{"id":634,"date":"2019-12-02T06:38:10","date_gmt":"2019-12-02T09:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=634"},"modified":"2019-11-30T21:21:53","modified_gmt":"2019-12-01T00:21:53","slug":"osa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2019\/12\/02\/osa\/","title":{"rendered":"OSA: um saboroso aperitivo"},"content":{"rendered":"<p>Ol\u00e1, amigos.<\/p>\n<p><em>Long time no see.<\/em><\/p>\n<p>Volto a este espa\u00e7o com uma motiva\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica: compartilhar com o mundo um cap\u00edtulo do meu romance humor\u00edstico proibid\u00e3o, <em>O Sensual Adulto<\/em>, que sofre uma <a href=\"http:\/\/catarse.me\/osa\">campanha de financiamento coletivo no Catarse<\/a> neste exato momento. A ideia \u00e9 ati\u00e7ar a curiosidade do leitor para que colabore com esta empreitada egoc\u00eantrica e maluca.<\/p>\n<p>Portanto, se voc\u00ea gostar do que ler nas pr\u00f3ximas linhas e quiser conhecer essa hist\u00f3ria por inteiro, por favor, acesse <a href=\"http:\/\/catarse.me\/osa\">catarse.me\/osa<\/a>\u00a0at\u00e9 o dia <strong>25 de dezembro de 2018<\/strong>, escolha a recompensa que preferir e colabore com o valor que considerar mais adequado.<\/p>\n<p>Mas aten\u00e7\u00e3o: tanto o tempo quanto o n\u00famero de exemplares \u00e9 extremamente\u00a0<strong>limitado<\/strong>. N\u00e3o marque bobeira: adquira j\u00e1 o seu. O bom e velho Did\u00e3o agradece.<\/p>\n<p>Dito isto, sente-se em algum lugar confort\u00e1vel, estique as pernas, relaxe o pesco\u00e7o e aprecie um trecho de <em>O Sensual Adulto<\/em>:<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>A brutalidade do calor ferve o cara pra fora do sono, fazendo com que ele adentre por alguns instantes um estado intermedi\u00e1rio de consci\u00eancia conhecido como hipnopompia. H\u00e1 quem defenda que existam diferen\u00e7as entre este estado e o seu oposto, a hipnagogia. H\u00e1 quem diga que s\u00e3o exatamente iguais. Os fen\u00f4menos vivenciados em ambos certamente s\u00e3o parecidos. Entrando no ou saindo do estado de sono, \u00e9 comum que uma pessoa experimente lentid\u00e3o nos movimentos, confus\u00e3o generalizada e alguns tipos de alucina\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas, como os sonhos l\u00facidos, as experi\u00eancias fora do corpo e a paralisia do sono.<\/p>\n<p>Nada disso, todavia, acomete o cara.<\/p>\n<p>Para ele, o despertar nessa manh\u00e3 \u00e9 como se a porta de um enorme forno tivesse sido aberta, e o calor que dele escapa estivesse cozinhando suas costas, seus olhos, seus gargomilhos desprotegidos, enroscados em todo tipo de cabelo \u00edntimo e grudados \u00e0 parte interna de uma de suas coxas. Sentindo a garganta mais seca que o deserto de Gobi e movendo a p\u00e9lvis com carinho para aliviar o peso sobre o saco, ele sabe que todas essas sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas s\u00e3o reais como ainda v\u00e3o durar o dia inteiro.<\/p>\n<p>O cara estranha o ventilador de teto parado, mas, ao encontrar o visor do r\u00e1dio rel\u00f3gio apagado, entende tudo e sente mansamente o abra\u00e7o. Sentado na cama, ainda meio atordoado, ele tamb\u00e9m sabe que dormiu demais. Plugado \u00e0 tomada, o celular tenta inutilmente obter energia para sua carga. O alarme (setado para as 12h18) n\u00e3o tocou. Sem referenciais ao alcance, ele nem imagina que horas s\u00e3o. O calor cruel do ver\u00e3o n\u00e3o conhece o perd\u00e3o, e portanto tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um indicativo confi\u00e1vel de tempo. Podem ser 9h, podem ser 10h, podem ser at\u00e9 12h18 em ponto \u2014 todavia o cara sabe que \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que seja algo entre 13h e 14h, n\u00e3o muito mais que 15h.<\/p>\n<p>Meio que desempenhando o papel triste de quem se imagina protagonizando o filme de sua vida, o cara levanta co\u00e7ando os guimba e mexe no interruptor algumas vezes, resmungando qualquer coisa como se houvesse na plateia uma gata quente pronta para rir do seu charminho. Ao entrar no banheiro, o movimento de ligar a luz \u00e9 mais h\u00e1bito que c\u00e1lculo. No instante seguinte, todavia, o cara se torna consciente da a\u00e7\u00e3o e imediatamente a dramatiza, dando uma risadinha de um ter\u00e7o de boca e olhando para a \u201cc\u00e2mera\u201d por cima do ombro.