discografia afetiva I

Disclaimer aqui.

Caetano Veloso – Caetano Veloso (1971). Achei curioso não ter tantos discos do começo da carreira da Caê na discoteca de Flavito, o que, pensando bem, até que faz sentido, posto que só fui ouvir Transa, por exemplo, na altura dos vinte e vários anos (e só bateu mesmo depois dos trinta). O polaco gostava mesmo era da fase Circuladô e Velô e coisa e tal. Esse é um dos raros exemplos: o disco que o Caetano compôs no exílio na Inglaterra nos anos 70. Fortemente melancólico, levemente chatuba, não me comoveu. Não lembro também do Flavito ter ouvido muitas vezes, exceto por London, London. Essa rolava lá na baia. Eu lembro até de ter decorado o refrão, uma das primeiras frases que aprendi em inglês. Talvez ele só tivesse comprado o disco por London, London, talvez só tocasse essa música. Por que não? Isso nunca tinha me ocorrido, mas agora ocorreu. Talvez. Não lembro mesmo de nenhuma das outras músicas, da tristeza extrema contida neste álbum (um mérito), da música meio monótona (demérito), da pronúncia macarrônica (traço quirk que pode pender pra qualquer um dos lados, dependendo dos seus gostos).

Realce – Gilberto Gil (1979). Que discaço. Flavito ouviu demais esse álbum, a ponto de ter um arranhão que mais parece um talho de faca no lado B (que, todavia, não fez o disco pular, apenas acrescentou estalos quase imperceptíveis a uma ou duas faixas). Muita música linda – a faixa-título Realce, Sarará Miolo, Superhomem, a canção e Marina entre as minhas preferidas -, uma crowdrocker com rising action invejável (Toda menina baiana) e o sensacional cover de Bob Marley, Não chores mais. Não lembrava que essa música estava nesse disco, mas ouvi-la me fez lembrar que Flavito achava um toque absolutamente genial de Gil a parte da letra que diz “ob-observando”. De repente me dei conta que talvez ele tenha morrido sem saber que o toque de genialidade era, na verdade, de Bob, que já tinha cunhado “ob-observing” na sua original.

A Arte de Chico Buarque – Chico Buarque (1976). Embora não seja grande fã de Chico Buarque e, até algumas horas atrás, possuir grande birra para com sua obra (sobretudo por conta de sua voz), trouxe 3 discos dele (Meus Caros Amigos, o álbum de capa vermelha de 1984 e a coletânea A Arte de Chico Buarque) para o deleite de Petite, que admira o bardo. Este álbum duplo traz os principais sucessos do amigão até 1976 – que já era coisa pra caralho. Fui obrigado a remover meu chapéu. Que bonitas as melodias do Chico. E tudo casa bem com a voz dele, pelo menos até essa época. A audição de Joana Francesa me transportou de volta às tardes de domingo de inverno quando, após o almoço, Flavito sentava em silêncio numa poltrona e ouvia discos fumando, de olhos fechados, eventualmente cantarolando algum pedaço.

Mahavishnu – Maha Vishnu Orchestra (1984). Esse eu olhava a letra branca fininha na capa preta, lia o nome e já pensava numas cítaras arregaçando, posto que confundia com Ravi Shankar – que Flavito também admirava e possuía. Não sabia nada sobre essa banda e não lembro de Flavito ter ouvido sequer uma vez na minha presença, mas é aquele jazz fusion dos anos 80 que ele, por algum motivo, curtia demais: também tem altos Jean Michael Jarre, Stanley Jordan e Fausto Papetti na discoteca dele, mas estes não trouxe (embora tenha vindo um Amandla, do Miles Davis, que surfa delícia nessa onda).

Gala 79 apresenta o melhor de Isaac Hayes – Isaac Hayes (1979*). Não sei absolutamente nada sobre Gala 79 e a internet não colaborou muito em prover resposta, apenas sugerindo tratar-se de selo responsável pelo lançamento de coletâneas diversas de música setentista, incluindo Secos & Molhados, Creedence Clearwater Revival e Chico Anysio, além de seletas de sambas e de trilhas sonoras de novelas. Independentemente de qualquer coisa, lembro demais do Flavito ouvindo esta pepita e PELA MÃE DO GUARDA, que negócio espetacular. Botar esse disco pra ouvir o tema de Shaft e Walk On By explicou muita coisa sobre o clique inicial dos meus gostos musicais mais persistentes. Que sonzeira demolidora. Onde quer que esteja, Flavito (nem que apenas em minhas lembranças): thank you for that, my soulman. Cafe to Regio’s. Agora eu lembro. Agora eu sei. Que coisa.