Hoje eu tenho uma relação bastante tranquila com a morte.
Nem sempre foi assim.
Durante a infância e, pelo menos, os primeiros vinte anos de nossas vidas (isso numa existência livre de tragédias e miséria, naturalmente), estamos imersos numa ilusão estranha que nos sugere que tudo é eterno, e que somos imortais. A partir daí, por uma série de fatores – acidentes de carro, overdoses, violência urbana, reta final da vida para os nossos avós e parentes mais velhos e uma maior consciência do mundo e da realidade – o assunto começa a entrar em pauta.
A minha teoria, bastante simples, é a seguinte: mesmo a partir desse choque de realidade, a esmagadora maioria das pessoas prefere continuar vivendo essa ilusão em vez de se preparar, lenta e gradualmente, para o fim inevitável – e é justamente por isso que a morte choca tanto quando se apresenta.
Eu procuro fazer diferente.
(…)
Tive a sorte imensa de ter conhecido os meus quatro avós. Convivi intensamente com os maternos (morávamos juntos), e de forma um pouco mais distante com os paternos (visitávamos minha avó aos fins-de-semana; meu avô só fui conhecer já adulto). Assisti todos morrendo. Os pais do meu pai, mais de longe. Os pais da minha mãe, muito de perto.
Minha vó paterna, Rosa de Toni, desenvolveu uma leucemia, mas, como ela morava em outro bairro e, que eu me lembre, jamais a visitei no hospital, apenas experimentei a sua morte como uma notícia amarga e esquisita dada pelo meu pai numa manhã de fim-de-semana. A minha reação, inesperada principalmente pra mim, foi um ataque de riso, algo que foi prontamente reprovado pelo meu irmão, mais novo, e mais sensível, mas, curiosa e maravilhosamente, compreendido e elaborado da seguinte maneira pelo meu pai, uma pessoa claramente de outro mundo: “Isso é normal. Cada um reage de um jeito.”
Fiquei com aquilo na cabeça. Aprendi (ou acreditei) que em situações extremas, tendo mais a rir que a chorar. Ou, talvez, em situações de morte, apenas. Tanto é que não consegui ir ao enterro da minha vó Elfrida Rosumek, ou do meu vô Pedro Pontes.
Se com a doença da vó Rosa eu tinha aprendido que alguns tipos de câncer tem uma melhora súbita e ilusória perto do fim só para depois despencar a toda velocidade no abismo, com a da vó Frida eu conheci o sofrimento que é manter uma pessoa entrevada numa cama por meses (talvez anos). Não lembro bem como tudo começou. Sei que ela teve um derrame e quando voltou para casa ficou acamada, sem falar ou se mover, dependendo de todos para tudo. Na verdade também não lembro muito bem desse período, ou quanto tempo durou. Eu ainda era uma criança. Lembro de vê-la algumas vezes no seu quarto, os olhos vazios, o corpo ainda muito presente, forte, quente. Com medo de ter ataques de riso no cemitério, não fui ao seu enterro.
O vô Claudio Czarnobai, marido da vó Rosa, a abandonou com quatro filhos para criar e foi embora de casa muito antes de eu nascer, de modo que eu só fui conhecê-lo efetivamente quando estava morrendo de um câncer no fígado e foi acolhido pelo meu pai, num episódio extremamente doloroso de sua vida, que também me deu as maiores lições sobre amor, compaixão e perdão que já tive. Nunca vou me esquecer da visita que fiz a ele no hospital. Parecia comigo. Parecia demais comigo. Comigo velho, grisalho, abatido, mas, ainda assim, eu me vi ali. Era um cara muito interessante, cativante, carismático. Falava gesticulando, era um homem bonito. Vi ali um vislumbre do meu futuro e senti, pela primeira vez, o grande vazio que ele deixou por não ter me encantado a vida inteira como fez naqueles cinco ou dez minutos. Lembro do meu pai encostado na porta do quarto, fascinado, com um sorriso largo no rosto e um brilho inconfundível no olhar. Na volta para casa, no carro, a conversa descontraída e leve de repente teve uma virada brusca: Flavito parou o carro, começou a chorar e disse “Eu já tinha matado o teu avô. Na minha cabeça, ele estava morto.” Não lembro de ter visto meu pai chorar outra vez. Uns dois dias depois, o vô Cláudio, de fato, morreu. Também não fui ao seu enterro, ou não lembro de nada. Eu já era mais velho, aqui, até na faculdade já andava. Mas ainda tinha mais coisas a aprender.
