Curioso pensar que rap (rhythm and poetry), em português, também é rep (ritmo e poesia).
Mais curioso ainda constatar que uma novíssima geração de rappers brasileiros está conseguindo realizar o sonho dourado das gerações passadas: a criação e manutenção de um mercado independente forte, baseado em batalhas de freestyle, vídeos no YouTube e presença nas redes sociais, sem a necessidade de interferências externas, gravadoras e jabás.
Nas últimas semanas, após cair acidentalmente num vídeo de um cypher (termo usado originalmente para designar uma batalha de freestyle, mas que no hip hop brasileiro de 2017 é sinônimo de um single, sempre em formato vídeo, em que vários artistas do gênero colaboram rimando juntos sobre uma mesma base) chamado Poetas no Topo, comecei a me inteirar sobre o trabalho de gente que está na cena há pouquíssimo tempo, mas já vem fazendo um estrago considerável.
Só esse vídeo, por exemplo, que traz Makalister (SC), BK (RJ), Menestrel (DF), Djonga (BH), Sant (RJ) e Jxnvs (RJ) rimando sobre uma batida de Slim (RJ), da Brainstorm Studio, tem mais de 6,6 milhões de views em pouco mais de 3 meses. A continuação, com outros rappers como Coruja BC1 (SP) e Baco Exu do Blues (BA), está quase batendo os 10 milhões na metade desse tempo. Vídeos solo de qualquer um desses caras, bem como seus álbuns digitais alcançam 1 milhão de execuções na mesma plataforma sem muito esforço. Os do Froid (DF), por exemplo, contabilizam entre 5 e 7 milhões de visualizações CADA sem que você jamais tenha visto suas fuças na TV, lido suas frases no jornal nem escutado sua voz no rádio.
O ponto é que tem um movimento enorme surgindo aí, alheio ao mainstream, pouco notado pela mídia tradicional, e trazendo a seguinte vantagem adicional e inesperada no pacote: graças às letras extremamente complexas e cheias de referências que esses caras estão escrevendo, tem muito moleque por aí falando em metáfora, figura de linguagem e rima multissilábica, considerando ser inteligente uma coisa boa.
Como nada nunca é perfeito, a contrapartida mais nociva dessa nova cultura são os fan boys e os haters, gente que passa o dia brigando nas caixas de comentários ou defendendo (chupando o saco) ou atacando (chutando o saco) seu MC preferido de maneira quase sempre mortalmente ridícula.
Quando paro pra pensar nisso procuro dar um voto de confiança e uma colher de chá, posto que o grosso da massa ainda é formado por uma rapaziadinha muito juvenil, saindo da adolescência ou se aventurando nos primeiros anos da vida adulta. Muito ou pouco, todo mundo sempre aprende. Deixa o tempo agir.
De todo modo, ando bem feliz com o que vem produzindo os rappers brasileiros da segunda metade dessa década. Bases excelentes, letras ainda irregulares – embora isso signifique que para cada catástrofe há também um clássico sendo escrito -, mas cada vez mais uma busca muito consciente de lapidar cada produção rumo à excelência total. Menção honrosa nesse time de destaque da novíssima cena para os ouvidos deste seu Dido: PrimeiraMente, Síntese e Rincon Sapiência, todos de São Paulo; e Don L, de Fortaleza.