a dream #4

Provavelmente empolgado com o excelente momento do Grêmio, que dura muito mais tempo do que estou acostumado, essa noite tive um sonho levemente temático, que começava num bar, durante um jogo do tricolor da Azenha. Por algum motivo, o Renato Portaluppi de agora estava em campo, fardado, pronto para bater uma falta. Ele a cobrou com perfeição, desviando da barreira e enganando o goleiro, mas a bola explodiu no travessão e se perdeu pela linha de fundo. Alguns instantes depois, num desses saltos de tempo milagrosos que são próprios do reino onírico, lá foi novamente Renateiras com seu topete grisalho cobrar nova falta. Dessa vez a cobrança não foi tão perfeita, a bola se enroscou na barreira e acabou sobrando na área. Tinha muita gente lá, dos dois times (não faço ideia de quem eram nossos adversários), e foi aquele tradicional salameio: chute na canela, jogador caindo pedindo pênalti e falta de ataque, um monte de gente errando em bola, até que o próprio Renato conseguiu arrematar para o gol.

(…)

Não deu tempo de comemorar. Quando vi já estava na sala da casa do mítico Eduardo Bueno, o Peninha, conversando com sua filha enquanto ele gravava alguma coisa para a TV a poucos metros de distância. Não conheço a Lízia pessoalmente. Fiquei sabendo que ela existia alguns anos atrás, quando apareceu num daqueles programas que o Peninha fazia no SporTV durante a Copa. Achei gatinha, escrevi alguma coisa no Twitter pedindo que ela aparecesse mais em tom de semi troça, em algum momento nos adicionamos mutuamente. Trocamos meia dúzia de palavras pelas redes ao longo desses anos, mas nunca nos vimos. Neste sonho, conversávamos sobre uma revista que ela folheava, mas não lembro o tema. Lembro de termos aproximado demais as cabeças um do outro duas ou três vezes e, ao constatar a intimidade desproporcional, imediatamente nos afastarmos. Todavia em algum momento paramos de estranhar a proximidade e, quando eu vi, estávamos lendo a revista com os rostos colados, falando cada vez mais arrastado, até que torcemos o pescoço e nos demos um beijo quente, docinho e molhado.

(…)

O Peninha ficou putaço. Ele eu conheço. Uma vez, quando eu trabalhava no ClicRBS, estava comprando um sanduíche na loja de conveniência do EcoPosto, que fica na frente do prédio da Zero Hora ali na Ipiranga, e ele apareceu com um grupo de amigos e me apresentou pra eles como “símbolo da evolução do Brasil”, posto que, graças à internet, agora já tínhamos até NERDS entre nós. Isso devia ser 2001 ou 2002. Neste sonho ele estava transfigurado pelo ódio enquanto me desancava, curiosamente na escada de pedra que leva para a casa dos meus pais na Medianeira, eu na posição mais alta, o que talvez tenha algum significado oculto. Eu me defendia dizendo que aquilo tinha sido um lapso, um acidente. Não era como se eu fosse namorar a filha dele. Ela não era exatamente o meu tipo e, muito mais importante: eu não era o tipo dela. Lembro dele se acalmando magicamente ao escutar a frase “ela não dá a menor pelota pra mim” e, em seguida, acrescentando “é verdade.”

(…)

Olhei pelas grades do portão. Lízia estava dentro de um carro cinza chumbo. Estava saindo para uma festa com seus amigos. Havia outros dois ou três carros, todos cinza chumbo, e todos estavam cheios de gente fazendo muita algazarra e barulho. Contrariando o grupo, ela vinha bem quieta, sentada no banco traseiro, ao lado da janela, lançando um olhar enigmático e formando um discreto sorriso nos lábios ardendo de vermelho de batom. Quando desviei o olhar para presenciar a reação do Peninha, ele usava um Rayban esverdeado igualzinho ao que Flavito usou um dia.

verdades, mentiras

Em 1993, quando Zetti, então goleiro do São Paulo e da Seleção Brasileira, foi suspenso do futebol acusado de ter usado cocaína na Bolívia, meu pai, o visionário e saudoso Flavito, fez um pronunciamento profético incrivelmente preciso: “É um crime o que estão fazendo com esse cara. Quer ver que daqui a pouco descobrem que não era nada disso? Quando publicarem a errata, ninguém vai ler e a reputação dele já vai ter sido destruída.”

