Pseudo-thai Dids noodles

 

No episódio de hoje de La Cuisine Improvisée du Dids, apresentamos a confecção, degustação e julgamento de um delírio semi-oriental batizado de Pseudo-thai Dids noodles.

INGREDIENTES

  • Massa
  • Cebola roxa
  • Cebola branca
  • Lombinho de porco (no formato “frios”)
  • Amendoim
  • Shoyu
  • Melado de cana
  • Molho de pimenta
  • Óleo de gergelim
  • Semente de gergelim torrado
  • Lascas de amêndoa

PREPARO

Numa tigela, misture o shoyu, o melado de cana e a pimenta de sua preferência. O ideal é que o molho fique adocicado, de modo que é importante conservar uma proporção maior de melado (ou açúcar ou mel) do que de shoyu. Corte a cebola roxa em anéis, depois corte estes anéis no meio, resultando num formato de meia-lua. Acrescente as cebolas ao molho, misture bem e deixe descansando.

Pique a cebola branca o mais fino que puder. No meu caso, como sou chinelo, tinha deixado a cebola tanto tempo na geladeira que um grande talo havia brotado dela. Se esse também for o seu caso, pique esse bagulho junto. Fica bom. Na real, tem o mesmo gosto da cebola, eu achei. Enfim. Pique também o lombinho de porco em formato “frios”, desses que se compra em bandejinha no super.

Coloque água para ferver numa panela. Quando ferver, acrescente um pouco de shoyu, só pra dar aquele brilho, e logo em seguida acrescente a massa.

Em outra panela refogue a cebola no óleo de gergelim até dourar, depois baixe o fogo e acrescente as cebolas roxas e o molho de shoyu e melado. Não deixe o molho secar demais, pois o açúcar pode transformar tudo em caramelo, cagando pra sempre a sua receita. Vai no teu feeling de campeão. Quando a cebola começar a dar aquela amolecida, desligue o fogo, acrescente o amendoim e o porquinho picado e dê um bom mexidão. Deixe o bagulho descansar numa outra boca do fogão enquanto a massa finaliza.

Tire a massa do fogo um pouco mais cedo do que você tiraria para que ela ficasse al dente, e escorra, reservando pelo menos um fundinho da água do cozimento. Em seguida, traga a panela de molho de volta ao fogo, jogue a massa ali dentro e vá misturando no fogo baixo, até que a massa finalize seu cozimento, absorvendo o máximo de caldo possível. Se ficar muito seca, hidrate com o fundinho de água do cozimento que você separou – mas não exagere aqui, porque se a coisa ficar muito molhada, das duas uma: ou a comida vai ficar com sabor de pano encharcado de água suja ou a massa vai cozinhar demais e se converterá numa papa horrenda.

Desligue o fogo, ponha a panela numa boca fria e deixe descansar 2 minutos.

Após servir o prato, salpique com as sementes de gergelim torrado e as lascas de amêndoa.

RESULTADO

A massa sugou bastante molho, adquirindo não apenas sabor, como também uma coloração morena muito agradável. A cebola roxa amoleceu sem perder sua crocância característica, e seu dulçor combinou bem com o do melado – que, por sua vez, foi muito bem equilibrado pelo salgado do shoyu. O amendoim, as lascas de amêndoa e o gergelim deram um outro tipo de crocante ao prato, enquanto a carne de porco não fez grande diferença. Numa nota curiosa, a mistura de sabores fez com que o picante da comida se assemelhasse mais ao de gengibre do que a de pimenta em si.

VEREDITO

Aprovado sem ressalvas.

 

Tinnitus

Que eu me lembre, a primeira vez que ouvi falar de tinnitus foi por volta de 2002, depois de publicar no meu primeiro blog, One Hundred Percent Chongas, um relato sobre uma noite fortíssima de drum’n’bass no saudoso porão do Fim de Século (que já se chamava NEO a essa altura). Ao descrever um incômodo porém passageiro efeito colateral da música alta como um apito discreto no fundo do ouvido, alguém nos comentários me avisou que essa sensação possuía um nome.

