30h em porto alegre

Acabo de passar 30 horas em Porto Alegre.

Cheguei às 10h30 de quinta, parti às 16h30 de sexta.

Fiz toda essa mão só pra tirar a segunda via do meu RG. A foto do primeiro, feito em 1994, derrete lentamente ao longo dos anos sob o efeito das substâncias contidas na espuma do Ibiza, cabaré megalomaníaco que ficava na praia gaúcha de Atlântida nos anos 90. Não fiz uma nova carteira de identidade em São Paulo porque ela teria um número diferente da original – e isso não me servia.

Sim, imagino que você saiba que ainda não mudou esse esquema totalmente maluco no Brasil que possibilita que qualquer pessoa tenha até 26 números de RG diferentes, um por estado.

Mas enfim, eu não podia.

Então comprei uma passagem pra Porto Alegre cedo na quinta e fui direto até o Instituto Geral de Perícias, onde tinha marcado o horário das 11h30 para encaminhar a segunda via. Cheguei uns quarenta minutos mais cedo e fui atendido logo em seguida. O atendimento todo não me tomou dez minutos: a atendente copiou os dados da certidão de nascimento, perguntou meu endereço, a minha altura, se eu tinha tatuagens (e, caso tivesse, onde ficavam), tirou uma foto, escaneou os dez dedos. Eu assinei duas vezes numa mesa digitalizadora, ela me perguntou se eu queria receber a carteira em 10 dias por 60 e poucos reais ou em até 3 horas por 83,20. Eu não tinha dez dias, mas os vinte pila eu tinha.

Paguei a taxa numa tabacaria parceira do IGP e do Banrisul a 200 metros dali e chamei um Cabify de 4 reais até a casa da minha mãe. O amigão me passou um código maluco que dava 100% de desconto em até R$ 3 mil em corridas até o dia 25 de junho, porém não funcionou. Cheguei em casa às 11h27, três minutos antes do momento em que deveria estar sendo atendido. A jornada se iniciava com uma enorme vitória.

(…)

Na Medianeira, encontrei Sandrinha de chambre e trocamos longa ideia sentados no pátio. Fazia sol, não muito calor. Também não fazia frio. Havia ramos de erva cidreira secos empilhados perto dos nossos pés, e o cheiro que eles exalavam era muito bom. Sandrinha plantou muita coisa no pátio. Matou outras coisas também. A cebola que ela enfiou na terra brotou lindona. O alho também – e que coisa aromaticamente deliciosa é a folha do alho, aliás. Tomate, salsinha, limão, manjericão, malva: tudo firme na paçoca. Teve um alho poró (ela fala porró, que nem Flavito) que um passarinho (ou gato, talvez até rato) desenterrou do chão e levou embora. Isso ela diz.

(…)

Almoçamos num lugar chamado ABRACCIO, que abriu faz pouco no Praia de Belas. Italiano de rede, caro para o que serve, mas não é de todo ruim. O pão com azeite com ervas que servem de entrada (que basicamente é a versão italiana do pão preto com mel e manteiga do Outback) tem o seu mascability, porém carnes, massas e sobremesas são apenas decentes. No pavor ou na pressa quebra um galho, porém não manda uma brasa tremenda.

Na minha opinião.

(…)

Saímos do shopping levemente queimados, pouco depois das três e meia. Meu plano era estar de volta ao IGP antes das três, para dali rumar para um cartório, onde deveria executar a segunda parte da minha missão: obter uma cópia autenticada.

Essa odisseia toda começou porque eu precisava anexar uma cópia autenticada de um documento de identidade a uma papelada destinada a certos fins. Tentei usar minha carteira de motorista, mas dois tabeliães se recusaram a autenticar uma cópia do documento porque o número ‘1’ da data ’13/08/2017′ estava praticamente apagado no original, e simplesmente não aparecia no xerox.

