o caçador de estrelas

Dia 15 de dezembro de 2016 fez um ano que o Flavito morreu.

Hoje acordei com uma dúvida atroz, a mesma que já havia me fustigado os gargomilhos na manhã de ontem: era no dia 2 ou 3 de fevereiro o seu aniversário? Pareceu esquisito não possuir mais essa certeza, e fiquei o dia inteiro me perguntando se devia ou não ligar para minha mãe ou pro meu irmão para tirar a teima. No fim não liguei. Deixei quieto. De repente me ocorreu que não fazia muita diferença de qualquer forma lembrar o dia do aniversário de alguém que já se foi. Especialmente no caso do Flavito, posto que penso no meu pai: todo santo dia.

Fato é que eu queria aproveitar essa data (ou a de ontem, talvez) para contar uma história.

Sendo assim, lá vai:

Impressionante como Flavito segue criando coisas bonitas apesar da tremenda desvantagem de estar morto.

Ano passado tivemos um Natal e um Ano Novo bem esquisitos em família, e não poderia ter sido diferente levando em conta que o havíamos perdido há poucas semanas.

Desde que me conheço por gente ele sempre foi a alma da festa. A esmagadora maioria dos Natais dos Pontes-Czarnobai (e de vários outras combinações de Pontes e Czarnobai) se deram na nossa casa. Era ele quem mais fazia questão. Como gostava de dar uma festa, aquele polaco safado! Como gostava de cozinhar pros outros, escolher a música, acolher quem chegava com um uisquinho, uma vodca, uma mesa cheia de aperitivos. Tinha sido meu Papai Noel da infância, e da infância do meu irmão e de tantas outras crianças depois que deixamos de acreditar na fantasia. Cozinhava bem pra caralho, e sabia receber como poucos. Se eu disser que aprendi tudo que sei com ele estaria mentindo, porque mais sabe o diabo por ser velho do que ser o diabo, e mestre como era, tenho certeza de que jamais entregou todo o jogo.

Este ano, pra dar uma refrescada em nossos corações e dar início a uma nova tradição, resolvemos fazer a festa de Natal na minha casa, que agora é, e pelos últimos cinco anos tem sido, um apartamento em Santa Cecília, na gigantesca cidade de São Paulo. Viriam minha mãe, meu irmão, a mãe da Marcela e um de seus irmãos. Não era ainda o time completo, mas tudo bem: já era um começo. Sem entrar nos pormenores da festa, seus bastidores e resultados, direi apenas que foi um grande sucesso. Flavito teria ficado tremendamente orgulhoso. Certamente seria a pessoa que mais teria gostado de tudo se tivesse podido estar aqui em corpo – posto que em espírito certamente estava presente.

Antes disso, entretanto, aconteceria algo que me faria lembrar que os principais ensinamentos que um pai pode deixar para um filho são as coisas que não são ditas, que se entranham profundamente na nossa carne e lá dentro ficam agindo pra sempre, em silêncio, até que se evidenciam de surpresa, e no momento certo.

(…)

Voltemos a dezembro de 2015.

Cinco dias após a morte de Flavito, um dos irmãos dele, o Tio Fernando, estava em sua casa (curiosamente também um apartamento em São Paulo, embora não em Santa Cecília) cozinhando o luto quando teve um estalo. Lembrou, de repente, de toda a melodia e grande parte da letra de uma música que Flavito havia composto no começo dos anos 70, para algum tipo de festival que faziam na PUC/RS.

Totalmente em chamas com essa lembrança repentina, Tio Fernando teve uma ideia. Entrou em contato com um dos filhos, o Cláudio, que mora em Santiago do Chile, e ensinou a melodia da guitarra pra ele. Falou também com a Fernanda, a outra filha, que mora em Berlin, e ela elaborou uma linha de baixo. Meus primos, que tocaram por anos em diversas bandas de punk e metal, ativaram seus contatos em São Paulo e conseguiram horas de estúdio para que o Tio Fernando gravasse os vocais. O baterista da banda punk Calibre 12 operou a bateria.

No dia 18 de dezembro de 2016, Tio Fernando fez um churrasco. A casa estava cheia, e as barrigas de todos também. Tomávamos café. Lá pelas tantas ele disse “André, escuta só esse som.” Ele sempre me apresentou uns sons altamente furiosos – Me’Shell Ndgeocello e El Cuarteto de Nós, entre outros -, então eu já esperava que gostaria do que quer que ele fosse tocar ali.

O som começou e era, de fato, muito excelente.

Minha primeira reação foi perguntar: “De quem é isso?”

Ele deu o Sorrisinho Czarnobai. O Sorrisinho Czarnobai é uma instituição provavelmente milenar, certamente secular, que consiste em cerrar os dentes, abrir a boca e manter os dentes na mesma posição, fazendo um mandrake com os olhos e a cabeça que aí é mais difícil de explicar – mas se você já viu alguma vez você sabe exatamente como é. Usa-se esse expediente de muitas maneiras, geralmente humorosas, mas a principal delas é quando tu não sabe que não pode responder aquela pergunta naquele momento. Seja pra não dar o braço a torcer, não se entregar numa discussão, não admitir um pequeno deslise ou não estragar uma surpresa. Nesse caso, claro, era o último caso.

