MEDO, DELÍRIO E JORNALISMO
Por André Julião
Quero escrever algo que sobreviva ao tempo. (Gay Talese)
Era uma tarde quente como tantas outras. Eu andava tranqüilamente pela minha rua, indo para casa. Vestia uma bermuda desbotada, vermelha com flores brancas. Bem velha, da época em que essa estampa era moda. Tinha havaianas nos pés e a camiseta, provavelmente, era alguma dessas promocionais. Não sei no que pensava, mas não haveria de ser algo importante; afinal, o fato de estar nos arredores do lar àquela hora era, no mínimo, reconfortante.
Minha paz, porém, foi por água abaixo quando me deparei com aquela cena. Dentro de um carro de vidros fechados, em frente a uma casa, uma criatura parada me aterrorizava. Não dava para saber se era homem ou mulher. Tinha cabelos encaracolados que caiam não só sobre a nuca como por todo o rosto. O pescoço estava inclinado em direção ao volante, mas não chegava a encostar.
Uma cena que não deveria me assustar tanto, afinal, já devia ter visto em algum filme de terror de segunda categoria. E que, se me deu medo alguma vez, foi porque devia estar acompanhada de uma trilha sonora de suspense, com o volume aumentando no exato momento em que a criatura surgia do nada.
Mesmo assim saí correndo, aterrorizado. Olhava para trás e não tinha nada nem ninguém me seguindo. Mas continuava a correr. Chegando ao portão, ao vê-lo trancado, desafiei as lanças da cerca e passei sobre elas num só salto. Corri para a porta que dava para a sala, agora sem olhar para trás. Mesmo dentro de casa, eu continuava correndo. Na cozinha, encontrei minha tia-avó com quem moro, que me esperava com uma prima que há muito eu não via. Elas sorriam receptivas. Mal as cumprimentei e segui fugindo, num estado de pavor.
Não sei porque não me sentia protegido em casa. Tinha que ir até o meu quarto, que fica fora, nos fundos. Subi as escadas com três ou quatro passos largos. Quando alcancei a porta, algo invisível começou a me puxar pelas pernas para trás e para cima simultaneamente. Segurei firme na maçaneta, até que consegui me desvencilhar daquela força desconhecida e entrei no meu refúgio. Tranquei a porta por dentro, assustado, e fui em direção à cama.
Foi então que acordei.
Estava ofegante. Meu coração, disparado como em poucas ocasiões. E sentia frio. Um vento de chuva entrava pelas frestas da janela e eu estava com o peito nu – tenho terríveis pesadelos quando sinto frio durante o sono. Depois de um tempo parado na mesma posição em que acordei, paralisado pelo choque, levantei e vesti imediatamente uma camiseta.
Um insight
Não me lembro de ter sentido tanto medo quanto naquele pesadelo. Ele me veio justamente quando eu me martirizava porque tinha medo de não conseguir desenvolver um ensaio jornalístico que eu jurava ter todo na cabeça. Momentos antes, eu havia ligado o computador para confeccioná-lo, e percebi que tudo que tinha era uma “tese” meio louca sobre narrativas em determinado estilo de Jornalismo.
Foi então que me sentei na cama, com uma almofada apoiada na cabeceira, para pensar mais sobre o tema. Adormeci e tive o pesadelo. Coincidência demais tantos temores se encontrarem naquele momento em que eu tinha de escrever justamente sobre o medo.
A idéia que tinha em mente era de que o medo tem presença cativa em diversas narrativas no estilo chamado de Jornalismo Gonzo. Hunter S. Thompson, que se intitulava criador dessa categoria, dá ao seu trabalho mais importante o titulo de Medo e Delírio em Las Vegas. Trata-se de um livro (com versão cinematográfica de Terry Gillian, tendo Johnny Depp como Thompson e Benicio Del Toro como seu advogado “parceiro de crime”) em que o jornalista narra uma viagem à terra dos cassinos, segundo ele, em busca do Sonho Americano.
