Para inaugurar a seção “rango”, eis uma resenha que fiz para meus amigos e familiares do caríssimo (todavia ao mesmo tempo justíssimo) D.O.M., em abril de 2013:
Acabo de chegar em casa após jantar de TRÊS HORAS no D.O.M.
Resumindo muito: merece mesmo ser um dos melhores restaurantes do mundo, não sei exatamente em que posição. Acho que seria exagero colocá-lo em primeiro, muito embora as especulações sejam essas. A nova lista sai agora dia 30, e o NOMA certamente perderá o primeiro lugar depois do episódio de intoxicação alimentar envolvendo centenas de clientes. Atala foi eleito uma das 100 personalidades mais influentes do planeta pela revista Time, de modo que está muito bem cotado para ocupar o trono. Não conheço os demais e seria burrice e demagogia falar qualquer coisa a esse respeito, mesmo sendo Dids, de modo que me calarei a este respeito e me limitarei a falar brevemente sobre minha experiência pessoal sobre o lugar.
Achei o ambiente ok, mas não gostei do fato das mesas para duas pessoas serem todas extremamente próximas umas das outras, de modo que é possível ouvir claramente toda a conversa dos coxinhas que sentam ao lado. Também é lugar muito escuro, com ar condicionado MUITO frio e que toca Adriana Calcanhoto, o que são deméritos. O atendimento é afetado sem ser verme, e a clientela em geral é extremamente jeca, o que me deixou bastante surpreso.
Quanto aos alimentos em si:
O couvert é uma fraude. R$ 38 para comer pão italiano (ótimo, todavia, R$ 38), pães de queijo e manteiga aviação + coalhada fresca + pasta de alho e batata maravilhosa e extrema. Só pedi porque imaginei que talvez pudesse ter algo diferente ou surpreendente (até tinha a pasta de alho, mas meio demais cobrar R$ 38 por pessoa por isso). Pelo menos tinha reposição infinita, coisa que um amigo chamado Hermano aprovaria. Aliás, o mais maravilhoso da noite foi ficar imaginando a reação de duas pessoas aos pratos e quantidades do DOM: Hermano e Flavito.
Pedimos o menu com 8 pratos. Havia menu children de 4 pratos por algo como 350 reais e menu de 8 pratos por algo como 490 reais, mas imaginei que como dificilmente voltaria lá, o melhor seria viver a experiência completa. Petite QUASE pediu o de 4 pratos alegando estar sem fome, mas acabou convencida rapidamente quando o casal na mesa ao lado recebeu o primeiro prato.
Antes dos pratos chegarem, recebemos um mil folhas de mandioca com creme de catupiri e redução de vinho do porto com um coquetel de licor de jabuticaba e espumante para harmonizar. Estava fantástico.
O primeiro prato do menu eram dois camarões grandes servidos com carpaccio de chuchu e tamarindo em cima de um molhinho chamado cajuína (quem já foi a Fortaleza sabe o que é: uma espécie de néctar de caju). Bem bom, mas nada espetacular. Todavia, bom começo, sobretudo por conta do COENTRO fresco e maravilhoso que explodia ligeiramente na boca dando aquela sensação de HMMMM QUE GOSTOSO.
Em seguida, carpaccio de palmito pupunha com vieiras cruas, molho de coral e azeite negro. Isso era EXTREMO. Tudo era muito maravilhoso demais, esse tal molho de coral quase me fez LAMBER o prato (que não era um prato, era uma LASCA DE PEDRA).
Depois, ostras empanas com farinha de mandioca com ovas de salmão e sagu de tapioca. Pra mim, o ponto alto da noite. Eu poderia comer uns 10 desses troços e não enjoaria. Tudo era bom demais – e ainda tinham uma pimenta maravilhosa temperando tudo que explodia na boca mas sumia rapidamente, não arruinando o sabor de nada.
Depois: arroz negro levemente tostado com legumes verdes e leite de castanha do Pará. Entre os legumes havia o aspargo, o brócolis, o pimentão, o aipo, o alho poró e um troço meio mágico, que não identificamos, mas era branco translúcido e havia sido dolorosamente cortado de modo a parecer uma espinha de peixe. Tinha gosto meio de hortelã meio de maça, refrescante e picante e difícil de identificar. Até aqui, só sucessos.
Pintou então um peixe chamado cavalinha servido com sautée de palmito pupunha e cogumelos frescos, com molho de limão e mel de abelha. Era de chorar.
Daí meio que rolou um STILL, com prato de bacalhau confitado e maionese de leite, acompanhado de cebola em conserva e a pele do próprio peixe tostadinha que era OK. Duas ou três semanas comi bacalhau confitado muito superior no Bravin.
Então veio algo surpreendente: um fettuccine feito de palmito pupunha à carbonara. O carbonara em si era apenas muito bom, mas o fettuccine feito de palmito era de outro mundo (e parece ter dado um trabalho fudido).
Pra finalizar, stinco de cordeiro, um corte bem popular aqui em São Paulo, que é a batata da perna do bicho (que praticamente se esfolheava ao toque do garfo) com purê de cará, um molho doce de algo que não consegui identificar e castanha do pará ralada por cima. MUITO fatal.
Daí veio a grande decepção da noite, o aligot. Um amigo havia recomendado o alimento com furor, e na mesa ao lado vimos quando o garçom serviu, usando duas colheres, de forma quase acrobática, o purê de batata com queijo minas frescal e gruyère. Quando chegou a nossa vez achamos sem gosto de nada e pesadão. Fez as vezes de “prato de queijo” num menu francês tradicional, mas na opinião de Um Dids e Uma Petite, fez muito feio. Se tivessem servido só uma fatia de queijo minas e outra de gruyère teria sido melhor.
Então vieram as DUAS sobremesas para redimir tudo:
Primeiro, cubos de abóbora levemente grelhados com sorvete de tapioca, espuma de sei lá o que molinha e deliciosa, um cristal de açúcar levemente explosivo e uma trilha de ervas carbonizadas que, a princípio, só de olhar, pareciam alto migué, mas na boca, meu amigo, que coisa mais fantástica.
Pra fechar com chave de ouro: bolo de castanha do Pará (apenas ok) coberto com sorvete extraordinário de Jack Daniels, calda de chocolate amargo manchando o prato, folhas de rúcula selvagem, sal, curry e pimenta. Esse foi pra matar o Dids.
Acompanhando tudo isso, pedimos um espumante que conhecemos e gostamos, o 130, da Casa Valduga. Custou R$ 200, o que é extremamente honesto, levando-se em conta que comprado na própria vinícola saía por R$ 80 em 2009 e era comum achar por preços entre R$ 120 e R$ 150 no comércio local em Porto Alegre.
Tomamos, também, três garrafas de água São Pellegrino (ou foi o que nos cobraram), sendo que cada uma por R$ 15.
Total da conta (morte total e irrestrita): R$ 1436 e uns quebrados.
Ótima refeição e valeu cada centavo.
Levando-se em conta que comemorávamos seis anos de namoro, achei que foi até barato.