sensação sobrenatural do dia

Sobrenatural aqui entendido não como algo do mundo dos mortos, mas sim qualquer coisa que não seja uma manifestação “natural”, such as o seguinte: havia fumado pequena porção da droga maconha e me concentrava na leitura de um texto quando comecei a sentir agulhas geladas mordiscando minha mão por um breve instante. Consultei a janela para encontrar o céu branco e cinza, mas aparentemente ainda não chovia. Pensei num dano grave aos nervos, talvez uma esclerose múltipla, um arrebento cerebral. Mas nada: segundos depois, nova saraivada de fincadas frias dominou meu braço, e nem deu tempo de gelar o estômago em pleno cagaço, botei a cara contra o vento e recebi a confirmação de que estava apenas me bobeando aqui sem motivo. Uma garoa existia.

ouvideira nervosa

Ontem à noite tive o que podemos chamar de “crise aguda de tinnitus”.

Acontecia com muita frequência nas primeiras semanas: na hora de dormir, com o silêncio da casa e das ruas, a tendência era que a altura do zumbido aumentasse muito, me deixando incrivelmente perturbadão. Acho que isso acontecia porque o zumbido constante era uma sensação nova, e eu dedicava muito da minha atenção a ela. Por ser nova, era também misteriosa, e me deixava muito aceso imaginando os possíveis causadores da mazela – tumor cerebral? doença degenerativa? desequilíbrio grave do organismo?

Depois de um tempo, com vários exames descartando causas perigosas mais imediatas, fui sossegando o rabo. Acostumei com o som e passei a cancelá-lo com grande facilidade, mesmo em situações de silêncio pronunciado, como na hora de dormir. Ainda percebo um aumento no volume do apito em algumas situações específicas, como quando bebo profissionalmente, se durmo poucas horas várias noites seguiras ou se estou muito estressado.

Ontem, todavia, não me encontrava em nenhuma das duas situações.

Mais cedo, porém, aconteceu algo. É uma coisa que acontece de forma muito episódica, talvez uma vez por ano ou a cada seis meses. Todavia: acontece.

Chamo de “efeito tampão”.

O efeito tampão se manifesta do nada. O cara tá ali, jogando um game, traduzindo um troço, comendo um camarão, fazendo um apoio, curtindo um barato com os amigos e BLIM: um ouvido fica surdão. Na real, não: abafadão. Parece que um daqueles plugs de operador de britadeira simplesmente se materializou dentro do ouvido. Os sons ainda são muito audíveis, porém ficam distantes, filtrados. A coisa toda não dura mais que dois segundos e, assim como veio, vai embora sem deixar – aparentemente – nenhuma sequela.

TALVEZ isso tenha alguma relação com o apito mais alto dessa noite.

Talvez não.

Além do efeito tampão, também rola às vezes o efeito catástrofe, que é quando o cara experimenta um aumento inacreditável do volume do tinnitus pelo mesmo segundo, da mesma forma imprevisível e efêmera. Esse, pela minha observação, tem mais relação com a limpeza do canal auricular por meio de: cotonetes. Eu limpei o ouvido hoje? Dali umas cinco, seis hora vou enfrentar essa hecatombe auricular. Todavia: nem sempre. Mas até hoje, que eu me lembre, não acontece sem eu ter futucado a orelha no intuito de higienizá-la.

Ficaremos de olho.

Tinnitus

Que eu me lembre, a primeira vez que ouvi falar de tinnitus foi por volta de 2002, depois de publicar no meu primeiro blog, One Hundred Percent Chongas, um relato sobre uma noite fortíssima de drum’n’bass no saudoso porão do Fim de Século (que já se chamava NEO a essa altura). Ao descrever um incômodo porém passageiro efeito colateral da música alta como um apito discreto no fundo do ouvido, alguém nos comentários me avisou que essa sensação possuía um nome.

Ao longo dos anos, experimentei diversas vezes esse apito discreto no fundo do ouvido. Em mais de 90% dos casos estava diretamente relacionado à exposição a música muito alta por muito tempo. Era bastante comum sair de uma festa ou show com os ouvidos estourados, meio entupidos, e nas horas seguintes experimentar o zumbido xarope que, todavia, se esvanecia em no máximo 24 horas. Nos 10% restantes, todavia, reside até hoje um mistério.

Acontecia o seguinte: eu bem belo sentado numa cadeira, ou lavando a louça, ou caminhando duas quadras até o supermercado, ou escovando os dentes e vinha do mais absoluto nada o mesmo apito. Parecia um raio entrando por uma orelha, fritando intensamente as profundezas do ouvido e depois saindo bem mais fraco pela outra. A coisa toda não durava um segundo, mas sempre deixava no ar uma sensação de temor e what the fuck.

Uns anos depois rolou uma evolução da moléstia: o tinnitus aparecia da mesma forma, sem aviso nem motivo claro, e se instaurava por um dia inteiro na minha cabeça. Geralmente eu o percebia ao acordar, ficava preocupado algumas horas, resolvia ignorar para seguir em frente e, quando acordava no dia seguinte, ele tinha desaparecido.

Só que um dia em 2013 ele decidiu que não ia mais desaparecer. Nem no dia seguinte, nem no próximo, nem no outro. Nunca mais. Pelo menos até aqui. Em suma: estou há quatro anos ouvindo constantemente um apito discreto no fundo do ouvido.