<\/p>\n<p>Devidamente higienizado, ainda pingando muita \u00e1gua gelada da barba e sentado num pufe esmagado no meio da sala, o cara examina suas op\u00e7\u00f5es. Sem internet, sem computador, sem TV, sem videogame, sem celular, sem saber que horas s\u00e3o. S\u00f3 lhe resta se entregar aos afazeres dom\u00e9sticos. Uma r\u00e1pida consulta \u00e0 pia revela que h\u00e1 trabalho suficiente para mant\u00ea-lo ocupado por um bom tempo. Enquanto se aproxima da pilha de pratos, copos, talheres e panelas, o cara pondera sobre a espiritualidade contida no ato de lavar a lou\u00e7a. Uma atividade mundana, mec\u00e2nica e repetitiva \u00e9 a v\u00e1lvula de escape perfeita para sua mente criativa, sempre perdida em elucubra\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, abstratas e aleat\u00f3rias. O intervalo de que o c\u00e9rebro precisa para processar as informa\u00e7\u00f5es e resolver os problemas que lhe foram apresentados. A hora do insight.<\/p>\n<p>Secando as m\u00e3os no pano de prato, o cara antecipa a felicidade que sentir\u00e1 ao abrir a geladeira. Todos aqueles ingredientes frescos e maravilhosos esperando apenas pela sua interven\u00e7\u00e3o inspirada para se converterem numa saborosa refei\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, ao abrir a porta do eletrodom\u00e9stico, o fracasso se manifesta. N\u00e3o h\u00e1 batatas, tomates, alho ou cebola. Nada de ovos. Nenhum tipo de carne. Nem uma qualidade de peixe ou fruto do mar (h\u00e1 quem os considere: salada). S\u00f3 um naco rid\u00edculo de queijo brie e algumas end\u00edvias queimadas de frio \u2014 que, por sinal, n\u00e3o vai ser renovado enquanto a energia n\u00e3o for restabelecida, lembra o cara. E fecha a porta com for\u00e7a, j\u00e1 pensando em dar aquela passadinha estrat\u00e9gica no super.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Em oito ou nove minutos ele ainda n\u00e3o havia vencido o quil\u00f4metro e meio e chegado ao super, ent\u00e3o um leve movimento de cabe\u00e7a \u00e0 esquerda o informou sobre a presen\u00e7a do restaurante Chin\u00eas Fusion de sua prefer\u00eancia. O Chin\u00eas Fusion de sua prefer\u00eancia vende pratos hediondos como o \u201cyakisopa\u201d (<em>featuring<\/em> salsicha de ebola fervida na \u00e1gua de hepatite) e o \u201crolinho inverno\u201d (massa frita recheada com sorvete horr\u00edvel). Mesmo sendo em geral extremamente ruim, o cara costumava frequentar o Chin\u00eas Fusion de sua prefer\u00eancia pelo menos duas vezes por semana. Ia sempre sozinho, sentava na mesma mesa e fazia o mesmo pedido: yakisopa de salsicha de <em>main course<\/em> e rolinho inverno de sobremesa. Depois do almo\u00e7o, realizava caminhada afetiva por vielas infectas at\u00e9 a Confeitaria Dram\u00e1tica, onde pedia duas unidades de Salgado Abrupto (contornos similares aos de um joelho) que comeria mais tarde, na seguran\u00e7a e sigilo de seu lar.<\/p>\n<p>Perguntado, o cara jamais admitir\u00e1 que cumpre essa rotina. Tamb\u00e9m jamais levar\u00e1 ningu\u00e9m ao Chin\u00eas Fusion de sua prefer\u00eancia. Tampouco indicar\u00e1 Salgado Abrupto da Confeitaria Dram\u00e1tica. Tudo \u00e9 parte de sua Vida Secreta, esse pequeno \u2014 por\u00e9m importante \u2014 espa\u00e7o de tempo em que ele existe alheio ao resto do universo, sem dar satisfa\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m. S\u00f3 o ato de mencionar essa rotina a outra pessoa j\u00e1 seria o suficiente para macular o sagrado presente na Vida Secreta \u2013 que ent\u00e3o automaticamente deixaria de ser secreta. Sentindo todo o peso da tradi\u00e7\u00e3o, o cara at\u00e9 tenta resistir, dizendo pra si mesmo incont\u00e1veis vezes \u201cde novo n\u00e3o\u201d e perguntando \u201cser\u00e1\u201d at\u00e9 finalmente cruzar a porta, dizer al\u00f4 pro chin\u00eas engordurado do caixa e sentar na \u00fanica mesa pra um no fundo do sal\u00e3o (sempre vazia) para pedir um yakisopa enquanto olha pela janela e reflete sobre a vida.