Logo no início da narrativa, ele conta seu pavor diante de “morcegos gigantes” que o estariam atacando enquanto ele dirigia. Vale a pena assistir o filme e ver um Johnny Depp que mimetiza a personagem, inclusive nos cacoetes e nos gestos tresloucados. Como o livro está fora de catálogo no Brasil há muitos anos, nos resta o trecho reproduzido na antologia A grande caçada aos tubarões, que a Conrad editou em 2004.
Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a bater. Lembro de ter dito algo como “Tô ficando meio tonto, acho que seria melhor você dirigir…” E de repente houve um rugido terrível ao nosso redor e o céu se encheu do que pareciam morcegos enormes, descendo a toda, soltando gritos estridentes e mergulhando em volta do carro, que estava seguindo a uns 160 quilômetros na direção de Las Vegas com a capota abaixada. E uma voz berrava: “Jesus sagrado! O que são esses malditos animais?”
Na maioria das vezes, o medo que Thompson está sentindo é fruto de alucinações geradas pelo consumo exagerado de drogas. Contribui para isso o fato de que, freqüentemente, ele estava transgredindo a lei. Usava um nome falso (Raoul Duke) para registrar-se em hotéis e alugar carros velozes. Sempre saindo sem pagar. Não bastasse, ele andava sempre armado.
A “dupla” medo e delírio foi usada em outras peças jornalísticas de Thompson, como no livro sobre a campanha presidencial estadunidense de 1972 (Fear and Loathing in Campaing Trail’72). No Brasil, um nome conhecido desse tipo peculiar de Jornalismo é o gaúcho André Czarnobai, o Cardoso. Autor de uma das primeiras monografias acadêmicas sobre o tema no País ele mantém esta revista eletrônica com narrativas Gonzo. A Irmandade Raoul Duke mantém em seus arquivos textos de diversos autores. Em um deles, do próprio Cardoso, notamos o medo presente (acompanhado de bom humor):
Meu procurador terminava de comer uma à la minuta com frango quando me aproximei de sua mesa. “Estou sendo seguido”, disse. Ele olhou para os dois lados, largou o garfo e bateu na mesa esbravejando: “Então precisamos sair daqui imediatamente”. “Não” Respondi. “Isso vai nos expor. Seremos uma presa fácil.” Meu procurador parece perturbado. “Então vamos pedir uma cerveja.” Não é um argumento que eu vá questionar, especialmente a essa altura do campeonato. O Cotiporã permanece num irritante vazio. Do outro lado da rua os coloninhos continuam à minha caça. Numa das esquinas mais movimentadas da Cidade Baixa é inquietante o fato de ser um dos únicos a beber num sábado à noite.
Osmose
Quem cunhou o termo “Gonzo” foi Bill Cardoso, jornalista e amigo de Thompson. Numa carta sobre o texto O Kentucky Derby é decadente e depravado, ele teria escrito: “Eu não sei que porra você está fazendo, mas você mudou tudo. É totalmente gonzo”. Conforme o amigo de Thompson, a palavra foi originada da gíria franco-canadense gonzeaux, que significaria algo como “caminho iluminado”.
Quem dá a explicação é Cardoso, o autor gaúcho, em sua monografia Gonzo: o filho bastardo do New Journalism (Aliás, vou dizer logo: seu apelido não tem nada a ver com o Bill Cardoso).
O Novo Jornalismo surgiu com esse nome na década de 60, auge da contracultura nos Estados Unidos. Autores como Truman Capote (que dizia ter inaugurado o “romance sem ficcção” com A sangue frio), Gay Talese (que falou sobre famosos e anônimos como quem escrevia contos), Tom Wolfe (autor, entre reportagens e romances, do ensaio O Novo Jornalismo) fizeram parte dessa “escola”. O que se praticava eram reportagens que usavam técnicas de captação e redação usadas na ficção. Antes deles, na década de 40, John Hersey escreveu Hiroshima e Joseph Mitchell, O segredo de Joe Gould, dois clássicos do Jornalismo Literário.
