Disclaimer aqui.
Amandla – Miles Davis (1989). Estranho como o Flavito tinha esse gosto amplo no tocante ao jazz: na discoteca dele tinha dixieland, tinha standard, mas, principalmente, tinha essas loucuradas fusion dos anos 80 que eram, em grande parte, vamos admitir, meio chatonas. É tudo uns stabs, uns cowbell, aquele baixo do Seinfeld (nesse caso é do Marcus Miller, but still) e umas corneta meio desconcertante por cima de uns efeitos de robô passando mal. Não conversa muito comigo. Apesar disso tudo, sempre gostei muito de uma faixa grandona chamada Big Time, e foi bem bom ouvi-la de novo.
Airport Love Theme – Vincent Bell (1970). Um dos clássicos absolutos da minha infância. Eu tinha um pouco de medo, um pouco de fascinação por ele – e o Flavito escutava bastante. Aquela guitarrinha psicodélica que parece líquida é uma das lembranças sensoriais mais fortes que tenho. Lembrava com mais força da faixa-tema, mas o disco inteiro é muito bom e, aparentemente, bastante raro também. Ouvi-lo é uma boa forma de evocar a imagem da masculinidade adulta idealizada que eu tinha quando criança: cigarros finos tirados de um maço dourado, um apartamento esfumaçado com sofá de couro liso, quadrado, caramelo, janelas noturnas bem servidas, uísque com gelo num copo baixinho, uma mulher enfiada num penhoir mastigando uma piteira. Que criança eu era!
Luz – Djavan (1982). Neste ponto sou obrigado a fazer um mea culpa. Quando alguém taxa Djavan de chato na minha frente, tendo a defendê-lo com forte convicção. Pois essa convicção foi severamente abalada após ouvir este álbum que, de bom mesmo, só tem a espetacular Sina e a maravilhosa Samurai – ambas tão extremas que quase compensam o fato de todas as demais músicas serem absolutamente tenebrosas. Nem consigo lembrar direito das letras ou das melodias. Quase não deu pra escutar até o fim. Eu tinha uma memória afetiva muito mais favorável ao bardo das Alagoas. Veja só como são as coisas.
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – Beatles (1967). Outro dia o disco fez 50 anos, lembrei que tinha trazido um exemplar surradão nessa leva de vinis da casa dos meus pais e fui sacar da embalagem pra botar na vitrola quando tive duas surpresas. A primeira: aquela página com uns desenhos para recortar – incluindo um bigode pra pendurar debaixo do nariz – que não lembro de ter visto quando era criança. A segunda: no selo do disco, uma assinatura do Henrique Schucman, o famoso tapeceiro do Pouso do Tapeceiro, da praia da Gamboa/SC. Enquanto ouvia o vinilzão pesado e grosso de 1967 (edição nacional) ficava me perguntando: “será que Flavito pegou emprestado o disco do Henrique e nunca mais devolveu?” Gosto muito do disco e acho todo ele bom, mas o ponto alto foi ouvir a “reprise” da faixa título e perceber que foi justamente ali que desenvolvi meu gosto pela música eletrônica (por conta do beat absolutamente fatal). Thanks, Ringo.
Portrait in Music – Burt Bacharach (1971). Sempre curti demais o easy listening do Burt, que é, disparado, o cara que fez as músicas mais fáceis de ouvir que eu conheço. Não lembro de uma que eu não goste. Esse disco em particular, todavia, não havia me tocado muito, posto que esperava que fosse todo instrumental, e estava repleto de uma cantoria sem muita graça. Todavia, escondido no finzinho do lado B havia um grande presente para o Dido: a faixa Any day now. Alguns anos atrás, acordei com a melodia do saxofone (ou clarinete) que sola no comecinho dessa música, sem saber que era dela. Procurei alguns dias na internet, assobiei pro SoundHound, tudo sem sucesso. Então liguei pro Flavito e cantarolei a melodia pra ele. Ele não reconheceu de imediato, mas achou familiar e foi procurar. Durante semanas, toda vez que eu ia almoçar na casa dos meus pais, ele me mostrava algum disco do Fausto Papetti, do Stanley Jordan, ou do Santana, crente que tinha encontrado aqueles acordes. Nunca era ela. Depois de algum tempo, paramos de procurar. Hoje, quando finalmente a encontrei, deu uma vontade enorme de ligar pro Flavito (que não usava Facebook e nem WhatsApp por princípio e teimosia) e, deixando a música rolar de fundo, declarar: “encontrei.” Mas isso não dá mais pra fazer.
South of the Border – Herb Alpert’s Tijuana Brass (1964). Não lembro do Flavito ouvindo esse disco sequer uma vez – bem como não lembro dele ter jamais posto pra tocar os compactos do TRINY LOPEZ, que ele também tinha. Mas lembro bem da capa, do impacto que me causou a logotipia e a essência latina que parecia estar ali contida. Mais velho, ouvi muito remix do Tijuana Brass, de modo que quando vi esse disco na discoteca do Flavito resolvi trazer, mesmo sem jamais ter ouvido. Foi uma escolha meio ruim. É um disco xarope, com versões meio pau mole de grandes sucessos, como Garota de Ipanema e Hello Dolly. Faltou uma pimenta, uma pólvora, um sangue correndo forte ali naquelas veias. Que pena.
Mais – Marisa Monte (1991). Sempre gostei muito de Marisa Monte, e esse disco é quase perfeito. A voz dela está muito bonita, as letras são ótimas (que grande canção é Diariamente). Tenho a vaga impressão de que o Flavito já tinha esse álbum em CD quando alguém lhe deu o vinil de presente. Faria sentido: foi por volta de 91 que ele deu pra mim e pro meu irmão nossos primeiros CDs (Ten, do Pearl Jam e Nevermind, do Nirvana). Acho que ouvimos muito poucas vezes esse disco, portanto – sobretudo ele.
Meus Caros Amigos – Chico Buarque (1976). Não transo um Chico Buarque, como é do conhecimento de muitos. Todavia hoje já aprendi a respeitar como o enorme compositor que é. De qualquer modo, esse era um disco dele que o Flavito ouvia muito. Lembro particularmente de Mulheres de Atenas, música que me enchia de pavor (junto com a música do Cálice e uma que não sei se era o Chico que cantava com a Mercedes Sosa). Por algum motivo associo essa música a um blusão de lã branco que o Flavito teve em algum momento. Não sei explicar o porquê.
Tim Maia – Tim Maia (1970). Mais um disco com história oculta, uma vez que: a) não lembro de ouvir o Flavito tocando jamais em toda sua vida; b) no selo está escrito o nome Ana Maria Czarobai, minha tia, irmã dele. Independentemente disso, trata-se de disco muito formidável, o primeiro do Tim. Tem alguns momentos meio dispensáveis, mas na média é uma sonzeira de altíssima qualidade, sobretudo Eu amo você. Que bom que está em estado perfeito de conservação, sem um mísero arranhão, com os graves totalmente preservados. Que joia extrema.