CAGA OU SAI DO TRONO

por Rodrigo Alvares

Publicado originalmente em 30/04/2005

Com pouca coisa em português, será que Hunter pode mesmo ser tão influente no Brasil? Numa primeira impressão, sim. Afinal, existem até sites brasileiros de jornalismo gonzo (o estilo doidão de reportagem, inventado por HST). Mas um olhar um pouco mais atento escancara a farsa. Não quero dar nomes nem massacrar a carreira de ninguém -acredito sinceramente que, com o tempo, alguns desses gonzos brasileiros podem manifestar algum talento.

Mas o que vi na internet -blogs pessoais, contos, histórias curtas, trechos de romances já publicados (!!)- é apavorante. Textos primários, toscos, de gente cujo problema não é só nunca ter lido Hunter S. Thompon. É nunca ter lido nada, ponto final.


Em 1993, século passado, escrevi um longo texto sobre HST para a hoje extinta revista “General”. A “General” foi para o jornalismo cultural brasileiro o que o Velvet Underground foi para o rock americano. Pouca gente leu, mas quem leu tomou uma atitude e se virou na vida. - Álvaro Pereira Júnior

Qualquer um tenha lido e assimilado os textos (é, no plural. Ou todos esperariam sentados as traduções porcamente editadas da Conrad?) de e sobre Hunter Thompsom na internet sabe que a pretensão é se auto-intitular Gonzo. Ou o Velvet Underground do JORNALISMO CULTURAL brasileiro. Mas parece que a maior vantagem da internet é manter um contexto permanente e anacrônico para que alguém o analise sob a ótica de 2005.

Tem dó. E dê nomes aos bois, antes que eu me esqueça.

Update 2006: relendo com calma, lembro que poucos textos me deixaram com tanto asco de um jornalista quanto esse de Álvaro Pereira Júnior, publilcado logo depois do suicídio de Hunter Thompsom. É um texto rancoroso, de quem fez uma pesquisa porca e ainda se acovardou na hora de dizer quem seriam esses “gonzos locais e medíocres” porque não queria “estragar a carreira de ninguém”.

Não posso chegar ao nível dele e dizer que quem leu a IRD tomou um rumo na vida, mas posso dizer que o site foi mais lido do que a finada General. Mesmo antes do suicídio, a página era a primeira a aparecer na lista do Google sobre o assunto no Brasil.

Tem mais: a empáfia de Álvaro em dizer abertamente sobre o baixo grau de leitura de quem “imitava Hunter” mostra o interesse dele no assunto quando escreveu a coluna. A IRD era – e voltou a ser – um laboratório de Jornalismo Gonzo na internet. Admito que éramos verdes e muita coisa daquelas edições eram dispensáveis. Mas ei, o ano era 2002 e para se chegar à perfeição que o ex-jornalista gonzo é preciso EXPERIMENTAR. Para isso não precisa ler muita coisa e perceber porque tanta gente procura formas alternativas de Jornalismo no Brasil, mesmo que não seja o Gonzo.

“Hunters falsos surgem no Brasil

ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR

Em preparação a uma reportagem que fiz para a TV sobre o escritor americano Hunter S. Thompson, que se suicidou há três semanas, voltei a mergulhar no universo alucinado da figura. Reli livros, viajei numa excelente coletânea de cartas (”The Proud Highway”), peguei de novo duas biografias (”The Strange and Terrible Saga of Hunter S. Thompson”, de Paul Perry, e “Hunter”, de E. Jean Carroll). E, é claro, naveguei pela internet, onde acabei descobrindo muitos brasileiros “influenciados” por HST.

Essa suposta influência é, por um lado, positiva e não chega a ser incomum (nos países de língua inglesa, todo jornalista com aspirações literárias se abastece de idéias do arsenal de Hunter, assim como a geração de Hunter se espelhou em Ernest Hemingway, que também se suicidou com 60 e alguns anos).

Mas, voltando aos brasileiros, nessa pesquisa pela internet, fiquei sabendo que, até pouco tempo atrás, só um livro de Hunter tinha saído aqui: “Fear and Loathing in Las Vegas”, com o nome de “Las Vegas na Cabeça”. Já era difícil achar na época (anos 80), hoje nem se fala. Agora, a Conrad publica também “A Grande Caçada aos Tubarões” e “Hell’s Angels, Medo e Delírio sobre Duas Rodas”. Com pouca coisa em português, será que Hunter pode mesmo ser tão influente no Brasil? Numa primeira impressão, sim. Afinal, existem até sites brasileiros de jornalismo gonzo (o estilo doidão de reportagem, inventado por HST). Mas um olhar um pouco mais atento escancara a farsa. Não quero dar nomes nem massacrar a carreira de ninguém -acredito sinceramente que, com o tempo, alguns desses gonzos brasileiros podem manifestar algum talento.

Mas o que vi na internet -blogs pessoais, contos, histórias curtas, trechos de romances já publicados (!!)- é apavorante. Textos primários, toscos, de gente cujo problema não é só nunca ter lido Hunter S. Thompon. É nunca ter lido nada, ponto final.

Em 1993, século passado, escrevi um longo texto sobre HST para a hoje extinta revista “General”. A “General” foi para o jornalismo cultural brasileiro o que o Velvet Underground foi para o rock americano. Pouca gente leu, mas quem leu tomou uma atitude e se virou na vida. Deve ser pretensão minha, mas realmente tenho a impressão de que esses gonzos brasileiros viram só a “General”, aprenderam que Hunter era um bêbado e drogado e decidiram seguir a linha.

Só esqueceram uma coisa: com a mesma voracidade com que bebia e se drogava, Hunter lia. E lia tanto e tão desesperadamente que chegou a redatilografar livros inteiros de seu ídolos, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, só para reproduzir a sensação de escrever tão bem. Nossos medíocres gonzos locais ainda têm de aprender essa lição. Quem não leu nada não pode escrever bem. Não se faz literatura de orelhada.”



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