Se o Novo Jornalismo era uma revolução, o Jornalismo Gonzo era uma radicalização deste. Enquanto o primeiro ainda buscava uma certa “imparcialidade”, com o uso da terceira pessoa e raras e disfarçadas opiniões do repórter, o Gonzo fazia tudo às claras. O “novo jornalista” teria que, obrigatoriamente, fazer uma imersão no tema que estava tratando. No Gonzo, a imersão apenas não é suficiente. O termo que Cardoso usa é osmose, referenciando o fenômeno biológico no qual dois fluidos misturam-se gradualmente através de uma membrana porosa. Fazendo uma comparação, o primeiro fluido é o Gonzo Jornalista e o segundo, o objeto de sua investigação. A membrana porosa é o ato da reportagem em si, pois é através dela que os dois mundos interferem um no outro. Dessa forma é correto dizer que o repórter gonzo altera o objeto de sua reportagem da mesma forma que o objeto altera o próprio repórter. É quase como se o jornalista precisasse personificar o objeto de sua reportagem, o que remete ao preceito da “coragem de um ator” necessário para o bom Gonzo Jornalista, segundo Thompson.
Essa é a gênese do Gonzo, sua essência. Ao relatar suas sensações sobre o fato que vivenciou – e não só “observou”, como se fosse possível um voyeur que não interferisse no fato – o repórter cria um vínculo com o leitor. Ele não o “engana”, buscando aparentar uma impessoalidade e uma frieza que são impossíveis.
Autoral
Mas voltando ao medo, não quero dizer que ele é presença obrigatória em qualquer narrativa do Jornalismo Gonzo. Significa que o texto reflete o que o autor pensa e sente. Portanto, se na captação daquele fato o repórter teve medo, isso deve ficar claro no texto. O Gonzo é um estilo jornalístico-literário que não separa autor e obra, fato e julgamento. Como explica o Doutor:
A verdadeira reportagem Gonzo requer os talentos de um grande mestre do jornalismo, o olho de um bom artista/fotógrafo e os colhões firmes de um ator. Porque o escritor precisa participar da cena enquanto escreve sobre ela – ou pelo menos gravá-la, ou mesmo desenhá-la. Ou as três coisas. Provavelmente a analogia mais próxima do ideal seria um diretor/produtor de cinema que escreve seus próprios roteiros, faz seu próprio trabalho de câmera e de algum modo consegue filmar a si mesmo em ação, como protagonista ou pelo menos um dos personagens principais.
O que Thompson não dizia claramente era que suas reportagens, muitas vezes, continham muitos fatos que jamais aconteceram. Contudo, na definição de Gonzo, ele diz que é “um estilo de ‘reportagem’ baseada na idéia de William Faulkner de que a melhor ficção é muito mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo – e os melhores jornalistas sempre souberam disso.”
Isso, segundo o jornalista, “não significa que a Ficção seja necessariamente ‘mais verdadeira’ que o Jornalismo – ou vice versa – mas que tanto ‘ficção’ quanto ‘jornalismo’ são categorias artificiais. As duas formas, em seus melhores momentos, são apenas dois modos diferentes para alcançar o mesmo fim”.
Cardoso tenta legitimar o uso da ficção analisando um trecho de Medo e Delírio em Las Vegas.
(…) precisamos mesmo saber se o jovem caroneiro das primeiras páginas do livro existiu de fato? O próprio Thompson não confirma nem desmente a veracidade deste episódio. Isto é realmente importante para a validade de sua matéria? A função do caroneiro no livro é a de representar um padrão de comportamento perfeitamente plausível e, ainda mais importante, verossímil para um jovem criado no interior dos Estados Unidos por volta de 1970. É curioso perceber que o caroneiro, apesar de jovem, é careta. Ou seja, ele recusa todas as ofertas de drogas e bebida feitas por Thompson e pelo seu advogado durante a viagem.
Ele conclui: “a inserção da ficção no Gonzo Journalism não só contribui para a desenvoltura da narrativa como ainda fornece um nível de informação muito mais profundo do que uma reportagem tradicional, o que vem ao encontro da definição de Faulkner segundo a qual a melhor ficção é muito infinitamente mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo.”
