Quando me mudei para São Paulo, cinco anos atrás, não aderi instantaneamente a uma linha local de telefone. Minha conta era, então, de R$ 63, e os planos mais suaves equivalentes na capital paulista naquela época me exigiam o dobro. Portanto: posterguei. Só adquiri número de celular com DDD 011 depois da Copa de 2014, se não estou enganado. Fui até procurar e tru dat: só o fiz no final de janeiro de 2015. Enfim.
O número novo tinha um passado, de forma que herdou alguns penduricalhos interessantes, como o fantasminha de uma ex-cliente da Vivo chamada Silvana. Recebo de 3 a 5 spams via SMS destinados a ela toda semana. Eventualmente alguém me liga oferecendo Nextel ou cobrando carnê da Casas Bahia, mas fica nisso.
Todavia o novo número também me trouxe o Seu Reinaldo.
Poucos dias após ativar o telefone, recebi a primeira ligação. Acho que devo ter sido bem seco, quem sabe até meio grosso, quando vi o DDD 012, ouvi o sotaque do interior (o erre de borracha do Nhô) e disse que aquele número não era do fulano (cujo nome agora me escapa). Ele ligou uma segunda vez, na sequência, e eu o frustrei novamente. Na terceira cogitei simplesmente não atender, mas fiz exatamente o contrário. Já tinha ficado muito evidente que era apenas um senhorzinho humilde num cafundó rural deste Brasilzão tentando entrar em contato com alguém. Devia ser alguém importante pra ele, já que estava ligando pela TERCEIRA vez para o número errado, apesar de ter sido informado disso desde a primeira. Resolvi ajudar.
Tivemos uma longa conversa. Tratava-se de um sujeito chamado Reinaldo, que habita a cidade de Salto/SP. Até que não é uma cidade tão pequena (130 mil habitantes). “Fica aqui na região de Itu”, ele sempre reforça. Estava tentando falar com o filho. Que não mora em São Paulo, mas sim em alguma outra cidade do interior paulistano – que eu também não lembro qual é. O lance inesperado é que o número do telefone do seu filho era exatamente igual ao meu – exceto pelo DDD. Que coisa.
Foi legal ter feito isso. Digo, ter tido a chance de fazê-lo. O cara podia simplesmente não ter mais ligado, ou descoberto de alguma outra forma como entrar em contato com o filho (não era nada grave, aliás). Lembro que depois de descobrir que o filho morava em outra cidade, procurar no Google o DDD equivalente a ela e ensinar pra ele como fazer a ligação, Reinaldo ficou transbordando de felicidade. O cara dava gargalhadas de alegria, estava mesmo muito grato que um completo estranho tivesse parado tudo que estava fazendo para ensinar um outro completo estranho a ligar para o seu filho. Ficou me agradecendo uns 2 minutos, me disse que quando eu estivesse pros lados de Salto era só falar com ele que, aquela coisa toda. Nos despedimos, desligamos, beleza.
Só que a história não termina assim.
It LINGERS.
Volta e meia, Reinaldo ainda se atrapalha e liga por engano. E, embora eu ainda não tenha me ligado de acrescentar o nome dele aos meus contatos, quando ele começa a rir depois que eu digo que é o André eu também já sei que é ele quem tá falando. Sempre trocamos uma ideiazinha. Agora ele já sabe o que fazer pra ligar pro filho dele, mas, mesmo assim ainda gasta uns segundinhos de conversa pra perguntar de mim e da minha família, dizer que com ele tá tudo bem, e reforçar o convite pra visitá-lo em Salto algum dia. Um desses anos aí, não sei qual foi, ele chegou a me ligar no Natal ou Ano Novo, também. Última vez que ele ligou faz uns três dias. Depois de falarmos por uns 3 minutos pensei o seguinte: nunca tinha feito um amigo por TELEFONE na vida. Que coisa inesgotável que é.