(…)
Meu vô Pedro, pai da minha mãe, foi quem definhou mais tempo, vítima do terrível Mal de Alzheimer. A doença foi ainda mais filha da puta por consumir sua mente enquanto o corpo seguia funcionando de forma perfeita. O vô Pedro era do exército. Membro da cavalaria, era também atleta, com recordes no atletismo que perigam ainda não terem sido batidos. Um negrão forte pra caralho. Aos sessenta e vários, certa feita, segurou com os braços um OPALA sem freio descendo desgarrado uma lomba para evitar que colidisse com o portão de nossa casa. Atravessou a maior parte da doença – que levou, na sua fase mais aguda, uns bons cinco anos – com o físico em dia, todos os parâmetros excelentes. Só derretia, mesmo, a sua cabeça.
Com a doença do vô Pedro, em dado momento, adoeceu a família inteira. Era muito, muito pesado. Meus pais tentaram poupar a mim e ao meu irmão o máximo que deu, mas já éramos adultos ali, ambos com mais de vinte anos, isso nem era tão necessário. Acabamos pegando junto na reta final, o que basicamente significava passar longas horas ouvindo as mesmas histórias enquanto fazíamos companhia (algo que se aproxima muito de uma tortura psicológica, sob certos aspectos). Mas também significava dar banho, ajudá-lo a comer e fazer suas necessidades fisiológicas. Pode até soar cômico, mas depois que tu limpa a bunda ou balança o pinto de um homem de 70 anos que tu sempre teve como referência de fortaleza e simbolo máximo de masculinidade, acontece alguma coisa na tua cabeça que muda pra sempre a forma como tu encara a existência e, sobretudo, o tempo que tu passa nesse planeta.
No enterro do vô Pedro eu fui, e não tive acessos de riso.
Bem como não ri nada no enterro do meu pai.
Algumas pessoas me questionaram por não ter chorado em nenhum desses dois. Imagino que podem ter me visto como frio, ou insensível, ou ainda terem suposto que eu estava sufocando sentimentos. Mas, como anteviu Flavito, de forma muito certeira, como sempre: “Cada um reage de um jeito.”
(…)
Quando Flavito morreu, após uma breve, porém intensa agonia de quinze dias no hospital (e cerca de quatro meses em casa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo e tratando um monte de coisa paralela até finalmente descobrirem o que estava causando todos aqueles sintomas), o primeiro impulso da minha mãe foi o de não fazer velório. Talvez tivesse sido o meu primeiro impulso também, se não fosse por um fator: Flavito era um cara muito amado. Mas muito. E muita gente nem sonhava que ele estava doente. Achei que uma coisa que a gente devia ao Flavito era justamente essa despedida. Achei que talvez fosse positivo pra minha mãe ver que, naquele momento de tristeza imensa, havia muita coisa bonita pra acontecer: e, de fato, aconteceu.
Se tem algo que meu pai soube fazer foi deixar uma marca em todos que o conheceram. Isso se viu claramente no seu velório. Quase duzentas pessoas apareceram pra lhe dar adeus. Pessoas que não o viam há mais de dez anos. Pessoas que eu não via há mais de dez anos. Pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Em comum, todas trouxeram o seguinte: uma história maravilhosa vivida com meu pai, rica, viva, positiva. Houve choro? Claro. Tristeza também. Mas ouve risos, alegria, alto astral. Conhecendo meu pai como conhecia, tenho certeza de que era assim que ele gostaria de ter posto esse ponto final na existência.
Talvez eu tenha lidado tão bem com a morte dele por ter tido, mais uma vez, a sorte de ter falado muito sobre o assunto com ele, especialmente depois do primeiro susto que ele nos deu, em 2009, quando sofreu um ataque cardíaco. As conversas enormes e profundas que tivemos nos meses subsequentes me forneceram uma espécie de conclusão mágica a todas as experiências de morte que tinha vivido com todos os meus avós, e desencadearam uma espécie de ruído de fundo contínuo, que fica me lembrando sempre que a gente tem que estar sempre preparado pra morte se quer viver a nossa vida ao máximo e da melhor maneira possível.
Tenho pensado muito no meu pai ultimamente. Sem motivo claro. Em dezembro acaba de fazer um ano que ele morreu, mas parece que faz uns cinco. Talvez essa seja a maior prova de que eu esteja no caminho certo, botando em prática a minha teoria. Talvez eu esteja preenchendo meus dias com tanta coisa, com tanta vida, que eu não vá me arrepender de absolutamente nada quando a cortina se fechar, logo mais. Espero que o logo mais demore muito, mas se demorar pouco, eu sempre que me deito à noite penso, e sinceramente que, até aqui, não tenho arrependimentos. Sei que ainda não vivi toda a minha vida, mas a que vivi até aqui foi maravilhosa e excelente. Tendo isso sempre em mente, tudo fica mais fácil, me parece. Mas também não sei direito porque.