O mais curioso e estranho nesse caso é que esse é o terceiro sonho que relato, e o segundo que tem como protagonista a mesma menina, que eu jamais vi ao vivo, com quem eu nunca conversei e com quem todas as interações (extremamente breves e pontuais) que tive até hoje se deram por meio das redes sociais.
No episódio de hoje, eu despertava e percebia que ela estava ao meu lado na cama. Ela não estava deitada junto comigo, mas sim sentada sobre as cobertas fazendo alguma coisa que não lembro bem (talvez estivesse pintando as unhas, talvez lendo um livro, talvez estivesse apenas me observando). Fato é que, assim como no sonho anterior, assim que acordei e a avistei ali, não estranhei a sua presença, mesmo levando em consideração o fato de que eu possuo uma namorada – que era algo que eu também sabia quando acordei debaixo das cobertas dentro deste sonho.
Trocamos algumas palavras, uma conversa curta e neutra, e eu virei para o outro lado e fechei os olhos. Nisso, algo inesperado aconteceu. Ela deitou ao meu lado e me abraçou por trás. Lembro da sensação gostosa de sofrer mochila sensual de gata. Como é bom. Fiz a garganta zunir de lábios fechados para demonstrar satisfação e prazer (o popular ‘hmm’) e falei algo como “Se eu fosse inventar uma mochila seria exatamente assim”, e ela encaixou melhor o abraço e encostou o nariz no meu pescoço. Senti a respiração quente e percebi quando as maçãs do rosto se incharam, indicando que ela estava sorrindo. Após alguns segundos de deleite comecei a raciocinar melhor e finalmente passei a estranhar aquilo tudo. Quer dizer, porque ela estava deitada na minha cama, me abraçando de forma íntima, se não era minha namorada e nem sequer havíamos feito amor?
Nesse instante notei que estava nu, e senti uma vigorosa ereção brotar. Ela falou algo na linha do “não seja por isso” e eu fiquei contemplando minhas opções. A linha que meu pensamento adotou foi a seguinte: a vida é curta, o tempo passa rápido, vinte anos atrás eu estava aprendendo a dirigir e usar o pênis e vinte anos para frente estarei à beira dos sessenta. Talvez a coisa mais sensata a se fazer seja efetivamente “viver um pouco”, “correr uns riscos”, “aceitar o que a vida me traz de bandeja”.
Enquanto isso ela já tinha tirado a blusa, deixando os mamilos rosados de fora, e trabalhava na remoção da calcinha. Em instantes estava debaixo das cobertas, esfregando seu corpo no meu corpo. O sexo foi meio estranho. Lembro de ver no rosto dela que alguma coisa não estava fruindo muito bem enquanto a penetrava. Os beijos, todavia, eram bons, e o toque em sua pele, lisa e quente, também era muito agradável. Mas alguma coisa ali não estava encaixando. Não era nenhum tipo de culpa cristã se manifestando, disso tenho certeza. Era uma coisa muito mais simples, mais física. Basicamente, eu não estava sentindo nada, prazer nenhum. Eu via meu pau entrando e saindo dela, mas não era bom.
Resolvi desistir. Ela me perguntou por quê? e vi a decepção e a tristeza em seu rosto, o que me deixou ainda mais atônito, posto que a mensagem que essa expressão passava era a de que ela sim estava aproveitando muito aquela transa. Fui até a porta do quarto, abri e espiei levemente. Não vi absolutamente nada. Mesmo assim, retornei à cama esbaforido e disse a ela “Minha namorada está vindo aí”. Ela arregalou os olhos “mentira” e ambos começamos a revirar os lençóis atrás das nossas peças de roupa de forma frenética, quando ouvimos a porta ranger e pessoas começaram a entrar por ela.
Nenhuma delas era minha namorada. Em vez disso, amigos da faculdade e do colégio, suas mulheres, seus filhos. Nesse instante notei que meu quarto não era o meu quarto. Mais parecia uma garagem, um galpão com o piso frio de lajota, gigante, escuro e impessoal. Meus amigos ignoraram totalmente a minha presença e da minha amiga virtual. Ela, por sinal, desapareceu neste ponto do sonho e nunca mais foi vista. Não pensei mais nela também.