Ao longo dos anos, experimentei diversas vezes esse apito discreto no fundo do ouvido. Em mais de 90% dos casos estava diretamente relacionado à exposição a música muito alta por muito tempo. Era bastante comum sair de uma festa ou show com os ouvidos estourados, meio entupidos, e nas horas seguintes experimentar o zumbido xarope que, todavia, se esvanecia em no máximo 24 horas. Nos 10% restantes, todavia, reside até hoje um mistério.

Acontecia o seguinte: eu bem belo sentado numa cadeira, ou lavando a louça, ou caminhando duas quadras até o supermercado, ou escovando os dentes e vinha do mais absoluto nada o mesmo apito. Parecia um raio entrando por uma orelha, fritando intensamente as profundezas do ouvido e depois saindo bem mais fraco pela outra. A coisa toda não durava um segundo, mas sempre deixava no ar uma sensação de temor e what the fuck.

Uns anos depois rolou uma evolução da moléstia: o tinnitus aparecia da mesma forma, sem aviso nem motivo claro, e se instaurava por um dia inteiro na minha cabeça. Geralmente eu o percebia ao acordar, ficava preocupado algumas horas, resolvia ignorar para seguir em frente e, quando acordava no dia seguinte, ele tinha desaparecido.

Só que um dia em 2013 ele decidiu que não ia mais desaparecer. Nem no dia seguinte, nem no próximo, nem no outro. Nunca mais. Pelo menos até aqui. Em suma: estou há quatro anos ouvindo constantemente um apito discreto no fundo do ouvido.

Claro que isso me deixou totalmente em chamas, me fazendo considerar, graças aos diagnósticos do Dr. Google, todo tipo de quadro terrível, como tumor no cérebro e perda auditiva avançada. Ao consultar otorrinos caríssimos na capital dos paulistas, todavia, descobri o contrário: não possuo tumor cerebral e minha audição está impecável. Fiz duas audiometrias, espaçadas por mais de um ano, e nas duas o resultado foi o mesmo: ainda hoje, aos 37, escuto frequências que eu deveria ter parado de ouvir aos 17 (ainda mais levando em conta que fui DJ por quase 10 anos).

Eliminadas as duas causas mais comuns (e potencialmente graves), sobraram nada menos que 300 possibilidades. Muita coisa pode causar o tinnitus, e minhas apostas mais fortes estão no meu colesterol elevado (que faz o sangue ficar mais grosso e provoca perturbações ao passar nas delicadas estruturas do ouvido interno) e na chamada disfunção da ATM (articulação temporomandibular).

Eu já sabia possuir mordida cruzada e volta e meia produzo estalos ao mastigar, mas uma amiga que trabalha com o dentismo estético certa feita decretou: minha arcada dentária apresenta todos os problemas possíveis e imagináveis. De alguma forma misteriosa, todavia, meu organismo atuou a meu favor ao longo da adolescência e impediu, sem aparelhos ortodônticos, que eu tivesse o rosto desfigurado por um queixo projetado pra dentro e os dentes pra fora, tal qual um Ronaldinho Gaúcho. O problema é que esse processo me deixou todo torto, e pode ser o grande responsável pela cornetinha aguda que toca na minha cuca sem parar (além do bruxismo e do desgaste de alguns dentes que já ocorre há alguns anos). Problema ainda maior é que pra consertar essa brincadeira eu precisaria quebrar a mandíbula e puxá-la pra frente e quebrar o céu da boca e puxá-lo pros lados – e o processo todo levaria mais de 2 anos de muita dor e sofrimento, algo que não sei bem se estou disposto a encarar (especialmente porque não há uma certeza de que vá resolver o tinnitus).