Não concordo com isso. Eu defendo um Jornalismo Gonzo sem ficção, afinal, só assim ele poderia ser aceito como prática jornalística. Contudo, essa é minha opinião, faz parte dos meus valores e dos conceitos que sigo de informação. Já Thompson era conhecido como um grande mentiroso, portanto, a presença da ficção em suas reportagens remeteria à sua própria personalidade. Seu amigo John Burton afirma que “mentir é a coisa que ele faz melhor. E ele o faz com total calma e confiança”.
É aí que entra uma “nova” definição de Jornalismo Gonzo. Não seria, obrigatoriamente, uma narrativa cheia de sarcasmo, com presença de drogas e de uma ficção dissimulada, mas, sim, um estilo totalmente subjetivo, que reflete a personalidade do autor e sua interpretação do fato. Usando todas as técnicas do Gonzo, de captação ultraparticipativa (osmose), não separação da figura do jornalista e de sua obra (subjetividade extrema), mas sem usar a ficção, pode-se dizer que o Gonzo é a mais sincera das categorias de Jornalismo. Nenhum relato é isento. Sempre haverá naquelas linhas “imparciais” do texto jornalístico comum uma série de valores, idéias e a visão de mundo do repórter, para não falar da linha-editorial do veículo de comunicação para qual trabalha. Portanto, o relato de um fato sob a perspectiva declarada do repórter, sem omitir que aquilo é uma interpretação sua, dá muito mais credibilidade a uma notícia.
Contudo, é necessária certa cautela e “distanciamento” em alguns assuntos (Estatuto do Desarmamento, por exemplo). Mas, em outros, a experiência do repórter vale muito mais. Alguns exemplos: o dia-a-dia de soldados numa guerra (John Sack em M, quando lutou na Guerra do Vietnã); a situação de um time (George Plimpton em Paper Lion, em que treinou com os atletas do time de futebol americano Detroit Lion e até disputou uma partida); um retrato das décadas de 60 e 70 nos EUA, em que o consumo de drogas era intenso e hipocritamente omitido (Hunter Thompson em Medo e Delírio em Las Vegas). Os repórteres foram protagonistas nessas ocasiões e fizeram considerações muito mais fiéis da realidade do que se agissem como meros espectadores “imparciais”.
Zuenir Ventura
Alguns autores brasileiros desenvolveram ótimas narrativas em primeira pessoa, com subjetividade suficiente para serem classificadas na categoria Gonzo. Todavia, nem esses próprios jornalistas tinham noção de que existia um gênero para classificar suas reportagens quando as fizeram. Isso se deve, em parte, porque o estilo de narrativa usado foi apenas um dentre todos que os autores usaram em suas carreiras.
Um deles é Zuenir Ventura, cujo primeiro livro, 1968 – O ano que não terminou, tem linguagem mais parecida com os livros-reportagem tradicionais (no prefácio ele diz que teve entre as influências o “Jornalismo de Reconstrução” de Truman Capote em A sangue frio). A figura do autor aparece em pouquíssimas ocasiões, ainda assim, na figura “isenta” do termo “o autor deste livro”. Depois de 1968, lançado no ano de aniversário de 20 anos do Ato Institucional nº 5, Zuenir vai lançar, em 1994, Cidade Partida, em que sobe o morro e vai conferir com os próprios olhos a movimentação depois do massacre de Vigário Geral, no Rio de Janeiro. Ele acompanha a criação da ONG Viva Rio, a luta de sociólogos para mudar a realidade da favela, o chefe do tráfico naquele lugar… Tudo narrado em primeira pessoa. Zuenir, inclusive, participa dos debates e da criação da Viva Rio, sendo um personagem fundamental do livro, que interfere nos fatos. Aí sim, temos seu primeiro livro com características Gonzo.