“Depois te conto,” ele disse.

Até essa altura eu não suspeitei de nada.

Ouvi mais um pouco, estava começando a balançar a cabeça, achando o som realmente muito bom. Insisti.

“Muito bom, mesmo. Mas sério, de quem é isso?”

Novo Sorrisinho Czarnobai. Novo “Depois te conto.”

Aqui eu já comecei a suspeitar. Sabendo que meus primos são músicos, me ocorreu que talvez eles tivessem feito uma música pra tocar entre eles. Todavia, neste momento ainda era apenas um pensamento, uma possibilidade muito remota.

Mas aí entrou o refrão. Essa parte é muito forte, o baterista arrebenta com tudo, a guitarra faz uma firula muito espetacular, e o vocal acrescenta uma camada de emoção difícil de ignorar. Achei realmente bom pra caralho e tive algum tipo de reação física muito forte, contorcendo os beiço pra baixo e franzindo a testa (aka “the bass face”) enquanto agitava a cabeça e o corpo com mais força e dizia algo como “Bah, muito bom isso aí. O que que é?”

Aí o Tio Fernando não se aguentou e revelou que era a: Czarnoband.

“Isso aí sou eu cantando, certo? E o Cláudio na guitarra e a Fernanda no baixo. E o Oscar, o Czarnobai honorário, na batera.”

“Caralho, muito bom. A música é de vocês mesmo?”

Daí esse momento foi pra quebrar.

“É do Flavito.”

CARALHO.

Minha mãe, minha tia e a Marcela choravam copiosamente. Eu tive uma crise de riso, uma alegria muito esmagadora, difícil de definir. Era mesmo boa pra caralho aquela música, e era o meu pai quem tinha feito. Puta que pariu.

Tio Fernando passou alguns minutos explicando todo o processo que levou UM ANO, envolvendo guitarras gravadas no Chile, baixo na Alemanha e algumas visitas a um estúdio pra gravar os vocais. Em seguida, entregou um CD, com um encarte, para cada um de nós, contendo letra, história e algumas fotos incríveis, que eu nunca tinha visto, uma delas meu pai com uns 20 e pouquinhos, ao lado do Henrique “Tapeceiro”, seu grande amigo de anos e anos, os dois de terninhos, com um violão no joelho, compondo e cantando.

Era exatamente o tipo de coisa que meu pai fazia.

Uma das coisas mais tradicionais das festas de Natal eram justamente esses presentes artesanais que o Flavito aprontava. Um ano era uma fita VHS com os melhores momentos dos almoços de família, outro era um DVD com todas as fotos digitalizadas do começo dos anos 70 até a metade dos anos 2000, no outro uma cachaça de butiá, no outro uma caponata, e assim por diante. A principal característica desses presentes, entretanto, eram as embalagens e os encartes. Sempre havia textos muito maravilhosos e uma diagramação que imitava o produto real, mas com os seus toques pessoais. É famosa a história da vez em que uma garrafa de cachaça de pitanga só embarcou no avião porque os funcionários da alfândega acharam que o selo do Ministério da Agricultura e o código de barras eram genuínos.

Tio Fernando foi lá e fez a mesma coisa.

Foi uma forma muito bonita de manter viva uma tradição que tinha começado com o Flavito, e uma das primeiras vezes na vida que ficou muito claro pra mim o significado de família. Ali tinha envolvido amor de irmão, de pai, de mãe, de tio e tia, sobrinho e sobrinha, primo e prima, cunhado e cunhada, sogra e sogra, nora e genro. Estava tudo ali. Sinto Flavito muito presente em minha vida todos os dias desde sempre, mas naquele momento sua presença foi ainda mais forte. Parecia mesmo que ele estava ali. E, de certa forma, ele estava. Quer dizer, foi ele quem nos ensinou a fazer as coisas assim, a amar desse jeito, a dividir nosso coração com os outros dessa forma.

Nos dias seguintes, ouvi essa música pelo menos umas dez vezes por dia. Toda vez que chegava no refrão, eu tinha uma crise de choro muito intensa. Em parte porque eu ficava triste de ele não estar mais aqui, em parte porque eu ficava feliz por tudo que ele representava ainda estar aqui, em parte por simplesmente me sentir esmagado demais por toda a beleza do gesto – e porque a música era realmente boa pra caralho ainda por cima.

Meu lado místico teve muita dificuldade em ignorar a forte possibilidade de tudo isso ter sido, no fundo, uma manobra orquestrada pelo Fantasma de Flavito em pessoa, posto que era tudo muito ELE aquilo ali. A letra da música, então, falando sobre vida e morte, do jeito que fala, putalamerda.

Meu lado racional, por outro lado, fica imaginando o papel decisivo que a baixa confiabilidade da memória somado à força descomunal das emoções podem ter exercido nesse episódio, fazendo o meu tio, de forma quase acidental, criar uma letra carregada desses signos que conversam nesse nível quase transcendental conosco.

A verdade provavelmente está no meio das duas coisas, aí.

De qualquer forma, a música é essa:

Recomendo a audição acompanhada da leitura da letra.

No mais é isso.

FLAVITO ETERNO: AME-O OU DEIXE-O.