No passado já se cagou a vida de muita gente ao promover a extração do nervo auditivo, na crença de que isso fizesse com que o barulho cessasse. O que acontecia, na verdade, é que a pessoa parava de ouvir todos os sons do mundo EXCETO o zumbido. O motivo? Exceto em casos muito específicos, não é no ouvido que o tinnitus se origina, e sim no cérebro. Alguma estrutura interpreta de forma errada um impulso, e o converte num zumbido. Não entendo muito bem esse mecanismo, e não estou sozinho nessa: a medicina, até esse ponto, também não manja muito essa parada. Tanto que não existe uma cura. Na verdade, o que se sabe é que o cérebro é incapaz de lidar com a ausência completa de sons. Se você se colocar numa situação em que não há nenhum som sendo produzido, o seu cérebro cria perturbações sonoras ele próprio, que podem inclusive levar a um quadro alucinatório. Há diversas salas de privação de som espalhadas pelo mundo que provam isso.

A boa notícia é que, pelo menos até agora, não posso dizer que se trata de um sintoma incapacitante. Por ser essencialmente subjetivo, é muito difícil criar uma escala confiável para quantificar o tinnitus, mas existem tentativas de classificar os volumes aparentes e suas consequências. Há casos de pessoas que se matam por não serem capazes de suportar a mazela, especialmente nos casos que se convencionou chamar de tinnitus catastrófico, quando o som do zumbido é tão alto que a pessoa não consegue nem se concentrar nos seus pensamentos. No meu caso, o que acontece é que não tenho mais o direito ao silêncio absoluto, posto que toda vez que isso acontece (dentro de um elevador, nos instantes iniciais antes de uma peça de teatro) é que o percebo. Durante o dia é praticamente impossível escutá-lo: os sons da cidade abafam tudo. Também já percebi que algumas coisas potencializam o tormento: ressaca, stress e desidratação. Infelizmente, até agora, não descobri nada que ajude a mitigar o sofrimento – exceto me manter sempre exposto a algum tipo de som no ambiente.

Que coisa extrema envelhecer.

Quando eu tinha recém feito uns 30, reclamei para um amigo cinco anos mais velho que andava com umas dores misteriosas na barriga que simplesmente não tinham motivo. Já tinha feito endoscopia, ultrassom, um monte de exame de sangue e estava tudo normal. Nunca vou me esquecer do que ele me disse: “É mais ou menos nessa época que começam a aparecer os sintomas que vão nos acompanhar por toda a vida.” Parecia uma mensagem pessimista e terrível, mas no fim das contas era o contrário. Nada daquilo ia me matar. Essas coisas iam começar a aparecer, me preocupar, me fazer acreditar estar com algum tipo de câncer, derretimento mental ou esclerose, mas não iam me matar. Eu ia fazer os exames, ia estar tudo normal, eu ia ficar me perguntando que diabos estava acontecendo, não ia chegar a conclusão alguma e, com o tempo, acabaria me acostumando, a ponto do sintoma, eventualmente, desaparecer.

Foi o que aconteceu com as dores na barriga.

E o que vai acontecer algum dia, espero, com o tinnitus.

Todavia com esse eu não tenho lá muita esperança.

Disclaimer

Pode parecer estranhíssimo o cara resolver, em pleno 2017, voltar a escrever num blog. Nem vou perder meu tempo tentando explicar porque a verdade é que nem eu mesmo entendi bem. Só sei que senti falta de escrever e publicar as coisas que me dão vontade por conta própria, então eis-me aqui.

Não deve ter nada de muito diferente dos blogs que mantive ao longo dos anos, exceto por um detalhe importante: os comentários. Resolvi bani-los inteiramente.

Primeiro porque 90% deles seriam SPAM. Sei disso porque fiquei seis meses em fase de testes aqui e, mesmo sem nenhuma divulgação, tive mais de 500 comentários – todos eram SPAM.

Segundo porque ando com saudades de receber e-mails, e imaginei que retroceder brutalmente ao tempo da sessão de cartas pode ser uma maneira de forçar as pessoas a escreverem para mim quando lerem algo que gostam ou que não gostam aqui. A ver se a tentativa cola.

No mais, é isso aí, meus queridos.

Azar

Inaugurei o ano novo de maneira deveras peculiar.

Recebi no dia primeiro um e-mail do Betboo me alertando para a possibilidade de perder os fundos válidos que possuía por conta de um longo período de inatividade – 30 meses, de acordo com o site. Dizia o texto que, caso eu não logasse até o final do mês, estes fundos seriam repassados à Autoridade de Jogos de Malta (juro) a título de administração de conta inativa, e não poderiam mais ser resgatados.