O “ápice” de Zuenir no uso das técnicas e da estética Gonzo, contudo, está no seu terceiro livro, de 1998. Inveja: Mal Secreto é uma mistura de jornalismo com ficção. Ao mesmo tempo em que mostra pesquisas bibliográficas e quantitativas sobre o pecado capital, cria a figura de uma mulher que ele teria conhecido, protagonista de uma história de inveja. O autor foge do tema em diversos capítulos, falando, inclusive, de um câncer que descobriu nele enquanto fazia as pesquisas para o livro.
As características que mais se aproximam do Jornalismo Gonzo de Hunter Thompson são: (a) narração em primeira pessoa – Zuenir está sempre narrando na figura do “eu”. Ele conta os momentos em que sente raiva, medo, tristeza. (b) A fuga do tema – como foi dito, o autor sai do foco da pesquisa sobre a inveja para falar de sua doença, do tratamento, da reação da esposa (como fazia Thompson em longas digressões em que destilava seu ódio contra o presidente Richard Nixon). (c) Uso de ficção – Zuenir cria uma personagem (ou mais, não fica claro) que vive uma história de inveja. Como nas obras de Thompson, não dá para distinguir o que é verdade e o que não é. Ele legitima a personagem “contracenando” com ela em diversos momentos. Por algum tempo, o autor não revelou em entrevistas e conversas que a Kátia do livro era uma personagem criada por ele. (d) Narração do processo de feitura – ele escreve muito sobre os bastidores da confecção do livro, dando tanto ou mais espaço do que dá para o tema em si. “No jornalismo, o que importa é o resultado, não as dificuldades para obtê-lo. Aqui, ao contrário, interessa mais o processo de apuração e os acidentes de percurso.”
Em Cidade Partida, tudo que o autor escreve é fruto de pesquisas e de um trabalho de campo de 10 meses. Por se tratar de um tema extremamente sério – a convivência entre duas sociedades quase paralelas na mesma cidade, a do “asfalto” e a do morro – e sendo que foi abordado quando voltava à tona, com o massacre de Vigário Geral, Zuenir não podia incluir ficção no relato. Nem precisava, já que o fato em si tinha dramaticidade suficiente.
Em Inveja, contudo, foi encomendado a Zuenir um livro que faria parte da coleção Plenos Pecados, da editora Objetiva. Os outros seis livros seriam escritos por romancistas como Luis Fernando Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro. Eles haviam escolhido, respectivamente, gula e luxúria. Segundo Zuenir, temas que têm a ver com apetites carnais, e que, portanto, os autores tinham relação. “Mas e eu? O que tinha a ver com a inveja (…)? A experiência pessoal? Essa todo mundo tem.” Nas primeiras páginas ele revela o receio – para não dizer medo – que sentiu quando se deu conta de onde havia se metido:
Confesso que nesse momento comecei a me arrepender da escolha. Será que não dava para trocar? Afinal, havia ainda alguns pecados sem dono. E se eu pegasse a preguiça? Avareza não, mas e o orgulho? Os dias foram se passando e eu não tinha coragem de sugerira troca. Enquanto isso, aumentava a certeza de que os outros livros iam ser muito melhores, mais agradáveis e iam vender mais.
Na verdade ele começava, aí, a se confundir com o tema. Tinha inveja dos outros autores.
Mais adiante, ele narra um episódio acontecido no dia em que soube que tinha um tipo de câncer na bexiga. Zuenir e sua esposa, Mary, foram numa festa na casa do amigo Ziraldo. Os netos deste corriam de um lado para o outro, fazendo barulho, e isso o incomodava. “À medida que aumentava a sensação desagradável, vou percebendo que o que estava me angustiando não era o suposto barulho ou a aparente correria, mas a própria presença daquelas crianças – vivas, alegres, ali na minha frente.”
Demorei um pouco, mas acabei me dando conta de que o que me incomodava mesmo era ter sido assaltado, diante daquela profusão de netos, da suspeita, muito real àquela altura, de que provavelmente não teria os meus. (…) o fato é que de repente eu tive uma sensação desagradável, uma vaga melancolia, algo como se aquele aniversário fosse para mim o último.