Nesse caso específico talvez ele não tenha sido tão feliz, posto que foi amplamente noticiado que, de fato, a substância presente na urina do atleta era proveniente do chá de coca muito consumido para mitigar os efeitos da altitude no organismo. Mas, para vários e vários outros casos (talvez todos), Flavito acertou em cheio.

Um bom exemplo recente: o caso do gurizão que supostamente foi pego roubando uma bicicleta e teve a frase “Sou ladrão e vacilão” tatuada na testa. Mesmo que ele tivesse roubado a bicicleta já seria inaceitável o que esses malucos fizeram, mas agora começam a surgir informações que sugerem que talvez a história não tenha sido exatamente assim (ou seja, talvez ele não tenha roubado a bicicleta). E mesmo com essas novas informações, que deveriam servir, no mínimo, para que os linchadores – digitais e reais – se questionassem por um segundo, ainda há multidões apoiando a atitude do tatuador e protestando contra sua prisão pela prática de tortura.

Que tristeza profunda.

A estupidez humana, como bem apontou Einstein, é um bagulho que não tem fim.

pull up

Não voto desde 2002 e, mesmo naquela ocasião, votei bastante receoso após ter visto o Lula subindo no palanque abraçado a vários inimigos clássicos. Mesmo reconhecendo que os seus dois governos tenham, de fato, promovido avanços louváveis em diversas áreas, nunca mais consegui assinar embaixo de nenhum projeto político. Nunca me desceu bem esse papo de que as alianças eram “pela governabilidade”, e tudo ficou ainda mais terrível a partir do episódio do Mensalão e todos os demais escândalos que foram piorando em grau exponencial desde então, chegando a esse estado de caos absoluto, em que nada faz mais o menor sentido desde, pelo menos, outubro de 2014.

Vários amigos me repreendem ferozmente quando encho a boca pra dizer que não voto. Acham que estou abrindo mão de algum direito sagrado conquistado com muita luta, pensam que estou me alienando de processos que me afetam independentemente da minha participação. Respeito a opinião de todos, mas ainda não consegui encontrar um bom argumento a favor de exercer minha cidadania desta forma – pelo menos não do jeito que o sistema é estruturado. Atualmente, eleger uma pessoa é basicamente passar um cheque em branco, uma procuração total. Não há nenhuma contrapartida. Tu me pede o voto, eu te dou o meu voto, tu te elege e fim: tu não precisa fazer mais nada. É como se alguém me contratasse pra traduzir um livro, me desse um prazo, no final desse prazo eu não entregasse nada, ou só uns dois ou três capítulos e, mesmo assim, eu não apenas não perdesse o meu trabalho como ainda ganhasse o dinheiro combinado no início – e com chances de, num futuro próximo, ser comissionado para uma nova tradução.

Semana passada descobri uma ferramenta que a Folha de São Paulo criou para monitorar as promessas de campanha de João Dória, disparado o pior prefeito de São Paulo de todos os tempos – e ele mal tem seis meses de mandato. O jornal contou 118 promessas das quais, até agora, João Trabalhador honrou apenas DUAS – o aumento da velocidade nas marginais (que aumentou grotescamente o número de acidentes, inclusive com mortes) e a liberação para tráfego de veículos num trecho de uma via anteriormente fechado (e que ele só reabriu porque leva da sua casa até a sede da prefeitura).

Buenas.

Meu ponto é: não existe absolutamente nada que obrigue nosso gestor (ou qualquer outro ocupante de cargo eletivo, diga-se de passagem) a cumprir as 118 promessas de sua campanha. Há casos abundantes de deputados que estão no quinto ou sexto mandato e que, nesses vinte ou trinta anos no congresso, jamais aprovaram um projeto relevante sequer. O mesmo certamente se aplica a senadores, prefeitos, vereadores, governadores e afins.

Daí eu penso o seguinte: é pra isso que serve meu voto? É por isso que ele é tão importante?

Minha posição nesses últimos anos tem sido: só volto a participar da festa da democracia no dia em que o sistema obrigar o queridão que se propõe a ocupar um cargo público a protocolar um número mínimo de promessas que terá um prazo determinado para cumprir. O não cumprimento das promessas dentro dos prazos levaria, naturalmente, à perda do cargo. Aí a coisa começa a ficar mais equilibrada. Tu vota no cara com a garantia de que ele vai se esforçar para fazer o que prometeu e, se não fizer, vai ter que desocupar a moita para que algum outro faça.

Todavia, ninguém parece perceber isso.

