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Não voto desde 2002 e, mesmo naquela ocasião, votei bastante receoso após ter visto o Lula subindo no palanque abraçado a vários inimigos clássicos. Mesmo reconhecendo que os seus dois governos tenham, de fato, promovido avanços louváveis em diversas áreas, nunca mais consegui assinar embaixo de nenhum projeto político. Nunca me desceu bem esse papo de que as alianças eram “pela governabilidade”, e tudo ficou ainda mais terrível a partir do episódio do Mensalão e todos os demais escândalos que foram piorando em grau exponencial desde então, chegando a esse estado de caos absoluto, em que nada faz mais o menor sentido desde, pelo menos, outubro de 2014.

Vários amigos me repreendem ferozmente quando encho a boca pra dizer que não voto. Acham que estou abrindo mão de algum direito sagrado conquistado com muita luta, pensam que estou me alienando de processos que me afetam independentemente da minha participação. Respeito a opinião de todos, mas ainda não consegui encontrar um bom argumento a favor de exercer minha cidadania desta forma – pelo menos não do jeito que o sistema é estruturado. Atualmente, eleger uma pessoa é basicamente passar um cheque em branco, uma procuração total. Não há nenhuma contrapartida. Tu me pede o voto, eu te dou o meu voto, tu te elege e fim: tu não precisa fazer mais nada. É como se alguém me contratasse pra traduzir um livro, me desse um prazo, no final desse prazo eu não entregasse nada, ou só uns dois ou três capítulos e, mesmo assim, eu não apenas não perdesse o meu trabalho como ainda ganhasse o dinheiro combinado no início – e com chances de, num futuro próximo, ser comissionado para uma nova tradução.

Semana passada descobri uma ferramenta que a Folha de São Paulo criou para monitorar as promessas de campanha de João Dória, disparado o pior prefeito de São Paulo de todos os tempos – e ele mal tem seis meses de mandato. O jornal contou 118 promessas das quais, até agora, João Trabalhador honrou apenas DUAS – o aumento da velocidade nas marginais (que aumentou grotescamente o número de acidentes, inclusive com mortes) e a liberação para tráfego de veículos num trecho de uma via anteriormente fechado (e que ele só reabriu porque leva da sua casa até a sede da prefeitura).

Buenas.

Meu ponto é: não existe absolutamente nada que obrigue nosso gestor (ou qualquer outro ocupante de cargo eletivo, diga-se de passagem) a cumprir as 118 promessas de sua campanha. Há casos abundantes de deputados que estão no quinto ou sexto mandato e que, nesses vinte ou trinta anos no congresso, jamais aprovaram um projeto relevante sequer. O mesmo certamente se aplica a senadores, prefeitos, vereadores, governadores e afins.

Daí eu penso o seguinte: é pra isso que serve meu voto? É por isso que ele é tão importante?

Minha posição nesses últimos anos tem sido: só volto a participar da festa da democracia no dia em que o sistema obrigar o queridão que se propõe a ocupar um cargo público a protocolar um número mínimo de promessas que terá um prazo determinado para cumprir. O não cumprimento das promessas dentro dos prazos levaria, naturalmente, à perda do cargo. Aí a coisa começa a ficar mais equilibrada. Tu vota no cara com a garantia de que ele vai se esforçar para fazer o que prometeu e, se não fizer, vai ter que desocupar a moita para que algum outro faça.

Todavia, ninguém parece perceber isso.

No meio de toda essa grita por DIRETAS JÁ que anda rolando, as pessoas estão muito preocupadas em votar novamente nos mesmos caras, que vão seguir (quase) as mesmas regras, nos contando (quase) as mesmas mentiras (a mais pesada de todas, e que quase ninguém questiona: o seu voto é importante). Ninguém fala em mudar as regras, em mudar o sistema, a estrutura. Loucura, já disse alguém, é fazer sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes. Do modo que eu vejo a realidade, tem muita gente muito louca por aí.

Sei muito bem que nem o meu voto nem a minha opinião (1 entre milhões) importa. Nem pra mim e nem pra ninguém. Então prefiro continuar viajando nos dias de pleito e justificando ausência enquanto conheço algum colégio obscuro num bairro remoto qualquer, ou simplesmente me dirigindo à minha zona eleitoral original pra meter um nulo ou branco malandro pra me eximir da sensação de gado feliz entrando no corredorzinho pra levar marretaço na cuca.

Infelizmente vai seguir assim, até o dia em que alguém entrar numas de criar regras para que as pessoas que mais deveriam trabalhar neste (e em qualquer outro) país efetivamente trabalhem.