E lá vem o medo novamente, invadindo uma narrativa Gonzo.
‘Ser ou não ser’ Jornalismo?
Este livro tem um caráter especial, já que faz parte d’uma coleção que só tem romances – daí não haver a obrigatoriedade do relato real. O uso da ficção e a narrativa sobre os bastidores foi a saída que o Zuenir encontrou, já que o tema tinha sido exaustivamente discutido. “Talvez tenha sido o melhor caminho que o autor encontrou para, ao falar de um pecado tão complexo, não cair em outro, o da soberba.”
Se não vai ser publicado em veículos de comunicação periódicos, o Gonzo com ficção deve ser aceito como gênero literário. Zuenir Ventura alerta na apresentação (“Advertência”) que boa parte do livro é de não-ficção, mas que, apesar da presença de pessoas e fatos reais “seria mais conveniente incluí-lo na categoria de ficção”. Ele não diz, contudo, o que é e o que não é real. Daí se manter uma deliciosa dúvida no leitor.
Ao mesmo tempo em que conta as suas angústias e de alguns traços de inveja (o tema) em sua personalidade, ele vai narrar a história de uma personagem fictícia, Kátia, que tem todos os elementos para ser real. No começo do livro ele conta uma passagem em que pergunta a um amigo médico se há algum veneno que não deixa vestígios no corpo da vítima. Mais adiante veremos que é de um veneno do tipo que vai morrer um dos personagens fictícios – cuja morte ele “investigava”. Na verdade, Zuenir fez a pergunta ao Dr. José Noronha quando estava criando o episódio da morte, que teria sido dada pelos “médicos” como ataque cardíaco, mas que o autor “suspeitava” ser envenenamento. Ele cria uma situação absolutamente crível. Obedece a Cardoso anos antes da monografia que vai dizer: “É importante também que a diferença entre ficção e realidade não seja jamais explicitada.”
José Hamilton Ribeiro: repórter vira notícia
Tinha que ser na Realidade, um dos poucos redutos de Jornalismo Literário no Brasil, que o Jornalismo Gonzo se manifestaria. Naquelas páginas escreveram, entre outros, “três dos melhores jornalistas que o Brasil já teve em todos os tempos”: Luís Fernando Mercadante, Roberto Freire e Carlos Azevedo. A classificação é justíssima, mas a modéstia de quem a fez oculta o próprio nome: José Hamilton Ribeiro, autor de pelo menos uma reportagem que transcendeu o limite entre fato, opinião e relato. Na capa de uma edição histórica da Realidade está a face de Zé Hamilton, quando, enviado especial à Guerra do Vietnã, se confundiu com o tema e se tornou vítima de uma mina terrestre.
A reportagem, que virou livro, possui algumas características clássicas do estilo “criado” (?) por Thompson. José Hamilton Ribeiro cobria a Guerra do Vietnã sem grandes problemas. No último dia, porém, o fotógrafo que o acompanhava, Kêi Shimamoto, ainda não tinha achado uma cena que desse uma foto dramática o suficiente.
(…) hoje, dia 20, haverá dois tipos de operações altamente promissoras para fotografias: uma na parte da manhã, que é o reconhecimento e “limpeza” numa aldeia na “Estrada sem Alegria”, sabidamente controlada pelo vietcongue; a outra, na parte da tarde, um assalto aéreo sobre uma colina, após o bombardeio de alvos já conhecidos e fixados, e com grande possibilidade de “contato” com o inimigo – e isso quer dizer batalha dura.
Então Zé Hamilton pisa numa mina terrestre, perde a perna esquerda e passa “os 15 dias mais dolorosos e infelizes da minha vida”. O texto começa justamente no que seria o último dia da estada dele no Vietnã e, para contar todos os dias que passou lá até então, ele usa longas digressões. Como o texto é escrito em forma de diário, seu dia no hospital é apenas um pano de fundo para o grande tema que é a guerra. O relato do repórter é o de alguém que sentiu no corpo e na mente os efeitos do combate.