<\/p>\n<p>Hoje, por exemplo, o cara lembra de um curioso mantra dos seus tempos de assalariado. &#8220;\u00c9 muito estranho algu\u00e9m que almo\u00e7a sempre sozinho. Tem que suspeitar.&#8221; Era o que os colegas que almo\u00e7avam em bandos diziam sobre os que almo\u00e7avam sozinhos. E o pior \u00e9 que o cara comprava esse papinho. Imerso no ambiente corporativo \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o se deixar contaminar por esse tipo de coisa. \u00c9 como uma cepa de gripe flutuando na tubula\u00e7\u00e3o de ar condicionado, o farelo do eczema despencando das unhas do estagi\u00e1rio que usou o mesmo teclado no turno anterior.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea finalmente sai da empresa e come\u00e7a a almo\u00e7ar sozinho todos os dias, voc\u00ea acaba se deparando com a verdade. Como \u00e9 bom comer em paz, quieto e unit\u00e1rio, sem ningu\u00e9m pra interagir. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel apreciar verdadeiramente a comida, prestando aten\u00e7\u00e3o nos cheiros, nas texturas e nos sabores dos ingredientes. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel fruir a refei\u00e7\u00e3o \u2014 algo muito mais importante do que a gente costuma pensar. Sem contar que entre uma mordida e outra a mente divaga, e sempre rolam uns insights furiosos.<\/p>\n<p>Como por exemplo: em qualquer ponto de sua vida, sobretudo na faixa dos vinte-e-v\u00e1rios ou trinta-e-poucos (e dali em diante), \u00e9 bem comum que voc\u00ea esteja frustrado, cansado e decepcionado de ser quem \u00e9. A maioria das pessoas n\u00e3o pensaria duas vezes se tivesse a oportunidade de trocar seu velho eu por um eu totalmente novo. Mas quantas pessoas sabem exatamente quem s\u00e3o? Quanto desse \u201cvelho eu\u201d do qual voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o disposto a desistir voc\u00ea realmente conhece? Outra coisa na qual o cara pensa \u00e9 na faixa que consegue ver da sua mesa, pendurada na frente de uma pens\u00e3o que fica do outro lado da rua. \u201cAluga-se quarto para mo\u00e7a ou rapaz.\u201d Qual o crit\u00e9rio de exclus\u00e3o? Por que n\u00e3o apenas \u201cAluga-se quarto\u201d? Ser\u00e1 que n\u00e3o pode velho? Isso n\u00e3o \u00e9 crime?<\/p>\n<p>Ao concluir a refei\u00e7\u00e3o e tentar passar o cart\u00e3o em vias de quitar sua conta, o cara \u00e9 novamente confrontado com uma realidade que o sol forte havia conseguido ofuscar: ainda estamos sem luz. Na vitrine da Confeitaria Dram\u00e1tica, mais tristeza: Salgado Abrupto em falta. Nas centenas de metros restantes, o tr\u00e2nsito vive seu caos particular amplificado pela aus\u00eancia de sinais luminosos. Os motoristas, mais tensos que o normal, gritam e buzinam al\u00e9m do esperado. O cara sente um orgulho meio bobo de poder fazer tudo a p\u00e9 e d\u00e1 uma risada sincera e gostosa. Uma velha meio louca pilotando um sed\u00e3 verde-escuro fica puta, acha que \u00e9 com ela e quer puxar briga. Surpreso, o cara se esquiva, pede desculpas e aperta o passo pra entrar no super.<\/p>\n<p>Brigando pra soltar um carrinho das entranhas de outro, eis que o cara encontra seu colega israelita em situa\u00e7\u00e3o de compras. Resmungando sozinho e de carranca fechada, Shalom Israel d\u00e1 um pux\u00e3o brusco e finalmente separa os dois carrinhos, provocando um tremendo estardalha\u00e7o. Seu olhar cruza com o do cara, que o sa\u00fada:<\/p>\n<p>\u201cMestre!\u201d<\/p>\n<p>Sem desmanchar a carranca, Shalom Israel devolve:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o me chama de mestre se voc\u00ea n\u00e3o vai me seguir.\u201d<\/p>\n<p>O cara fica tenso por um instante, ent\u00e3o Shalom Israel irrompe em gargalhadas. Era divertido, Shalom Israel. Gostava de fazer amizades e praticar a \u201cbrincadeira\u201d. Os dois se cumprimentam com semiabra\u00e7o meio de lado guarnecido por tapinhas nas costas.