Num gesto automático de quem trabalha em casa, está gripado em casa, está no fim de semana em casa, ou está passando qualquer quatro horinhas direto em casa, fui até a cozinha e abri a porta do meu armário suspenso. Tinha um pacote de massa integral, um pacote de pão integral e uma caixa de Bis Oreo.
Contemplando a escassez fiquei pensando que muitas pessoas observando este cenário poderiam rapidamente concluir que o boneco tá mal. “Bah, coitado do cara, tá caído, a crise pegou forte, que merda,” coisa e tal.
Todavia, não é que eu tô mal. Pelo contrário.
A real é que morando num bairro coalhado de feiras, supermercados e restaurantes, tenho comido fora com certa frequência e, quando como em casa, tendo a comer coisas compradas no dia (ou há poucos dias).
A campanha, na real, da Petite – todavia, tamo junto -, de consumir menos alimentos industrializados vem de longa data, de forma gradual e sensível. Hoje acabamos indo muito mais à feira que ao supermercado, comprando quantidades menores de comida, em geral consumidas no mesmo dia em que são adquiridas. Em outras palavras: não estamos mais fazendo estoque.
Sem radicalismos, também: a caixa de Bis Oreo é prova cabal disso. Mesmo assim, a real é que já faz um tempo que tem menos pacote de bolacha e salgadinho no armário e mais castanha e fruta na geladeira.
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Comemos bastante fora, também, em geral num buffet à quilo perto aqui de casa que batizamos carinhosamente de GAUCHÃO pois é de propriedade de dois gaúchos (um de Erechim e outro de Sarandi) – porém, antes de conhecê-los e saber disso, o pico já havia conquistado a alcunha por possuir uma churrasqueira, com boas carnes e gente que sabia assá-las.
Mesmo assim, hoje comemos menos carne do que no começo: vamos mesmo é pela salada. Por incrível que pareça. É sempre fresca, variada e farta, mas, melhor de tudo: está pronta. Convenhamos: a pior parte de alimentar-se de forma saudável é a PRODUÇÃO. Tem que escolher a verdura, negociar o preço, lavar, cortar/preparar, temperar, limpar tudo. No Gauchão tu chega com quinze minutos, te serve de pepino, cenoura, beterraba, alface, agrião, tomate, berinjela, abóbora (se quiser sempre tem fruta também), senta, come, paga e segue o dia. Vai fazer isso em casa: uma operação de, no mínimo, duas horas (sendo muito otimista).
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Também me ocorreu que o cara escrever um texto dizendo “não tô mal” é uma das formas mais ululantes do cara dizer “tô mal”, todavia não é mesmo o caso, eu tô bem, sério, quer dizer, mais ou menos, quem é que tá 100% bem, não é mesmo, meus kids? A coisa tá meio feia sob todos os aspectos que se encara. Talvez um dos ângulos mais confortáveis de encarar a coisa seja ponderar que: pelo menos não vai durar muito. Logo mais vai acabar. De um jeito ou de outro.