É o quarto dia após a bomba e ainda não consegui comer. A simples visão das bandejas, com aqueles bifes pretos feito de carne em pó e as omeletes viscosas derramando um caldinho branco, me leva ao vômito. A minha posição única já me faz doer as costas e, pior ainda, sempre que tento mover-me, sinto sangue na cama, que aumenta meu mau humor. (…) O temor aumenta: vou morrer aqui nesta joça, serei um cadáver a mais, anônimo e não procurado, da guerra. Merda!
A partir daí o autor vai para uma digressão que vai explicar como ele foi parar na Guerra do Vietnã. Além de podermos perceber esse recurso, temos uma outra característica do Jornalismo Gonzo: a narração dos bastidores.
O pensamento vagueia às tontas. E eu procuro rememorar as origens dessa aventura, tão dolorosa e tão infeliz – pelo menos agora. Em novembro de 1967, o diretor da revista Realidade entrou na redação sorrindo:
– Acho que vamos para o Vietnã!
O repórter conta, então, todas as dificuldades que teve para conseguir chegar à zona de guerra – a oferta dos Estados Unidos de pagar as despesas, a situação da revista como a mais importante do País, problemas com passaporte, a impossibilidade de ficar também no Vietnã do Norte (o “inimigo”), até sua chegada a Saigon.
Testemunha legítima dos fatos, José Hamilton não se furtou em dar suas opiniões, muitas vezes de forma irônica. Isso para não falar das sensações: sem uma perna, passando por um doloroso tratamento. Em mais uma cena do hospital em que está internado, ele tenta fazer uma lista de quem está pior ali.
Como a televisão não consegue me interessar, arranjo um passatempo bem de acordo com as circunstâncias: escalar a seleção dos “Dez mais desgraçados do hospital”.
Em certo momento ele interrompe a lista macabra por causa de uma gritaria ali perto.
É Kim-Thien, uma menina de 14 anos que todos os dias, na hora dos curativos, grita desesperadamente. Um enfermeiro me conta sua história: soldados americanos realizavam “operação de limpeza” numa aldeia e a menina estava na rua. Quando viu aquele aparato todo, saiu correndo para alcançar sua casa. Os soldados cumpriram a ordem: “Diante de nós, quem tenta fugir é vici – fogo.” A menina caiu, ferida em vários lugares. Apesar da idade, foi feita prisioneira e submetida a longos interrogatórios. Fora dos momentos de curativos, agora, tudo que ela faz é brincar com as bonecas que a Cruz Vermelha lhe deu. Acho que os americanos estão começando a desconfiar que é meio difícil ela ser um perigo vietcongue.
Temos então o primeiro fluido: o repórter José Hamilton Ribeiro; o segundo, objeto de sua investigação: a Guerra do Vietnã; e a membrana porosa, que é o ato da reportagem: quando o autor relata as desgraças da guerra. Não é a mais perfeita osmose, como Cardoso classifica? O repórter alterou o objeto da reportagem, que também o alterou – de forma drástica, frise-se. Relato pessoal tão forte, o texto não poderia deixar de ter o momento de maior medo do autor, logo que pisou na mina terrestre.
Senti uma coisa fria que corria da testa para o nariz, levei a mão, olhei – era sangue. Pela primeira vez ocorreu-me a idéia terrível:
– Fratura na cabeça, vou morrer!
Perguntei a Shimamoto:
– Shima, eu vou morer?
– No, no, no! Você vai ficar bom, calma, calma.
Passei nervosamente a mão pela cabeça, em busca da fratura, e não achei. Mas a quantidade de sangue que escorria da perna esquerda, tingindo de vermelho os arbustos e a grama, não me deixava tranqüilo.
(…)
De uma hora para outra, o gosto amargo na boca e o mal-estar aumentavam violentamente – era a dor. Começou aos pouquinhos, e logo tomou conta de mim. Era asfixiante e total. E eu gritava:
– Socorro, socorro Preciso de morfina!
