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Fui ouvir o tal do Raffa Moreira depois da confusão em que ele se meteu com o Haikaiss meio que esperando que o som fosse uma bosta e ele fosse um cuzão – mas estava duplamente enganado: o som do cara é espetacular e ele está absolutamente correto em tudo que diz.

A treta já era um pouco mais antiga na internet, mas ganhou notoriedade no final de março quando um repórter do G1 o entrevistou sobre a presença do Haikaiss no Lollapalooza e ele reclamou do excesso de brancos no rap brasileiro. Neste momento eu já tinha concordado 100% com o Raffa, posto que: odeio Haikaiss. Acho o som uma merda: letras vazias, vozes horrendas, flow murcho, bases sem alma. E, sim, são todos brancos, aparentemente boys, fazendo cosplay de favela (como diz o Coruja BC1, não necessariamente falando deles, mas, né?). O bom e velho MANINHO DA PUC, em Dids Speak. Eu, que sempre gostei de rap, andava triste há muito tempo vendo que era isso (e Cone Crew, e Felipe Ret, e Projota) que fazia sucesso no Brasil.

Ao mesmo tempo, nunca tinha ouvido falar desse maluco desse Raffa Moreira, e passei uns dias achando que também era mais um MC zé ruela cagadão querendo cavar um espaço na mídia a todo custo.

Como eu estava errado.

Vários dias depois disso tudo, meio distraído, ouvi a segunda parte do cypher Poetas no Topo (convenientemente batizado de “Poetas no Topo 2”) e curti muito o maluco que cantava no começo do som (nem tanto os outros todos), mas meio que passou batido. Lá pela segunda ou terceira audição, todavia, resolvi prestar atenção no nome do cara e me perguntei “Peraí, esse não era o maluco lá que esculachou os Haikaiss?”

Era.

Resolvi jogar o nome do cara no Google, li uma (excelente) entrevista dele pra Noisey (tão boa que acabou traduzida pro inglês e entrou na versão internacional do site) e quando dei por mim já estava há mais de uma hora no YouTube e tinha ouvido OITO mixtapes dele na sequência, todas mais ou menos com 10-15 minutos, contendo 4 ou 5 músicas. Número de músicas ruins: ZERO. Sério. Que troço impressionante esse cara. Não erra UMA.

Sua música é totalmente fora do padrão. Qualquer padrão. Ele diz fazer trap – aliás, se autodenomina “Rei do Trap de Guarulhos”, um título tão incontestável que eu iria mais longe e trocaria Guarulhos por Brasil, simplesmente porque não tem NINGUÉM fazendo nada remotamente parecido no país. Mas mesmo que a gente encaixe o som do Raffa dentro do espectro do trap, ainda assim ele é diferente. As músicas começam e terminam do nada, sem aviso, as melodias oscilam entre o fofinho ensolarado e o sombrio criminoso, sempre abusando do auto-tune e dos climas inacreditáveis. É tudo feito dentro de uma visão muito particular e forte de quem ele é é que música ele faz, ou seja: o cara tem uma voz muito definida, uma persona extrema, um experimentalismo grande. Respeito demais quem é assim, ainda que o trabalho não seja tão bom – até porque me identifico muito, e sinto que me posiciono exatamente assim no universo.

No caso do Raffa Moreira, todavia, além de tudo isso, o trabalho é foda pra caralho. O chamado arregaço.

As letras são muito loucas, as métricas não fazem o menor sentido, e as rimas nem sempre estão ali, mas mesmo assim: funciona. Em vários momentos ele é engraçado pra caralho (Calça apertada, foda-se se é a mesma do clipe, hey/ Eu uso as mesmas calças dos meus clipes pra andar de skate), em outros é straight up gangsta (Eu soube que cê me viu, ficou gelado/ Quis atravessar a rua e eu tava armado/ Você chamou os seus amigos pro seu lado/ Quando eu sacá a peça, corre arrombado). O resultado é um bagulho totalmente surpreendente e viciante, disparado a coisa mais criativa surgida na música negra de periferia no Brasil nos últimos 20 anos.

Recomendo que você entre no YouTube, digite “Raffa Moreira” e saia escutando TUDO que aparecer pela frente. Se tiver que ouvir só uma coisa, ouça a mixtape RAW RAW EMO (assinada como “xYoung Moreirax AKA Skate Draco”), que ele fez em resposta a um ataque de Twitter de um membro do Haikaiss, Pedro Qualy, que desencavou uma foto sua fazendo pose com uma banda emo na qual ele teria tocado no começo dos anos 2000. Em vez de ficar puto, Raffa achou graça: falou que a música emo está entre suas princilais influências e disse se orgulhar de ter tocado na banda (nota: também já integrou a banca do grupo de pagode Os Travessos). Ainda foi lá e mandou essa mixtape espetacular de resposta. Que tapa de luva extremo.

Se os 11 minutos de Raffa Moreira forem demais prum primeiro contato, tente as músicas soltas (todas encerrando na casa de 2 minutos). Boas sugestões são: Gelo e dois copos, Rockstar, 28 Swag, Print na Briga e Michael Jackson (uma das músicas mais estranhas que já ouvi na vida, mas que está fervendo quente na minha cabeça desde que escutei).

O moleque é estranho, o moleque é maluco, mas o moleque é talentoso, criativo e original pra caralho e: vai estourar (mesmo ele dizendo que não faz questão).

Fiquem atentos.