<\/p>\n<p>\u201cNunca te vejo por aqui. Voc\u00ea se mudou pra c\u00e1?\u201d, o cara pergunta.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, \u00e9 que aqui o pre\u00e7o t\u00e1 melhor.\u201d<\/p>\n<p>Shalom alcan\u00e7a ao cara o outro carrinho, que havia se soltado tamb\u00e9m de um terceiro devido \u00e0 viol\u00eancia de seu pux\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cKrav Mag\u00e1 te bombando muito, ent\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEra pra come\u00e7ar ontem, mas nem fui.\u201d<\/p>\n<p>Quase todos os supermercados em quase todos os pa\u00edses, apesar de variarem bastante na quest\u00e3o dos produtos, n\u00e3o variam tanto assim no tocante \u00e0 estrutura. Um supermercado \u00e9 um supermercado. Prateleiras mais ou menos na mesma altura, balc\u00f5es refrigerados, corredores de piso frio, ilumina\u00e7\u00e3o artificial, uma fileira de caixas, funcion\u00e1rios uniformizados e de crach\u00e1, m\u00fasica ambiente. O supermercado do Bairro Bo\u00eamio e Hipster, por ser extremamente Bo\u00eamio e Hipster, era um pouco diferente. Tinha sele\u00e7\u00e3o grotesca de cervejas artesanais e guloseimas importadas, reaproveitava 95% da \u00e1gua da chuva e usava o m\u00e1ximo de luz solar poss\u00edvel durante o dia gra\u00e7as a uma impressionante cobertura transparente. Apenas por este motivo, ali\u00e1s, \u00e9 que n\u00e3o estava virado numa caverna sombria e sorumb\u00e1tica nesta tarde de ver\u00e3o em que falta luz de forma extrema em todo o hemisf\u00e9rio sul.<\/p>\n<p>Menos na parte l\u00e1 dos caixas.<\/p>\n<p>L\u00e1 a cobertura n\u00e3o era transparente, l\u00e1 tava meio escuro.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>\u201c\u00d4, Shalom.\u201d<\/p>\n<p>\u201cFala.\u201d<\/p>\n<p>\u201cC\u00ea viu aquela mulher empurrando uma velhota numa cadeira de rodas?\u201d<\/p>\n<p>\u201cNem vi, mas que que tem?\u201d<\/p>\n<p>\u201cImagina um cara parar exatamente na frente da cadeira de rodas, fazer uma cara de espanto, apontar pra velhota e perguntar pra mulher: &#8216;Caralho, que sensacional! Onde t\u00e3o vendendo isso a\u00ed?&#8217;. Entendeu? O cara confundir a cadeira com um carrinho e pensar que a mina tinha comprado a velha em algum lugar.\u201d<\/p>\n<p>O hebreu d\u00e1 uma risada gostosa.<\/p>\n<p>\u201cParab\u00e9ns por ter pensado nisso.\u201d<\/p>\n<p>Shalom Israel \u00e9 adepto de um m\u00e9todo n\u00e3o muito ortodoxo de fazer compras. Primeiro, ele conduz o carrinho durante algum tempo, estaciona-o em um corredor mais tranquilo e sai a coletar produtos. Quando n\u00e3o consegue carregar mais nada, volta na dire\u00e7\u00e3o do carrinho e derruba tudo l\u00e1 dentro de qualquer jeito, s\u00f3 para sair em nova busca por mais produtos. Quando perguntado por que n\u00e3o levava o carrinho pelos corredores e ia carregando aos poucos, \u00e0 medida que passava nas prateleiras, Shalom Israel disse algo como \u201cnenhum sentido\u201d e saiu corredor afora em busca de mais produtos. Boa experi\u00eancia antropol\u00f3gica ir \u00e0s compras com Shalom Israel, pensou o cara.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>J\u00e1 com os carrinhos cheios, Shalom Israel e o cara esperam ser atendidos na fila do caixa. Pelo crach\u00e1 o cara manja que o nome da gata levemente oriental que opera naquele guich\u00ea \u00e9: Analice. Sem um leitor de c\u00f3digo de barras, Analice est\u00e1 usando um caderno para somar, manualmente, o valor das compras. Analice. Imposs\u00edvel n\u00e3o imaginar pasta de dente no cu depois de ler a combina\u00e7\u00e3o Anal + Ice, obtempera o cara. Ele teria feito o coment\u00e1rio a Shalom Israel, se a caixa gata levemente oriental n\u00e3o estivesse meio de olho nas movimenta\u00e7\u00f5es e papo da dupla. Analice parece especialmente encantada por Shalom Israel, dono de um charme mediterr\u00e2neo meio rude que costuma falar bem a este tipo de mina. Percebendo o interesse da gata, Shalom Israel decide impressionar. Mas escolhe mal demais o tema do seu improviso: o setor de latic\u00ednios. Isso s\u00f3 acontece porque os primeiros itens que ele coloca sobre a esteira s\u00e3o, coincidentemente, peda\u00e7os de tr\u00eas tipos de queijo diferentes (manchego, aziago, emmental) e um pote de sobremesa l\u00e1ctea cremosa sabor: chocolate.