nem tudo está perdido

Estou em Porto Alegre há algumas horas. O céu está muito azul, o vento está muito frio e a cidade parece essencialmente a mesma, exceto por um pequeno detalhe estranho que me chamou a atenção.

Ontem ouvi uma história curiosa da minha mãe.

Falávamos sobre a forte presença de imigrantes africanos na cidade, coisa que até uns 5 anos atrás era algo incomum, e ela então lembrou de um dia em que estava numa agência da Caixa no centro da cidade e avistou uma viatura da Brigada Militar se deslocando lentamente, com três policiais pendurados pro lado de fora da janela, brandindo fuzis e carabinas. Sentado na calçada à frente da agência havia um negro de pele muito escura, com algumas frutas estendidas sobre um pano, uma visão cada vez mais recorrente na região. Ao avistar esse homem, a viatura parou e um dos policiais apontou a arma em sua direção. O africano congelou. Minha mãe também, com receio de que o policial fizesse alguma coisa.

Mas não deu tempo nem de tentar.

Em questão de segundos a viatura estava cercada de populares, que batiam contra a lataria do carro e bradavam xingamentos diversos, além de repetir diversas vezes para que eles se preocupassem em ir atrás de ladrão, não de gente honesta que estava lutando pra sobreviver trabalhando. Assoberbados pelo levante, os policiais foram embora e o africano pôde voltar a vender suas frutas.

Achei a história particularmente tocante por ter acontecido em Porto Alegre, onde o preconceito racial é um pouco menos velado do que no resto do país. Segundo o depoimento da minha mãe, não foram pessoas jovens que partiram em defesa do homem, mas muita gente de idade, tanto comerciantes das redondezas quanto transeuntes, o que aumenta o espanto. Uma mulher bem velha, com dificuldades de caminhar, teria golpeado o capô do carro com os punhos fechados várias vezes.

Curioso como nesses casos quem toma a frente quase sempre é uma mulher. Pra mim faz sentido: um homem leva um tiro muito mais fácil se tentar bater de frente com a polícia. Aconteceu não faz nem um mês, no interior de Pernambuco, durante um protesto pedindo PAZ: havia dezenas de pessoas discutindo com a polícia, um dos que aparentemente estava no comando escolheu um rapaz, chamou um soldado e mandou atirar nele. O rapaz recebeu um tiro na perna e veio a falecer alguns dias depois no hospital. Tudo isso aconteceu na frente das câmeras. O vídeo pode ser encontrado facilmente em diversos sites de notícia. Imagina só quando não tem ninguém vendo.

Paradoxalmente, não sou contra a polícia. Estou plenamente ciente de que o que faz de São Paulo uma cidade mais habitável que Porto Alegre atualmente é a presença do efetivo policial nas ruas. Sempre que venho pra cá faço o mesmo desafio: conto quantos dias preciso andar pela cidade até encontrar a primeira viatura ou brigadiano. Na média são precisos pelo menos 3 dias para que isso aconteça. Certa feita, num dezembro triste, passei inacreditáveis 11 dias andando pra cima e pra baixo, da zona sul à zona norte, da leste à oeste, a pé, de carro e ônibus até ver a primeira viatura verde musgo.

Em São Paulo, a contagem nunca supera os 5 minutos.

Dessa vez, todavia, fui recebido em minha terra com uma forte surpresa: menos de 2 minutos após deixar o Aeroporto Salgado Filho avistei a primeira viatura. Depois disso ainda vi duplas de policiais patrulhando a Farrapos e a Goethe, viaturas (agora mais discretas, em branco) rondando diversos bairros e – como óbvia consequência – um número muito, mas MUITO menor de indivíduos altamente suspeitos pelas ruas. Tudo numa corrida de menos de quarenta minutos entre o aeroporto e a Medianeira.

Uma vez ouvi um argumento muito interessante acerca do papel da polícia: é terrível que a população tenha se desacostumado a vê-los ao seu lado. Grande parte dessa distorção entra na conta da criminalização do uso de drogas, já que em pleno 2017 já ficou mais que evidente que os viciados não são um grupo etéreo hipotético, mas sim algo extremamente homogêneo, que inclui nossos filhos e pais, amores e amigos. Outra parcela (bem menor) desse distanciamento decai sobre incompetência, preguiça, preconceito, despreparo e ignorância.

Em suma: claramente a polícia que temos não é a ideal, todavia sua extinção tampouco é a solução. Um sonho dourado seria que as futuras gerações de policiais viessem cada vez mais despidas de preconceitos, fossem melhor treinadas e voltassem a se preocupar com o que os filmes e os livros me ensinaram que deveria ser o seu lema: proteger e servir. Não sei se levo fé nisso. Não sei se levo fé.

Todavia: quero muito acreditar.