Eu nem sequer me lembrava de ter feito uma conta no Betboo algum dia e, embora tenha achado bastante sensacional a possibilidade de fazer uma doação internacional simbólica para Malta (um dos países europeus subestimados pelos quais nutro simpatia, junto com Liechtenstein e Chipre), resolvi dar um conferes.

Meu palpite era o seguinte: devia ter entre 30 e 60 centavos de real na minha conta. A realidade, todavia foi bem mais generosa com o Dido: BRL 28,50. Como era um dinheiro que eu não sabia possuir, também o percebi como dinheiro que não me faria a menor falta e, sendo assim, resolvi apostar tudo pra ver se dava um azar.

Abri então uma aba contendo jogos ao vivo e marquei a opção ’empate’ nas duas partidas de algum campeonato obscuro de país árabe que estavam mais avançadas, pra acabar com aquilo o mais rápido possível. Dez reais em cada. Em dez minutos havia ganhado nas duas e, sem entender muito bem a matemágica do site, vi os BRL 28,50 se transformarem em 30 redondinhos.

Um lucro de 1,50 pareceu meio murcho, de modo que resolvi explorar melhor o site e descobri que além de apostar nos resultados de esportes variados (incluindo um sem número de sub-apostas totalmente malucas, do tipo ‘qual time cobra um lateral primeiro’) também era possível jogar a sorte no tradicional CASSINO.

Neste ponto, abro um parêntese. Venho jogando fervorosamente um dos meus games favoritos de todos os tempos, God Hand, do PS2. Uma das formas de maximizar seus lucros no game é justamente apelar para um CASSINO, onde é possível apostar no Blackjack, o famoso vinte-e-um. Sou relativamente bom no Blackjack. Ontem mesmo transformei 1400 créditos em cerca de 40 mil. Me pareceu possível operar manobra semelhante no Betboo da vida real (especialmente quando um pequeno disclaimer no próprio site afirma que as chances de se sagrar vencedor neste jogo rondam a casa dos 96%). Fecha parêntese.

Cauteloso e cagão como sou, comecei apostando o mínimo: 2 reais. Após duas ou três vitórias consecutivas, entretanto, já passei pros 4 e fiquei lá até transformar meus 30 cru-crus em 50, o que não levou nem dez minutos. Meu primeiro impulso foi de continuar até chegar ao montante mágico de 100 reais, mas o segundo – e mais forte – me disse para parar. Parei.

Por uns 20 minutos.

Retornei ao site disposto a fazer fortuna. Quer dizer, se eu conseguisse mesmo transformar 30 reais em 100 em algo como uma hora, eu certamente poderia abrir mão de todas as minhas demais fontes de renda e me dedicar ao gambling em tempo integral. Curioso como a gente cai nos mesmos buracos clássicos que quando alguém cai a gente sempre diz ‘não sei como é que fulano caiu nessa’.

Em coisa de cinco minutos os 50 reais eram 68. Tive alguns lances de muita sorte, dobrando a aposta nos momentos corretos e recebendo algumas mãos particularmente maravilhosas da máquina. O sonho parecia cada vez mais próximo. Infelizmente, dessa vez não tive a grandeza de perceber o óbvio (a banca nunca perde) e parar quando estava ganhando. Em vez disso resolvi aumentar as apostas, transformando rapidamente os 68 reais em zero.

Resumindo muito: em pouco mais de uma hora descobri que possuía R$ 28,50 num site de apostas, dobrei esse valor sem muito esforço e em seguida o perdi integralmente com menos esforço ainda.

Parte de mim quer passar a próxima semana lendo sobre táticas para vencer sempre no Blackjack e comprar 50 reais em créditos para operar uma vendetta contra a Autoridade de Jogos de Malta; parte quer apenas registrar essa pequena parábola sobre a natureza dos jogos de azar na memória para não repetir os erros no futuro.

Qual será mais forte? Saberemos algum dia.