<\/p>\n<p>\u201cSabe um tro\u00e7o que daria muito certo? Queijo doce.\u201d<\/p>\n<p>O cara ri.<\/p>\n<p>\u201cTou falando s\u00e9rio. Imagina. Queijo doce. Alta concentra\u00e7\u00e3o de cacau e salpicado de am\u00eandoas. Ou com torr\u00f5es de caf\u00e9. Ou de caramelo. Frutas do bosque. Pra comer de colherinha ou passar no p\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cUi, que nojo, queijo doce\u201d, interfere Analice, lan\u00e7ando um sorriso t\u00edmido na dire\u00e7\u00e3o do hebreu.<\/p>\n<p>Shalom Israel n\u00e3o aprecia a interfer\u00eancia. Nosso Le\u00e3o de Jud\u00e1 era um cara muito bacana e coisa e tal, mas, como todo criativo que se preze, era tamb\u00e9m: a) meio cuz\u00e3o; b) algu\u00e9m com o ego do tamanho de Massada. N\u00e3o gostava nada de ser interrompido. Muito menos contrariado. Especialmente quando estava tentando vender uma ideia que ele mesmo sabia que n\u00e3o era das melhores.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s pigarro cl\u00e1ssico de desprezo, Shalom Israel inclina o corpo na dire\u00e7\u00e3o de Analice. Seus olhos est\u00e3o fixos nos dela, que j\u00e1 espera por algum tipo de retruque. Shalom Israel lambe os l\u00e1bios, abre um sorriso e toma f\u00f4lego, mas em vez de dirigir a palavra a Analice, ele vira a cabe\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o do cara:<\/p>\n<p>\u201cSabe aquele filme, <em>Alien 3<\/em>?\u201d<\/p>\n<p>O cara sabe mais ou menos.<\/p>\n<p>\u201cQual que \u00e9 o tr\u00eas?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAquele que \u00e9 todo numa pris\u00e3o. Saca?\u201d<\/p>\n<p>O cara n\u00e3o saca. Todavia:<\/p>\n<p>\u201cSim, sim, sim.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o. Tem uma galera numa pris\u00e3o, num planeta fodido, deserto, no cu do universo. Sei l\u00e1, umas vinte, trinta cabe\u00e7a. Tudo homem.\u201d<\/p>\n<p>\u201cHm.\u201d<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 pelas tantas pinta uma nave trazendo mantimentos. Acho que algu\u00e9m fala que aquilo s\u00f3 acontece de seis em seis meses, um temp\u00e3o absurdo, assim. E no meio tempo os caras ficam l\u00e1, sozinhos, presos, trabalhando pra manter a pr\u00f3pria pris\u00e3o habit\u00e1vel, num planeta deserto, no cu do universo.\u201d<\/p>\n<p>Um barulho de suc\u00e7\u00e3o invertida (dif\u00edcil descrever) escapa de um lugar (dif\u00edcil precisar). As luzes do teto se acendem em sequ\u00eancia, produzindo um efeito parecido com o de pe\u00e7as de domin\u00f3 caindo. Os motores de refrigera\u00e7\u00e3o come\u00e7am a zunir, os monitores dos caixas se acendem e, em alguns segundos, m\u00fasica ambiente de m\u00e1 qualidade come\u00e7a a tocar em um volume confort\u00e1vel. Clientes e funcion\u00e1rios soltam um breve hurra comemorativo.<\/p>\n<p>Shalom Israel ignora todos esses eventos.<\/p>\n<p>\u201cMesmo assim, mesmo apesar de todo esse lixo, os caras deram um jeito de sobreviver numa boa por d\u00e9cadas. Um monte de criminoso perigoso trancado junto no cu do mundo e mesmo assim eles est\u00e3o numa boa.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE da\u00ed?\u201d<\/p>\n<p>\u201cE da\u00ed que \u00e9 s\u00f3 chegar uma mina que arru\u00edna tudo.\u201d<\/p>\n<p>O cara come\u00e7a a rir.<\/p>\n<p>\u201cEu tou falando. Presta aten\u00e7\u00e3o nesse filme. A mensagem \u00e9 muito clara: mulher sempre estressa o ambiente. A mina chega e todo mundo come\u00e7a a ficar inquieto. Em quest\u00e3o de horas j\u00e1 tem gente se dando facada, se tacando fogo, l\u00e1 pelas tantas pinta um alien assassino pra cagar ainda mais com tudo e termina o filme e morre todo mundo. Menos a mina. Nem mesmo o alien, uma forma de vida superior, programada pra matar, consegue escapar da f\u00faria feminina.