No meio de toda essa grita por DIRETAS JÁ que anda rolando, as pessoas estão muito preocupadas em votar novamente nos mesmos caras, que vão seguir (quase) as mesmas regras, nos contando (quase) as mesmas mentiras (a mais pesada de todas, e que quase ninguém questiona: o seu voto é importante). Ninguém fala em mudar as regras, em mudar o sistema, a estrutura. Loucura, já disse alguém, é fazer sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes. Do modo que eu vejo a realidade, tem muita gente muito louca por aí.

Sei muito bem que nem o meu voto nem a minha opinião (1 entre milhões) importa. Nem pra mim e nem pra ninguém. Então prefiro continuar viajando nos dias de pleito e justificando ausência enquanto conheço algum colégio obscuro num bairro remoto qualquer, ou simplesmente me dirigindo à minha zona eleitoral original pra meter um nulo ou branco malandro pra me eximir da sensação de gado feliz entrando no corredorzinho pra levar marretaço na cuca.

Infelizmente vai seguir assim, até o dia em que alguém entrar numas de criar regras para que as pessoas que mais deveriam trabalhar neste (e em qualquer outro) país efetivamente trabalhem.

minimicroreviewing

DEAR WHITE PEOPLE: Inteligente, divertida, com boas sacadas narrativas, personagens carismáticos e debates interessantes (especialmente quando as personagens negras se irritam quando um personagem branco usa a famigerada N-WORD ao cantar uma música, sem se dirigir a ninguém em específico, gerando uma grande confusão). GOSTEI MÉDIO.

MOONLIGHT: Lindo e sensível ao mesmo tempo que é meio xarope e vazio. Tem ótimos momentos, mas também tem falhas muito gritantes. Talvez eu tenha chegado com uma expectativa muito inflada, mas fato é que me decepcionei um pouco com o conjunto. NÃO GOSTEI MUITO.

NINFOMANÍACA I & II: Vários problemas terríveis de verossimilhança, alguns maneirismos esquisitos, porém, na média, filmaço. Achei que ia achar uma bosta, de modo que foi ainda melhor chegar ao fim considerando decente (apesar do final ter cagado um pouco no meu coração). GOSTEI BEM.

JOGOS DA DUPLA GRENAL ESTE ANO: Primeira vez em mais de vinte anos que um time do Grêmio não me deixa nem com vergonha nem com raiva, o que é um grande feito. Mal dá pra acreditar. Ao mesmo tempo, sendo gremista há quase 40 anos, sei muito bem que sempre é melhor desconfiar. Quanto ao Colorado, rapaz, que coisa medonha. Outro dia tiveram que dar QUATRO pênaltis pros caras não empatarem com o Náutico (que ainda não tinha feito gols na competição) em casa. GOSTANDO DEMAIS.

gripes

Que eu me lembre, segunda gripe do ano, aqui. Talvez seja a terceira, mas não tenho certeza. Sempre é ruim, né? Mas dessa vez foi pior. A impressão que eu tenho é que as minhas gripes do passado eram menos intensas, mas, ao mesmo tempo, mais prolongadas. Era aquele clássico: começou a tossir, espirrar e fungar o nariz, daqui a uma semana vai passar. Essas últimas se instauram de maneira mais brutal e se resolvem em menos tempo. Não que esteja totalmente resolvida, diga-se. Ainda estou ruim. Sentindo o corpo quente, a cabeça meio aérea, tossindo muco. Mesmo assim, a impressão que tenho é que amanhã acordarei totalmente normal. A coisa toda começou há dois dias e, no primeiro, foi bem feia. Nunca tinha ficado tão congestionado. Tive dificuldades reais para respirar, mesmo pela boca. Foi bem dramático. Gastei duas caixas de lenço e tive uma noite de sono catastrófica, de talvez uns 15 minutos por hora, no máximo. O segundo dia foi das dores: de cabeça, de garganta, pelo corpo. Gastei um rolo de papel higiênico. Hoje, o terceiro dia, é o mais tranquilo de todos. Estou me sentindo bem o suficiente pra ler e escrever, por exemplo, coisas que na terça eram muito difíceis e, ontem, quase impossíveis. O pior de tudo é que a frente fria que teoricamente jogará as mínimas bem abaixo dos 10 graus aqui em São Paulo deve chegar hoje, nas próximas horas, de modo que amarguei esses dias de febre e prostração com sol e 27 graus lá fora. Só espero não sofrer uma recaída.

