove. Era demais. O problema é que sempre que saía um gol ou eu precisava pausar o jogo, a música parava e desaparecia – o que gerava comportamentos bizarros, do tipo: se tava tocando Protect ya neck, do Wu Tang, ou Unknown 003-A, do DJ Zinc, e eu estivesse precisando fazer uma substituição ou prestes a marcar um gol, minha tendência era ficar só no passe lateral, gastando a bola, pra poder ouvir a faixa inteira. Claro que isso convertia muitos empates e vitórias em derrotas, provocando uma raiva paralela e totalmente desnecessária no amigo.

Nessa nova versão consertaram isso: agora a música não desaparece mais quando sai um gol ou se pausa o jogo. Além disso a torcida adversária grita de volta, faz batuque na charanga e entoa cânticos enquanto a minha solta uns Mobb Deep, uns Cutty Ranks, umas Minnie Ripperton de volta pra animar a crew. Quanta vitória.

Não avancei muito no jogo ainda (fui desclassificado na Copa do Brasil pelo Goiás já de cara e estou em 13º no Brasileirão com 7 ou 8 partidas disputadas), mas estou torcendo para que agora os jogadores europeus não respondam com “essa liga não é prestigiosa o suficiente” quando um time brasileiro tenta comprá-los. Tem um comentário que o arrombado do Caio faz com frequência que indica o contrário, algo como “agora que os times brasileiros se reforçaram, eles conseguem segurar seus craques por muito mais tempo, e até mesmo repatriar alguns jogadores do exterior.” A ver. Quero sair arrebentando muito nos campeonatos e botar Neymar, Suarez e Messi no lugar de Vargas, Barcos e Kléber (que, justiça seja feita, estão segurando a barra direitinho por enquanto). Vamos ver se dá.