\u201d<\/p>\n<p>\u201cBelo discurso,\u201d diz Analice, de maneira debochada. \u201cIgnorante, escroto, machista\u2026 realmente uma beleza.\u201d Fala alto, Analice, pro supermercado inteiro ouvir. \u201cE como se tudo isso n\u00e3o fosse suficiente, voc\u00ea t\u00e1 falando uma tremenda besteira ainda por cima: no Alien 3, mano, a mina tamb\u00e9m morre.\u201d<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Ao chegar em casa carregando cerca de dezoito quilos em compras, o cara comemora o fato de o elevador estar de volta ao servi\u00e7o. O sorvete americano, as cervejas belgas, os sucos org\u00e2nicos, as carnes rastreadas e os queijos artesanais v\u00e3o direto para a geladeira. O resto todo fica nas sacolas, enquanto ele corre para o home-office para ligar seu computador. No quarto, aceso, o visor do celular acusa o recebimento de duas mensagens. Ambas s\u00e3o de Shalom Israel, enviadas nos \u00faltimos dois minutos. Uma delas diz \u201cN\u00e3o se mexer. Nunca.\u201d e a outra, \u201cO ideal seria jamais ter nascido.\u201d O display do r\u00e1dio rel\u00f3gio informa que a luz voltou em seu lar h\u00e1 exatos 37 minutos (00:37).<\/p>\n<p>Um som de tosse faz o cara experimentar leve caga\u00e7o. \u00c9 seu gato Amargo, um bichano marrom extremo de pelo muito curto e brilhoso, que jamais regurgita. Em vez disso, prefere se engasgar com seus pelos e praticar a tosse de c\u00e3o doente afetivo (muito embora tecnicamente seja um gato e n\u00e3o sofra de doen\u00e7a alguma). Apesar de cultivar o animal h\u00e1 coisa de oito anos, o cara ainda n\u00e3o se acostumou com aquilo. Para ele, a primeira tosse do gato sempre soa como se fosse a de um an\u00e3o bem velhinho. De qualquer forma, \u00e0quela altura da tarde, a tosse do felino lhe soou mesmo foi como um lembrete. Havia suculento, excepcional e excelente fumo-de-angola armazenado em um pote de vidro selado a v\u00e1cuo em sua c\u00f4moda. \u201cQue boa oportunidade para consumi-lo!\u201d, vibrou o cara.<\/p>\n<p>Enquanto esmigalha os raminhos da infloresc\u00eancia sobre o papel de seda com uma das m\u00e3os, o cara usa a outra para operar o dispositivo \u201cmouse\u201d e fazer todo tipo de bobagem no computador. Entre outras coisas, por exemplo, ele abre uma playlist de m\u00fasicas ligadas \u00e0 cultura da droga para melhor fruir sua viagem de doid\u00e3o. Tamb\u00e9m consulta os e-mails enviados nas \u00faltimas horas e nota que a oferta de frilas segue firme, mas decide negar todos porque, afinal de contas, nenhum paga mais de cinco mil \u2014 e por menos de cinco mil \u00e9 melhor nem responder. Era parte de sua cartilha pessoal de conduta profissional. Outros e-mails dignos de nota daquela tarde eram todos spam. O melhor tinha como assunto a pergunta \u201cVoc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 na internet?\u201d e nenhum conte\u00fado na caixa de texto. \u201cBom poema metalingu\u00edstico\u201d, pensou. Publicit\u00e1rio. Sabe como \u00e9.<\/p>\n<p>Com o roli\u00e7o cigarro da droga confeccionado, o cara parte em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha na busca de um isqueiro \u2013 e encontra as sacolas de compra reviradas no ch\u00e3o da sala. Amargo havia realizado breve inspe\u00e7\u00e3o nas mercadorias, mas, como n\u00e3o achou nada do seu interesse, deixou os legumes, frutas, p\u00e3es, conservas e molhos intactos. O cara localiza o isqueiro dando sopa em cima da geladeira, acende a catronca e d\u00e1 uma bela tragada. Amargo adentra o recinto fungando. Sempre que o cara se entrega \u00e0 pr\u00e1tica do tabagismo art\u00edstico, o gato aparece para dar um conferes. Ao assoprar fuma\u00e7a em sua dire\u00e7\u00e3o, todavia, o bichano fugir\u00e1 e se enfiar\u00e1, emputecido, debaixo de algum m\u00f3vel. O cara nunca sacou muito bem qual\u00e9 do mitzi. Mas o considera br\u00f3der mesmo assim.