Eu poderia – e deveria – renovar a carteira de motorista? Lógico que sim. Todavia, DETRAN/SP não realiza a renovação de CNH de outro estado, de modo que teria as seguintes opções: a) solicitar uma transferência de CNH e, levando em conta que vence em menos de dois meses, logo em seguida renová-la; b) tirar uma primeira via, provavelmente tendo que fazer aulas, cursos, pagar exames e coisas do tipo; c) ir até Porto Alegre só para renová-la: que foi a primeira coisa em que eu pensei.

Todavia também me ocorreu que esse processo, independente de ser realizado em Porto Alegre ou São Paulo, demoraria pelo menos uma semana – e eu precisava do documento meio que JÁ.

Then came the RG solution.

(…)

Chegamos no IGP umas vinte, quinze pras quatro. Não notei de primeira, mas aos poucos foi ficando mais claro que havia algo de estranho no ar. A sala parecia mais vazia, menos viva, embora houvesse agora muito mais gente do que quando havia passado por ali de manhã.

Tinha duas pessoas na minha frente na fila para retirar o documento pronto. No guichê ao lado, onde se iniciava o processo, uma família vestida toda de Grêmio recebia instruções e reprimendas sobre o registro de um bebê. Reparei que o marido parecia indignado com a impossibilidade de fazer o RG da criança e, a princípio, pensei que fosse por conta da sua idade por demais tenra. Mas aí eu percebi: o silêncio esquisito na sala vinha dos monitores, computadores e luminárias desligados. O IGP estava sem luz.

Tinha uma pessoa na minha frente na fila pra retirar o documento pronto. Eu ouvia os funcionários justificando para os seus colegas e para os clientes que não havia previsão de volta de luz então não dava pra garantir mais o atendimento naquele dia. Algumas pessoas começavam a ir embora, outras permaneciam imóveis e resolutas. Mais gente ia chegando. Uma funcionária disse algo como “tá, mas o que é que a gente vai fazer com esse pessoal que tá aqui e que não quer ir embora?” e um guardinha resolveu impedir que novas pessoas entrassem tentando puxar uma pantográfica de ferro pra bloquear a entrada.

A funcionária que atendia o meu guichê ficou uns 10 segundos conversando com outra funcionária antes de olhar pra mim e, sem dizer uma palavra, pegar o comprovante de pagamento das minhas mãos e ir até o escaninho das identidades. Letra A. Ela puxa um bolo, dobra se fosse como um maço, e vai olhando as fotos como se contasse notas, até chegar na minha lata. Ela me alcança o documento, não me olha, e grita para o guardinha que não vai mais dar documento nenhum pra ninguém, que hoje acabou.

Nisso já brotou pequena confusão lá fora. Dez ou quinze pessoas gritando “é brincadeira” e fazendo piadas de tiozão agressivo. Eu fui a última pessoa a retirar seu documento aquele dia. Saí fincado e fiquei pensando: e se eu tivesse demorado dez minutos a mais no almoço? Teria pago a taxa de “até 3 horas” para retirar quase em 24. Isso não teria sido de todo mau, porém teria ferrado com os meus planos.

Mas nem precisou: quem ferrou com meus planos fui eu mesmo.

Em vez de procurar um cartório, voltei pra casa com Sandrinha, fiquei de papo até meu irmão chegar e, juntos, fomos jantar sushi no Bom Fim.

(…)

Bom mesmo o tal Sambô: peixe fresco e farto, e pratos quentes igualmente excelentes. Iscas de lula empanadas no panko, bolinhos de arroz com salmão, polvo com cebola e ervilha torta: barbarica, my youth. Polvo, atum, salmão, peixe branco: nada de extravagante, tudo muito gostoso. Arroz (sushi) ótimo, alga crocante, quase nada de cream cheese em 30 e vários makis. Incomoda um pouco o atendimento surfista amigão (acho meio palha forçar intimidade), mas também não chega a estragar. Tá valendo pela função. Até porque foram muito churros e meteram o jogo do Grêmio no telão totalmente na parceria telepática, posto que nem deu tempo de sugerir essa preza em tom de troça pra ver se colava.