Sonho
Eu chegava do trabalho. Descera do ônibus e, depois de cruzar uma das duas pistas em direção à minha casa, vi três elementos prestes a atravessarem no sentido contrário ao meu. Não sei se foi impressão minha, mas quando me viram, ali, no canteiro do meio e pronto para cruzar a segunda pista, desistiram da travessia e continuaram a andar naquela rua.
Esperei carros que estavam ainda distantes passarem. Eu precisava ganhar tempo para observar o comportamento deles. Quando atravessei a segunda pista – chegando ao ponto onde estavam parados da primeira vez que os vi – já tinham andado alguns metros na direção oposta à que eu seguiria. Olhei para trás: estavam me observando.
Pouco antes de virar a esquina, olhei de novo. Estavam voltando! Me seguindo! Como já não podiam me ver (um muro me protegia), comecei a correr, descendo a rua rápido, mas silenciosamente. Pisava com cuidado para que o som do medo não chegasse até seus ouvidos. Mas, estavam mesmo voltando? Olhei tão rápido. Não teria eu criado a cena da perseguição, julgando aqueles rapazes por causa de um gesto insignificante deles? Realmente desistiram de atravessar ao me verem? Como já tinha começado a correr mesmo, não fazia sentido parar. Além do mais, estava chegando em casa e eles não me alcançariam.
Dessa vez me senti seguro quando entrei; assim permaneci quando cheguei ao quarto e não acordei quando fui em direção à cama.
Não era um pesadelo.
Eu estava acordado.
Nos dias anteriores ao episódio, eu havia avaliado outros medos que sentia. Um deles era de que a reportagem humanizada – e nela, a escrita em primeira pessoa, valorizando toda a subjetividade do repórter – acabasse. Esse texto criativo parecia o único ideal inabalável que eu ainda seguia no Jornalismo. Muitos foram caindo ao longo dos meus estudos, mas ali eu tinha achado meu pilar. Resolvi cursar Jornalismo exatamente para exercer minha opinião, para valorar os fatos, muitas vezes descritos na imprensa como se fossem dados quantitativos – gelados – mortos. No meio do caminho, descobri o exercício da reportagem, da captação de fatos “relevantes”. Até que encontrei a congruência entre opinião e informação.
Em tempos de crise de leitura, questiona-se muitas vezes sobre “o fim” do jornal de papel. A maioria concorda que ele não vai acabar; vai se adequar às novas necessidades do homem moderno; vai dar o que a Internet, a TV e o rádio não podem dar. Mas poucos entram em detalhes sobre qual será essa diferença.
Por que ler um texto apenas maior sobre uma notícia que foi dada exaustivamente no dia anterior? Como se sentir atraído por uma manchete que não traz nada de novo? Tendo isso em vista, como não legitimar uma narrativa como a de José Hamilton Ribeiro, que vimos anteriormente? Honesta. É a definição da narrativa nesses moldes. Não é sabotada do leitor a vivência do repórter; não é omitido que aquilo é só uma versão, uma interpretação dentre várias possíveis.
Na minha modesta opinião, o texto autoral será a grande “sacada” (nada nova, mas esquecida) do jornal impresso. O prazer da leitura é insubstituível. E o texto gostoso se comporta melhor no papel, fácil de ser manuseado, podendo ser levado a qualquer lugar.
Não será apenas o Jornalismo Gonzo nas páginas do jornal que irá salvá-lo ou ao menos torná-lo menos maçante – ele pode ser apenas mais um estilo. As opiniões devem ocupar cada vez mais espaço; e os textos que puderem ter o autor reconhecido sem que seja preciso ler o nome dele deverão ser maioria. É sempre difícil fazer previsões – o amanhã é muito distante. Mas creio que o medo de que o texto autoral e o jornal impresso acabem é infundado. Tanto quanto o meu medo do ser aterrorizante do pesadelo quanto o dos “elementos” que teriam me seguido naquela noite.
* André Julião é autor, junto com Renan Magalhães, de Caminho Iluminado – Trilhando a rota do Jornalismo Gonzo.






