Ontem à noite tive o que podemos chamar de “crise aguda de tinnitus”.
Acontecia com muita frequência nas primeiras semanas: na hora de dormir, com o silêncio da casa e das ruas, a tendência era que a altura do zumbido aumentasse muito, me deixando incrivelmente perturbadão. Acho que isso acontecia porque o zumbido constante era uma sensação nova, e eu dedicava muito da minha atenção a ela. Por ser nova, era também misteriosa, e me deixava muito aceso imaginando os possíveis causadores da mazela – tumor cerebral? doença degenerativa? desequilíbrio grave do organismo?
Depois de um tempo, com vários exames descartando causas perigosas mais imediatas, fui sossegando o rabo. Acostumei com o som e passei a cancelá-lo com grande facilidade, mesmo em situações de silêncio pronunciado, como na hora de dormir. Ainda percebo um aumento no volume do apito em algumas situações específicas, como quando bebo profissionalmente, se durmo poucas horas várias noites seguiras ou se estou muito estressado.
Ontem, todavia, não me encontrava em nenhuma das duas situações.
Mais cedo, porém, aconteceu algo. É uma coisa que acontece de forma muito episódica, talvez uma vez por ano ou a cada seis meses. Todavia: acontece.
Chamo de “efeito tampão”.
O efeito tampão se manifesta do nada. O cara tá ali, jogando um game, traduzindo um troço, comendo um camarão, fazendo um apoio, curtindo um barato com os amigos e BLIM: um ouvido fica surdão. Na real, não: abafadão. Parece que um daqueles plugs de operador de britadeira simplesmente se materializou dentro do ouvido. Os sons ainda são muito audíveis, porém ficam distantes, filtrados. A coisa toda não dura mais que dois segundos e, assim como veio, vai embora sem deixar – aparentemente – nenhuma sequela.
TALVEZ isso tenha alguma relação com o apito mais alto dessa noite.
Talvez não.
Além do efeito tampão, também rola às vezes o efeito catástrofe, que é quando o cara experimenta um aumento inacreditável do volume do tinnitus pelo mesmo segundo, da mesma forma imprevisível e efêmera. Esse, pela minha observação, tem mais relação com a limpeza do canal auricular por meio de: cotonetes. Eu limpei o ouvido hoje? Dali umas cinco, seis hora vou enfrentar essa hecatombe auricular. Todavia: nem sempre. Mas até hoje, que eu me lembre, não acontece sem eu ter futucado a orelha no intuito de higienizá-la.
Ficaremos de olho.