Na volta pra baia, vimos os últimos 20 minutos da Máquina Tricolor ganhando de 2 x 0 do Coritiba com o clássico “gol do Fernandinho” (até onde eu me lembro, todos os gols do Fernandinho são exatamente iguais: um pombo sem asa na diagonal pra cima). Sentamos com a Sandrinha e fumamos uns buds e tomamos umas cevas na sala da nossa infância, que não é mais a sala da nossa infância, só fica no mesmo lugar.

(…)

No dia seguinte acordei cedo pra autenticar o documento que estalava de tão novo. Fui até aquele cartório ali perto do HPS, quase na esquina da Venâncio com a Osvaldo, paguei 13 reais por uma fotocópia, dois selos, duas assinaturas – e não entendi muito bem porque o amigão fez duas em vez de apenas uma, mas vamo que vamo. Em dado momento adentrou o recinto Ibsen Pinheiro. As pessoas o cumprimentaram e celebraram. “Esse é um cara bom,” disseram. “Mas foi sacaneado.”

Tinha ido de Cabify até o cartório, resolvi voltar de Cabify até em casa. Mas aí o sacaneado fui eu. E pelo Cabify. “Cartão negado” era o que a mensagem dizia. “Entre em contato”. Tentei reiniciar o aplicativo. Deletei e baixei de novo. Cadastrei o cartão mais uma vez. Ainda negado. Cogitei chamar um 99pop, mas: o serviço ainda não opera em Porto Alegre. Uber eu não pego mais. Táxi por táxi, pensei, não vou chamar no aplicativo, vou caminhando até um ponto que tem uns quatro ou cinco por aqui – e foi bem o que eu fiz.

Taxista gigantesco com sotaque mastigado tinha cursado história e veio debatendo política de um ponto de vista profundamente Gravataí – no bom sentido. Foi uma das grandes conversas que tive na vida. Deu vontade de filmar, mas também deu vontade de não desperdiçar aquele momento desse jeito. Melhor fervendo na lembrança, e só.

Sei que nisso tudo eu ainda escrevi pro suporte do Cabify (nota: 14h depois, ainda sem resposta) e a batera do celula foi comendo: solta.

Fiquei um tempo em casa de bobeira trocando uma ideia com a Sandrinha até que deu uma e meia e resolvemos sair pra almoçar. Na saída reparei que persistia um movimento de guindastes e caminhões e cones e operários de capacete na nossa rua que tinha notado quando saí mais cedo, mas não prestei muita atenção. Foi a Sandrinha quem apontou o que estavam fazendo: trocando os postes da rua. Que negócio maluco uma máquina com um braço arrancando um POSTE do chão e colocando outro novo no lugar. Nunca tinha visto algo assim.

(…)

É um dos meus restaurantes afetivos, o Tirol. Fomos inúmeras vezes jantar em família, e até a recepção da minha formatura foi lá. Mas não sei. Nos últimos anos tudo foi ficando mais triste pra mim. Hoje a salada estava murcha e cansada, e quase todas as carnes (entrecot, lombinho de porco, filé) meio esturricadas e horríveis, com a honrosa exceção do contrafilé, que estava churros. Todavia que conceito o “rodízio de grelhados”. Acho que um dia até já foi, mas atualmente não é mais pra mim esse lance de encher a cara de carne nesse nível. Não chega nem a fazer sentido, no fim das contas. Estava meio vazio, o salão, e Sandra Annenberg gritava com força as notícias, produzindo algum eco. Meio escuro, também me pareceu. Mas enfim: valeu pelo contrafilé.

(…)

Pegamos um táxi pra voltar pra casa. Motivo: ciclofaixa. O Cabify que nos trouxe na vinda (chamado por Sandrinha) parou bem em cima dela, bem quando vinha um ciclista, e nenhum de nós gostou da ideia de repetir a situação. Então atravessamos a rua e caminhamos alguns metros até uma esquina onde a ciclofaixa não chegava. Esperamos ali até aparecer um carro, fizemos sinal, entramos.

Chegando em casa, minha primeira providência foi procurar uma tomada para carregar o celular, que estava com 7% de bateria àquela altura.