grêmio eterno

Uma coisa que sempre me impressiona nos comentaristas de futebol – principalmente do centro do país, mas não apenas – é a insistência em afirmar que o time do Grêmio a) é violento; e b) tem como ponto forte a bola aérea. Mas meus amigos: vocês não veem que, a cada DOIS ANOS, na pior das hipóteses, os jogadores não são mais os mesmos, que o técnico não é mais o mesmo, que a diretoria não é mais a mesma? Que eu saiba não existe um manual ou um estatuto do Grêmio que dite que todos os seus times precisam se destacar pela qualidade da bola área e pela severidade na marcação. Quem torce pelo Grêmio nos últimos 20 anos está careca de saber que não temos um lateral de qualidade desde o ARCE – e nos falta um cabeceador de talento, pelo menos, desde o JARDEL.

Ou seja, evidente que essa idealização de um Grêmio violento e cabeceador é culpa e herança do saudoso Grêmio de 1995, pilotado pelo Felipão, que tinha uma zaga séria e um jagunço como cabeça de área (pra justificar a violência) e um dos maiores cabeceadores da história do cabeceio lá na frente.

Só que isso aconteceu há VINTE E DOIS ANOS.

Sério, basta olhar o Grêmio desta temporada: toque de bola, 80% dos gols com os pés e baixo número de cartões. Não faz o MENOR sentido insistir nesse papo do futebol violento e aéreo do tricolor dos pampas. Mas estou certo de que vamos ouvir essa ladainha por muito tempo ainda.

projeto Zé Roberto: updates

Não faz cinco dias eu fiz 38 anos. A idade de Homer Simpson. Folgo em saber que estou muito melhor que ele em absolutamente todos os aspectos – físico, mental, espiritual e, principalmente: pelo simples fato de que eu existo de fato num mundo, possuo livre arbítrio (ou alguma ilusão dele), algum dia irei morrer e desaparecer da memória universal.

Todavia ainda estou pior do que Zé Roberto quando tinha a minha idade. Grande parte disso é explicado da maneira mais simples e cômoda (embora precisa): genética. Mas outra porção importante tem a ver com alimentação e regime de exercício – sobretudo com os longos anos de vantagem que ele tem sobre mim nos dois quesitos.

Em abril fez 3 anos que tenho aplicado pilates no meu corpo. Em setembro faz oito que venho prestando progressivamente mais atenção em tudo que eu como, reduzindo a quantidade de gorduras, açúcares e alimentos industrializados enquanto aumento a ingestão de água, frutas, legumes e verduras. Ainda estou longe do vegetarianismo, e acho que assim me manterei por muito tempo, mas também não vejo nenhum problema em reduzir o consumo de carne na dieta.

As coisas já melhoraram muito. Estou mais em forma aos 38 do que estava aos 28 anos de idade, e isso já é algo que muito poucas pessoas podem dizer. Mesmo assim, ainda há um longo caminho pela frente se desejo alcançar meus objetivos. Meu programa pessoal de exercícios funcionou bem por quase dois meses, mas acabei abandonando por falta de saco generalizada. A capoeira me encantou de cara e deu grande alegria inicial, mas as duas únicas aulas de que participei mastigaram meus pés de tal forma que não foi humanamente possível regressar (só fui andar normalmente duas semanas depois da última aula, por exemplo, por conta das bolhas gigantescas que apareceram e explodiram nos dois pés ao longo do treino). Ainda preciso encontrar a atividade aeróbica ideal para o Dido, aquele salto final de qualidade que me levará ao tão sonhado objetivo: chegar aos 40 anos com o SHAPE RASGADO.

Tem dois anos pra tentar.

Espero conseguir.

ex-pontâneo

Tinha uma época, um pouco antes e um pouco depois dos vinte, em que eu abria uma caixa em branco na tela do computador, saia metralhando os dedos no teclado e dentro de pouco tempo estava satisfeito o suficiente com o resultado para publicar. Quanto mais velho, menos espontâneo me parece que eu venho ficando – ou mais criterioso, talvez. Sentindo um pouco mais de vergonha de mim mesmo, de certo modo, das coisas que eu penso ou sinto. Não quero virar o tiozão literário pedante sentado em cima dum pedestal, mas também não me interessa ser o poeta caudaloso escalafobético conectado com as emoções do cosmos. Que boa essa sensação de não saber nada, nunca. Sempre ter algum pingo de dúvida, um terror, uma gana, alguma coisa dando esse nó na cuca do cara dez pras três da matina.