<\/p>\n<p>J\u00e1 que veio at\u00e9 a sala, o cara d\u00e1 aquela capotada no pufe e bim: mais um pega na tora. E j\u00e1 que est\u00e1 de frente para o maravilhoso televisor de LED de cinquenta polegadas, por que n\u00e3o colocar um blu-ray do <em>Rambo<\/em> e deixar sem som enquanto o playlist de m\u00fasicas ligadas \u00e0 cultura da droga segue bombando? O cara agora suga forte o cilindr\u00e3o herb\u00e1ceo, que chega a dar um estalo quando a brasa tosta uma lasca de semente desavisada no caminho. \u00c9 a\u00ed que ele se d\u00e1 conta que a cinza est\u00e1 muito brutal e que o cinzeiro ficou no home-office. Na levantada do pufe o cara se desequilibra, mongoleia e deixa cair o bicho inteiro no ch\u00e3o, n\u00e3o sem antes virar uma pirueta e atingir com a brasa o seu peito, queimando um buraco fedorento em sua camisa. &#8220;Putalamerda&#8221;, ele esbraveja.<\/p>\n<p>E logo depois solta uma gaitada.<\/p>\n<p>&#8220;Aziras&#8221;, diz o cara. &#8220;Aziras.&#8221;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>A chaura marota agora repousa tranquila no cinzeiro. As compras est\u00e3o no arm\u00e1rio. Acomodado em cima do pufe, Amargo aprecia o filme sozinho na sala. E o cara l\u00e1, no home-office, lambendo a resina dos l\u00e1bios e das pontas do bigode e perdendo tempo na internet. Embebido na droga do maluc\u00e3o, ele est\u00e1 lendo tudo meio errado. Um amigo do col\u00e9gio com o qual n\u00e3o tem contato h\u00e1 anos lhe envia um site sobre \u201ccomo recorrer de multas\u201d e ele aplica um Sargentelli, entendendo \u201ccomo correr de mulatas\u201d. Um banner no canto de uma p\u00e1gina pisca a mensagem \u201cSeu CV \u00e9 importante para empresas\u201d e ele confunde V com U e fica confortavelmente satisfeito com a honestidade e senso de humor do anunciante. Parece-lhe extremamente inteligente pensar, ainda, que em tempos de inclus\u00e3o digital, a express\u00e3o \u201cbaixar um santo\u201d come\u00e7a a ganhar novos e interessantes contornos.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio no cantinho inferior direito da tela indica que s\u00e3o 17h08. Isso o faz pensar que, muito embora existam milh\u00f5es de vantagens em se trabalhar em casa, h\u00e1 um prazer que ele jamais sentir\u00e1 novamente: o de sair do trabalho \u00e0s 17h, pegar o tr\u00e2nsito mais livre no caminho de volta, tomar um banho quente, ligar a tev\u00ea, assistir os minutos finais de um programa que n\u00e3o v\u00ea h\u00e1 meses (talvez anos) e depois de tudo isso olhar para o rel\u00f3gio s\u00f3 pra pensar &#8220;rapaz, num dia normal a essa hora eu ainda estaria preso num engarrafamento&#8221;.<\/p>\n<p>Triste mesmo n\u00e3o mais sentir esse prazer.<\/p>\n<p>Todavia, h\u00e1 muitos outros dos quais o cara pode usufruir.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 a masturbada do frila. Gra\u00e7as a algu\u00e9m, hoje em dia \u00e9 muito mais f\u00e1cil encontrar apoio visual para bater a masturbada do que j\u00e1 foi h\u00e1 dez, vinte e principalmente trinta anos. Por culpa da internet, a pornografia nunca foi t\u00e3o abundante e acess\u00edvel quanto agora, o que nos leva a questionamentos do tipo: \u201cpra quem ser\u00e1 que ainda produzem o g\u00eanero <em>softcore<\/em>?\u201d S\u00e3o 17h11, e o cara saca que ainda h\u00e1 tempo mais que suficiente para abrir oito v\u00eddeos de 6 minutos em oito janelas diferentes e deixar todos carregando enquanto d\u00e1 uma \u00faltima olhada em seus e-mails. O \u201cmosaico\u201d costuma ser uma boa t\u00e9cnica, especialmente nos hor\u00e1rios de pico, quando a velocidade das conex\u00f5es geralmente decai, e os v\u00eddeos demoram mais tempo para carregar. Apesar de sugerir variedade, o \u201cmosaico\u201d quase sempre \u00e9 um espet\u00e1culo monotem\u00e1tico. No caso espec\u00edfico do cara, uma ruiva bunduda, de nariz comprido, peitos pequenos e l\u00e1bios bem finos \u00e9 o ponto em comum entre todos os v\u00eddeos.