Encaixei os pinos e: nada. Despluguei e repluguei as duas pontas, duas vezes, e então troquei de tomada. Ao obter os mesmos resultados, me ocorreu acionar um interruptor. Nada aconteceu. O motivo? Como estavam trocando os postes da rua, estávamos temporariamente sem luz. Era bastante óbvio, né? Estávamos sem telefone também. Sem internet. E, por algum motivo, sem 3G.

Por uns dois segundos pensei: não acredito que não vou conseguir chegar no aeroporto.

Todavia Sandrinha, por sorte, possuía tanto 57% de bateria no celular dela quanto um sinal 4G que, se não era dos mais robustos, pelo menos existia.

Ordenamos a vinda de um Cabify, em pouco mais de meia hora eu estava pisando no terminal antigo do Salgado Filho e Sandrinha recebia o aviso de uma cobrança de 20 e poucos pilas no seu celular. Procurei o balcão para imprimir a passagem só para poder entrar na sala de embarque e, uma vez dentro, encontrei uma torre de tomadas, conectei meu celular e: não aconteceu nada.

Entre todas as torres disponíveis, eu consegui escolher justamente a que não funcionava.

Cerca de oito segundos depois estava sentado em outro lugar, com o celular plugado em outra tomada, sendo lentamente alimentado pela energia elétrica – que também havia acabado de ser restabelecida na Medianeira, me avisava Sandrinha.

(…)

O voo estava totalmente lotado. Sentado ao meu lado veio um otário que, não satisfeito em não desligar um celular quando as portas da aeronave se fecharam, não desligou DOIS, e veio, até o avião LITERALMENTE decolar, trocando ideia com umas três minas e conversando com alguém que tinha feito alguma merda no trabalho com potencial de lhe foder muito feio, pelo que deu pra entender.

Assim que o avião se aproximou da pista em Guarulhos ele já ligou os dois celulares. Num deles pipocaram uns vinte avisos sonoros e, em seguida, o outro tocou. Ele atendeu, de pé, abrindo o compartimento de bagagem enquanto uma aeromoça pedia para que todos permaneçam sentados até que o avião pare – alerta que ele ignorou solenemente.

Todavia, o amigão tinha um bom motivo para estar daquele jeito; pelo que deu pra entender, um mandado de prisão contra ele havia sido expedido, e provavelmente ele sairia dali dentro de um camburão.

“Eu não tô acreditando que vou sair daqui dentro de um camburão”, foi a última coisa que ouvi ele dizer antes de descer pela porta traseira.

(…)

Eram quase 19h, e pensei que talvez fosse bem mais sensato matar um tempo comendo algo no aeroporto do que enfrentar o trânsito de volta pra casa bem na hora do rush. Ouvi alguém falando no telefone enquanto mijava dizendo que ainda demoraria entre 1h30 e 2h para chegar em casa. Resolvi consultar o site da CET em busca de informações e não me pareceu que o trânsito estivesse especialmente terrível – principalmente levando em conta que era uma sexta, à noite, e eu viajava no contrafluxo, querendo chegar em São Paulo.

A taxista era mulher, e me contou história extrema sobre como seu filho, que hoje estuda numa universidade americana graças a uma bolsa de estudos que ganhou pela sua habilidade com o futebol, quase se tornou vítima de uma quadrilha internacional de tráfico de pessoas aos 18 anos de idade. Também me falou sobre o caso de uma menina que foi levada por uma estranha para um banheiro no aeroporto, onde teve seu cabelo cortado e a roupa trocada e depois sumiu sem deixar rastros.

Pegamos bastante trânsito nos primeiros dois quilômetros, se tanto. Depois aliviou e veio macio. Em menos de uma hora eu estava em: casa.

(…)

Fiquei feliz de chegar em casa.

Meio triste de não ter conseguido cumprir a terceira e última fase da Missão Porto Alegre, que era: entregar a cópia autenticada da identidade e todo o resto da papelada ao meu contador. Fiquei triste porque a tarefa agora terá de ser cumprida pelo meu irmão que, no momento, está se estourando pra consertar o telhado da sua casa, e já está se fudendo bastante por conta disso.

Mas enfim.

Acontece.