essas coisas acontecem

Começou a esfriar no fim do dia e eu abri a janela pra sentir uns arrepios. De repente, comecei a ouvir também os berros lamentosos de um adulto em meio a gritaria habitual das crianças voltando da escola. Daqui de dentro, parecia que os pequerruchos estavam fazendo mal a um doente mental ou craqueiro – que era a minha principal aposta, posto que sua presença aumentou vertiginosamente na minha região desde a operação totalmente sem sentido do nosso indigesto gestor.

Não era nada disso.

Na entrada da garagem do prédio em frente havia um homem de mochila, ajoelhado e com a cabeça no chão, gritando de forma dolorosa alguma coisa de cunho vagamente religioso (talvez por que, ó, pai? ou me ajuda meu pai). A trinta metros do chão é mais difícil de ouvir. Por alguns instantes, nada mais aconteceu. Quem passava perto, desviava do homem ou o ignorava. Alguém dum andar baixo do prédio saiu na sacada para ver o que acontecia. O cara seguia lá.

Não chegou nem a fechar um minuto e do outro lado da rua veio atravessando um cara jovem, negro, de camiseta, se ajoelhou ao lado do maluco, fez ele sentar e os dois começaram a conversar. Deu pra ver que ele tinha um monte de peças de tecido branco com ele, possivelmente panos de prato. Do salão de cabeleireiro ao lado, emergiram duas moças, uma delas trazendo um copo d’água. Em questão de segundos, oito ou de dez pessoas, a maioria mulheres, se aproximaram do cara, conversaram com ele, compraram panos de prato ou simplesmente lhe deram algum dinheiro. Aparentemente teve um zé ruela de terno preto que veio sei lá de onde e deu uma enchida de saco na rapaziada, mas pode até ser que não tenha sido isso.

A verdade é que daqui de longe não deu pra captar os pormenores do episódio, e muito menos pra julgar se era um golpe ou o mais puro desespero. De todo modo, fiquei bastante comovido em ver tanta gente partindo em socorro de um completo desconhecido às cinco e meia da tarde de uma terça-feira de maio de 2017 na cidade de São Paulo. Que bom quando essas coisas acontecem.