Moro num bairro bom de São Paulo, o que significa muita segurança, tranquilidade, limpeza e várias opções de lazer, embora, infelizmente, também venha acompanhado de uma dose generosa da mais pura verminose. Há um grande número de ricos nas cercanias, e isso faz com que seja possível observar todo tipo de cena triste, como garçom sendo mal tratado, aquela porra daquela caminhonete da Porsche desrespeitando sinal de trânsito e ainda se achando no direito e, principalmente, pessoas constrangedoramente vestidas com suéter com as mangas amarradas no peito, camisa polo bordada e mocassim sem meia.
Hoje, todavia, aconteceu um troço tão massa que fiquei até meio mexido, achando que, numa dessas, quem sabe, o ser humano ainda tem jeito.
Pois bem.
Almoço quase todo dia num lugar que convencionei chamar de GAUCHÃO. É o quilo mais barato do bairro (o que não chega a ser grande vantagem, já que todos os quilos num raio de até 1km do nosso lar aqui servem comida fresca, de muito boa qualidade, e esse é no máximo uns 3 reais mais barato que a média, por exemplo). Elegi este local não só pelo preço, mas, principalmente, pelo maravilhoso combo diferencial: a) os donos são gaúchos; b) eles possuem churrasqueira; c) eles sabem comprar e assar a carne.
Assim como eu, o ex-jogador William, com passagens pelo meu Grêmio querido e o Corinthians de vários amigos, costuma almoçar lá com muita regularidade. Um dos donos me disse certa feita que se trata de pessoa muito simples, acessível e de bom coração – o que já se pode verificar só pelo fato do cara almoçar quase todo dia num restaurante de comida a quilo de chinelo e bermuda.
Lá estava eu quase encerrando meu prato composto por farta salada (alface americana, rúcula, cebola, tomate, cenoura e pepino), um pedaço de peito de frango, um de linguiça apimentada (feitos na brasa) e um naco generoso de linguado à milanesa (R$ 16) quando avisto, no reflexo da porta de vidro – posto que estava sentado na área externa, de costas para a rua – William chegando, acompanhado de uma mulher.
Literalmente segundos após a entrada do ex-jogador, um morador de rua de legging roxa, moletom preto de capuz, um cabelo impossível de descrever com as palavras que possuímos e voz, trejeitos e aura de travesti, postou-se ao lado da porta na tentativa de mendigar um almoço de alguma alma caridosa.
A primeira pessoa que passou por ele era um cara de coque masculino e barba que, num primeiro momento, parecia ter dado aquela desculpa clássica do “não tenho nada” ao amendigado cidadão, que seguiu parado na entrada. Outras duas ou três pessoas que passaram por ele nem sequer registraram sua presença, ignoraram seus apelos e seguiram caminhando pelo pátio em direção ao buffet.
Nisso, a mulher que estava junto com o William sentou-se numa mesa às minhas costas. Notei, ainda pelo reflexo, que o morador de rua, motivado ou por fome extrema ou por falta de vergonha, aventurou-se pelo pátio e foi até ela, pronunciar a seguinte frase:
“Não sei nem como é que eu vou fazer pra te pedir o que eu queria te pedir.”
Ela nem deixou ele terminar, pediu para que ele a esperasse, interrompeu o almoço (talvez tenha dado tempo de dar uma garfada, não vi), pegou um dos potes de isopor que o pessoal usa para fazer suas quentinhas e começou a enchê-lo de comida.
Instantes depois, reparei, ainda no reflexo, que o morador de rua foi se afastando até sumir do campo de visão, talvez não acreditando que a mulher fosse mesmo lhe trazer comida, ou pior: supondo que ela reclamaria da sua presença para os donos do restaurante (que é algo que certamente acontece bastante por estes lados). Enquanto isso, o rapaz de coque masculino saía do restaurante. A princípio achei que ele tinha examinado as opções do buffet e desistido de comer ali, dada a velocidade com que entrou e saiu do Gauchão.
Paguei a minha conta enquanto a mulher pesava o pote de isopor e anotava o valor na sua comanda. Quando finalmente cheguei na porta, ela estava parada, olhando em volta, com o pote na mão, procurando pelo mendigo. Aquele gesto já tinha dado um bom upinha no dia do Dido, mas o que aconteceu logo em seguida me deixaria ainda mais impressionado. Não tinha me afastado nem dez metros do restaurante quando avisto o rapaz de coque masculino vindo ao meu encontro, descendo a rua em direção ao restaurante. Ao seu lado: o mendigo traveco do crack.
Neste momento vale lembrar que a mulher que acompanhava o jogador William e este rapaz de coque masculino não se conheciam e nem haviam combinado coisa alguma. Ou seja, basicamente o que aconteceu foi que: não uma como DUAS pessoas que habitam este bom bairro (porém meio verme) de São Paulo resolveram mudar o curso dos seus dias para ajudar uma pessoa que, via de regra, costuma ser ignorada, destratada ou expulsa o mais rápido possível dali. Cara, o maluco do coque chegou a SAIR do restaurante e IR ATRÁS DO MALUCO até encontrá-lo, só pra levar ele de volta pra comer.
Foi talvez a coisa mais bonita que vi a semana toda, talvez esse mês – talvez até mesmo esse ano.
Ao chegar em casa, abri meu armário, peguei um chapéu, coloquei na cabeça e depois tirei, em homenagem a esses dois heróis anônimos do Higienópolis.
(Nota: embora eu gravite bastante por Higienópolis e more a cerca de 50m da linha divisória do bairro, tecnicamente aqui é Vila Buarque ou Santa Cecília – embora as imobiliárias chamem de “Baixo Higienópolis” ou até mesmo de Higienópolis, pra ganhar uns cobres no aluguel)