Claro que isso me deixou totalmente em chamas, me fazendo considerar, graças aos diagnósticos do Dr. Google, todo tipo de quadro terrível, como tumor no cérebro e perda auditiva avançada. Ao consultar otorrinos caríssimos na capital dos paulistas, todavia, descobri o contrário: não possuo tumor cerebral e minha audição está impecável. Fiz duas audiometrias, espaçadas por mais de um ano, e nas duas o resultado foi o mesmo: ainda hoje, aos 37, escuto frequências que eu deveria ter parado de ouvir aos 17 (ainda mais levando em conta que fui DJ por quase 10 anos).

Eliminadas as duas causas mais comuns (e potencialmente graves), sobraram nada menos que 300 possibilidades. Muita coisa pode causar o tinnitus, e minhas apostas mais fortes estão no meu colesterol elevado (que faz o sangue ficar mais grosso e provoca perturbações ao passar nas delicadas estruturas do ouvido interno) e na chamada disfunção da ATM (articulação temporomandibular).

Eu já sabia possuir mordida cruzada e volta e meia produzo estalos ao mastigar, mas uma amiga que trabalha com o dentismo estético certa feita decretou: minha arcada dentária apresenta todos os problemas possíveis e imagináveis. De alguma forma misteriosa, todavia, meu organismo atuou a meu favor ao longo da adolescência e impediu, sem aparelhos ortodônticos, que eu tivesse o rosto desfigurado por um queixo projetado pra dentro e os dentes pra fora, tal qual um Ronaldinho Gaúcho. O problema é que esse processo me deixou todo torto, e pode ser o grande responsável pela cornetinha aguda que toca na minha cuca sem parar (além do bruxismo e do desgaste de alguns dentes que já ocorre há alguns anos). Problema ainda maior é que pra consertar essa brincadeira eu precisaria quebrar a mandíbula e puxá-la pra frente e quebrar o céu da boca e puxá-lo pros lados – e o processo todo levaria mais de 2 anos de muita dor e sofrimento, algo que não sei bem se estou disposto a encarar (especialmente porque não há uma certeza de que vá resolver o tinnitus).

No passado já se cagou a vida de muita gente ao promover a extração do nervo auditivo, na crença de que isso fizesse com que o barulho cessasse. O que acontecia, na verdade, é que a pessoa parava de ouvir todos os sons do mundo EXCETO o zumbido. O motivo? Exceto em casos muito específicos, não é no ouvido que o tinnitus se origina, e sim no cérebro. Alguma estrutura interpreta de forma errada um impulso, e o converte num zumbido. Não entendo muito bem esse mecanismo, e não estou sozinho nessa: a medicina, até esse ponto, também não manja muito essa parada. Tanto que não existe uma cura. Na verdade, o que se sabe é que o cérebro é incapaz de lidar com a ausência completa de sons. Se você se colocar numa situação em que não há nenhum som sendo produzido, o seu cérebro cria perturbações sonoras ele próprio, que podem inclusive levar a um quadro alucinatório. Há diversas salas de privação de som espalhadas pelo mundo que provam isso.

A boa notícia é que, pelo menos até agora, não posso dizer que se trata de um sintoma incapacitante. Por ser essencialmente subjetivo, é muito difícil criar uma escala confiável para quantificar o tinnitus, mas existem tentativas de classificar os volumes aparentes e suas consequências. Há casos de pessoas que se matam por não serem capazes de suportar a mazela, especialmente nos casos que se convencionou chamar de tinnitus catastrófico, quando o som do zumbido é tão alto que a pessoa não consegue nem se concentrar nos seus pensamentos. No meu caso, o que acontece é que não tenho mais o direito ao silêncio absoluto, posto que toda vez que isso acontece (dentro de um elevador, nos instantes iniciais antes de uma peça de teatro) é que o percebo. Durante o dia é praticamente impossível escutá-lo: os sons da cidade abafam tudo. Também já percebi que algumas coisas potencializam o tormento: ressaca, stress e desidratação. Infelizmente, até agora, não descobri nada que ajude a mitigar o sofrimento – exceto me manter sempre exposto a algum tipo de som no ambiente.

Que coisa extrema envelhecer.

Quando eu tinha recém feito uns 30, reclamei para um amigo cinco anos mais velho que andava com umas dores misteriosas na barriga que simplesmente não tinham motivo. Já tinha feito endoscopia, ultrassom, um monte de exame de sangue e estava tudo normal. Nunca vou me esquecer do que ele me disse: “É mais ou menos nessa época que começam a aparecer os sintomas que vão nos acompanhar por toda a vida.” Parecia uma mensagem pessimista e terrível, mas no fim das contas era o contrário. Nada daquilo ia me matar. Essas coisas iam começar a aparecer, me preocupar, me fazer acreditar estar com algum tipo de câncer, derretimento mental ou esclerose, mas não iam me matar. Eu ia fazer os exames, ia estar tudo normal, eu ia ficar me perguntando que diabos estava acontecendo, não ia chegar a conclusão alguma e, com o tempo, acabaria me acostumando, a ponto do sintoma, eventualmente, desaparecer.

Foi o que aconteceu com as dores na barriga.

E o que vai acontecer algum dia, espero, com o tinnitus.

Todavia com esse eu não tenho lá muita esperança.