a dream #6

Ando tendo um sonho recorrente bem estranho, há meses – talvez até mesmo um ano.

Como já dito anteriormente, costumo sonhar que a casa onde moro não corresponde exatamente à casa em que de fato vivo quando não estou sonhando. Porém este sonho recorrente se dá sempre da mesma forma: estou em algum aposento da minha casa onírica, sei que estou sozinho, ouço barulhos em alguma outra peça, vou conferir e encontro pessoas lá. Não são bandidos, nem qualquer tipo de pessoa ameaçadora: pelo contrário. Em geral são mulheres de meia idade, ou ainda mais velhas, eventualmente uma criança ou pré-adolescente. Pergunto o que estão fazendo ali, sempre me respondem com evasivas. Peço para que me entreguem as chaves da casa, ninguém nunca tem. Peço para que saiam, ninguém quer sair.

Pensando melhor, agora, enquanto escrevo, percebo que talvez não tenha tido esse sonho muitas vezes. Talvez apenas no sonho em si tenha tido a sensação de que aquela situação se repetia – mas talvez não seja verdade. De todo modo, ela parecia bastante familiar.

Eu não conhecia as pessoas que estavam na minha sala se recusando a sair, mas a insistência delas em permanecer ali foi me enchendo de raiva – um sentimento que não costumo experimentar com muita frequência. Aliás, ataques de raiva, ou a mera sensação de ira são, pra mim, tão raros, que não consigo lembrar qual foi a última vez que tive um destes rompantes.

A campainha tocava, eu ia atender e eram dois skatistas – uma menina e um cara, ambos brancos de dread, com mochilas e trazendo alguma coisa nas mãos que não entendi bem o que era. Perguntei o que eles estavam fazendo ali e eles me disseram que o porteiro disse que eu era um cara tão legal que ele tava deixando todo mundo subir. Com isso, a minha raiva aumentou.

Então, apareceu alguém. Uma amiga recente – nem tão recente assim, levando em conta que faz vários anos que nos frequentamos, nutrindo sentimentos mútuos de carinho e admiração (e, talvez, em alguns momentos, até mesmo desejo e paixão). Neste sonho ela era minha vizinha de andar, e parava na minha porta para saber o que se passava. Só a presença dela já foi mais que suficiente para me acalmar, me deixando num estado mental próximo do gozo. Não sei bem o que falamos, mas tenho a impressão de que nos tocamos. Um abraço, talvez. Um beijo sei que não.

Subitamente, um barulho na sala. Um gurizão de uns quinze anos, ou algo assim, de óculos, suspensórios, o nerd arquetípico, estava agachado arrancando o rodapé de uma parede. Corri até ele e perguntei que raios ele estava fazendo. Ele não disse nada e se deitou de costas no chão. O peguei pelas pernas e bati com força contra a parede, demonstrando eu mesmo uma força e violência descomunais. O ameacei, dizendo que se ele não me respondesse o que estava fazendo naquele exato momento, teria que dar essa reposta só quando acordasse no hospital. Ele seguiu em silêncio. Novamente o peguei pelos pés, o suspendi no ar, peguei um impulso cavalar e o acertei com toda força contra a parede. Ele caiu no chão desacordado. Uma poça de sangue se formou embaixo de sua cabeça.

Na sala, as duas tiazinhas que haviam invadido minha casa seguiam se justificando por estar ali – uma para a outra, sem parar, do mesmo jeito que faziam desde o começo do sonho. Minha amiga/vizinha ocupava a cozinha, lavando alguma coisa na pia, com um sorriso lindo no rosto, falando sobre qualquer outra coisa da forma doce como ela sempre fala comigo.

Eu fui tomado por sentimentos ruins. O primeiro deles: matei um cara. Em seguida: eu só queria poder voltar no tempo e não ter batido com tanta força. Isso não sou eu, não precisava ter feito aquilo. Depois: serei preso, serei morto, algo terrível acontecerá. E pra terminar: será que consigo sumir com esse corpo? Dar um jeito de fazer parecer com que isso jamais tivesse acontecido?

E então: acordei.

Me sentindo muito, muito mal. Levei uns dez ou quinze segundos para entender que eu não havia feito nada daquilo, para só então começar o dia em paz comigo mesmo. Que negócio extremo, o inconsciente. Talvez o subconsciente. Um deles. Os dois. Não sei.