Lembrei de três histórias mágicas e emblemáticas do Flavito, que ajudam a resumir bem quem ele foi pra quem não teve a sorte imensa de o conhecer:
a) Quando éramos crianças, sempre que tinha festa de aniversário lá em casa, quando a festa acabava, o Flavito pegava eu e meu irmão, a comida que tinha sobrado e, junto com a gente, saía pela cidade num Fusca até encontrar um mendigo, um morador de rua, uma família embaixo de uma ponte e, juntos, doávamos a comida. Não lembro de ter nenhuma lição de moral aí, nenhum discurso. Não tinha um “ó, é isso que vocês tem que fazer.” A gente fazia e só. Passei anos sem lembrar disso. Décadas. Veio uns dois dias depois da morte dele, do nada, enquanto eu tomava um banho. Lembrando disso, eu chorei – mas não de tristeza, e sim de algum tipo de gratidão profunda que não sei nem explicar.
b) Já doente, no hospital, Flavito um dia esperou um enfermeiro muito gente fina que tinha lá sair do quarto, chamou a Sandrinha de canto e disse: “O fulano tá com dificuldades pra pagar a faculdade de medicina, que ele quer terminar pra mudar de vida. Quando eu sair daqui, quero ajudar ele a pagar a faculdade.” Não chegamos a fazer isso e é uma coisa que às vezes me incomoda. Me pergunto se não deveríamos ir atrás desse cara e fazer mesmo isso por ele.
c) Quando o quadro já era irreversível, mas Flavito ainda conseguia falar, beber e comer, ele insistia em fazer a festa de 40 anos de casado no Chez Phillipe, um restaurante francês que ele só foi descobrir mais velho, quando finalmente teve condições financeiras de frequentá-lo. Todos sabíamos que aquilo não aconteceria, mas, para que ele tivesse direito a uma última refeição, inventamos uma pantomima que dizia que o chef enviaria um dos pratos do cardápio para sua aprovação. Acontece que demos o imenso azar do Chez Phillipe estar fechando as portas definitivamente naquela semana. A família retornaria para a França, estava vendendo os móveis e equipamentos, provavelmente imersa em burocracia e dor de cabeça (sem contar a frustração). Mesmo assim, quando Petite ligou para lá e explicou a situação, o chef – que não nos conhecia, não tinha a menor intimidade com nenhum de nós – parou tudo que estava fazendo para cozinhar um filé espetacular com purê e legumes e um creme brulée para o Flavito. Nunca pude agradecê-lo por isso, mas que ser humano maiúsculo foi Phillipe Remondeau. Fiquei com ainda mais pena da cidade perder alguém como ele. Quando chegou o prato e o levamos até Flavito, a primeira coisa que ele fez foi: cortar um pedaço da carne e oferecer a TODOS que estavam ali antes de dar ele a primeira garfada.
Acho que isso resume bem.