Após me vestir, comecei a explorar a casa e percebi tratar-se de uma enorme mansão. Não havia nada de suntuoso nos aposentos, móveis ou objetos de decoração, entretanto. Era uma casa de praia padrão, com muito tijolo, penumbra e ventilador de teto. Estava abarrotada de pessoas, e se estendia de forma grotesca até se transformar numa espécie de condomínio infinito, com milhares de pessoas praticando o churrasco com pagode nas áreas externas. Ninguém parecia me ver, ninguém falava comigo. Reconheci, além de vários amigos de várias fases da vida, algumas celebridades improváveis, como o sambista Arlindo Cruz. Todos me ignoravam solenemente.
Segui andando e quando vi estava em algo muito maior, similar a uma feira de tecnologia, cheia de estandes e pessoas demonstrando produtos. Percebi que tinha me afastado demais da minha casa e tive vontade de retornar. Nesse ponto entrou em cena uma característica pouco comentada dos sonhos, que eu mesmo só descobri recentemente. É impossível, num sonho, retornar para o mesmo lugar de onde você partiu. Se você abrir uma porta e passar por ela, quando você virar as costas e voltar pela mesma porta, estará em um lugar diferente de onde você saiu. Se possível, faça o teste. Aprendi isso na época em que explorava os sonhos lúcidos e, inclusive, era uma das maneiras de testar a realidade – junto com olhar duas vezes para um relógio (eles nunca marcam o mesmo horário num sonho) ou tentar acender ou apagar a luz (não dá pra mudar a iluminação de um ambiente num sonho).
Todavia, àquela altura eu não sabia que estava sonhando, então me aproximei de um maluco que tinha um crachá pendurado no peito e segurava os braços para trás e perguntei pra ele como eu voltava para a “área das casas”. Ele me disse “Só pegar esse elevador aqui.” Olhei para o espaço vazio para onde ele apontou, mas não havia nada. Fui até a borda e vi um trilho de trem. Me desequilibrei e caí nos trilhos. Um trem vinha à toda velocidade em minha direção, mas eu consegui subir de volta antes dele me atingir – e o próprio trem caiu numa vala segundos antes de me alcançar. Então o maluco se aproximou para me explicar melhor. Eu deveria pisar num quadrado de grama bem na borda do vão que não estava ali quando despenquei nos trilhos. Ao pisar nesse troço, o quadrado se iluminou a apareceu na minha frente um objeto ovalado, negro, meio parecido com um disco voador. Ele ficou flutuando sobre o vão e se abriu, como uma concha, revelando um interior similar ao cockpit de uma nave, com controles e luzinhas.
“Como é que eu vou entrar aí?” eu perguntei, posto que o “elevador” não estava muito próximo da beirada, e quando olhei pra baixo só enxerguei escuridão e vazio. O maluco disse “ele vem mais perto”, e o elevador se aproximou para que eu entrasse. Subir nele foi parecido com subir num colchão de ar dentro de uma piscina: difícil. O troço não ficava estável, e inclinava perigosamente quando eu tentava jogar o peso do corpo em cima de uma das pernas. Quando finalmente consegui embarcar, percebi que estava sentado sobre o próprio painel de controle – não havia um assento. Comecei a mexer nos controles e rapidamente consegui manobrar o bólido, de modo que não ouvi as explicações que o amigão estava tentando me dar, fechei a concha e sai a milhão pelos corredores, que não tinham a menor semelhança com nada por onde eu tivesse passado até então.
Após alguns segundos de grande estranhamento por não ter a menor ideia de onde eu estava ou o que estava fazendo – e ainda por cima todo encurvado dentro de uma saboneteira tecnológica voando a centenas de quilômetros por hora por dentro de cozinhas, banheiros e corredores de hotéis, algo que lembrava muito, agora percebo, a sequência de abertura de “Corra que a polícia vem aí” – me veio o estalo: “Puta merda, estou sonhando.”
Então puf: acordei.