<\/p>\n<p>O cara atualiza sua caixa de entrada: nada. Sem novidades, ele corre os olhos pela tela at\u00e9 encontrar a \u00faltima mensagem que marcou para ler mais tarde. \u00c9 do trabalho. De Administrador Pedro. Aquele e-mail gigante e rocambolesco, com aquele puta espa\u00e7o em branco de suspense, falando sobre uma festa de fim de ano. Como j\u00e1 conhecia seu conte\u00fado, ele pratica a leitura diagonal. Primeiro, procura pelo endere\u00e7o, dia e hor\u00e1rio. Envolve aeroporto. Em seguida, d\u00e1 uma lida bem chutada no texto do chefe. Alguma coisa sobre andar de barco em \u201c\u00e1guas internacionais\u201d. Sobre \u201cromper barreiras\u201d, \u201cdesafiar limites\u201d, \u201cviver o sonho\u201d. &#8220;Pff&#8221;, desdenha o cara, fechando a mensagem e levantando decidido em dire\u00e7\u00e3o ao banheiro, onde separa meio metro de papel higi\u00eanico para conter a espermatorreia e enche a boca com enxaguat\u00f3rio extremo.<\/p>\n<p>No meio do bochecho ele ouve um plim e volta correndo pra conferir. Opa: e-mail de Terrivelmente Gostosa. Sucinto e direto. Meloso e simpl\u00f3rio. &#8220;Opa&#8221;, pensa o cara. E d\u00e1 um conferes na barra do tempo dos v\u00eddeos pra ver em que p\u00e9 andam. Nisso, novo plim (e o bochecho comendo solto). Um novo e-mail. Agora, de Prognata Mau-Car\u00e1ter. Grandiloquente e po\u00e9tico. Intenso e profundo. &#8220;Rapaz&#8221;, pensa o cara. E sente o pinto lhe apertar a cueca. &#8220;Hora da punha!&#8221;, ele pensa. E vai correndo soltar na pia o cuspe grosso e mentolado da covardia.<\/p>\n<p>O cara puxa a cueca pra baixo com um ded\u00e3o, d\u00e1 um play no primeiro v\u00eddeo do \u201cmosaico\u201d e logo em seguida j\u00e1 cal\u00e7a o pinto com a outra m\u00e3o. Recostado sobre uma toalhinha para n\u00e3o avacalhar o couro italiano da sua cadeira ergon\u00f4mica com suor de cu, ele logo se d\u00e1 conta de que fez uma m\u00e1 escolha. O primeiro v\u00eddeo possui \u201cenredo\u201d, e ainda vai demorar alguns segundos (minutos, talvez) at\u00e9 que alguma coisa aconte\u00e7a. Nesse intervalo sua mente voa \u2014 e trope\u00e7a numa lembran\u00e7a meio bizarra da festa na casa de Oriental Milton. Um clima meio pegado com Prognata Mau-Car\u00e1ter. A pupila pretona dan\u00e7ando fren\u00e9tica na cara da mina, tremelicando como uma pipa descontrolada ao sabor do vento. Ela dizendo alguma coisa sobre ter um filho com ele. A pilha das lembran\u00e7as vai na linha do \u201cme come agora, me faz um filho, \u00e9 s\u00f3 o que eu quero\u201d, o que deixa o membro do cara virilz\u00e3o. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m lhe ocorre que isso n\u00e3o pode ter acontecido dessa forma. Ainda que a lembran\u00e7a da face da Prognata transtornada pelo desejo lhe pare\u00e7a bem viva, ela seria bastante improv\u00e1vel, uma vez que eles s\u00f3 pararam pra conversar poucos segundos antes de faltar luz. \u201cSer\u00e1 que todo esse papo foi s\u00f3 um sonho?\u201d, o cara reflete.<\/p>\n<p>Nisso, ouve-se claramente o barulho caracter\u00edstico da fechadura da porta de um apartamento sendo aberta.<\/p>\n<p>Rapidamente, o cara guarda o pinto na cueca, fecha as oito janelas do \u201cmosaico\u201d e se levanta de forma abrupta da cadeira. Assim que fica de p\u00e9, ele diminui o ritmo da a\u00e7\u00e3o pela metade. Segurando a onda, ele guarda o cinzeiro contendo a ponta resinada numa gaveta, sai do home-office devagar e atravessa o corredor lentamente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sala, de maneira a fazer o encontro parecer casual. Uma ruiva bunduda, de nariz comprido, peitos pequenos e l\u00e1bios bem finos o cumprimenta com um beijo morno e estala os saltos caminhando pela sala. Antes de largar a bolsa no sof\u00e1 e afagar o cocoruto de Amargo, esta ruiva bunduda tecer\u00e1 um breve elogio ao h\u00e1lito do cara e perguntar\u00e1 \u201ce a\u00ed, o que voc\u00ea fez hoje?\u201d.<\/p>\n<p>O cara tinha esquecido completamente: hoje sa\u00eda mais cedo do trampo a namorada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1, amigos. Long time no see. Volto a este espa\u00e7o com uma motiva\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica: compartilhar com o mundo um cap\u00edtulo do meu romance humor\u00edstico proibid\u00e3o, O Sensual Adulto, que sofre uma campanha de financiamento coletivo no Catarse neste exato momento. 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